Os desmandos-Polémica

As Coisas que nos indignam, não podemos calar…

O CHEFE – (O livro)

I

‘O governo Lula é o mais

corrupto de nossa história’

Qual a justificativa para o presidente da República nomear como ministro e integrante

de seu primeiro escalão de auxiliares o homem que publicara, num dos jornais mais importantes

do País, que ele, o presidente, era o chefe do governo “mais corrupto de nossa

história”?

Pois Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula, nomeou o filósofo Roberto Mangabeira Unger no

primeiro semestre de seu segundo mandato, em 2007, ministro da Secretaria de Planejamento

de Longo Prazo, especialmente constituída para abrigá-lo. E não adiantou nem o

PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) inviabilizá-la tempos depois, durante

uma rebelião para obter mais cargos no governo e proteção para o senador Renan

Calheiros (PMDB-AL), o então presidente do Senado, acusado de corrupção. Apesar de o

PMDB derrotar a Medida Provisória que criara o posto para Roberto Mangabeira Unger,

Lula deu um jeito na situação, nomeando-o novamente, desta vez como ministro extraordinário

de Assuntos Estratégicos. A posição do detrator estava garantida.

“Pôr fim ao governo Lula” é o título do artigo de Roberto Mangabeira Unger publicado

na Folha de S.Paulo em 15 de novembro de 2005, no sugestivo dia da Proclamação da

República. O ano de 2005 havia sido marcado pela eclosão do escândalo do mensalão. Este

é o parágrafo de abertura do artigo:

“Afirmo que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional. Corrupção

tanto mais nefasta por servir à compra de congressistas, à politização da Polícia Federal e

das agências reguladoras, ao achincalhamento dos partidos políticos e à tentativa de dobrar

qualquer instituição do Estado capaz de se contrapor a seus desmandos.”

O que poderia ter levado o presidente da República a nomear como ministro o autor

dessas acusações? E Roberto Mangabeira Unger não estava brincado, a julgar pela defesa

que fez do impeachment de Lula. Ao denunciar “a gravidade dos crimes de responsabilidade”

supostamente cometidos pelo presidente, o então futuro ministro afirmou em seu artigo

que Lula “comandou, com um olho fechado e outro aberto, um aparato político que trocou

dinheiro por poder e poder por dinheiro e que depois tentou comprar, com a liberação de

recursos orçamentários, apoio para interromper a investigação de seus abusos”.

Alguém poderia argumentar que a nomeação de Roberto Mangabeira Unger seria um

mal necessário. Coisa da política. E tentar explicá-la pela importância do filósofo, um professor

da prestigiada Universidade de Harvard, das mais importantes dos Estados Unidos,

por quase 40 anos. O Brasil, portanto, não poderia prescindir da experiência e do prestígio

de Roberto Mangabeira Unger, que teria muito a contribuir com o País.

Será mesmo? A cerimônia de posse do filósofo não demonstrou isso. Poucos ministros,

cadeiras vazias, menos de uma hora de solenidade. E mesmo antes da criticada viagem de

Roberto Mangabeira Unger à Amazônia, em 2008, na qual defendeu o desvio de águas da

região para abastecer o Nordeste, sem considerar que centenas de milhares de amazonenses

ainda não dispunham de água encanada, o ministro já era considerado, em âmbito do governo,

“café-com-leite”. Ou seja, não lhe era atribuída importância, nem de seu trabalho haveria

algo para se aproveitar.

Outro trecho do artigo de Roberto Mangabeira Unger: “Afirmo ser obrigação do Congresso

Nacional declarar prontamente o impedimento do presidente. As provas acumuladas

de seu envolvimento em crimes de responsabilidade podem ainda não bastar para assegurar

sua condenação em juízo. Já são, porém, mais do que suficientes para atender ao critério

constitucional do impedimento. Desde o primeiro dia de seu mandato o presidente desrespeitou

as instituições republicanas. Imiscuiu-se e deixou que seus mais próximos se imiscuíssem,

em disputas e negócios privados”.

Talvez, então, a razão para a nomeação de Roberto Mangabeira Unger tenha sido de

ordem político-partidária. Ou seja, o filósofo traria para o governo a base social representada

por seu partido, ampliando o número de legendas que davam sustentação à administração

Lula no Congresso. Como vimos, no entanto, Roberto Mangabeira Unger passou a

maior parte da vida nos Estados Unidos, o que o forte sotaque não deixava desmentir. Não

possuía qualquer base social, nem traria consigo qualquer força orgânica da sociedade.

Quanto a seu partido, o minúsculo PRB (Partido Republicano Brasileiro) tinha menos

de 8 mil filiados quando Roberto Mangabeira Unger se tornou ministro e era um dos

menores partidos políticos do País. Não agregava praticamente nada à base aliada de

Lula. Por apoio político-partidário não faria sentido nomear Roberto Mangabeira Unger.

Afinal, o PRB, ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, possuía apenas três deputados

federais, um senador e o vice-presidente da República, José Alencar (MG), que saíra do

PL (Partido Liberal) em decorrência do escândalo do mensalão e foi o grande incentivador

da nomeação do filósofo.

Em outro trecho do famoso artigo, Roberto Mangabeira Unger afirmou que “Lula fraudou

a vontade dos brasileiros”, ameaçava a democracia “com o veneno do cinismo” e tinha

um projeto de governo que “impôs mediocridade”. E mais: “Afirmo que o presidente, avesso

ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga

dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o

cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou”.

Para fazer a vontade de seu vice José Alencar, um homem leal e doente, Lula só precisaria

ter dito que gostaria muito de nomear alguém indicado por ele, mas não poderia ser o

homem que o acusara de chefiar o governo mais corrupto da história. Poderia ser qualquer

um, menos aquele que conclamara o Congresso a derrubá-lo da Presidência da República,

por corrupção. Por que Lula nomeou Roberto Mangabeira Unger, autor de acusação tão

séria? Nas páginas deste livro, o leitor será convidado a encontrar a resposta.

II

Montanhas de dinheiro: em pacotes,

malas, carros-fortes e até em cuecas

Da mesma forma que não se pode deixar de reconhecer os avanços das políticas sociais

responsáveis por tirar milhões de brasileiros da pobreza nos dois governos do presidente

Lula, não há como minimizar o expressivo crescimento econômico e o incremento da inserção

do Brasil no cenário mundial, também registrados no período.

A era Lula significou, contudo, a continuidade do jeito criminoso de se fazer política no

Brasil. Com a ressalva das honrosas exceções, o grande objetivo das ações dos representantes

do povo manteve-se o mesmo: usar cargos públicos para participar de esquemas cuja

finalidade primordial era desviar o dinheiro dos contribuintes. Obter comissões e caixinhas.

Propinas. Para boa parte dos políticos brasileiros, independentemente da coloração partidária,

a atividade política ainda é o caminho fácil do enriquecimento.

A notícia em destaque nas primeiras páginas dos jornais, no auge do escândalo do

mensalão, chocou o País: uma bolada de R$ 200 mil, acondicionada numa maleta, e outros

US$ 100 mil escondidos na cueca, tudo transportado pelo assessor de um deputado do PT

(Partido dos Trabalhadores, a legenda fundada pelo presidente Lula), preso no aeroporto de

Congonhas, em São Paulo.

José Adalberto Vieira da Silva trabalhava para o deputado José Nobre Guimarães (PTCE),

irmão do então presidente nacional do PT, José Genoino (SP). Rápido, José Adalberto

apagou a memória do celular. Disse ser agricultor. O dinheiro em seu poder, procurou justificar,

era resultado do comércio de verduras. Logo foi desmascarado. Confessou quem era.

Detido pela polícia, usou o paletó para cobrir o rosto e se esconder dos fotógrafos.

Outra imagem que marcou os anos Lula é a da montanha de dinheiro apreendida pela

Polícia Federal no hotel Ibis Congonhas, em São Paulo, pouco antes das eleições nas quais

Lula conquistaria seu segundo mandato, em 2006. O R$ 1,7 milhão em cédulas de reais e

dólares seriam usados pelo PT para comprar um dossiê contra políticos da oposição.

A Polícia Federal acusou Hamilton Lacerda, coordenador da campanha do senador Aloizio

Mercadante (PT-SP), candidato petista a governador de São Paulo naquele ano, de ter levado

o dinheiro da corrupção ao hotel. Ele foi filmado por câmeras de segurança no saguão do

Ibis Congonhas, um dia antes da ação policial. Portava uma mala e se mostrava tenso.

Nas mãos cerradas de Hamilton Lacerda, a mala preta de viagem com a alça em volta do

ombro, uma garantia a mais de que ninguém roubaria a preciosa carga no lobby do hotel. Ele

pegou o elevador e entrou num quarto. Saiu sem a mala. Na madrugada seguinte, voltou ao

Ibis. Desta vez com uma maleta e uma sacola plástica. Tudo filmado. Foi embora depois,

sem a sacola. A explicação da Polícia Federal: o R$ 1,7 milhão não coube na mala que

Hamilton Lacerda trouxera na véspera, e ele retornou com mais dinheiro.

Quando o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) denunciou o escândalo do mensalão,

apresentou ao País o empresário Marcos Valério, dono de agências de publicidade. Roberto

Jefferson era presidente nacional do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), partido da base

aliada de Lula. Confessou que Marcos Valério entregou-lhe R$ 4 milhões em 2004. Roberto

Jefferson descreveu Marcos Valério e como recebeu a propina:

- É carequinha, falante e fala em dinheiro como se fosse assim uma coisa que caísse do

céu. Primeiro foram R$ 2,2 milhões. Em duas malas enormes, notas de R$ 50 e R$ 100,

etiquetadas por Banco Rural e Banco do Brasil. E três dias depois, (…) ele volta com R$ 1,8

milhão. Notas de R$ 50 e R$ 100, Banco Rural e Banco do Brasil e a promessa de outras

quatro parcelas iguais.

Roberto Jefferson citou Emerson Palmieri, apresentado como tesoureiro informal do PTB:

- Eu pedi ao Emerson Palmieri que guardasse o dinheiro no cofre de um armário

de aço, grande.

Emerson Palmieri confirmou os dois pagamentos. E acrescentou que as duas malas com

a bolada eram “de rodinhas”. E a maioria das notas de R$ 50, sendo “poucas notas de R$

100”. O tesoureiro deu mais detalhes: foi encarregado por Roberto Jefferson de dividir o

dinheiro no que chamou de “bolos” de R$ 150 mil e R$ 200 mil:

- Não coube tudo no cofre do partido, passei uma parte para um armário do lado. Entreguei

a chave ao deputado Roberto Jefferson e ele me pediu sigilo.

Outra testemunha importante do escândalo do mensalão, a secretária de Marcos Valério.

Fernanda Karina Ramos Somaggio relatou que Marcos Valério mantinha frequentes contatos

com Delúbio Soares, tesoureiro do PT, e fazia reuniões “com o pessoal do PT”:

- Quando ele saía para as reuniões, antes de sair, passava no andar de baixo, no Departamento

Financeiro, e saía com uma mala.

Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, Fernanda Karina Ramos

Somaggio deu pormenores. Mencionou Geysa Dias dos Santos e Simone Vasconcelos,

funcionárias de confiança da agência de publicidade SMPB, de Marcos Valério:

- Quando o senhor Marcos ia a Brasília, sempre no dia ou no dia anterior eram sacadas

grandes quantias de dinheiro, pela Geysa ou pelos boys. Os boys falavam que tinha saque de

R$ 1 milhão. O dinheiro era levado para o Departamento Financeiro da agência, onde a

Simone e a Geysa dividiam os maços e colocavam nas malas.

Outro trecho do depoimento de Fernanda Karina:

- O senhor Marcos passava na empresa e pegava as malas para levar no avião fretado.

Algumas vezes, a Simone dizia que ficava em um hotel em Brasília, dentro de um quarto, o

dia todo, contando dinheiro. E era um entra e sai de homem que ela ficava muito cansada.

Ela só contava dinheiro e passava para essas pessoas.

À CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que investigou corrupção nos Correios,

Fernanda Karina falou da logística dos saques de dinheiro vivo no Banco Rural:

- A Simone ligava, avisando que os boys iam passar no banco e a agência abria mais

cedo. Eram dois ou três boys que se dirigiam ao banco para dar garantia, em caso de assalto.

Acontecia pelo menos uma vez por semana. O dinheiro era acomodado em valises tipo 007,

que ficavam no Departamento de Finanças da agência.

Fernanda Karina envolveu outras pessoas, como o líder do PMDB, deputado José Borba

(PR), que renunciaria ao mandato durante as investigações do escândalo do mensalão, e

Silvio Pereira, o secretário-geral do PT, surpreendido com um jipe importado em seu nome,

mimo de uma empresa contratada pela Petrobras:

- Uma vez, eu me lembro que o senhor Marcos saiu com uma mala e foi para Brasília no

avião do Banco Rural. E eu sabia que nessa mala tinha dinheiro. Ele pediu para eu ligar para

o José Borba e depois para Delúbio ou Silvio Pereira, para dizer que estava indo para Brasília

encontrar José Borba.

Ministro dos Transportes de Lula, Anderson Adauto (PL-MG) também foi acusado por

Fernanda Karina:

- O irmão dele foi lá na agência, pegou uma mala de dinheiro e foi embora.

Outro caso rumoroso ocorreria no gabinete do ministro Anderson Adauto, no segundo

semestre de 2003. Da reunião teriam participado, além de Anderson Adauto, Roberto

Jefferson, outros dois deputados e Delúbio Soares, que supostamente levou uma mala de

dinheiro para dividir entre os presentes.

Foi rico o depoimento de José Francisco de Almeida Rego à Polícia Federal. Ele era

tesoureiro do Banco Rural e contou como a SMPB de Marcos Valério remetia dinheiro de

Minas Gerais a Brasília. Os saques tornaram-se usuais desde o início de 2003, no primeiro

ano do governo Lula. As retiradas chegavam à casa dos R$ 200 mil por operação. Um fax

mencionava os valores e os nomes dos sacadores.

O tesoureiro José Francisco de Almeida Rego cuidava da liberação do dinheiro junto ao

Banco Central. Para evitar que os saques ficassem volumosos, trabalhava com notas de R$

50 e R$ 100. Era tudo levado a uma determinada sala do Banco Rural em Brasília. As

cédulas eram colocadas em bolsas trazidas pelos próprios sacadores. Gente apressada que ia

embora, em geral, sem conferir os valores.

Simone Vasconcelos também cuidava de fazer retiradas na agência do Banco Rural do

Brasília Shopping. Mas nem sempre levava o dinheiro com ela. Assinava recibos e listava os

nomes daqueles que passariam depois para receber. Desta forma, os nomes dos beneficiários

não ficavam registrados como sacadores. As pessoas simplesmente não eram identificadas.

As investigações do escândalo do mensalão demonstraram que Marcos Valério operou a

distribuição de dinheiro a deputados que apoiavam o governo Lula. Simone Vasconcelos

fazia o trabalho de coordenar a entrega das somas. Foram atribuídos a ela saques de R$ 6,1

milhões. Cenas de cinema em outubro de 2003. Simone Vasconcelos fez duas retiradas,

uma de R$ 800 mil e outra de R$ 650 mil. A bolada chegou de carro-forte ao escritório da

SMPB em Brasília.

Em depoimento à CPI dos Correios, Simone Vasconcelos disse que se sentia “constrangida

e preocupada de estar sendo identificada por desconhecidos”, e também por estar “entregando

altas somas de dinheiro para estes, sem ao menos saber quem eram”.

Uma vez, Marcos Valério quis saber a cor da blusa de Simone, “para que fosse identificada

pelo estranho que deveria receber o dinheiro”. Ela também levou dinheiro a hotéis de luxo

onde estava Marcos Valério. As entregas chegavam a R$ 300 mil.

Em determinada ocasião, outra cena cinematográfica: Simone Vasconcelos teve de localizar

um táxi estacionado na frente de um certo centro de compras em Brasília e entregar ao

ocupante desconhecido um pacote de dinheiro.

Outro que chamou a atenção no esquema Marcos Valério foi um policial mineiro de

nome David Rodrigues Alves, a quem foram atribuídos saques de até R$ 6,5 milhões. Ele

informou que recebia pagamento variando entre R$ 50 e R$ 100 por vez que ia buscar

dinheiro em agências do Banco Rural em Belo Horizonte. Tinha a incumbência de levar as

somas a Cristiano de Mello Paz, sócio de Marcos Valério na SMPB. Palavras do policial:

- Os pacotes já estavam prontos nas agências, eu apenas assinava o recebimento. Meu

trabalho era retirar o dinheiro e entregar na SMPB.

De acordo com David Rodrigues Alves, ficava tudo separado no banco, em maços lacrados.

O transporte era feito em caixas de sapato, de camisa ou de telefone celular, dependendo

da quantia. Ele confessou que fazia até três viagens por dia. Carregava de R$ 50 mil a R$

150 mil por vez.

Para não vincular Lula ao esquema de corrupção, o poderoso ministro da Casa Civil,

José Dirceu (PT-SP), braço direito do presidente, fez o que pôde para evitar ser relacionado

a Marcos Valério. Se fosse descoberta ligação entre os dois, ficaria difícil dizer que Lula não

tinha nada a ver com o escândalo do mensalão. Afinal, o presidente era o grande beneficiário

do esquema: o suborno de parlamentares garantia maioria no Congresso para o governo

Lula. O esforço de José Dirceu foi em vão.

A ligação José Dirceu/Marcos Valério ficou escancarada na compra de um apartamento

em São Paulo por Maria Ângela Saragoça, ex-mulher de José Dirceu. Depois de ser contratada

pelo BMG, banco também próximo de Marcos Valério e envolvido no esquema, Maria

Ângela Saragoça recebeu empréstimo do Banco Rural. Ela também queria um apartamento

novo. Vendeu o velho a Rogério Tolentino, sócio de Marcos Valério. Na hora de comprar o

novo, levou dinheiro vivo, dentro de uma sacola.

Um caso terrível foi o assassinato do prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel (PT).

Aqui, José Dirceu também acabou envolvido. Ele foi acusado pelo promotor Amaro Thomé,

responsável pela investigação da morte de Celso Daniel:

- Parte dos recursos arrecadados em Santo André era utilizada em campanhas eleitorais

do PT, levado em malas de dinheiro para o escritório de Dirceu.

Bruno Daniel, irmão do prefeito morto, afirmou ter ouvido do chefe de gabinete do presidente

Lula, Gilberto Carvalho (PT-SP), detalhes do caminho da propina em Santo André.

Antes de ser guindado para o governo Lula, Gilberto Carvalho era secretário do prefeito Celso

Daniel. Do depoimento de Bruno Daniel à CPI dos Bingos, referindo-se a Gilberto Carvalho:

- Ele foi claro: disse que os recursos arrecadados eram enviados ao PT para serem usados

no financiamento de campanhas. Era ele quem entregava o dinheiro a José Dirceu. Ele disse

que havia momentos de tensão porque carregava o dinheiro, sem segurança, em seu Corsa

preto e, em uma só ocasião, entregou R$ 1,2 milhão ao deputado Dirceu.

Em sessão sigilosa da CPI dos Bingos, uma ex-empregada de Celso Daniel disse ter

encontrado três sacolas com dinheiro no apartamento do então prefeito. Antes de ser

morto, no início de 2002, Celso Daniel era coordenador da campanha de Lula a presidente

da República.

José Dirceu também foi envolvido com a distribuição de dinheiro na campanha eleitoral

para prefeito de Londrina (PR), em 2004. Na época ele ainda era o superministro do presi13

dente Lula. Quem o denunciou foi Soraya Garcia, assessora financeira do prefeito Nedson

Micheletti (PT), candidato à reeleição. Segundo ela, José Dirceu circulou na cidade num

automóvel blindado da marca BMW:

- O ministro José Dirceu veio a Londrina em 18 de setembro. Era um sábado e durante a

semana todo o mundo no comitê financeiro reclamava de dificuldades para pagar contas de

campanha. Na segunda-feira o comitê tinha R$ 300 mil em caixa. Todo esse dinheiro era em

notas de R$ 100 e com lacre do Banco do Brasil.

Soraya Garcia prestou depoimento à Polícia Federal. Oficialmente, a campanha eleitoral

do PT em Londrina saiu por R$ 1,3 milhão. Já de acordo com ela, custou R$ 7,8 milhões. O

dinheiro aparecia dentro de sacos plásticos de lixo e em sacolas de lojas.

Outro caso ocorrido na campanha de reeleição de Nedson Micheletti em Londrina. Foi

narrado pelo motorista Rogério Bicheri. Ele trabalhava para o PT e recebeu ordens de pegar

dinheiro vivo no apartamento de Zeno Minuzo, um assessor de Paulo Bernardo (PT-PR),

nomeado por Lula ministro do Planejamento. Do motorista:

- Fui duas vezes lá, em setembro e em outubro de 2004, dirigindo o carro de Fábio Reali,

assessor do prefeito. Estacionei e o Fábio voltou com 20 envelopes, todos com nomes de

coordenadores e vereadores em campanha. Era coisa de uns R$ 50 mil. Ele botou dois

envelopes no porta luvas, e o resto debaixo do banco. Ele disse que dessa forma, se fôssemos

roubados, levariam menos dinheiro.

Diversos casos vincularam malas recheadas de dinheiro ao PT nos anos Lula. No final

de 2007, veio à tona a história de uma mala abarrotada com R$ 500 mil, entregue ao partido

do presidente da República por duas empresas supostamente laranjas que teriam agido a

serviço da empresa multinacional norte-americana Cisco, interessada em vender produtos

de informática para a Caixa Econômica Federal.

Um caso que deu o que falar envolveu a multinacional norte-americana Gtech, da área

de sistemas de informação, e a mesma Caixa Econômica Federal. Vale a pena registrar a

acareação promovida pela CPI dos Bingos entre Rogério Buratti, ligado ao esquema do

então ministro da Fazenda, Antonio Palocci (PT-SP), a quem a Caixa estava subordinada, e

Marcelo Rovai, diretor da empresa multinacional.

A discussão entre os dois era sobre a propina que Rogério Buratti disse ter sido oferecida

pela Gtech para renegociar um contrato com a Caixa. A multinacional estaria disposta a

desembolsar entre R$ 500 mil e R$ 16 milhões, dependendo do que ficasse acertado, sendo

que no final do negócio a empresa teria consumado um pagamento de R$ 5 milhões a uma

intermediária da corrupção, uma empresa de nome MM Consultoria. A reação de Marcelo

Rovai ao dirigir-se a Rogério Buratti, que se tornara dono de empresas de ônibus:

- O senhor recusou R$ 16 milhões. O senhor, com a sua biografia, recusou? Quantos

ônibus dava para comprar com esse dinheiro?

Agora o depoimento à CPI dos Bingos de Walter dos Santos Neto, da tal MM Consultoria.

Ele estava protegido por habeas-corpus para não ser preso. Tentou dar origem lícita para os

R$ 5 milhões e, para justificar o destino do dinheiro e negar ter sido um intermediário da

propina, disse sofrer do distúrbio “compulsão ou disfunção do gasto”. Declarou assim:

- Posso dizer que a motivação que sempre tive em relação ao dinheiro vem de uma

deformação de minha personalidade, a necessidade de ver o dinheiro, de se sentir com

o poder.

Assim, Walter dos Santos Neto alegou ter sacado R$ 650 mil transferidos pela Gtech,

por exemplo, e mandado entregar o dinheiro em sua casa em carro-forte, a fim de gastá-lo:

- Minhas despesas são chocantes, gasto com frivolidades. Sou uma pessoa doente e

comecei a fazer tratamento psiquiátrico.

Depois que José Dirceu foi cassado por corrupção, Antonio Palocci virou o superministro

de Lula. Mas por pouco tempo. Caiu sob a acusação de ter determinado a violação do sigilo

bancário de um homem simples, o caseiro Francenildo Santos Costa, encarregado de cuidar

de uma mansão em Brasília que ficou conhecida como a “casa dos prazeres”. Lá, a turma de

Antonio Palocci se divertia com garotas de programa.

A agenciadora das prostitutas era Jeany Mary Corner. Ela contou que Rogério Buratti,

fiel escudeiro de Antonio Palocci, montou um esquema no qual as “meninas” punham dinheiro

dentro de revistas que eram colocadas em envelopes de papel. E saíam por Brasília

entregando a “correspondência”. Elas teriam pagado mensalões de R$ 50 mil a oito deputados.

Jeany Mary Corner também recebeu R$ 50 mil. Para ficar quieta. Justificou:

- Fiquei no anonimato todo esse tempo. Fui muito digna. Diferentemente de outros que

abriram a boca. Por isso, pedi ajuda. Isso é chantagem?

O caseiro Francenildo Santos Costa viu a dinheirama que rolava na “casa dos prazeres”.

Afirmação dele ao envolver Vladimir Poleto, também ligado a Antonio Palocci:

- Via, via notas, pacotes de R$ 100 e R$ 50 na mala de Vladimir. Ele trazia muito dinheiro.

Vladimir Poleto prestava serviços para Antonio Palocci desde quando o ministro da

Fazenda de Lula era prefeito de Ribeirão Preto (SP). Depois da morte do prefeito Celso

Daniel, o prefeito Antonio Palocci assumiu o papel de coordenador de campanha de Lula.

Alguns meses antes da eleição, Vladimir Poleto foi a Brasília de avião apanhar três

caixas de bebida, todas lacradas com fitas adesivas. Caixas de uísque e de rum cubano.

Dentro, cédulas norte-americanas. O dinheiro, US$ 1,4 milhão ou US$ 3 milhões, dependendo

da versão, teria vindo de Cuba para irrigar a campanha de Lula.

Transportadas para São Paulo, as tais caixas foram parar nas mãos de Ralf Barquete,

outro prócere da “república de Ribeirão Preto”, e levadas num automóvel Omega, blindado,

até o destino final: as mãos do tesoureiro Delúbio Soares.

Delúbio Soares, aliás, tornou-se bode expiatório para as tramóias do PT. Num dos raros

momentos em que se despiu do papel de único responsável por todos os males, o tesoureiro,

amigo histórico de Lula, escreveu uma carta endereçada ao PT, para afirmar que o caixa 2 é

“prática antiga e habitual no partido, pela qual jamais se viu uma punição”. E, com ironia:

“Respeito a ingenuidade. Não sei, no entanto, de onde imaginavam que o dinheiro

viria – se do céu, puxado por renas e conduzido por um senhor vestido de vermelho – e

menos ainda me recordo de que alguma preocupação com a origem desses recursos tenha

me sido transmitida.”

Mais uma montanha de dinheiro, desta vez para pagar parte da encomenda de 2,7 milhões

de camisetas à Coteminas, empresa do vice-presidente da República, José Alencar. O

PT levou em cash R$ 1 milhão. O dinheiro foi entregue por Marice Corrêa de Lima, coorde15

nadora administrativa do partido, ao presidente da Coteminas, Josué Gomes da Silva, filho

de José Alencar. Palavras dele:

- Era dinheiro do PT. Eu não tinha por que pensar diferente.

A essa altura, final de 2005, o PT já tinha afastado Delúbio Soares para tentar se livrar

dos problemas. Reação do novo tesoureiro, Paulo Ferreira:

- Não há nada dessa natureza registrado. Nenhum pagamento de R$ 1 milhão à Coteminas.

O novo tesoureiro não levou em conta que Marice Corrêa Lima, depois de entregar a

pacoteira, assinou recibo. Confrontado novamente, Paulo Ferreira disse que ela “cumpriu

ordens, nem sabia o que estava levando”. Em seguida, corrigiu-se:

- Pode não ter sabido, entendeu?

Para tentar salvar a pátria, Delúbio Soares. Explicou que o R$ 1 milhão, dinheiro de caixa

2, estava no cofre do PT. Não convenceu o relator da CPI dos Correios, deputado Osmar

Serraglio (PMDB-PR):

- Ninguém neste País acredita que ele tenha guardado R$ 1 milhão em espécie durante

quase um ano, enquanto diuturnamente era abordado por credores.

Além de Delúbio Soares, perdeu o emprego o petista Henrique Pizzolato. Era diretor de

marketing do Banco do Brasil. Comprou um apartamento a uma quadra da praia de

Copacabana, no Rio, por R$ 400 mil. Um mês antes, Henrique Pizzolato havia enfiado nos

bolsos R$ 326 mil, em dinheiro vivo, sacado de uma conta bancária da DNA Propaganda,

outra agência de publicidade de Marcos Valério. O pacote com as notas foi retirado em uma

agência do Banco Rural, no centro do Rio.

Amigo de Lula há 30 anos, o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP) também terminou envolvido

com pacotes de dinheiro. Quem o denunciou foi o doleiro Antonio Oliveira

Claramunt, o “Toninho da Barcelona”. O operador de Devanir Ribeiro era o próprio filho do

deputado, Marcos Lustosa Ribeiro, o “Marcão”. Usava o gabinete do pai, na época vereador

em São Paulo. As trocas de dólares por reais eram frequentes. Dependendo da quantia, o

dinheiro era carregado em sacolas, envelopes ou, como disse Marcelo Viana, incumbido de

transportar as cédulas para o gabinete de Devanir, preso às meias ou debaixo da roupa.

Em depoimento conjunto às CPIs dos Correios, do Mensalão e dos Bingos, Toninho da

Barcelona confirmou as operações com Marcão. Durante a sessão, Devanir Ribeiro procurou

intimidá-lo, ameaçando-o com um processo. Em resposta, o doleiro enumerou somas e

datas em que pacotes de dinheiro foram levados ao filho Marcão, em 2002: US$ 30 mil em

10 de julho, US$ 25 mil em 17 de julho, US$ 20 mil em 5 de agosto, US$ 8,5 mil em 9 de

agosto, US$ 10 mil em 10 de agosto e US$ 35 mil em 30 de setembro.

Quem também mexeu com dinheiro vivo foi Zilmar Fernandes Silveira, sócia do publicitário

Duda Mendonça, responsável pela campanha eleitoral que elegeu Lula em 2002.

Duda Mendonça confessou que recebeu R$ 10,5 milhões em uma empresa offshore nas

Bahamas. Mas não foi só. Parte do acerto da campanha ficou para ser recebido, em dinheiro

vivo, na agência do Banco Rural situada na avenida Paulista, em São Paulo. Zilmar Fernandes

Silveira encarregou-se de buscar os pacotes, de R$ 300 mil. Palavras dela:

- Cheguei na tesouraria do Rural e o rapaz me trouxe um pacote de dinheiro. Eu me

assustei, porque pensei que ia receber um cheque administrativo.

A sócia de Duda Mendonça logo se acostumou à rotina. Confessou que voltou nos dias

seguintes para pegar mais duas boladas de R$ 300 mil cada uma, e depois para fazer outras

duas retiradas, de R$ 250 mil cada vez. Total: R$ 1,4 milhão.

Em 16 de julho de 2003, Marcos Trindade e Paulo Antônio Bassoto, militantes do PT do

Rio Grande do Sul, tentaram embarcar com R$ 200 mil em dinheiro vivo no aeroporto de

Congonhas. Marcos Trindade carregava R$ 50 mil. Conseguiu. Paulo Antônio Bassoto,

com R$ 150 mil, foi detido. Para evitar o problema, Marcos Trindade passou a viajar de

ônibus. Fez quatro viagens. Confessou que levou R$ 850 mil em dinheiro vivo do valerioduto,

sempre de Belo Horizonte a Porto Alegre.

Quem também viajou de ônibus transportando dinheiro foi Geraldo Reis, do PT da Bahia.

Foi para Vitória da Conquista (BA) com uma mala carregada com R$ 200 mil. Dois assaltantes

acabaram com a festa. De acordo com o testemunho de passageiros que estavam no

ônibus, os ladrões reagiram surpresos ao abrir a mala. Foram embora satisfeitos. O PT não

registrou queixa na polícia.

Ainda na Bahia, o caso do deputado Josias Gomes (PT-BA), um dos denunciados por

envolvimento no escândalo do mensalão. Acusado de receber R$ 100 mil repassados por

Marcos Valério, negou. Disse que fora ao Banco Rural apenas para obter informações sobre

um empréstimo. Depois, confessou o saque. Esteve pessoalmente na agência e apresentou o

próprio documento antes de fazer a retirada. Agiu como amador. Ao conceder entrevista,

Josias Gomes declarou que o mensalão nunca existiu e foi criado pela imprensa. O discurso

do deputado:

- Refuto as acusações que me são impostas. Não sou corrupto. Jamais o serei.

No Maranhão, o tesoureiro local do PT, Luís Henrique Sousa, se gabou ao dizer numa reunião

do partido que a direção nacional do PT enviara um emissário a São Luís com uma mala

repleta de “verdinhas”. Na verdade não eram dólares, mas R$ 327 mil em reais. O dinheiro de

caixa 2 teria sido mandado por determinação do então presidente do PT, José Genoino (SP).

A história de outra mala de dinheiro foi narrada por Wendel Resende de Oliveira, que

trabalhou como motorista para a deputada Neyde Aparecida (PT-GO). Os R$ 200 mil foram

transportados por ele do Diretório Nacional do PT em São Paulo para Goiânia. Por orientação

da deputada, o motorista viajara a São Paulo de avião, apanhara a mala e seguira de

ônibus até a capital de Goiás. Era mais seguro assim. Entregou a mala ao filho da deputada.

O dinheiro teria sido repassado depois ao irmão de Neyde Aparecida, candidato a prefeito

de Quirinópolis (GO) na época, e a Carlos Soares, irmão de Delúbio Soares.

Quando ainda era o poderoso tesoureiro do PT, Delúbio Soares telefonou ao vice-presidente

do partido em Brasília, Raimundo Ferreira da Silva Júnior, e pediu para ele buscar um

envelope. Raimundo Ferreira sabia que o conteúdo era dinheiro vivo, mas não quanto:

- O Delúbio me ligou de São Paulo e pediu para que eu fosse até a agência do Rural,

onde deveria pegar um dinheiro que ele estava precisando para umas despesas. Ele me

disse que precisava de alguém de confiança para buscar o pacote. Como sou amigo dele,

nada mais natural.

Agora, o PT de Mauá (SP). Altivo Ovando Júnior era secretário de Habitação da Prefeitura

local, comandada pelo PT. O grupo Peralta queria construir um centro de compras.

Precisava da administração municipal que desapropriasse alguns imóveis. Altivo Ovando

Júnior contou como Valdemir Garreta, ligado a Marta Suplicy (PT-SP), nomeada depois

ministra do Turismo de Lula, abordou o empresário Armando Jorge Peralta:

- Se não der dinheiro, não vai ter shopping.

Valdemir Garreta teria exigido R$ 1,8 milhão. O empresário topou dar seis parcelas de

R$ 300 mil cada. Quem confessou ter buscado duas das parcelas em Osasco (SP) foi o

próprio Altivo Ovando Júnior. A primeira veio em cheque. A segunda, em dinheiro vivo,

acabou nas mãos de José Mentor (PT-SP), que foi vereador líder da prefeita Marta Suplicy

na Câmara Municipal de São Paulo, antes de ser eleito deputado federal. Trecho do depoimento

de Altivo Ovando Júnior ao Ministério Público:

“O dinheiro lhe foi entregue em uma caixa de arquivo, destas de papelão, devidamente

lacrada.”

Em 2007, no primeiro ano do segundo mandato de Lula, o Brasil foi atormentado pelas

sucessivas denúncias de corrupção contra o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente

do Senado e protegido de Lula. Uma das acusações contra Renan foi feita pelo advogado

Bruno Miranda Ribeiro Brito Lins, em depoimento à Polícia Civil de Brasília.

Bruno Miranda, afilhado de casamento de Renan Calheiros, denunciou que pelo menos

em seis ocasiões foi encarregado pelo lobista Luiz Garcia Coelho, amigo e sócio de Renan,

de buscar dinheiro, supostamente de propina. Bruno Miranda havia sido casado com a filha

do lobista. O advogado confessou:

- Às vezes, tinha muito dinheiro. Depois parava, vinha pouquinho. Que eu tive acesso, o

maior foi de R$ 3 milhões no BMG. Peguei uma sacola.

Em seu depoimento, Bruno Miranda relatou que em 2005 viajou de carro a Belo Horizonte,

para apanhar um pacote com R$ 300 mil em notas de R$ 100 e R$ 50, que seria

repartido em Brasília. O advogado revelou que a propina facilitou uma negociata no INSS

(Instituto Nacional de Seguro Social), presidido na época pelo deputado Carlos Bezerra

(PMDB-MT), ligado a Renan Calheiros. A história vai ser contada adiante. De qualquer

forma, Bruno Miranda contou que levou R$ 150 mil a Carlos Bezerra no hotel Metropolitan.

O advogado também envolveu na tramoia outro aliado de Renan, o senador Romero

Jucá (PMDB-RR). Ministro da Previdência Social e responsável pelo INSS no primeiro

mandato de Lula, Romero Jucá foi afastado depois da abertura de inquérito para investigar

o envolvimento dele com desvio de empréstimos e com propriedades rurais fantasmas. No

segundo mandato, Lula escolheu Romero Jucá como líder do Governo no Senado.

Um motorista de Romero Jucá, aliás, chegou a admitir ter feito um saque de R$ 50 mil na

agência do Banco Rural do Brasília Shopping:

- Eu só cheguei lá e disse: “Meu nome é Roberto Jefferson Marques”. Aí, o cara falou:

“Ah, tudo bem”. Só isso. E me entregou um envelope amarelo, grampeado em cima. Não

abri, não fiz nada.

Ao denunciar o escândalo do mensalão ao STF (Supremo Tribunal Federal), o procurador-

geral da República, Antonio Fernando Barros e Silva de Souza, afirmou em seu relatório

que o líder do PMDB na Câmara, deputado José Borba (PR), compareceu ao Banco

Rural do Brasília Shopping para sacar R$ 200 mil. Recebeu o dinheiro das mãos de Simone

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Vasconcelos, a prestativa auxiliar de Marcos Valério. Do relatório do procurador-geral, ao

explicar que Borba procurara o tesoureiro do banco, João Francisco de Almeida Rego:

“Todavia, José Borba recusou-se a assinar qualquer documento que comprovasse o recebimento

da importância acima, fazendo com que Simone Vasconcelos se deslocasse até

essa agência, retirasse, mediante a sua própria assinatura, a quantia acima informada, e

efetuasse a entrega desse numerário ao então parlamentar.”

Denunciado por envolvimento no escândalo do mensalão, José Borba renunciou ao mandato.

Ele teria sido encarregado de receber, quase sempre à noite, uma fila de deputados do

PMDB, numa sala da Câmara. Um total de 55 deputados do PMDB, todos da base aliada do

governo Lula, teriam recebido mensalões. As quantias teriam variado de R$ 10 mil a R$

200 mil, dependendo do cacife de cada um. O procurador-geral só acusou o líder Borba.

Um dos operadores do PMDB teria sido o advogado Roberto Bertholdo, assessor de

José Borba e integrante do Conselho de Administração da hidrelétrica de Itaipu, nomeado

no governo Lula. Bertholdo teria viajado em jatinho particular com uma caixa de papelão

abarrotada com R$ 8 milhões em dinheiro vivo. Ficou com medo de transportar a quantia?

- Que perigo, o quê? Eu tô operando para o governo.

Antonio Celso Garcia, o “Tony Garcia”, foi amigo de Bertholdo. Depois, acusou-o:

- O Bertholdo nunca andava com menos de R$ 50 mil, R$ 100 mil em dinheiro. Ele

falava que era para fazer coisas eventuais, atender um ou outro.

Roberto Bertholdo também acusou, mas mirou o líder do PP (Partido Progressista), deputado

José Janene (PR), outro a cumprir importante papel na base aliada do governo Lula,

durante o primeiro mandato da administração do PT. Aqui, Bertholdo também envolveu um

doleiro, Alberto Youssef. Afirmou ter visto o homem levar sacolas de dinheiro ao apartamento

de José Janene em Brasília, para subornar parlamentares que apoiavam Lula:

- Por pelo menos três vezes. Uma vez, ele abriu uma sacola para mostrar algo ao

Janene e vi que eram reais. Em uma outra vez, as sacolas eram tão pesadas que a Cleide,

a cozinheira do Janene, teve que ajudar o Youssef a levar as sacolas para um aposento

interno do apartamento.

De fato, o PP esteve sempre nas fileiras de sustentação do governo Lula no Congresso. E

o presidente da República não poupou esforços na hora de proteger o aliado e presidente da

Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), acusado de cobrar propina de um

fornecedor da Câmara.

Sebastião Buani, dono do restaurante Fiorella, deu dinheiro a Severino Cavalcanti, a fim

de receber autorização para reajustar o valor das refeições e a manter o estabelecimento

aberto. Sebastião Buani confessou:

- O dinheiro foi entregue em envelopes pardos, nós saíamos pelos corredores com o

dinheiro nas mãos, eu e ele andando pelos corredores.

Apesar dos esforços de Lula, o mensalinho de Severino Cavalcanti, no valor de R$ 10

mil, levou o presidente da Câmara a renunciar ao mandato. Severino Cavalcanti ficou com

medo de ser cassado e queria se eleger novamente. Não conseguiu ser deputado em 2006,

mas foi eleito prefeito João Alfredo (PE) em 2008. Segundo Buani, ele só decidiu parar de

subornar o deputado depois de um pedido da filha, Gisele Buani:

- Um dia minha filha me viu contando dinheiro numa quarta-feira para pagar a propina,

e disse: “Pai, sai dessa vida porque a gente não precisa disso. O senhor está deixando de

pagar funcionários que moram longe e ganham pouco para pagar propina”.

João Cláudio Genu, que ocupou o cargo de chefe de gabinete do deputado José Janene

(PP-PR), foi apontado como responsável pela distribuição de envelopes com dinheiro a

deputados do PP. Após aderir ao governo Lula, em 2003, a bancada do PP pulou de pouco

mais de 20 para 56 parlamentares. Mensalinhos e mensalões variavam de R$ 5 mil a R$ 30

mil, conforme o quilate do político. A grana era distribuída na “pensão”, como era conhecido

o apartamento de José Janene, ou na sala da liderança do PP na Câmara.

Em depoimento à Polícia Federal, João Cláudio Genu admitiu que fez vários saques em

dinheiro vivo na agência do Banco Rural do Brasília Shopping. Ele confessou retiradas no

total de R$ 850 mil. Mas negou ter distribuído o dinheiro a deputados. Disse que funcionava

como uma espécie de “mula”, apenas transportando valores. Pegava os envelopes entregues

por Simone Vasconcelos, punha dentro de uma pasta tipo 007, sem conferir, e entregava,

sem mexer, na presidência do PP.

Na denúncia do procurador-geral da República, João Cláudio Genu foi acusado de receber

dinheiro em malas e sacolas e também dentro de um quarto do hotel Grand Bittar ou na

sede da agência de publicidade SMPB, em Brasília. Outro operador da distribuição da propina

dentro do PP teria sido o deputado João Pizzolatti (PP-SC). Ele foi acusado de circular

com dinheiro dentro de malas nos corredores da Câmara, protegido por funcionários da área

de segurança do Congresso. Não foi denunciado.

O PL (Partido Liberal) ocupou papel de destaque na sustentação política do primeiro

mandato de Lula. O presidente do partido, Valdemar Costa Neto (SP), foi acusado pela exmulher,

Maria Christina Mendes Caldeira, de pagar as despesas sempre em dinheiro vivo:

- Teve uma época em que comecei a reclamar muito e ele passou a usar eventualmente

um cartão. Mas ele mantinha um cofrão em nossa casa que parecia um armário. Tenho as

notas fiscais desse cofre. Quando nos separamos, saí denunciando a existência dele. E o

Valdemar mandou uma empresa ir lá retirar o cofre.

Em depoimento à Comissão de Ética da Câmara dos Deputados, Maria Christina Mendes

Caldeira relatou uma conversa entre Valdemar Costa Neto e o deputado Carlos Rodrigues

(PL-RJ), na qual o assunto era o suborno de parlamentares para engordar a bancada do PL:

- Ouvi a conversa e vi o dinheiro, guardado no cofre da nossa casa.

Ela ouviu conversas sobre malas de dinheiro e disse ter visto uma mala repleta de dólares

destinada ao deputado maranhense Remi Trinta. Maria Christina Mendes Caldeira contou

que Valdemar Costa Neto gostava de andar de jatinho e torrar dinheiro em cassinos. Em

uma noite, no Uruguai, perdeu US$ 500 mil. Em outra ocasião, em Las Vegas, nos Estados

Unidos, deixou R$ 300 mil num cassino. Ela revelou também:

- Na volta de uma viagem acabei trazendo, sem saber, uma mala de dinheiro.

Na CPI do Mensalão, Jacinto Lamas, que atuou como tesoureiro do PL, afirmou ter ido

buscar, por orientação de Valdemar Costa Neto, pacotes, envelopes e encomendas, sempre em

dinheiro vivo, na sede da SMPB em Belo Horizonte, e na agência do Banco Rural no Brasília

Shopping. Quando ia pegar o numerário em hotéis, Simone Vasconcelos fazia a entrega:

- Era sempre um acerto entre o Valdemar e o Delúbio.

No segundo mandado de Lula, o PL se transformou em PR (Partido da República).

Valdemar Costa Neto, que havia renunciado ao mandato para evitar possível cassação, disputou

a eleição seguinte e foi novamente eleito deputado federal. Mas ficou de fora da

presidência do novo partido. O PR continuou na base aliada de Lula. Em 2007, Emílio de

Paula Castilho, assessor e sobrinho do deputado Aracely de Paula (PR-MG), foi preso com

quase R$ 80 mil em dinheiro vivo.

A soma estava em uma caixa de papelão dos Correios, embrulhada com papel e lacrada

com fita adesiva, dentro de uma mala de roupas no automóvel de Emílio de Paula Castilho.

Nervoso, ele disse aos policiais que a grana era fruto da venda de um carro usado. Depois

corrigiu para dois veículos. Por fim alegou que eram três automóveis, comprados por um

homem com nome incerto, que teria feito o negócio sem ao menos ver o que estava comprando,

“só na confiança”.

Outro escândalo da era Lula que não pode deixar de ser mencionado é o dos sanguessugas,

escancarado pela Polícia Federal no último ano do primeiro mandato da administração

do PT. O esquema fraudulento envolveu possivelmente dezenas de deputados, prefeituras e

funcionários do Ministério da Saúde. Fornecia ambulâncias a preços sobrevalorizados.

O advogado Eduardo Mahon comentou o depoimento de Maria da Penha Lino, funcionária

do Ministério da Saúde presa durante a operação. Ele citou o trecho em que Maria da

Penha Lino se refere ao motorista Fernando Freitas, encarregado de transportar à garagem

do Congresso os donos da empresa que negociavam as ambulâncias:

- Na garagem, pegavam as malas e colocavam o dinheiro no paletó, nas meias e nas

cuecas. Passavam pelo detector de metal da chapelaria. Não dava nada. Subiam à Câmara.

Iam de gabinete em gabinete, fazendo os acertos. Acabava o dinheiro, voltavam para o carro

e pegavam mais. Na cara dura, na cueca, na meia.

Cassado por corrupção, o ex-ministro José Dirceu resolveu desabafar à revista Piauí. Já

corria o ano de 2008. José Dirceu mencionou o episódio da construção da sede do PT em

Porto Alegre, em 2001. Sabia do que estava falando: na época, José Dirceu era o presidente

do partido e Delúbio Soares, o tesoureiro.

De acordo com José Dirceu, a obra em Porto Alegre “foi feita só com dinheiro de caixa

2”. Ele acrescentou: “era com mala de dinheiro”. O ex-presidente do PT chamou de “esse

pessoal” as lideranças gaúchas do partido:

- Chegava para Delúbio e falava: “Delúbio, preciso de R$ 1 milhão”. Como é que alguém

vai arrumar esse dinheiro assim, de uma hora para outra?

José Dirceu explicou:

- O pobre do Delúbio tinha de ir aos empresários conseguir doações. Aí, estoura o mensalão

e esse pessoal vem dizer que o Delúbio era o homem da mala. O que não dizem é que a mala

era para eles.

Em outro trecho da entrevista, Dirceu atacou a ex-senadora Heloísa Helena (PSOL-AL).

Expulsa do PT, ela passou a denunciar condutas inadequadas de parte das lideranças do

partido. O ataque de José Dirceu:

- Ela votou contra a cassação do Luiz Estevão. Votou mesmo, e por motivos impublicáveis.

Heloísa Helena reagiu, chamando José Dirceu de “ladrão dos cofres públicos” e de andar

“passeando pelo Brasil e gastando todo o dinheiro que ele roubou do povo”:

- Se durante toda a carreira dele de homem público medíocre e ladrão ele cometeu inúmeros

atos que certamente não podem ser publicados, eu, como mulher trabalhadora, nunca

fui capaz de nenhum ato impublicável.

Em 2009, a Polícia Federal desencadeou a Operação Boi Barrica e indiciou Fernando

Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), um dos maiores aliados de

Lula. Fernando Sarney foi acusado de montar um esquema para desviar dinheiro público

usando a Valec, empresa estatal encarregada de construir a ferrovia Norte-Sul.

A relação de Fernando Sarney com a Valec se dava por intermédio do diretor de Engenharia

da estatal, Ulisses Assad. Uma parte da obra, no valor de R$ 45 milhões, teria sido

entregue à Lupama. Conforme as investigações, a Lupama era uma empresa de fachada

ligada ao grupo de Fernando Sarney para desviar dinheiro da ferrovia.

Para pagar pelos serviços de Ulisses Assad, Fernando Sarney teria mandado propina por

meio de seu motorista. Uma mala de dinheiro seguiu de Brasília para São Paulo. Os federais

estavam na cola, mas não contaram com o zelador do prédio da família Sarney na capital

paulista. Ele percebeu a movimentação e ajudou o motorista a entrar escondido com a mala

dentro do porta-malas de um carro de Fernando Sarney. O homem se safou.

III

Lula, o chefe

O Palácio do Planalto bem que tentou abafar, mas desde o início o presidente Lula

esteve no centro da crise política. O escândalo do mensalão eclodiu em 14 de maio de

2005, com a divulgação de uma gravação clandestina pela revista Veja. Maurício Marinho,

funcionário dos Correios, pôs no bolso do paletó R$ 3 mil. Propina. De cara, a evidente

vinculação do PTB ao esquema de corrupção. Os Correios eram área de influência

do partido, uma das agremiações integrantes da base aliada do Governo Federal, capitaneada

pelo PT, a legenda de Lula.

Enquanto os telejornais escancaravam a fita com as imagens de Maurício Marinho

enfiando o dinheiro no bolso, Lula apressava-se em defender o deputado Roberto

Jefferson (RJ), presidente nacional do PTB. Palavras de Lula, alto e bom som, em 17 de

maio de 2005:

- Precisamos ter solidariedade com os parceiros, não se pode condenar ninguém

por antecipação.

Lula se pronunciou durante almoço com aliados. O presidente insistiu:

- Parceria é parceria. Tem de ter solidariedade.

E arrematou, para não deixar dúvidas:

- Essa é a hora em que Roberto Jefferson vai saber quem é amigo dele e quem não é.

Lula estava preocupado. Recorda-se que, alguns meses antes, dissera a seguinte frase

endereçada a Roberto Jefferson, em meio ao noticiário que especulava sobre um pagamento

de R$ 10 milhões do PT ao PTB, com vistas a “comprar” o apoio dos trabalhistas às eleições

municipais de 2004:

- Eu te daria um cheque em branco e dormiria tranquilo.

A gravação de Maurício Marinho trouxe outras complicações. Como se sabe, ele desandou

a conversar com os interlocutores que o subornavam, sem saber que estava sendo gravado.

O funcionário dos Correios mencionou uma empresa, a Novadata, pertencente a Mauro

Dutra, o “Maurinho”, amigo de Lula havia mais de 20 anos. A Novadata fornecia computadores

para o Governo Federal. Apenas nos dois anos e meio da primeira administração Lula,

faturou R$ 284,5 milhões, sendo R$ 110 milhões em contratos com a Caixa Econômica

Federal, R$ 100 milhões em contratos de locação de 27.500 computadores para a Petrobras

e R$ 16,2 milhões em vendas aos Correios.

Aqui uma pausa, para registrar: Lula passou o réveillon de 2001 na mansão de Mauro

Dutra em Búzios, no badalado litoral do Rio. O mesmo Maurinho que fez contribuições ao

PT, arrecadou dinheiro para o partido e emprestou avião a Lula. Na fita, Maurício Marinho

fala de “acertos” em licitações. Descreve manobra da Novadata para superfaturar computadores.

A empresa tentou fazer o preço de cada computador vendido ao governo dar um salto

injustificado, de R$ 3.700 para R$ 6.000.

Logo nos primeiros dias da crise, Lula trabalhou abertamente contra a ideia de se criar

uma CPI para investigar a corrupção nos Correios. Foi decisão de governo: a administração

federal iria liberar dinheiro de emendas ao Orçamento a todos os parlamentares que votassem

contra a CPI. Faltou combinar com os jornais.

Roberto Jefferson foi destaque no noticiário político. As incursões do presidente do

PTB nos subterrâneos de Brasília revelaram várias suspeitas de corrupção. Lula achou por

bem se afastar do aliado, mas continuou a trabalhar contra a instalação da CPI. Roberto

Jefferson estava cada vez mais isolado. Os estrategistas do presidente não imaginaram que

o desgaste do político fluminense o levasse a uma reação explosiva.

Em 6 de junho de 2005, Roberto Jefferson concedeu uma entrevista-bomba ao jornal

Folha de S.Paulo. O Brasil não seria mais o mesmo. A manchete, na primeira página, para

não deixar dúvidas: “PT dava mesada de R$ 30 mil a parlamentares, diz Jefferson”. O

escândalo do mensalão assumiria contornos dramáticos.

Leal ao presidente que procurou protegê-lo, Roberto Jefferson tentou deixá-lo fora da

crise. Mas logo implicou o superministro José Dirceu (PT-SP). A Folha de S.Paulo também

reproduzia a reação de José Dirceu, assim que ouviu Roberto Jefferson falar sobre os repasses.

Infere-se que a tarefa de fazer as operações de distribuição do dinheiro era de responsabilidade

do tesoureiro do PT, Delúbio Soares. Palavras de José Dirceu:

- Eu falei para não fazer.

Ora, se o todo-poderoso ministro da Casa Civil, braço direito de Lula, disse a Delúbio

Soares para não fazer, fica implícito que a prática fora pensada, discutida e provavelmente

era de amplo conhecimento do chamado “núcleo duro” do governo. Destaca-se que Delúbio

tinha relação histórica com Lula.

Mas voltemos a Roberto Jefferson, que envolveu no seu relato à Folha de S.Paulo outros

importantes auxiliares do presidente. Se os mencionados já não conhecessem os fatos,

ficariam com a obrigação de tomar providências assim que foram informados. Afinal, Lula

não poderia permanecer alheio à existência de um esquema que entregava dinheiro a parlamentares.

Isso, claro, se já não soubesse muito bem o que acontecia.

Roberto Jefferson contou que levou informações sobre o mensalão ao ministro da

Integração Nacional, Ciro Gomes (PSB-CE). Da mesma forma que José Dirceu, deveria

informar o presidente sobre o que lhe fora relatado. Assim, providências enérgicas impediriam

o prosseguimento da prática de suborno. E faria isso como dever de lealdade, independentemente

das suas convicções. Conforme Jefferson, Ciro Gomes lhe disse que não acreditava

na história da transferência de dinheiro de caixa 2 para a base aliada.

Rodeado de ministros leais, Lula não fugiria do seu dever constitucional de determinar

imediata abertura de investigações, com a finalidade de punir eventuais culpados. Outra

hipótese, porém: Lula teria dado carta branca às operações de suborno. Agora, deixaria o

tempo amainar a situação, confiando na falta de memória da imprensa e dos brasileiros.

Depois foi a vez de Miro Teixeira (PT-RJ), ministro das Comunicações. Os deputados

José Múcio (PTB-PE) e João Lyra (PTB-AL) testemunharam a conversa na qual Roberto

Jefferson pediu para Miro Teixeira contar tudo a Lula. Tem mais. Jefferson também discutiu

o problema com o deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), o então líder do governo Lula na

Câmara dos Deputados, e garante que expôs tudo ao ministro Antonio Palocci (PT-SP),

outro integrante do “núcleo duro” do governo. O recado estava dado.

Aparentemente, só Miro Teixeira levou a coisa a sério. Pelo menos num primeiro momento.

A prova é que informações prestadas por ele fizeram o Jornal do Brasil denunciar em

manchete, em 24 de setembro de 2004: “Planalto paga mesada a deputados”. Trecho de

abertura da reportagem: “O governo montou no Congresso um esquema de verbas e cargos

para premiar partidos fiéis ao Planalto. Chama-se mensalão”.

Não houve consequências. O então presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha

(PT-SP), prometeu instaurar sindicância para apurar a denúncia do Jornal do Brasil, mas foi

tudo engavetado às pressas. E Miro Teixeira capitulou. Antes disso, no entanto, havia narrado

o caso a Lula. Aí é que a coisa pega. Miro Teixeira era oriundo do PDT (Partido Democrático

Trabalhista), mas se transferira para o PT e assumira a liderança do governo Lula na

Câmara dos Deputados. O episódio aconteceu logo após o escândalo que culminou com a

saída de Waldomiro Diniz do Ministério da Casa Civil, no primeiro grande caso de corrupção

da era Lula, a ser relatado adiante.

Miro Teixeira, no papel de líder, era assediado por deputados que temiam pelo fim da

“mesada” fornecida pelo governo, uma hipótese aventada com a saída de Waldomiro Diniz.

Afinal, o assessor de José Dirceu, defenestrado da Casa Civil, cuidava justamente da relação

da administração federal com o Congresso. Miro Teixeira foi duro. Em 25 de fevereiro

de 2004, disse ao presidente que deixaria a liderança do governo. Não aceitava os pagamentos.

Com ar de surpresa, Lula garantiu desconhecer o assunto. E disse que iria discuti-lo,

sem falta, com José Dirceu. Nada. Pouco mais de um mês depois, Miro Teixeira voltou ao

Palácio do Planalto e pediu para sair da liderança. Infelizmente, não levou o caso até as

últimas consequências. Substituiu-o o deputado Professor Luizinho (PT-SP), que viria posteriormente

a ser acusado de envolvimento no mesmo escândalo do mensalão.

Em 5 de janeiro de 2005, Roberto Jefferson levou o assunto diretamente a Lula. Quem

testemunhou foi o ministro Walfrido dos Mares Guia (PTB-MG), do Turismo. Nenhuma

providência tomada. Roberto Jefferson voltou a Lula novamente, em 23 de março de 2005.

Desta vez, várias pessoas ouviram a conversa sobre as “mesadas do Delúbio”. Jefferson

expôs tudo. Presenciaram José Dirceu, Aldo Rebelo e José Múcio. Todos os três, aliás, já

sabiam do assunto. Além deles, ouviram o relato o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) e o

chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho (PT-SP). Da mesma forma, eles não poderiam

mais alegar desconhecimento. Jefferson afirmou:

- Presidente, o Delúbio vai botar uma dinamite na sua cadeira.

Reação de Lula:

- Que mensalão?

Interessante destacar que no segundo mandato de Lula, Walfrido dos Mares Guia e José

Múcio, braços direito e esquerdo de Roberto Jefferson no PTB até eclodir o escândalo do

mensalão, seriam promovidos por Lula. Walfrido iria do morno Ministério do Turismo para

o chamativo Ministério das Relações Institucionais, exatamente para ser o responsável pela

relação do governo com o Congresso. E Múcio sairia da liderança do PTB para a liderança

do governo na Câmara. E quando Walfrido fosse afastado depois da acusação de envolvimento

com o chamado mensalão mineiro, Lula não teria dúvidas: promoveria mais uma vez Múcio,

nomeando-o ministro das Relações Institucionais. Em 2009, Lula recompensaria os bons

serviços prestados por Múcio, indicando-o para uma vaga no TCU (Tribunal de Contas

da União).

Por que os aliados de Roberto Jefferson assumiram papéis de destaque na administração

Lula? É simples: porque blindaram Lula no episódio das denúncias de Roberto Jefferson.

Não respaldaram nem deram eco às acusações que poderiam levar ao impeachment do presidente.

E foram recompensados por terem sido leais.

Mas voltemos uma vez mais no tempo. Houve outro episódio, dez meses antes daquele

encontro entre Jefferson e Lula, em 23 de março de 2005. Ocorreu na noite de 25 de

maio de 2004. O curioso é que, desta vez, Lula introduziu o assunto. A comitiva do presidente

estava em viagem oficial à China. Lá pelas tantas, depois do farto jantar, Lula se

virou para o deputado Paulo Rocha (PT-PA) e perguntou se ele já ouvira falar do pagamento

de mesadas a parlamentares. Para entender: durante os desdobramentos do escândalo

do mensalão, Paulo Rocha preferiu renunciar ao mandato a correr o risco de ser

cassado, justamente por ter feito saques de dinheiro de caixa 2. Rocha negou a história,

obviamente. Mas outros três deputados que estavam no jantar na China confirmaram a

veracidade da conversa à revista Veja.

Com a explosão do escândalo do mensalão, Aldo Rebelo (PC do B-SP) foi escalado

para falar em nome do Palácio do Planalto. Admitiu que Lula ouvira mesmo o relato de

Jefferson em 23 de março de 2005, mas tratou de proteger o presidente. Para Rebelo, a

denúncia envolvia o PT e outros partidos, não o governo. Ora, o PT é o partido de Lula. E os

outros partidos dão sustentação política ao governo Lula. Estavam sendo pagos para isso.

Como protegê-lo?

O líder de Lula no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), tentou explicar a reunião de

23 de março:

- Nenhum dos presentes tratou aquilo como denúncia, nem discutiu o assunto na reunião.

Depois, Lula chamou Aldo e Chinaglia e perguntou se havia comentários sobre isso na

Câmara. Não houve denúncia, apenas o relato de boato.

Para Aloizio Mercadante, portanto, Lula, o grande beneficiário da maioria forjada para

apoiar o seu governo no Congresso, não tinha providências a tomar sobre o assunto. Pois,

afinal, não havia “comentários” sobre o tema.

A Folha de S.Paulo ainda circulava com a denúncia de Roberto Jefferson sobre o mensalão

naquele 6 de junho de 2005, quando o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), veio

a público revelar que dois deputados receberam propostas para se transferir à base aliada do

governo Lula, em troca de dinheiro. Mais lenha na fogueira.

Pior: em 5 de maio de 2004, Marconi Perillo já havia levado o fato diretamente ao

conhecimento de Lula. Na época, o presidente disse que iria apurar. Não fez nada. De qualquer

forma, não teria sentido dizer que não sabia do assunto. Meses depois, fustigado, o

Palácio do Planalto se posicionou sobre o episódio por meio de nota. Informou que Lula não

se recordava de nenhum comentário do governador Marconi Perillo a respeito de uma tentativa

de suborno de deputados. Mais uma vez, Lula foi convenientemente escondido.

Em 12 de junho de 2005, nova entrevista de Roberto Jefferson à Folha. Ele deu detalhes

da conversa com Lula, dentro do gabinete do presidente:

- Ele me pediu que explicasse como funcionava o mensalão. Eu disse. Depois ele se

levantou, me deu um abraço e eu saí.

Na entrevista, a chave para entender por que o escândalo do mensalão não foi contido nos

bastidores da política, e virou mesmo um escândalo. Roberto Jefferson relatou à repórter

Renata Lo Prete a primeira conversa com Lula para falar dos repasses, em janeiro de 2005.

Roberto Jefferson esforçou-se em salvaguardar o presidente:

- E vi a reação dele de perplexidade. E então as coisas pararam. Mas o que eu estranho

é que a Abin, depois que eu disse isso ao presidente Lula, parte para mandar arapongas

contra o PTB. Alguém, dentro do governo, não gostou que nós passamos essa informação

ao presidente.

O “alguém” de Jefferson era o ministro José Dirceu. Teria sido acionado por Lula. E a

Abin (Agência Brasileira de Inteligência) entrara em ação, segundo o presidente do PTB.

No final das contas, mostrou-se desastrosa a estratégia de fuçar a vida de Jefferson para

descobrir podres do deputado, com vistas a obter o seu silêncio. Ele não aceitou a chantagem.

O tiro saiu pela culatra.

Dia 13 de junho de 2005, o seguinte à entrevista da Folha: a assessoria de José Dirceu

divulgou informações segundo as quais o relacionamento entre o ministro da Casa Civil e o

presidente Lula era excelente. Bobagem. O importante do “recado” de José Dirceu estava

na frase que, segundo a assessoria, o ministro havia proferido. A fala de Dirceu foi divulgada

como sendo textual, entre aspas, e serviu para definir a sua relação com Lula:

- Não faço nada que não seja de comum acordo e determinado por ele.

Estava tudo aí. Dirceu, ao travar combate para não ser expelido do governo, fez ameaça

velada a Lula, como quem diz: “Não ouse me fritar, muito menos me demitir. Sei demais.

Posso e vou comprometê-lo”. Mas ficou nisso. Dirceu jamais fez nada, apesar de, em outros

momentos da crise, ter voltado a insinuar que poderia pôr o dedo na ferida. Chegou a alfinetar

o presidente em algumas ocasiões, como da vez que fez críticas a Fábio Luís Lula da

Silva, o “Lulinha”, em entrevista concedida no início de 2008 à revista Piauí.

O mais importante da frase em que Dirceu deu o “recado” a Lula, porém, é a confissão

de que agia conforme o acertado com o presidente. Por si só, a frase deveria ter se constituído

em elemento de peso para justificar a abertura de processo por crime de responsabilidade

contra Lula.

Em 14 de junho de 2005, Roberto Jefferson prestou depoimento ao Conselho de Ética da

Câmara dos Deputados. Foi um dia histórico. Ele pediu o afastamento de José Dirceu do governo.

Na prática, sentenciou à queda o homem mais importante da história do PT, depois de Lula:

- Zé Dirceu, se você não sair daí rápido, você vai fazer réu um homem inocente, o

presidente Lula.

Para complicar as coisas, entrou em cena Fernanda Karina Ramos Somaggio, ex-secretária

de Marcos Valério. A essa altura, Marcos Valério, o empresário dono de agências de publicidade

e principal operador do mensalão, já era uma celebridade. Fernanda Karina disse em entrevista

à revista Isto É Dinheiro que Marcos Valério tinha comunicação direta com José Dirceu.

O superministro de Lula também foi acusado de receber dinheiro do esquema de

corrupção montado em Santo André (SP). Quem fez a denúncia foi Francisco Daniel, irmão

do ex-prefeito Celso Daniel (PT). Aqui, Lula voltou ao centro da crise. Francisco Daniel

disse que o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, transportou R$ 1,2 milhão de

propina em seu carro. A origem do dinheiro, devidamente entregue ao então presidente

nacional do PT, José Dirceu, seria a propina arrecadada na Prefeitura de Santo André.

José Dirceu foi afastado do governo em 16 de junho de 2005. Fazendo-se de alheio aos

problemas, como sempre, Lula deu entrevista em Luziânia (GO) para dizer que as denúncias

eram “vazias”. Entrementes, nos bastidores de Brasília, o presidente trabalhava para

frustrar a CPI dos Bingos, uma nova fonte de investigações contra o seu governo. Prometeu

mundos e fundos para quem ficasse ao seu lado, mas não impediu a instalação da comissão.

Um episódio que mostrou Lula como sujeito atuante nos bastidores de seu governo, e

não alguém sempre por fora dos “detalhes” comprometedores, como procurava se mostrar.

Foi o caso da “simples” nomeação do diretor de Engenharia da empresa estatal Furnas

Centrais Elétricas. O assunto relatado por Roberto Jefferson ocupou várias páginas de jornal.

Não era para menos. O diretor, Dimas Toledo, administrava, de acordo com Roberto

Jefferson, uma “sobra” de R$ 3 milhões ou R$ 4 milhões por mês, dependendo da versão,

dinheiro abocanhado quase integralmente pelo PT.

O caso Furnas acabou contribuindo para o desgaste da relação PT/PTB, pois o partido

de Roberto Jefferson não aceitava ficar à margem, relegado a um segundo plano. Pois bem:

na partilha de cargos do governo, ficou combinado que Jefferson exerceria influência em

Furnas. Ele queria trocar Dimas Toledo. Lula era simpático ao pleito do PTB. O presidente

dissera a Jefferson:

- Roberto, por que está demorando tanto?

Lula não aceitaria argumentação alguma que prejudicasse o PTB:

- Nada disso. O Dimas vai sair.

No caminho, porém, estava José Dirceu, aparentemente cioso da fortuna em comissões

e propina. Quando a casa caiu, Roberto Jefferson contou a história aos jornais. A reação

instantânea do Palácio do Planalto foi afastar todos os citados, inclusive Dimas Toledo. Mas

a história de Roberto Jefferson revelou que Lula tinha pleno conhecimento do que se passava

nos porões do governo e palpitaria nas nomeações para cargos de escalões inferiores.

Outro caso vinculado diretamente a Lula ocorreu em 8 de julho de 2005, a partir de

notícia publicada pelo jornal O Globo. A Telemar, uma das maiores operadoras de telefonia

do País, investira R$ 5 milhões na pequena Gamecorp, de Fábio Luís Lula da Silva, o

“Lulinha”. Como se sabe, a Telemar fora constituída com recursos de origem pública, provenientes

do Banco do Brasil, BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e

Social) e fundos de pensão de empresas estatais. Além disso, era empresa concessionária de

serviço público, regulada pelo Governo Federal.

O negócio Telemar/Gamecorp foi intermediado pela consultoria de Antoninho Marmo

Trevisan, outro amigo de Lula. Para o presidente, porém, nada de errado. A reação dele,

nervosa, pretendendo pôr um ponto final no assunto que envolvia seu filho:

- Estão querendo mexer na minha vida privada. Isso é uma baixaria, um golpe baixo, um

desrespeito. Isso é irracional.

Voltemos a um acontecimento importante, ocorrido em 17 de junho de 2005. Lula deu a

famosa entrevista em Paris, divulgada com exclusividade pelo programa Fantástico, da Rede

Globo. O impressionante da história foi o coro do presidente ao que acabara de ser dito por

Marcos Valério e Delúbio Soares, ambos metidos até o pescoço na lambança do escândalo do

mensalão. A estratégia dos três, apesar da diferença de tom das intervenções, foi a mesma:

negar os pagamentos a parlamentares, ou seja, o crime de corrupção, e pôr tudo na conta de

simples repasses para quitar dívidas de campanha, usando caixa 2. Um crime menor, portanto,

apenas eleitoral. Para Lula, o PT fez o que é feito no Brasil, sistematicamente:

- E não é por causa do erro de um dirigente ou de outro que você pode dizer que o PT

está envolvido em corrupção.

Enquanto Lula minimizava a crise, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) acusava o que

chamou de “crime de quadrilha”:

- Agora, o partido está dentro do governo, e foram usadas empresas públicas como o

Correios e Furnas, para fazer transações ilícitas. Favoreceram essas empresas em troca do

dinheiro dado ao partido.

Difícil tapar o sol com a peneira. Olívio Dutra (PT-RS), petista histórico, foi demitido

do Ministério das Cidades. Ressentido, desabafou durante entrevista: a “disputa” e a “concentração

de poder no governo” fizeram crescer a “erva daninha”. Referia-se à erva daninha

da corrupção.

Para ajudar a entender Lula, um acontecimento de 1995, dez anos antes do escândalo do

mensalão. Outro petista histórico, o economista Paulo de Tarso Venceslau, procurou o presidente

para conversar. Denunciou-lhe um esquema de corrupção que envolvia o advogado Roberto

Teixeira, compadre de Lula. Ele vinha usando o nome de Lula para desviar dinheiro de prefeituras

do PT. Venceslau não aceitava a prática, uma forma de irrigar os cofres do partido.

O economista achou que Lula o ajudaria a extirpar o corrupto que manchava o nome do

PT, mesmo que o caso envolvesse seu compadre. Resultado: Paulo de Tarso Venceslau foi

expulso do partido. Quanto a Teixeira, continuou firme e forte. Venceslau concedeu entrevista

ao jornal O Estado de S. Paulo:

- Lula foi o primeiro a saber do caso. Sabia do comprometimento do seu compadre,

sabia do volume de dinheiro público envolvido, e fez questão não só de acobertar, mas de

punir quem tinha descoberto.

O economista comparou Lula nos dois casos. Na década de 90, candidato a presidente,

ao ser informado das andanças de Teixeira atrás de comissões em prefeituras, e depois,

presidente da República, com o escândalo do mensalão:

- Eu levei para ele, pessoalmente. E o tempo todo fingiu que não sabia. Evidentemente

que Lula não operava, assim como não está operando hoje. Mas como ele sabia naquela

época, ele sabe hoje, sempre soube.

Depoimento de José Dirceu ao Conselho de Ética da Câmara. Quem roubou a cena foi

Roberto Jefferson. Veio à tona a operação Portugal Telecom. Os fatos: o ministro Walfrido

dos Mares Guia pediu ajuda a Lula para resolver problemas financeiros do PTB. Com o

suposto conhecimento do presidente, Marcos Valério e Emerson Palmieri, tesoureiro do

PTB, viajaram a Lisboa atrás de uma “comissão” que poderia chegar a R$ 100 milhões. A

jogada pressupunha uma transferência de US$ 600 milhões do IRB (Instituto de Resseguros

do Brasil), outro órgão do governo brasileiro envolvido nas denúncias. Se desse certo, os R$

100 milhões irrigariam os caixas 2 do PT e do PTB. Marcos Valério chegou a Portugal se

dizendo “consultor do presidente do Brasil”. E ele era mesmo.

Mais uma história apimentada misturando Lula e caixa 2. Foi publicada em 4 de agosto

de 2005, pelo jornal O Estado de S. Paulo. Diz respeito a uma entrevista do presidente ao

Programa do Ratinho, do SBT, em 2004. A aparição de Lula na televisão teria sido comprada

com R$ 2,1 milhões do valerioduto, como ficou conhecido o canal pelo qual corria o

dinheiro movimentado por Marcos Valério. A soma teria viabilizado um acerto entre o deputado

José Borba (PMDB-PR), aliado do governo, e o apresentador de televisão Carlos

Roberto Massa, o “Ratinho”. As partes negaram, obviamente. Dias depois, o escândalo do

mensalão levaria Borba a renunciar ao mandato.

Um caso intrigante, o da exoneração de Márcio Araújo de Lacerda (PSB-MG), então

secretário-executivo do ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes (PSB-CE). Márcio

Lacerda, que seria eleito prefeito de Belo Horizonte em 2008, estava na lista de sacadores

de Marcos Valério, agraciado com R$ 457 mil. O dinheiro teria sido usado para pagar os

serviços publicitários de uma agência que trabalhou na campanha de Lula, no segundo

turno de 2002, conforme admitiu o tesoureiro Delúbio Soares. A eleição de Lula, portanto,

teria sido irrigada com dinheiro de caixa 2. O caso repercutiu durante o depoimento de

Delúbio Soares à CPI do Mensalão. Eis o diálogo travado entre Delúbio Soares e o deputado

Júlio Redecker (PSDB-RS), que faleceu em 2007 no desastre com o avião da TAM no

aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Pergunta de Júlio Redecker:

- O dinheiro foi enviado para Ciro Gomes?

- Sim.

- Pagou despesas de campanha de Ciro ou Lula?

- De Ciro.

- Mas Ciro disse que foi serviço prestado pelo marqueteiro dele no segundo turno à

campanha de Lula.

- Não foi. O dinheiro pagou serviços prestados pelo (publicitário) Einhart à campanha

de Ciro no segundo turno.

- Mas Ciro não foi candidato no segundo turno. Ele apoiou a candidatura Lula.

- O Einhart trabalhou com o Duda Mendonça. Eles filmaram o Ciro para o programa de

Lula no segundo turno. O dinheiro pagou despesas que o Ciro teve no segundo turno.

- Então o dinheiro de Valério, de caixa 2, pagou despesas de campanha de Lula no

segundo turno.

Delúbio silenciou.

A crise assumiu contornos dramáticos em 11 de agosto de 2005. O publicitário Duda

Mendonça confessou à CPI dos Correios que recebeu R$ 10,5 milhões de Marcos Valério

em depósitos no exterior. Note-se bem: trata-se de dinheiro de caixa 2, não declarado, sem

origem definida, usado para pagar serviços prestados na campanha de 2002, no pleito que

elegeu Lula. Dia seguinte, em discurso no Planalto, Lula quis dar fim ao caso:

- O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas.

Em 13 de agosto de 2005, a revista Época publicou entrevista com Valdemar Costa Neto

(PL-SP), o primeiro deputado a renunciar durante as investigações do escândalo do mensalão.

Em foco, uma reunião ocorrida em 2002 para decidir o apoio do PL ao PT e a indicação de

José Alencar para vice de Lula.

O encontro se deu no apartamento do então deputado Paulo Rocha (PT-PA), em Brasília.

Paulo Rocha, aliás, também renunciaria em 2005, com medo de ser cassado, depois de não

conseguir negar a sua participação no esquema de corrupção. Lula estava presente à reunião

no apartamento de Paulo Rocha. Depois de árdua negociação, durante a qual Lula, discreto,

teria se retirado a um aposento ao lado, fechou-se o acordo pelo qual o PT se prontificava a

transferir R$ 10 milhões para o PL, a fim de obter o apoio do partido de José Alencar. Época

perguntou a Valdemar Costa Neto:

- Lula sabia que a conversa no quarto era sobre dinheiro?

- Ele sabia. O presidente sabia o que a gente estava negociando. Olha, ele e o Zé Dirceu

construíram o PT juntos. O Lula sabia o que o Dirceu estava fazendo. O Lula foi para lá para

bater o martelo. Tudo o que o Zé Dirceu fez foi para construir o partido.

Note-se bem: Valdemar Costa Neto era o presidente do partido do vice-presidente da República.

A sigla pertencia à base aliada do governo. A confissão dele teria sido outro elemento

importante para justificar a abertura de processo por crime de responsabilidade contra Lula.

Vale registrar trecho da entrevista de Hélio Bicudo, respeitável jurista, à revista Veja.

Hélio Bicudo, quadro histórico do PT, desligou-se do partido:

- Lula é um homem centralizador. Sempre foi presidente de fato do partido. É impossível

que ele não soubesse como os fundos estavam sendo angariados e gastos e quem era o

responsável. Não é porque o sujeito é candidato a presidente que não precisa saber de dinheiro.

Pelo contrário. É aí que começa a corrupção.

- Por que o presidente não tomou nenhuma atitude para impedir que a situação

chegasse aonde chegou?

- Ele é mestre em esconder a sujeira embaixo do tapete. Sempre agiu dessa forma.

Desabafo do deputado João Paulo Cunha (PT-SP), outro acusado de envolvimento no

escândalo do mensalão, durante uma reunião do Campo Majoritário, a corrente do PT cujas

lideranças máximas sempre foram Lula e José Dirceu. Desgastado com as notícias de

corrupção, o Campo Majoritário teve o nome alterado para Construindo um Novo Brasil, no

segundo mandato de Lula. De qualquer forma, João Paulo Cunha fez ameaças veladas a

Lula durante aquela reunião. Reclamou de ingratidão e hipocrisia. Apesar de feitas a portas

fechadas, as ameaças acabaram na imprensa. Não foram desmentidas. O envolvimento de

Lula, por João Paulo Cunha:

- Quem tomou a decisão de fazer alianças? Foi o Zé Dirceu? Quem exigiu o contrato

com Duda Mendonça?

Em outras palavras, Lula não só sabia, como estava por trás de tudo. Era o chefe. Continuou

a ser o chefe.

Insatisfeitos com o presidente, próceres do PT mantiveram a carga sobre Lula. Em entrevista

à Folha de S.Paulo em 25 de setembro de 2005, José Dirceu disse quem, em sua

opinião, eram os responsáveis pela crise:

- Muita gente. Parece que eu fui presidente do PT sete anos sozinho, secretário-geral

cinco anos sozinho, né? O PT não foi construído assim. Tem dezenas de dirigentes importantes

que hoje são prefeitos, governadores, ministros, deputados e senadores que participaram

da construção de toda essa estratégia comigo.

- E o presidente.

- E o próprio presidente da República. É isso o que eu digo. A responsabilidade é de

todos nós. Nós temos que debater isso, num congresso do partido, e fazer o balanço.

- O senhor acha que o presidente da República assume a responsabilidade

que tem?

- Não quero nominar ninguém. O que eu não aceito é prejulgamento, que foi tudo errado,

que foi tudo um fracasso, que a política de alianças do PT estava errada. Tudo foi aprovado

democraticamente.

José Dirceu respondeu se Lula participou das discussões:

- Participou. Todos participaram. Mas eu quero discutir e avaliar. Eu não quero julgar

ninguém porque eu não quero que me prejulguem. O que não aceito é a imagem de que eu

fiz tudo sozinho e depois apareceu Silvio Pereira, Delúbio Soares e Marcelo Sereno, que

são o mal. Então corta esse mal e o PT está salvo. Isso é maniqueísta. E eu não mereço isso.

Em outro trecho da entrevista, o jornal faz um comentário:

- As pessoas que votaram no PT a vida inteira imaginavam que votavam num

partido que tinha práticas diferentes.

- Esse é um erro e o PT vai pagar por ele. Nós vamos ter que pedir desculpas ao País.

Nós assumimos compromissos na campanha eleitoral com partidos e repassamos recursos.

Se fossem da arrecadação oficial do PT, não teria problema nenhum. Como foram recursos

de empréstimos tomados num banco e foram repassados fora da prestação de contas, há

uma ilegalidade aí que vai ser punida pela Justiça.

Como se vê, José Dirceu deu eco à estratégia que desvincula o dinheiro movimentado

durante o escândalo do mensalão da prática de corrupção, atribuindo as somas entregues a

políticos a empréstimos bancários. Ele também fala sobre a política de alianças e o programa

de governo de Lula:

- Então estão julgando Lula também. Tem de saber qual é o julgamento e qual é o grau

de responsabilidade de cada um.

- E a responsabilidade política? As pessoas votam no Lula e ele não sabe de nada?

É difícil acreditar que ele ignorava tudo.

- Não é isso. É que ele não tem responsabilidade. Eu não posso atribuir responsabilidade

a ele no grau dele. O Lula tem responsabilidade política porque ele era líder do PT. Mas os

graus são diferentes. Não posso atribuir a ele responsabilidade sobre o caixa 2. Aí eu não

vou atribuir.

- Ele não tem responsabilidade como liderança?

- Isso é uma pergunta que tem de ser dirigida a ele. Eu não vou responder por ele.

Menos de duas semanas depois, foi a vez de Lula conceder entrevista. Ele falou ao

programa Roda Viva, da TV Cultura. E retribuiu à altura:

- Feliz o País que tem um político da magnitude do Zé Dirceu.

Em outro momento da entrevista, Lula volta à carga:

- Qual a acusação que existe contra o Zé Dirceu?

Uma entrevista perigosa para o presidente. O entrevistado é Silvio Pereira, o ex-secretário-

geral do PT. Falou à Folha de S.Paulo, em 2 de outubro de 2005:

- A minha responsabilidade não é diferente da de nenhum outro dos 21 membros da

executiva nacional do PT. O nível de decisão que eu tinha não era diferente do de nenhum

dos 21 membros da executiva nacional do PT.

“Silvinho” evitou citar nomes:

- Eu assumo a responsabilidade como membro da direção do PT, em que pese a direção

do PT ter realmente a noção do que estava acontecendo. Ninguém é hipócrita de achar que

não sabia que existia caixa 2. Qual membro da direção do PT não sabia disso?

O repórter perguntou se o então presidente do partido, José Genoino (SP), sabia do

esquema de caixa 2. Palavras de Silvinho:

- Eu pergunto: qual o membro da alta direção do PT que não poderia supor que

pudesse existir?

Silvinho se desligou do PT após admitir que havia ganhado um jipe Land Rover de

presente de uma fornecedora da Petrobras. Depois, assumiria a responsabilidade perante a

Justiça e, para não ser processado, concordaria em prestar serviços comunitários. Saiu livre.

Um fardo pesado para Lula, o caso Santo André. Em 23 de novembro de 2005, a empresária

Rosângela Gabrilli depôs à CPI dos Bingos. Trouxe à luz meandros do esquema de

corrupção engendrado na administração do ex-prefeito Celso Daniel (PT).

A irmã dela, Mara Gabrilli, pediu ajuda diretamente a Lula. Esteve no apartamento do

presidente em São Bernardo do Campo (SP), e conversou com ele por 20 minutos. Descreveu

um quadro de extorsão contra prestadores de serviços à Prefeitura de Santo André,

controlada pelo PT, como a empresa da família dela. Lula ficou de “averiguar e tomar

providências”. Desabafo de Mara Gabrilli, confirmando o depoimento da irmã:

- Ninguém fez absolutamente nada. Nunca tive uma resposta.

Chamada a depor na mesma CPI dos Bingos, Mara Gabrilli revelou novas informações

sobre o encontro dela com Lula. Na ocasião, contara ao presidente que Sérgio Gomes da

Silva, o “Sombra”, estava envolvido no esquema de corrupção. Sombra também era acusado

de mandar matar Celso Daniel. Durante a reunião com Mara Gabrilli, o presidente Lula

virou-se para os três assessores que o acompanhavam para dizer:

- Nossa, eu achei que o Sérgio Gomes já estava muito longe.

Como sempre, Lula dissimulou. Fez que não sabia o que se passava. Conveniente. O

incrível é que o tal Sombra não saía do noticiário dos jornais. Vivia prestando depoimentos

a CPI, Ministério Público e Polícia Civil. Como poderia estar “muito longe”? Como o presidente

seria tão desinformado?

Lula não tomou providências para resolver o problema em Santo André, conforme se

comprometera. Ao invés disso, a família de Mara Gabrilli passou a sofrer pressões. Ela

explicou à CPI o que aconteceu após a conversa em São Bernardo do Campo. Referiu-se ao

ex-vereador Klinger Luiz de Oliveira (PT), um dos acusados de envolvimento no esquema

de corrupção:

- Ocorreu justamente o contrário. Klinger soube, reclamou, e dias depois uma comissão

de sindicância da Prefeitura se instalou na nossa empresa.

Além de Santo André, a crise política teve outra ramificação importante em Ribeirão

Preto (SP), terra de Antonio Palocci (PT-SP). Irromperam sucessivos indícios de condutas

inadequadas e corrupção na cidade, na época em que a administração municipal estava sob

o comando do prefeito Antonio Palocci. Apesar da gravidade das denúncias que só se

avolumavam, Lula fez reiteradas defesas do seu ministro da Fazenda.

Quanto mais era denunciada a participação de Antonio Palocci na malversação dos

contratos de limpeza pública de Ribeirão Preto, mais manifestações de Lula a elogiar o exprefeito.

Como justificar a defesa de alguém cujos procedimentos e o envolvimento em

possíveis falcatruas ficava cada vez mais evidente?

O noticiário era farto: inquéritos, provas documentais e testemunhas. Principalmente os

depoimentos do advogado Rogério Buratti. Ele manteve ligações estreitas com o PT, mas

decidiu contar o que sabia para melhorar sua situação na Justiça. Por que, então, a solidariedade

a Antonio Palocci? Aparentemente, só havia uma explicação: Antonio Palocci sabia

demais. Impossível a Lula simplesmente demiti-lo e mandá-lo de Brasília de volta a Ribeirão

Preto. Neste sentido, Palocci era uma pedra no sapato do presidente.

Ao admitir a hipótese de impeachment de Lula, o presidente da OAB (Ordem dos Advogados

do Brasil), Roberto Busato, falou da proximidade do presidente com Luiz Gushiken

(PT-SP), outro integrante do “núcleo duro” do Palácio do Planalto. Roberto Busato tratou

do caso Visanet, ou seja, do dinheiro de publicidade do Banco do Brasil que, de acordo com

as investigações da CPI dos Correios, foi desviado para o PT:

- A revelação de repasses de verba de publicidade da Visanet, ligada ao Banco do Brasil,

a agências de Marcos Valério, e de distribuição a parlamentares sempre em épocas apropriadas

ao governo, atingiu mortalmente o coração de Gushiken. E, ao atingir Gushiken, atinge

Lula, na medida que o presidente não tomou nenhuma atitude para afastá-lo do governo.

É prova inconteste de que Lula sabia exatamente de todo o esquema e estava de acordo com

a sua existência.

Para Roberto Busato, não havia dúvidas:

- A participação de Lula é absolutamente baseada pela proximidade de quem sempre foi

confidente e grande amigo de Gushiken. O ex-ministro realmente comandava toda a área de

comunicação do Governo Federal, onde havia um desvio de dinheiro público para atividades

partidárias e delituosas no sentido de corromper o Congresso Nacional.

Em depoimento à CPI dos Bingos, o economista Paulo de Tarso Venceslau apresentou

mais evidências de que Lula tinha conhecimento sobre o que se passava à sua volta. Gente

próxima do presidente estava exposta a denúncias de corrupção. Paulo de Tarso Venceslau

relatou em 17 de janeiro de 2006 que enviara em 1995 uma carta a Lula para contar sobre as

peripécias do amigo e compadre do presidente, advogado Roberto Teixeira. Na década de

80, Teixeira emprestara um imóvel para Lula morar em São Bernardo do Campo.

Roberto Teixeira representava uma empresa que vivia batendo nas portas das prefeituras

do PT para obter contratos sem licitação, com base “em notas falsas e rasuradas”. Apesar

de informado, Lula nada fez na época. Como se vê, a coisa vinha de longe.

Insatisfeito com a falta de ação de Lula, Paulo de Tarso Venceslau procurou o senador

Aloizio Mercadante (PT-SP), sempre muito próximo do presidente. Reação de Aloizio

Mercadante ao ler a carta endereçada a Lula, segundo a versão não desmentida de Paulo de

Tarso Venceslau:

- Ele ficou chocadíssimo e disse: “Isso é nitroglicerina pura”. Mas não fez nada. Afirmava

que tentava sem conseguir. O silêncio continuou.

Pergunta-se: como “tentava sem conseguir”? Mercadante tinha acesso privilegiado a

Lula. Sempre teve. Em 1994, por exemplo, foi candidato a vice-presidente da República

quando Lula tentou chegar ao Palácio do Planalto pela segunda vez. Se Mercadante alertou

sobre a inconveniência da presença de Teixeira mas não conseguiu afastá-lo do PT, a resistência

teria sido do próprio Lula. Não havia outra hipótese. Venceslau também contou tudo

a Frei Betto, outro amigo histórico de Lula. Frei Betto dirigiu-se assim a Venceslau:

- Se o Lula souber que alguém está conversando com você, ele jura que aquela pessoa

vai ser decapitada do partido.

Lula protegia o esquema suspeito de corrupção, engendrado por seu compadre. Ressalte-

se que isso ocorreu em 1995. Desde 1993, porém, Paulo de Tarso Venceslau vinha denunciando

Roberto Teixeira. Na época, Venceslau era secretário de Finanças de São José dos

Campos (SP), cidade cuja prefeita era Ângela Guadagnin (PT-SP).

Ângela Guadagnin foi ouvida depois do depoimento de Venceslau. Ela admitiu outro

problema, o de que Paulo Okamotto, homem de confiança do presidente Lula, percorria

prefeituras do PT na década de 90. Paulo Okamotto ia atrás de listas de fornecedores das

administrações. De posse dos nomes das empresas, ia a campo pedir dinheiro a quem mantinha

contratos com os governos do PT. Ângela Guadagnin é outra estrela do PT que teve

papel importante nos desdobramentos do escândalo do mensalão. Aqui, ela admitiu:

- O que fica desse episódio é que se conhecia o esquema de arrecadação paralela há

muito tempo, desde 1993.

A coisa é anterior. Em 1989, a primeira eleição direta para presidente depois da ditadura

militar. A primeira disputada por Lula. Ele mesmo, pessoalmente, pediu à então prefeita de São

Paulo, Luiza Erundina, na época no PT, um esquema que alterasse a ordem cronológica dos

pagamentos a empresas contratadas para fornecer bens e serviços à administração municipal.

Naquele final da década de 80, o Brasil vivia tempos de inflação galopante. Receber

antes do prazo estipulado, portanto, permitiria fazer aplicações financeiras que renderiam

bom dinheiro. Quem fosse contemplado com o benefício retribuiria à altura, com transferências

generosas de dinheiro para o caixa 2 do PT. Luiza Erundina resistiu.

Em 1998, Lula foi candidato a presidente pela terceira vez. Em 9 de fevereiro de 2006,

depôs ao Ministério Público o ex-secretário de Habitação de Mauá (SP), Altivo Ovando

Júnior. No ano de 1998, aquela cidade da Grande São Paulo estava sob comando do prefeito

Oswaldo Dias (PT). De acordo com o depoimento de Altivo Ovando Júnior, Lula pressionou

por dinheiro para financiar a sua campanha eleitoral. Do depoimento:

“O declarante se recorda de que, no pleito de 1998, o presidente Lula compareceu no

gabinete do prefeito de Mauá, oportunidade em que, utilizando termos chulos, cobrou de

Oswaldo Dias maior arrecadação de propina em favor do PT.”

Durante o depoimento, foi reproduzida frase atribuída a Lula:

“Ele dizia: ‘Pô, Oswaldão, tem que arrecadar mais, faz que nem o Celso Daniel em

Santo André. Você quer que a gente ganhe a eleição como?”

Naquele ano, Lula voltou a perder, pela terceira vez consecutiva. Mas, em 2002, disputou

novamente e foi eleito presidente da República. Passou a despachar no gabinete do

terceiro andar do Palácio do Planalto. Após mais de três anos como o mais alto mandatário

do País, ficaria difícil acreditar que não soubesse o que acontecia na sala bem ao lado da

sua, ocupada durante parte daquele período de turbulência pelo superministro Antonio Palocci

(PT-SP). E ali se urdiu a conspiração contra o caseiro Francenildo Santos Costa.

O rapaz havia desmascarado Antonio Palocci. Contestou as mentiras do ministro. Antonio

Palocci procurava um meio de negar o impossível, o fato de ter sido um frequentador da

“casa dos prazeres”. A mansão fora alugada em Brasília pela “república de Ribeirão Preto”,

como ficou conhecido o grupo de colaboradores do então ministro, e costumava ser reduto

para festas com garotas de programa.

Lula participou ativamente da tentativa de blindar Palocci. O presidente teria tramado

o recurso ao STF (Supremo Tribunal Federal) para suspender o depoimento de Francenildo

Santos Costa à CPI dos Bingos. As investigações sobre o caso mostraram que Lula fora

informado pessoalmente da ordem de Palocci para a violação do sigilo bancário do caseiro.

Jorge Mattoso, o então presidente da Caixa Econômica Federal, avisara-o em 24 de

março de 2006.

A rigor, Lula já recebera informações a respeito quatro dias antes, em 20 de março,

quando o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, relatou ao presidente o envolvimento

de Antonio Palocci na quebra do sigilo. Palocci só seria afastado em 27 de março, uma

semana depois. Naquele momento, não havia mais jeito de desvinculá-lo do crime. Durante

todo o escândalo, para variar, Lula deu uma de quem não sabia de nada.

No auge da crise, em 23 de março, houve uma reunião na casa de Antonio Palocci. A

revista Veja relatou que um sindicalista nomeado por Lula na vice-presidência da Caixa

Econômica Federal fora escolhido para subornar algum funcionário da Caixa, com R$ 1

milhão. A ideia era encontrar alguém para assumir a violação do sigilo.

O tal sindicalista, Carlos Augusto Borges, era homem de confiança de Lula. Será possível

que o presidente não soubesse da missão de Borges? Ou, ao contrário, teria sido exatamente

o presidente quem o sugerira para pilotar a operação de suborno? Tudo indica que

Lula considerava sua obrigação fazer o que estivesse ao alcance para salvar Antonio Palocci,

que tantos serviços lhe prestara, desde a campanha eleitoral de 2002.

Lembra-se que foi Antonio Palocci quem assumiu o papel de coordenador daquela campanha,

depois da morte de Celso Daniel. Infere-se que Antonio Palocci fez o que Celso

Daniel estaria fazendo. Sabe-se que, depois da reunião na casa de Palocci, o ministro da

Fazenda e Márcio Thomaz Bastos foram se encontrar com Lula no Palácio do Planalto.

Em 16 de abril de 2006, o ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, concedeu entrevista

à Folha de S.Paulo. Ele reproduziu as palavras de José Dirceu ao procurá-lo na véspera

da votação do processo que cassou o mandato de deputado de José Dirceu. O ex-ministro

queria o apoio de Anthony Garotinho para não perder o cargo. José Dirceu teria dito assim:

36

- Saiba que tudo o que fiz, tudo, fiz porque o Lula mandou. Você acha que ia mandar

bloquear o dinheiro do Rio e o Palocci iria obedecer? Todo político tem alguém que faz o

lado mau. Estou pagando agora por ter feito o lado mau.

Publicada a entrevista, o comentário do ex-deputado José Dirceu, devidamente cassado,

sobre a declaração de Anthony Garotinho:

- Não vou bater boca com ele.

Informações que vieram a público e não foram desmentidas, durante a segunda quinzena

de abril de 2006, davam conta de que José Dirceu, depois de cassado, continuou a se

reunir com Lula e integrantes do Governo Federal. Fora incumbido pelo presidente de tocar

tarefas estratégicas, como a de se encontrar com o ex-presidente Itamar Franco, com quem

Lula tentava uma aproximação política. A rigor, José Dirceu continuaria a cumprir missões

para as quais seria designado por Lula no segundo mandato do presidente. Exemplos: a

articulação em defesa do mandato do senador José Sarney (PMDB-AP), acusado de quebra

do decoro parlamentar; o estreitamento dos laços políticos entre PT e PMDB; e a costura

política em prol da candidatura da ministra Dilma Rousseff (PT-RS) à Presidência da República

em 2010.

Se Lula manteve relacionamento estratégico com José Dirceu, era falácia o discurso do

presidente de que fora apunhalado pelas costas no escândalo do mensalão. O afastamento

de José Dirceu de seu governo teria sido só um jeito de manter as aparências. Mesmo nos

bastidores, Dirceu era essencial a Lula.

José Dirceu pagou caro. Foi cassado justamente por ter sido apontado como o responsável

pelo esquema de corrupção. Ele apenas o operava. E como Lula não interrompeu a

parceria com José Dirceu, era conversa mole a de que o presidente havia sido traído.

Este livro é um empenho pela memória. Tantos os caminhos da corrupção, dos personagens

corruptores e corrompidos, que ao longo dos 403 dias da crise do escândalo do mensalão

fizeram esquecer e cansar. Ficamos anestesiados, descrentes. Temos de lembrar.

Lula não queria a verdade. Nunca a quis. O chefe de tudo foi, desde o início, como se

verá no dia a dia dos acontecimentos, o próprio presidente Lula.

IV

A história do ‘acordo criminoso’ da

chapa Lula/José Alencar em 2002

A revelação dos detalhes da negociação entre o Partido dos Trabalhadores e o Partido

Liberal para acertar a chapa Lula/José Alencar que disputaria a Presidência da República

em 2002 constituiu um dos episódios mais graves da era Lula. Não teve a repercussão

merecida. A verdade é que não houve entendimento político em torno de propostas para o

País, nem tampouco o debate sobre um programa de governo. Tratou-se de dinheiro, apenas.

De quanto o PT repassaria para o PL, a fim de obter apoio do partido ao qual era filiado

o homem que Lula desejava como seu vice-presidente.

Ao denunciar o escândalo do mensalão, o procurador-geral da República, Antonio

Fernando de Souza, qualificou a aliança eleitoral entre PT e PL de “acordo criminoso”. Ele

acusou o deputado cassado José Dirceu (PT-SP) e os presidentes nacionais das duas legendas,

deputado José Genoino (PT-SP) e o na época ex-deputado Valdemar Costa Neto (PLSP),

que havia renunciado para se livrar de eventual cassação do mandato por quebra de

decoro. Mas deixou de fora Lula (PT-SP) e José Alencar (PL-MG). Trecho da denúncia

encaminhada ao STF (Supremo Tribunal Federal), na qual o procurador-geral abordou as

operações de lavagem de dinheiro com as quais o PT pagou o PL:

“De fato, consciente de que os montantes eram oriundos de organização criminosa voltada

para o cometimento de crimes contra a administração pública e contra o sistema financeiro

nacional, os denunciados articularam mecanismo para dissimular a origem, natureza e

destino dos valores auferidos.”

A história do acordo PT/PL quase não repercutiu porque foi revelada num dos momentos

mais graves do escândalo do mensalão e acabou ofuscada pela enxurrada de acontecimentos.

A revista Época que trouxe a entrevista com Valdemar Costa Neto confessando a operação

de suborno circulou em 13 de agosto de 2005, no dia seguinte àquele em que Lula

admitiu ter sido “traído por práticas inaceitáveis” e afirmou não ter vergonha de dizer ao

povo brasileiro “que nós temos de pedir desculpas. O PT tem que pedir desculpas. O governo,

onde errou, tem que pedir desculpas”.

Lula, aliás, jamais iria apontar quem o traíra. Nem tampouco é o caso de simplesmente

pedir desculpas para se livrar de atos criminosos. Lula procurava ganhar tempo na tentativa

de reduzir os danos do depoimento do publicitário Duda Mendonça à CPI dos Correios,

ocorrido na véspera. Talvez tenha sido o fato mais marcante da crise. O homem responsável

pela campanha que elegera o presidente da República confessara o recebimento de R$ 11,9

milhões em caixa 2. Dinheiro repassado por Marcos Valério, e que serviu para pagar os

serviços prestados a Lula por Duda Mendonça em 2002. Para muitos analistas, teria sido o

momento certo para deflagrar o processo por crime de responsabilidade contra Lula, cuja

pena seria o seu impeachment.

Neste contexto, chegava às bancas de jornal a revista Época com a entrevista de Valdemar

Costa Neto concedida aos repórteres Thomas Traumann e Gustavo Krieger. Como se sabe,

Valdemar Costa Neto foi um dos artífices da aliança PT-PL. Ele dera os detalhes do acordo:

- Tudo começou nas negociações para fechar o apoio a Lula em 2002, com José Alencar,

do PL, como vice. Tivemos muitas reuniões em Brasília, na casa do José Dirceu. Sempre

participavam o João Paulo Cunha, quase sempre o Silvio Pereira, sempre o Delúbio Soares,

além do José Alencar.

Valdemar Costa Neto contou que, com a aprovação da verticalização das eleições, ou

seja, com a obrigatoriedade de as alianças regionais seguirem a coligação nacional, o PL

precisou de dinheiro:

- A questão é que o PL precisava ter 5% dos votos para ter as verbas do fundo partidário.

Com a verticalização, as nossas chances de chegar a 5% eram pequenas, porque só

poderíamos coligar com o PT. Falei para o Zé Dirceu: “Para isso, preciso de uma estrutura

muito maior para segurar meu pessoal”. Ele falou: “Mas quanto?” Eu falei: “R$ 15 milhões,

R$ 20 milhões”.

O PT dizia não ter dinheiro. Valdemar Costa Neto envolveu Lula e Alencar:

- Já estávamos fazendo uma nota conjunta dizendo que a coligação PT-PL não ia sair

quando me liga o Zé Alencar. Eu contei a ele que não conseguimos chegar a um número.

“Não vou prejudicar nosso pessoal todo em troca de uma aliança”, falei. O Zé Alencar disse

para eu não assinar a nota conjunta. Daí 15 minutos, ele ligou e disse que o Lula viria no dia

seguinte a Brasília resolver o assunto.

Ficou claro o envolvimento de Lula. Valdemar Costa Neto dissera que não se chegara a

“um número”, Alencar pediu um tempo e em 15 minutos telefonou e informou que Lula

viajaria a Brasília para resolver. A negociação:

- A reunião foi no apartamento do deputado Paulo Rocha. Estavam lá o Lula, o José

Alencar, o Dirceu e o Delúbio. O Lula chegou para mim e disse: “Quer dizer então que você

é o nosso problema?” “Não posso matar o nosso pessoal”, respondi. O Zé Dirceu não queria

falar de dinheiro, queria negociar a participação no governo: “Valdemar, vamos governar

juntos?” Respondi: “Mas, desse jeito, não vai sobrar ninguém na Câmara para governar

junto com vocês”. Depois o Lula até falou para o Zé Alencar: “Vamos sair porque esta

conversa é entre partidos, não entre candidatos”. Daí o Delúbio chegou perto de mim e

disse: “Vamos conversar”.

- E vocês falaram de números…

- O Lula e o Alencar ficaram na sala e fomos para o quarto eu, o Delúbio e o Dirceu. Eu

comecei pedindo R$ 20 milhões, para levar uns R$ 15 milhões. Daí, ficou aquela discussão.

Uma hora, o Zé Alencar entrou e falou: “E aí, já resolveram?” Eles achavam que iam arrecadar

R$ 40 milhões. Eu falei: “Tira R$ 15 milhões para a gente. É justo”. Eles ameaçaram

ir embora. O Lula mandou ligar para o Patrus Ananias e avisou que, se a conversa não desse

certo, ele seria o candidato a vice na chapa. Uma hora, o Dirceu chegou a dizer “acabou”.

Eles batiam tanto o pé comigo que eu pensei: “Ô povo firme. Esses vão me pagar rigorosamente

em dia”. Daí chamei o Zé Dirceu de volta para o quarto. O Zé Alencar veio junto.

Falei: “Vamos acertar os R$ 10 milhões”. Voltamos para a sala e avisamos: “Está fechado”.

Lembro ainda que o Zé Alencar falou “peça tudo por dentro”.

- Lula sabia que a conversa no quarto era sobre dinheiro?

- Ele sabia. O presidente sabia o que a gente estava negociando. Olha, ele e o Zé Dirceu

construíram o PT juntos. O Lula sabia o que o Dirceu estava fazendo. O Lula foi lá para

bater o martelo. Tudo o que o Zé Dirceu fez foi para construir o partido.

- O vice-presidente José Alencar falava “tudo por dentro”. E o presidente Lula

dizia o quê?

- Nunca falou. Quando saí, ele me falou: “Então está liquidado o assunto”. O Lula foi lá

para autorizar a operação. E não vejo nada demais. O que ninguém esperava é que desse

essa lambança.

Hora do pagamento. Delúbio Soares procurava Valdemar Costa Neto:

- Em fevereiro de 2003, ele falou que ia me dar a primeira parcela. Falou para eu mandar

meu pessoal até a SMPB, em Belo Horizonte, para pegar o dinheiro. Perguntei quanto era.

Ele disse: “Eu não sei. Vai lá”. Mandei o Jacinto Lamas. Chegou lá, o Jacinto me liga: “Não

é dinheiro, me deram um envelope”. Eu falei: “Nem abre”. E liguei para o Delúbio. Falei:

“Delúbio, é um envelope”. Ele falou: “Não tem problema, pode trazer”. Mandei o Jacinto

levar o envelope fechado para São Paulo, até o flat onde eu morava. Quando abri o envelope,

eram cheques. O total era de R$ 800 mil. Todos cheques da SMPB, para uma empresa

chamada Guaranhuns. Eu liguei de novo para o Delúbio. Ele falou: “Fica tranquilo, que eu

vou mandar buscar o cheque aí”. Passa uma hora, vem um segurança, desse pessoal que

mexe com dinheiro, e falou assim: “Vim resgatar”. E me deixou o dinheiro. Dinheiro vivo,

cash. Estava numa daquelas malinhas com rodinhas, de levar no aeroporto. Chamei alguns

fornecedores de campanha e eles pegaram todo o dinheiro.

- Esse procedimento, de pegar cheques na SMPB e trocar por dinheiro em São

Paulo, se repetiu?

- Duas ou três vezes. O sujeito chegava, colocava o dinheiro na mesa e pedia que eu

conferisse. Separava direitinho nos pacotes.

Valdemar Costa Neto garantiu que o dinheiro não seguia para deputados do PL, apenas

para fornecedores de campanha. Nas viagens a Belo Horizonte, segundo ele, o tesoureiro

Jacinto Lamas foi buscar um total de R$ 3,2 milhões. O presidente do PL disse que ficava

preocupado com a logística de mandar pegar cheques na capital mineira, mas o esquema

não incomodava Delúbio.

- Quando você está no governo, você é o dono do mundo. Você não tem preocupação

com nada. Eu disse para ele: “Você está me mandando em cheque e eu quero em dinheiro.

Para com isso. Me tira desse negócio lá de Minas Gerais, que está ficando ruim para mim”.

Aí, eles inventaram aquele negócio do Banco Rural. Mas foi só em setembro. De abril a

setembro de 2003, não recebi nada.

- O dinheiro era sempre entregue na SMPB ou no Banco Rural?

- Não, teve dinheiro que eles entregaram para mim. Entregaram para o Jacinto em

Brasília… O Jacinto chegou a receber em hotéis. Uma vez, em São Paulo, mandaram ele

pegar o dinheiro num restaurante. Era sempre o Delúbio quem me avisava que o dinheiro

estava liberado.

Os repórteres de Época perguntaram quando os pagamentos passaram a ser feitos diretamente

no Banco Rural. Valdemar Costa Neto respondeu:

- O Delúbio falou: “Vou mandar o dinheiro para Brasília. Pega no Banco Rural”. Isso me

atrapalhava, porque os credores do PL estão em São Paulo. O Jacinto Lamas deixava o

dinheiro comigo, e os credores iam receber lá em casa. Primeiro no hotel Academia de

Tênis, onde eu morava. Depois na minha casa, em Brasília.

Valdemar Costa Neto levou uma “geladeira de um ano” do ministro José Dirceu, por

divergências na Reforma da Previdência. Nesse período, de acordo com ele, “José Dirceu

escolheu operar com o Roberto Jefferson. O Jefferson era o cara que estava sempre com

eles, que andava com o Lula. Eles entraram nesta porque quiseram. Jefferson é um sujeito

conhecido na praça”.

- Conhecido como?

- Conhecido. Como um cara mal-intencionado, perigoso. Para indicar diretor de estatal…

Ele diz que indicava diretores de estatais para arrecadar dinheiro para o PTB. Em dois anos

de governo Lula, o PTB arrecadou oficialmente R$ 200 mil. Ele diz que arrecadava R$ 400

mil por mês em uma estatal. Onde ele punha esse dinheiro? Ia para o bolso dele. Eles

acabaram como tinham de acabar. Em Brasília, você é obrigado a conviver com pessoas que

não gosta. Mas não precisa colocar dentro de sua casa. Eles escolheram conviver com um

cidadão assim. Eles indicavam aos deputados para ir para o PTB. Tem de perguntar para

eles por que esta preferência.

Época indagou quanto Valdemar Costa Neto recebeu do esquema Valério:

- Foram R$ 6,5 milhões. Não chegou aos R$ 10,8 milhões que estão falando. Estão

botando R$ 4 milhões a mais na minha conta. Dinheiro que foi repassado para a Guaranhuns

e um outro cheque, que não é nosso.

- Delúbio Soares diz ter montado o caixa 2 sozinho. É possível que o ex-ministro

José Dirceu não soubesse do que estava acontecendo?

- O Zé Dirceu sempre comandou o PT. O Zé e o Lula. Eu cheguei a cobrar o Zé diversas

vezes no Planalto. Falei: “Zé, meu dinheiro está vindo pingado, em conta-gotas”. Falei que

eu queria receber tudo de uma vez. O Zé disse: “Calma que o Delúbio está providenciando

o dinheiro para te pagar. Ele vai arrumar o dinheiro e resolver tudo”.

- Ele sabia o que o Delúbio estava fazendo?

- É gente deles. Esse pessoal construiu o PT junto. Delúbio, Lula e José Dirceu são a

mesma família. Por que, agora, na desgraça, só um vai pagar? Tenho certeza de que o

Dirceu nunca fez nada que o presidente não aprovasse.

Três dias depois de publicada a confissão de Valdemar Costa Neto, o vice José Alencar

concedeu entrevista durante evento no Palácio do Planalto. Confirmou as declarações

de Valdemar:

- Tudo aquilo que ele fala é verdade. Houve uma reunião e houve um acordo. Esse

acordo está registrado na imprensa no ano de 2002, um acordo eminentemente político.

V

O escândalo do dossiê: flagrante

de R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo

Lula conseguiu o que parecia impossível. Sobreviveu ao escândalo do mensalão.

Mais que isso: não perdeu a popularidade e se tornou o favorito à própria sucessão.

Provavelmente teria sido reeleito já no primeiro turno das eleições de 2006, não fosse

um outro escândalo.

No País da corrupção e da impunidade, tamanha desfaçatez, duas semanas antes do

pleito, talvez se explique pela crença de que após se livrar do episódio do mensalão nada

mais poderia pegá-lo. Lula e o PT sentiram-se livres para delinquir novamente.

O novo esquema de corrupção serviu para levar as eleições ao segundo turno e confirmar

os métodos daqueles que durante 20 anos, até a conquista do poder, definiram a si próprios

como paladinos da ética na política.

A história começou em 15 de setembro de 2006, quando dois homens foram presos pela

Polícia Federal no hotel Ibis Congonhas, em São Paulo, com o equivalente a R$ 1,7 milhão

em dinheiro vivo. Um deles, o empresário Valdebran Carlos Padilha da Silva, ligado ao PT

de Mato Grosso, foi apontado como lobista, receptador e próximo ao deputado Carlos Abicalil

(PT-MT). Foi tesoureiro da campanha de Alexandre César (PT) a prefeito de Cuiabá.

Valdebran Padilha mantinha ligações com Carlos Bezerra, que foi presidente do PMDB

de Mato Grosso e presidente do INSS (Instituto Nacional de Seguro Social), no governo

Lula. Além disso, tinha sido citado no escândalo do mensalão. Com Valdebran Padilha

foram apreendidos R$ 758 mil em reais e outros US$ 109,8 mil em moeda norte-americana.

O outro homem preso no hotel em São Paulo, o advogado e ex-agente da Polícia Federal

Gedimar Pereira Passos, também era ligado ao PT. Com ele acharam R$ 410 mil e outros

US$ 139 mil em dólares. Gedimar Passos fazia parte da equipe da campanha de Lula à

reeleição. Trabalhava no núcleo de inteligência do comitê eleitoral, encarregado de “tratamento

de informações”.

As escutas telefônicas que levaram às prisões registraram diálogos sobre uma negociação

envolvendo a venda de materiais e documentos, com a finalidade de associar os candidatos

do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin (SP), e ao Governo de São

Paulo, José Serra, a operações de superfaturamento para a aquisição de ambulâncias por

prefeituras, um esquema criminoso que ficou conhecido como a máfia dos sanguessugas.

As escutas telefônicas implicariam ainda o empresário Luiz Antônio Trevisan Vedoin,

acusado de chefiar o esquema de venda das ambulâncias, e a revista Isto É, por ter publicado

entrevista de Luiz Antônio Trevisan Vedoin com acusações a integrantes do PSDB. Luiz

Antônio Vedoin foi preso. Por tratar da compra e venda de materiais e documentos, o caso

ficou conhecido como o escândalo do dossiê.

Em depoimento à Polícia Federal, Gedimar Passos confessou ter sido contratado pela

direção executiva nacional do PT para acertar com a família Vedoin, dona da empresa Pla42

nam Comércio e Representação, a compra de um dossiê contra políticos tucanos. A transação

com os Vedoin traria em seu bojo, ainda, a entrega de uma papelada de 2 mil páginas

com diversas denúncias, inclusive contra o próprio PT. Com a operação, o calhamaço seria

tirado de circulação e não poderia mais ser usado contra o partido de Lula.

No depoimento, Gedimar Passos mencionou acordo entre o PT e um “órgão de imprensa”

para a divulgação dos documentos de interesse da campanha do presidente Lula. Informou

que R$ 1 milhão já teria sido entregue antecipadamente a um representante dos Vedoin.

Gedimar Passos implicou no escândalo um assessor especial da Presidência da República.

Tratava-se de Freud Godoy, amigo de Lula havia 20 anos. Ele teria participado da trama

ao providenciar o dinheiro para comprar o dossiê, entregando-o a ele próprio, Gedimar

Passos, por intermédio de dois emissários do PT. Dias depois, Gedimar Passos voltaria

atrás: retirou a informação e eximiu Freud Godoy de qualquer responsabilidade. Dessa forma,

blindou Lula e ajudou a livrá-lo do escândalo.

Freud Godoy foi segurança pessoal de Lula desde o final da década de 80. Frequentava

o apartamento do presidente em São Bernardo do Campo (SP). Para se ter ideia da ligação

dos dois, quando Lula assumiu a Presidência da República, em janeiro de 2003, levou Freud

Godoy para morar com o casal presidencial na residência oficial do Palácio da Alvorada. O

segurança também era figura certa em viagens no avião presidencial, o Aerolula.

Imediatamente, Freud Godoy pediu exoneração do cargo de assessor especial e abandonou

a sala que ocupava no terceiro andar do Palácio do Planalto, a poucos metros do gabinete

de Lula. À Polícia Federal, Freud Godoy admitiu conhecer Gedimar Passos e o relacionou

à contratação da empresa Caso Sistemas de Segurança, de propriedade de sua mulher,

jornalista Simone Godoy, pelo comitê do PT em Brasília.

Freud Godoy introduziu mais um personagem importante da história: Jorge Lorenzetti,

outro amigo pessoal de Lula, encarregado de preparar churrascos para o presidente. Mais do

que churrasqueiro oficial de Lula, Jorge Lorenzetti, chefe de Gedimar Passos, era tido como

“o homem da inteligência”, escolhido por Lula para, entre outras coisas, cuidar de campanhas

eleitorais em Santa Catarina. Nesse Estado foi fundador do PT e da CUT (Central

Única dos Trabalhadores, ligada ao partido) e o primeiro candidato petista a prefeito de

Florianópolis, em 1985.

Na campanha de reeleição de Lula, em 2006, Jorge Lorenzetti foi nomeado para a

sinistra posição de “analista de mídia e risco”. Com tal objetivo licenciou-se do cargo de

diretor administrativo do Besc (Banco do Estado de Santa Catarina), um banco federal,

para o qual fora nomeado por influência de Lula. Jorge Lorenzetti mantinha ligações com

José Dirceu (PT-SP), cassado por corrupção em 2005, e era conhecido arrecadador de

fundos internacionais.

De acordo com Freud Godoy, Jorge Lorenzetti o apresentou a Gedimar Passos, a quem

não conhecia, o que teria ocorrido em agosto de 2006, apenas um mês antes de o escândalo

explodir. Foi no Diretório Nacional do PT, em Brasília. Gedimar Passos era o responsável

pela segurança e a logística do comitê político de Lula.

Durante aquele mês, Freud Godoy admitiu ter se reunido em outros quatro momentos

com Gedimar Passos, mas apenas a fim de discutir o processo de varredura nos telefones do

comitê, trabalho para o qual a empresa em nome de sua mulher, Simone Godoy, fora

contratada.

Freud Godoy também teria ligações com Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”, outro

segurança famoso que se tornou empresário, acusado de envolvimento na morte do prefeito

de Santo André (SP), Celso Daniel (PT).

Antes da eleição de Lula em 2002, Freud Godoy era chefe de segurança da Prodam, a

empresa de processamento de dados da Prefeitura de São Paulo, na gestão da prefeita Marta

Suplicy (PT). A Caso Sistemas de Segurança, em nome de Simone Godoy, também trabalhou

na área de segurança da campanha de Marta Suplicy à reeleição, em 2004.

O escândalo do dossiê repercutiu em todo o País. No depoimento que prestou à Polícia

Federal, Gedimar Passos mencionou a revista Época: teria sido procurada por integrantes

do PT, cuja missão seria a de garantir a publicação da notícia do dossiê contra o PSDB na

grande imprensa. A investida não prosperou.

A revista, no entanto, emitiu nota para informar que Oswaldo Bargas, o “Valdo”, responsável

pelo setor de “trabalho e emprego” na campanha da reeleição de Lula, pediu uma

reunião com jornalistas para apresentar denúncia contra políticos tucanos. Oswaldo Bargas

também era amigo pessoal de Lula.

Na reunião, no hotel Crowne Plaza, em São Paulo, Oswaldo Bargas apareceu acompanhado

de Jorge Lorenzetti, o amigo e churrasqueiro de Lula. Em relação a Jorge Lorenzetti,

aliás, vieram à tona informações segundo as quais a Unitrabalho, uma fundação vinculada a

universidades e a instituições de ensino superior, recebeu, por meio de convênios, R$ 18,5

milhões durante o governo Lula, a maior parte por intermédio do Ministério do Trabalho.

Jorge Lorenzetti foi apontado como colaborador da Unitrabalho. Com o nome nos jornais,

ele se afastou da campanha de Lula.

Antes de afastar-se, porém, Oswaldo Bargas envolveu outro peixe graúdo na história: o

presidente do PT e coordenador-geral da campanha de Lula, o ex-ministro do Trabalho e

deputado Ricardo Berzoini (PT-SP). Detalhe: a mulher de Oswaldo Bargas, Mônica Cristina

Zerbinato, ocupava o cargo de secretária particular de Lula. Como se vê, tudo em família.

Segundo Oswaldo Bargas, que trabalhou com Ricardo Berzoini no Ministério do Trabalho,

Ricardo Berzoini sabia que ele, Oswaldo Bargas, acompanhado de Jorge Lorenzetti,

procuraram a revista Época para negociar a publicação de reportagem contra o PSDB.

Lula foi rápido no gatilho e afastou Ricardo Berzoini da coordenação da campanha. Em

seguida, Ricardo Berzoini também perdeu o cargo de presidente do PT. Recuperaria-o depois

da reeleição de Lula, com o apoio do presidente. Oswaldo Bargas também foi

defenestrado. Um a um, caíram os homens do presidente naquele momento.

O caso do dossiê não parou de trazer revelações. Freud Godoy manteve relações com um

dos próceres do escândalo do mensalão, o empresário Marcos Valério. A Caso Comércio e

Serviços, uma segunda empresa ligada ao segurança-empresário, recebeu R$ 98,5 mil da

SMPB Comunicações, uma das agências de publicidade de Marcos Valério.

Até a Duda Mendonça e Associados, igualmente famosa durante o escândalo do mensalão,

pertencente a Duda Mendonça, o publicitário marqueteiro de Lula durante a campanha de

2002, pagou R$ 22,8 mil à Caso Sistemas de Segurança, de Simone Godoy. E mais: a Caso

Sistemas de Segurança teria servido para o investidor Naji Nahas fazer um depósito de R$

396 mil em favor de Freud Godoy, cerca de um mês antes da eclosão do escândalo do

dossiê. Naji Nahas negou.

A sede da empresa de segurança em nome de Simone Godoy ficava em Santo André,

onde o casal morava em apartamento luxuoso. Freud Godoy também era dono de um sobrado

na cidade e de outro apartamento, este a poucas quadras do apartamento de Lula, na

vizinha São Bernardo do Campo. O Ministério Público Federal abriu investigação para

apurar um suposto saque de R$ 150 mil feito por Freud Godoy, em março de 2006.

Mais um nome no escândalo do dossiê: Expedito Afonso Veloso, filiado ao PT e diretor

do Banco do Brasil em Brasília, onde exercia a função de responsável por “gestão de risco”.

Estava em licença remunerada, para participar da campanha de Lula. Quem mencionou o

nome dele foi Valdebran Padilha. Expedito Veloso teria participado da preparação do dossiê

e da estratégia para divulgá-lo, em negociação ocorrida em Cuiabá, com o empresário Luiz

Antônio Vedoin.

Expedito Veloso acompanhou a entrevista de Vedoin a Isto É, ao lado de Oswaldo

Bargas. Também esteve no hotel Ibis Congonhas, em São Paulo, onde o escândalo começou,

com a apreensão do R$ 1,7 milhão. Descoberto, pediu demissão do Banco do Brasil

e abandonou a campanha. Apesar de afastado do banco, Veloso continuava a receber

salário de R$ 17 mil por mês.

Outro envolvido foi Hamilton Lacerda, coordenador da campanha do senador Aloizio

Mercadante (PT-SP) a governador de São Paulo em 2006. Foi três vezes vereador pelo PT

de São Caetano do Sul (SP). Até ser envolvido no escândalo, Hamilton Lacerda também

exercia o cargo de assessor parlamentar de Aloizio Mercadante. Entre as explicações da

revista Isto É para o caso, estava a de que Hamilton Lacerda atuou como intermediário da

entrevista em que os Vedoin fizeram acusações contra José Serra.

O coordenador de Aloizio Mercadante reuniu-se com jornalista da revista e marcou

o encontro entre a reportagem e Luiz Antonio Vedoin, em Cuiabá. Descobriu-se durante

as investigações que as viagens e passagens aéreas dos assessores do PT à capital de

Mato Grosso, para negociar o dossiê, teriam sido pagas com dinheiro do caixa da campanha

de Lula.

Apanhado, Hamilton Lacerda foi forçado a deixar a campanha de Aloizio Mercadante.

O senador, por sua vez, admitiu ter se encontrado com Osvaldo Bargas e Expedito

Veloso, dez dias antes da apreensão do R$ 1,7 milhão. Mas garantiu não ter tomado

conhecimento da operação para prejudicar José Serra, seu adversário direto na disputa

pelo Governo de São Paulo.

Para a Polícia Federal, Hamilton Lacerda levou o dinheiro apreendido ao hotel Ibis

Congonhas. Ele foi filmado por câmeras de segurança no saguão do hotel, um dia antes das

prisões. Portava uma mala. As imagens não deixaram dúvidas: o homem com cabelos grisalhos,

um pouco tenso, entrou no lobby do hotel por volta das 8 horas da manhã. Nas mãos de

Hamilton Lacerda, a mala preta de viagem, com a alça em volta do ombro esquerdo, para

ninguém roubar a preciosa carga. Ele estava acompanhado de Gedimar Passos. Os dois

pegaram o elevador. As câmeras também o filmaram andando pelo corredor onde ficava o

quarto em que Gedimar Passos estava hospedado. Hamilton Lacerda entrou no quarto. Saiu

em seguida. Sem a mala.

Mais tarde, Gedimar Passos foi filmado com a mesma mala, caminhando em direção ao

restaurante do hotel. Foi fazer uma refeição, mas preferiu não deixar a preciosa carga no

quarto. Na madrugada do dia 15, horas antes das prisões, Hamilton Lacerda voltou ao Ibis

Congonhas. Desta vez, portava uma maleta e uma sacola plástica. Foi embora pouco depois.

Sem a sacola. Para a Polícia Federal, ele fora levar uma segunda remessa de dinheiro

ao hotel. O R$ 1,7 milhão não teria cabido em uma só mala.

Trecho do depoimento de Hamilton Lacerda à Polícia Federal: “O declarante informa

que, provavelmente na última semana de agosto, foi contatado por Jorge Lorenzetti e Expedito

Veloso, afirmando que existiam documentos em Cuiabá relacionados à ‘máfia dos sanguessugas’

e que poderiam ser utilizados na campanha em desfavor dos candidatos do PSDB,

caso fossem verdadeiros; que o material existente teria um reflexo negativo na campanha

nacional e estaduais onde concorresse o PSDB”.

Ou seja, a campanha de Lula seria diretamente beneficiada pela operação. Quando as

fotografias da montanha de dinheiro apreendida no Ibis Congonhas apareceram nos jornais,

o PT tentou impedir a divulgação das imagens nos programas eleitorais. Não conseguiu. A

reeleição de Lula teve de ficar para o segundo turno.

Em entrevista ao jornal O Globo, Lula foi questionado se perguntou aos envolvidos no

escândalo, quase todos ligados historicamente a ele e ao PT, sobre quem teve a ideia de

comprar o dossiê e qual era a origem do dinheiro. Resposta do presidente:

- Não perguntei nem perguntarei.

Tradução: Lula não sabia de nada, como sempre, nem se interessava em saber. Mais uma

vez, porém, era beneficiário de um esquema de corrupção.

As investigações sobre o escândalo do dossiê continuaram no segundo mandato de Lula.

Avançaram pouco, porém, resvalando sempre no falso dilema e na desculpa de que não

havia sido descoberta a origem do R$ 1,7 milhão. O importante deveria ter sido o fato de

que havia o dinheiro, devidamente apreendido, e que uma quadrilha fora desbaratada num

ato criminoso. E que várias pessoas envolvidas acabaram desligadas de seus cargos, inclusive

da campanha eleitoral do presidente da República.

A CPI dos Sanguessugas, responsável pela investigação do caso do dossiê em âmbito do

Congresso Nacional, encerrou os trabalhos sem apontar nada consistente. Não responsabilizou

ninguém. A Polícia Federal, encarregada da apuração do crime, chegou a acusar Jorge

Lorenzetti, Osvaldo Bargas, Expedito Veloso e Gedimar Passos, todos homens da campanha

de Lula, como os autores da operação.

Dos quatro, no entanto, acabou indiciando apenas Gedimar Passos, preso com o dinheiro

no hotel Ibis Congonhas. Foi acusado de lavagem de dinheiro. Resumo da ópera: Lula foi

blindado, mais uma vez.

Ao tirar o foco do Palácio do Planalto, a Polícia Federal tratou de culpar o senador

Aloizio Mercadante (PT-SP). Além de Gedimar Passos, indiciou Valdebran Padilha, que

fora preso com ele segurando a bolada, Hamilton Lacerda, o coordenador da campanha de

Aloizio Mercadante, José Giácomo Baccarin, tesoureiro de Aloizio Mercadante e suspeito

de ser o dono do caixa 2, além do próprio candidato petista a governador, que seria beneficiado

com a divulgação do dossiê.

Interessante notar que o relatório da Polícia Federal afirmava que Hamilton Lacerda,

indiciado por lavagem de dinheiro, só fora chamado posteriormente a participar da ação,

pelos quatro homens da campanha de Lula, sendo que três deles, como vimos, foram inocentados

no final.

Ao justificar a acusação a Hamilton Lacerda, a Polícia Federal registrou que o coordenador

da campanha de Aloizio Mercadante era “pessoa da confiança do senador, não se imaginando

que fosse tomar uma atitude daquela responsabilidade e risco sem sua anuência”.

Outro trecho do relatório da Polícia Federal: “A alegação do candidato Aloizio Mercadante

de que não teria autorizado ataques ao seu rival político José Serra e que, por consequência,

nada sabia do dossiê, nos aparenta, no mínimo, inverossímil”.

Mas ficou nisso. O procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, pediu o

arquivamento da denúncia contra Aloizio Mercadante. O STF (Supremo Tribunal Federal)

acatou. E seis meses após as eleições foi a vez do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) arquivar

investigação judicial para apurar abuso do poder econômico e político por parte de Lula

no escândalo do dossiê. O País da corrupção e da impunidade seguiu o mesmo.

VI

Os 403 dias que marcaram

o escândalo do mensalão

Nas décadas de 60 e 70 do século 20, não foram poucos os brasileiros a desafiar os

“donos” do poder e a combater por liberdade e democracia. Muitos tombaram, mas a luta

não foi em vão. O Brasil se transformou num país livre e democrático, como demonstraram

os serviços prestados pela imprensa na apuração do escândalo do mensalão. No início

do século 21, a luta das forças progressistas é por justiça social e distribuição de

renda. E essa luta passa prioritariamente pelo combate à corrupção. A construção de uma

sociedade sem tantas desigualdades pressupõe uma imprensa atuante, sempre pronta a

denunciar o clientelismo, o fisiologismo e o chamado toma-lá-dá-cá. E a não tolerar a

impunidade dos poderosos.

Jornalistas têm a missão de apontar a falta de transparência nas ações do poder constituído,

a fim de garantir a boa aplicação do dinheiro público. Jornalistas denunciam desvios

e demais expedientes lesivos aos direitos e aos legítimos interesses do povo. Se os

homens públicos tiverem responsabilidade e espírito público, honestidade e seriedade,

teremos as ferramentas necessárias para assegurar investimentos em projetos sérios,

eficientes e de alcance social. Somente dessa forma o Brasil será um país desenvolvido e

uma grande nação.

O escândalo do mensalão confirma, uma vez mais, que a imprensa livre, pluralista e

vigilante é imprescindível à democracia a ao Estado de Direito. Nada melhor para a sociedade

do que jornalistas determinados, incapazes de se curvar a pressões econômicas, chantagens

políticas ou ao benefício das sempre generosas verbas publicitárias, em troca da

omissão e do silêncio sobre o jogo sujo dos “donos” do poder.

Nesta cronologia dos 403 dias do escândalo do mensalão, muitos profissionais de imprensa

aparecem citados nominalmente. São repórteres que não se intimidaram, não abaixaram

a cabeça aos governantes da vez, e assim contribuíram de forma decisiva para desvendar

os fatos e elucidar detalhes do maior esquema de corrupção governamental de que se

tem notícia no Brasil, em todos os tempos.

Dia n°1

14/maio/2005 A revista Veja chega às bancas de jornal. Traz a reportagem “O homemchave

do PTB”. Transcreve trechos de uma fita de 114 minutos de duração, filmada e gravada

por dois homens. O interlocutor deles, Maurício Marinho, chefe do Departamento de

Contratação e Administração de Materiais da ECT (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos),

não sabe que uma câmera oculta registra todas as suas palavras.

O repórter de Veja, Policarpo Júnior, descreve a cena em que Marinho pega de um suposto

empresário a propina – um maço de R$ 3.000 – e, sem conferi-lo, coloca-o no bolso

esquerdo do paletó. É uma “aula de corrupção”, afirma o repórter, que em outro trecho se

refere aos “políticos desonestos que querem cargos apenas para fazer negócios escusos -

cobrar comissões, beneficiar amigos, embolsar propinas, fazer caixa 2, enriquecer ilicitamente.

Quem tem intimidade com o poder de Brasília sabe que esses casos não são a exceção

– e em alguns bolsões de corrupção são até mesmo a regra”.

O flagrante vai para o noticiário dos telejornais. As imagens chocam. Mostram Maurício

Marinho, inspirado, que desanda a conversar. Ele conta detalhes dos bastidores políticos do

governo do presidente Lula. O funcionário acha que está trocando ideias com dois empresários

interessados em vender equipamentos de informática aos Correios. Vai logo dizendo: é

preciso fazer “um acerto” para se tornar fornecedor dos Correios. De várias formas, explica:

- Dólares, euros, tem esquema de entrega em hotéis. Se for em reais, tem gente que faz

ordem de pagamento, abre conta.

Maurício Marinho tranquiliza os interlocutores. O esquema é seguro:

- A gente procura agora ter muito cuidado com telefone, falar o mínimo possível.

E mais o seguinte:

- Uns têm escritório, a gente vai direto no escritório. Para evitar conversa, para evitar

problema.

Os números: “os acertos” variam de 3% a 10% do total. Depende do negócio. E podem

ser feitos no final do dia, ali mesmo, nos Correios:

- Vamos conversar mais ou menos às 18, depois das 18, que acabou o expediente e o

pessoal vai embora. Fica só a secretária, depois vai embora também e acabou.

Agora, a política: o funcionário da estatal federal explica estar ali em defesa dos interesses

do PTB. O partido, da base aliada do governo Lula, tem o deputado Roberto Jefferson

(RJ) como presidente. Trechos da gravação:

- Nós somos três e trabalhamos fechado. Os três são designados pelo PTB, pelo Roberto

Jefferson.

- É uma composição com o governo. Nomeamos o diretor, um assessor e um departamento-

chave. Eu sou o departamento-chave. Tudo que nós fechamos o partido fica

sabendo.

- O novo diretor é da nossa agremiação. Quem vai cobrir a Diretoria de Tecnologia é o

Fernando Bezerra, líder do PTB no Senado, com o apoio do Roberto Jefferson.

Agora, sobre o deputado Roberto Jefferson:

- Ele me dá cobertura, fala comigo, não manda recado.

- Eu não faço nada sem consultar. Tem vez que ele vem do Rio de Janeiro só para acertar

um negócio. Ele é doidão.

Na fita, Marinho revela que os achaques do PTB também ocorrem em outras empresas

públicas. Cita Petrobras, Eletronorte e Infraero, todas estatais administradas pelo Governo

Federal. Mas os negócios vão além, é garantido:

- Nós temos outras 18 empresas de porte nacional.

É sábado, mas a gravidade da denúncia publicada por Veja faz Lula convocar os ministros

das Comunicações, Eunício Oliveira (PMDB-CE), da Casa Civil, José Dirceu (PT-SP),

e da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Na mesma noite, o ministro das Comunicações, a

quem os Correios estão subordinados, divulga nota oficial: afasta Maurício Marinho e o

superior hierárquico dele, Antonio Osório Batista, diretor de Administração. Antonio Osório

Batista é um ex-deputado do PTB da Bahia, integrante da direção executiva do PTB. Fora

nomeado por indicação de Roberto Jefferson.

Reação do presidente nacional do PT, José Genoino (SP):

- Essas coisas só não acontecem com o PT.

15/5/2005 Telefones não param de tocar em Brasília. Auxiliares do presidente Lula, nervosos,

conversam com líderes da base aliada. De outro lado, o PTB cobra apoio a Roberto

Jefferson. Quer solidariedade do governo. A mesma que recebeu o ministro José Dirceu,

em fevereiro de 2004. Na época, uma outra fita de vídeo captou imagens e a conversa do assessor e braço direito de José Dirceu, Waldomiro Diniz. Ele pedia propina a “Carlinhos

Cachoeira”, um empresário do jogo. Em troca, oferecia facilidades em negócios com o

Governo do Rio de Janeiro.

Detalhe: Roberto Jefferson já recebera um aval de Lula em 2004. Ocorreu num encontro,

em outubro, para tratar de uma denúncia grave. Nas eleições daquele ano, o PT teria

comprado, por R$ 10 milhões, o apoio eleitoral do PTB. Frase atribuída a Lula na ocasião:

- Você atravessou o oceano sozinho. Eu te daria um cheque em branco e dormiria tranquilo.

Atravessou o oceano sozinho? Tradução: não abriu a boca. Ou, no linguajar político da

época: matou no peito, não envolveu mais ninguém.

16/5/2005 O ministro José Dirceu concede entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura.

Afirma: o governo Lula “não rouba, não deixa roubar e combate a corrupção”. Rebate

insinuações de fisiologismo:

- A indicação de pessoas de outros partidos não é prática fisiológica.

Dirceu se manifesta contra uma CPI para investigar corrupção nos Correios:

- O governo já tomou todas as providências que deveria tomar.

Na mesma linha, o ex-presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (PT-SP),

trata de minar a criação da CPI. Para ele, o teor da fita com as cenas e as declarações de

Maurício Marinho é “uma história mal contada, uma coisa esquisita, até ridícula”.

17/5/2005 Lula defende o deputado Roberto Jefferson em almoço com líderes da base aliada

no Palácio do Planalto. Diz ser contra a CPI:

- Precisamos ter solidariedade com os parceiros, não se pode condenar ninguém por

antecipação.

E insiste, para que todos ouçam, ao chamar para perto de si o líder do PTB na Câmara,

deputado José Múcio (PE):

- Zé Múcio, diga ao Roberto Jefferson que sou solidário com ele. Parceria é parceria.

Tem de ter solidariedade. O Roberto Jefferson é inocente até prova em contrário. Quem

tiver culpa no cartório que pague. Essa é a hora em que o Roberto Jefferson vai saber quem

é amigo dele e quem não é.

Em discurso de 41 minutos no plenário da Câmara dos Deputados, Roberto Jefferson

nega o esquema de corrupção nos Correios e diz que o PTB é tão ético quanto o PT. E ele,

Jefferson, tão ético quanto o presidente do PT, José Genoino. Refuta a acusação de que o

PTB é fisiológico, mas lista os cargos ocupados pelo partido no governo Lula:

- Temos a presidência do Instituto de Resseguros do Brasil, a vice-presidência da Caixa

Econômica Federal, uma diretoria da BR Distribuidora, da Embratur, da Eletronorte e da

Eletronuclear, além das Delegacias de Trabalho do Rio e de São Paulo.

Para Roberto Jefferson, os R$ 3.000 recebidos por Maurício Marinho não eram propina,

mas pagamento de uma consultoria.

- Ele não vendia nem comprava nada. Ele estava sendo contratado como consultor.

Sobre seu relacionamento com o funcionário, diz:

- Estive com ele três ou quatro vezes. Ele esteve uma vez no meu aniversário. Outra vez,

no aeroporto. Esteve uma vez na liderança do partido. Mas nunca integrou nossos quadros

e nunca recebeu delegação para pedir recursos a qualquer pessoa.

Agora, o relacionamento de Jefferson com o PT, por Jefferson:

- Houve uma conversa entre mim e o Genoino. Iríamos apoiar o PT em alguns Estados,

e o PT, que segundo os jornais possuía um caixa de mais de R$ 120 milhões, iria transferir

recursos para o PTB. Isso acabou não se concretizando. Genoino não pôde, disse que não

dava para sustentar as suas campanhas, quanto mais as minhas. Não foi algo que ferisse a

moral, a ética ou a boa relação republicana entre partidos.

Em seguida, fazendo um gesto teatral:

- Vou descer da tribuna e assinar o pedido de CPI. Nada temo. O PTB não se preocupa

com investigação.

Comentário do líder do governo Lula na Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia

(PT-SP):

- Jefferson se saiu bem. Nem os opositores mais duros do governo questionam a ética do

deputado.

Nos bastidores, porém, governo e aliados buscam evitar a abertura da CPI. O líder do PL

na Câmara, deputado Sandro Mabel (GO), telefona para os colegas e apela para que não

endossem as investigações. O líder do PT, deputado Paulo Rocha (PA), faz a mesma coisa.

Diz Paulo Rocha:

- A CPI é um instrumento de disputa política que a oposição usa contra o governo.

18/5/2005 Em café da manhã com líderes partidários, Lula manifesta-se mais uma vez contra

a CPI. Manda um recado, ao elogiar o ministro da Justiça, que também é o chefe da

Polícia Federal:

- Todos sabem que o Márcio Thomaz Bastos tem credibilidade para apurar o caso

dos Correios.

Na saída do mesmo encontro, o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti

(PP-PE), um aliado do governo, desqualifica a CPI. Nas palavras dele:

- Todo mundo sabe como começa uma CPI, mas não sabe como termina. Além do mais,

quem tem o poder de oratória do Roberto Jefferson sabe colocar bem as palavras. Ele provou

que não tem nada para que possa ser condenado.

O apelo do presidente e os esforços da tropa de choque do governo não impedem a

decisão dos parlamentares, contrária a deixar as investigações só nas mãos da Polícia Federal.

A oposição protocola requerimento com o pedido de abertura de CPI. O documento

recebe as assinaturas de 230 deputados e de 46 senadores, dos quais 101 deputados e 10

senadores aliados do Planalto.

Novos trechos da fita em que

Maurício Marinho revelou a corrupção nos Correios são

publicados nos jornais. Na gravação, o funcionário envolveu a Novadata, do empresário

Mauro Dutra, o “Maurinho”, amigo de Lula. Ele já atuara como arrecadador de dinheiro

para campanhas do PT. A empresa, especializada em informática, fornecia computadores ao

Governo Federal. Maurício Marinho referiu-se a uma operação favorecendo a Novadata em

licitação. O diálogo começa com o interlocutor que gravava a conversa:

- E a Novadata acertou daí direto com a diretoria…

- Foi direto com a diretoria.

- Ou foi com você?

- Não, foi eu, o diretor e o Godoy. Mas como teve um negócio, era um negócio grande, o

Godoy saiu… Veio até de São Paulo…

Maurício Marinho mencionou o diretor Antonio Osório Batista e um assessor dele,

Fernando Godoy, também afastado devido ao escândalo. O diálogo prosseguiu com uma

pergunta sobre a contratação da Novadata. Como se sabe, Marinho não tinha conhecimento

de que estava sendo gravado:

- Acertaram com o Osório direto então?

- Não, o Osório não acerta. É comigo ou com o Godoy.

O jornal Folha de S.Paulo denuncia os negócios da Novadata com o governo Lula. Renderam

R$ 273,5 milhões em menos de dois anos e meio. Só com a Caixa Econômica Federal,

vendas de R$ 95 milhões. Foram fechados três novos contratos com os Correios, por R$

15,3 milhões. No quarto acerto com a Novadata, os Correios fizeram um aditivo e acrescentaram

R$ 5,5 milhões a um contrato de R$ 98 milhões.

A denúncia assume contorno ainda maior: Lula passou o réveillon de 2001 na mansão de

Mauro Dutra em Búzios (RJ), uma das praias mais badaladas do Brasil. Maurinho pôs avião

à disposição de Lula.

Em outro trecho da gravação com a câmera escondida, Maurício Marinho trata das relações

da Novadata com os Correios:

- Olha, no fornecimento de material, o mais forte é ele. Aqui no Correio, é. Computador,

esses negócios, é a Novadata. Pelo menos nos últimos dois anos eles têm vencido quase

todas aqui dentro.

Ainda Maurício Marinho, sobre uma licitação de “se não me engano R$ 60 milhões,

coisa assim”. “Eles”, no caso, é a Novadata:

- Mas como eles perceberam que só estavam eles e eles achavam que podiam ganhar

mais, falaram “olha, nós não vamos partir para abrir o processo, você dá como ‘deserta’ e

marca uma outra abertura”.

“Deserta”, no linguajar dos certames públicos, é a licitação para a qual não se apresentam

concorrentes. Tem de ser refeita. Diz Maurício Marinho:

- O preço inicial do computador que nós tínhamos colocado em R$ 3.700 na licitação,

eles pediram para aumentar… Sabe para quanto foi a licitação, um item, eram quatro itens?

Foi R$ 6.000. Olha que absurdo…

No discurso da véspera na Câmara dos Deputados, Roberto Jefferson chegou a denunciar

um certo comandante Molina, que o teria procurado duas semanas antes da divulgação

da fita, em nome do senador Ney Suassuna (PMDB-PB). Molina teria tentado vender

a gravação clandestina, a mesma cujo teor fora publicado por Veja. Roberto Jefferson diz

que recusou o negócio. Mas não o denunciou. O PMDB, por sua vez, negou qualquer

envolvimento com a corrupção nos Correios. Pressionava o governo. Não queria problemas.

Ameaçou Lula com CPI para investigar o caso Waldomiro Diniz. O comandante

Molina foi inocentado.

Para entender: dentro do loteamento promovido pelo governo Lula, o PTB ficou com

uma diretoria dos Correios, o PT com duas e o PMDB com três, incluindo a Financeira. E

isso sem falar na indicação do próprio presidente dos Correios, o ex-deputado João Henrique

de Almeida, também uma nomeação da cota do PMDB.

Aqui, cabe uma explicação: ao lotear estatais entre vários partidos, a administração Lula

optou por trabalhar com as “porteiras abertas”, o que tornou a gestão das empresas mais

complexa. Se tivesse sido adotado o modelo de “porteiras fechadas”, ou seja, se cada estatal

fosse entregue em sua totalidade para a administração de um só partido da base aliada, este

seria o responsável direto pelo que acontecesse, para o bem ou para o mal.

É por isso que desvendar os meandros do escândalo do mensalão se tornou tarefa complicada.

Os acertos e as interações envolviam várias forças políticas e interesses diversos,

que precisavam ser sempre contemplados, casando diferentes setores da administração, uns

se sobrepondo a outros.

Mas voltemos ao ex-deputado João Henrique Almeida, o presidente dos Correios. Rapidamente,

ele anuncia a suspensão de uma licitação suspeita. Não era para menos. Os detalhes

de bastidores foram descritos na gravação clandestina com Maurício Marinho. O negócio

de R$ 61 milhões pretendia viabilizar a aquisição de medicamentos para funcionários

dos Correios. João Henrique Almeida também toma outra providência: impede o acesso de

jornalistas à documentação sobre o processo de compra de remédios.

Na gravação, Maurício Marinho cita o diretor de Recursos Humanos dos Correios, Robinson

Koury Viana da Silva, suplente do senador Ney Suassuna. Portanto, outro indicado do PMDB.

O relato é rico, traz detalhes de uma parte da negociata tramada com o suplente de senador.

Vale a pena:

- Todos os projetos dele, nós que fazemos o projeto básico. Mesmo no RH. O pessoal

dele não tem muito trâmite no negócio, a gente monta, passa pra ele, aí ele chama o departamento

e diz: “Eu quero isso”. Mas ninguém sabe que é nós que estamos fazendo. Então o

nosso negócio é assim. Tem uma licitação que vai ser… São 60 milhões em beneficiamento

de saúde. (…) Fizemos tudo aqui. A decisão dele não conseguia desenrolar, desenrolar, um

ano sentado em cima. Fechamos o projeto. Apareceram umas quatro empresas, deputado

“a”, senador “b”, um rolo danado. “Meu amigo, o negócio é seu. Você quer que a gente

trabalhe com quem?” Ele falou: “Infelizmente vou defender as quatro, porque as quatro

virão através dos caciques e eu não posso fechar porta para ninguém”. “Tudo bem, então

vou colocar o preço com as quatro suas, entendeu, mando a carta, com toda a planilhinha,

daquelas quatro”. Fechei todo o processo, eram no mínimo três, tinha quatro, entendeu? (…)

O processo está pronto. Tá pronto! Fechado, redondo. Ele adotou o recurso, o recurso é

dele, da área dele, dos recursos humanos, do RH. Tá? Aí mandaram o processo de volta. O

que nós fizemos chegou pra nós. Aí nós adotamos os nossos documentos, assinamos e

pedimos autorização. O presidente, é acima de 650 mil, autorizou a abertura. Tá no comitê

de análise. Saiu do comitê de análise, está sendo publicado. Dentro de poucos dias vocês

vão ver aí na internet, tá lá, Diário Oficial. Agora, é um negócio grande. O que é que ele fez?

Aí o acerto que a gente faz. Nesse tipo de negócio, ele que vai fechar, tem participação. Só

que uma parte da participação vai vir pra nós. Entendeu? O negócio é dele, é capitaneado

(inaudível o trecho da gravação)… Ele que levantou a bola, nós fizemos viabilizar o negócio

dele. Só isso. Mas nós temos uma participação. Dessa participação dele, a gente passa para

o nosso partido. Entendeu? Que é ele que me sustenta, segura a gente aqui.

21/5/2005 A revista Veja traz nova denúncia. Com o título “Mesada de R$ 400 mil para o

PTB”, a acusação de que Lídio Duarte, o presidente do IRB (Instituto de Resseguros do

Brasil), uma estatal federal, vinha sendo pressionado a entregar R$ 400 mil por mês ao

PTB. Um corretor de seguros, Henrique Brandão, agia em nome do deputado Roberto

Jefferson e exigia a quantia do presidente do IRB.

A reportagem relata que Lídio Duarte ficou em dúvida, não sabia ao certo se Henrique

Brandão falava mesmo em nome do PTB. A saída foi procurar Roberto Jefferson. A revista

Veja documenta:

“Na conversa, Jefferson não deixou dúvidas: disse que era amigo de Henrique Brandão

havia mais de 30 anos, repetiu que as despesas do partido eram altas e que precisava da

colaboração financeira dos dirigentes indicados para seus cargos pelo PTB. Em outras palavras:

quem tinha cargo tinha que roubar.”

Eis a íntegra da transcrição da declaração de Lídio Duarte a Veja:

54

“A história é a seguinte: dizem que o partido tem despesas com o diretório, com as

festas, com os jantares, com não sei o quê. Cada indicado tem de botar lá R$ 400 mil por

mês, entendeu?”

Lídio Duarte pede demissão. Em seu lugar assume Luiz Appolônio Neto, sobrinho do

deputado Delfim Netto (PP-SP), outro apadrinhado de Roberto Jefferson e tido também

como ligado ao então deputado Luiz Antonio Fleury Filho (PTB-SP), um ex-governador

de São Paulo.

O IRB tem monopólio do mercado nacional de resseguros internacionais. Movimenta

cerca de US$ 450 milhões por ano. Faz operações com 23 corretoras credenciadas, como a

de Henrique Brandão. Escreve Veja:

“Apenas no primeiro ano, a corretora de Brandão abocanhou 10% de todos os seguros de

embarcações e 20% dos de empresas aéreas. Desde 2003, nesse ambiente esplendorosamente

favorável, os negócios de Brandão, o amigo de três décadas de Roberto Jefferson e empregador

de seu genro, crescem a um ritmo de 25% ao ano.”

Em declarações ao jornal O Estado de S. Paulo, Lídio Duarte afirma ter se recusado a

fazer contratações de apaniguados políticos. A pedido de Jefferson, recebeu deputados do

PTB como Nelson Marquezelli (SP) e Elaine Costa (RJ), que solicitaram nomeações para

pessoas do seu círculo de influência:

- Expliquei que isso não era possível, porque no IRB todos os funcionários são de carreira,

todos concursados.

A regra do concurso público não vale, como se verá, para os cargos de alta direção no

IRB. Em outra reportagem, o Estadão informa que os principais postos da estatal estão

loteados entre PTB, PT, PMDB e PP. O jornal destaca o papel exercido por Luiz Eduardo

Lucena, indicação do PP, na Diretoria Comercial do IRB:

“Com tanta autonomia, o apadrinhado do PP chegou a manipular, em média, R$ 300

milhões em contratos, que geraram R$ 21 milhões de comissões de corretagem.”

22/5/2005 O ministro Márcio Thomaz Bastos anuncia a abertura de inquérito na Polícia

Federal para investigar denúncias de corrupção no IRB. O governo Lula quer convencer

parlamentares e a opinião pública de que já toma as providências necessárias. Não quer

apurações políticas em âmbito do Congresso. Do líder do governo na Câmara, Arlindo

Chinaglia (PT-SP):

- O governo está investigando, orientando e estimulando a investigação pela Polícia

Federal, Controladoria-Geral da União etc. Evidente que nessas circunstâncias uma CPI

não é necessária. Cabe aos líderes da base continuar a discutir com suas bancadas.

Lula segue em viagem de uma semana para a Coreia do Sul e o Japão. Durante o voo, o

deputado Beto Albuquerque (PSB-RS), vice-líder do governo, traduz o sentimento do presidente

aos jornalistas que estão a bordo:

- Esta lista de assinaturas da CPI é muito clara. Vai acabar o pão-de-ló e o cafuné para

quem quiser jogar contra o governo. Tem de acabar essa conversa de verba, de obra. Essa

conversa não vamos mais ter com quem não for do governo, no ônus e no bônus.

24/5/2005 O deputado Roberto Jefferson reage a declarações do presidente do PT,

José Genoino, segundo as quais o governo precisava “requalificar” a base de apoio no

Congresso Nacional:

- Genoino disse que o PT não empurra lixo para debaixo do tapete. Todos sabem

que empurra.

Roberto Jefferson diz que o partido de Lula é traiçoeiro. Compara-o à fábula do escorpião

que pede ao sapo para atravessar o rio em suas costas. Promete não picá-lo, mas trai.

Não consegue contrariar a própria natureza. Os dois morrem afogados.

- O PTB é o sapo.

O presidente do PTB confidencia que os ministros José Dirceu e Aldo Rebelo (PC do BSP),

das Relações Institucionais, estiveram em sua própria casa no dia anterior.

- Eles só faltaram se ajoelhar para pedir a retirada das assinaturas.

No caso, a retirada das assinaturas que endossavam a criação da CPI dos Correios.

E, com ironia:

- Mas a CPI que pega o governo, com 18 estatais, com tentáculos enormes, vamos trazer

aqui o tesoureiro do PT, o segundo tesoureiro, o “Silvinho”, vamos trazer o Dirceu. Ah!,

essa é importante…

Mas Roberto Jefferson acabará retirando a sua assinatura do pedido de criação da CPI

dos Correios. Vai se arrepender amargamente, como se verá.

25/5/2005 Em sessão tumultuada, o Congresso cria a CPI dos Correios. 236 deputados e 52

senadores assinam o requerimento que autoriza a investigação, bem mais do que o número

mínimo necessário, de 171 deputados e 27 senadores. A derrota do governo é expressiva

porque 14 deputados e um senador do PT votam pela instalação da comissão.

26/5/2005 Outra empresa na área de influência do PTB vai parar nos jornais. A Folha de

S.Paulo publica que a Eletronuclear, uma subsidiária da Eletrobrás, recomendou a contratação

da corretora Assurê Corretagem de Seguros. É a empresa de Henrique Brandão, o amigo de

Roberto Jefferson, escolhida para intermediar um seguro de US$ 3,6 milhões das Usinas

Angra 1 e 2, em 2004. O negócio teria rendido US$ 360 mil a Brandão.

A recomendação foi feita pela Eletronuclear, por meio de carta à Bradesco Auto-Re, do

grupo Bradesco, que vencera uma licitação. Carlos Padilha, diretor de Administração e

Finanças da Eletronuclear, assinou a carta recomendando a Assurê. Filiado ao PT, Carlos

Padilha é ex-prefeito de Angra dos Reis (RJ).

Já o diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletronuclear, Luiz Rondon

Teixeira Magalhães Filho, foi nomeado pelo PTB. O principal assessor dele, Marcos Vinícius

Vasconcelos Ferreira, é genro de Roberto Jefferson e mantém relações com Henrique Brandão.

A Assurê contribuiu para a campanha da vereadora Cristiane Brasil Francisco, filha de

Jefferson, à Câmara Municipal do Rio. Deu R$ 70 mil em dinheiro. O próprio Brandão, em

pessoa, apareceu na relação de doadores, com R$ 10 mil.

28/5/2005 A revista Veja traz depoimento do líder do governo Lula no Congresso, senador

Fernando Bezerra (PTB-RN). A história é reveladora. O senador queria emplacar um afilhado

político, Ezequiel Ferreira de Souza, no cargo de diretor de Tecnologia dos Correios.

Mas de nada valeram os compromissos e as promessas, ou o esforço de Fernando Bezerra.

O caso envolveu um personagem importante da crise, o então secretário-geral do PT, Silvio

Pereira, o “Silvinho”. Diz o senador:

- No início do ano estive com o Silvio Pereira. Eu disse a ele que o governo tinha um

compromisso comigo que não havia sido cumprido. Silvio respondeu que havia uma diretoria

dele nos Correios, a de Tecnologia, e que poderia colocar o Ezequiel lá.

Fernando Bezerra informa que o assunto ficou de ser encaminhado pelo deputado

Roberto Jefferson (PTB-RJ). Pouco tempo depois, o senador recebeu telefonema do ministro

do Turismo, Walfrido dos Mares Guia (PTB-MG). A pedido dele, Fernando Bezerra

apresentou o afilhado ao ministro das Comunicações, Eunício Oliveira (PMDB-CE).

Diz Fernando Bezerra:

- Fiquei surpreso quando a conversa começou. Eunício disse que não poderia nomeá-lo

naquele momento e que precisaria de uma semana ou uma semana e meia. A justificativa de

Eunício é que não ficava bem para ele nomear o Ezequiel sem resolver as questões de

nomeação nos Correios do PMDB. Eu disse a ele que esse cargo, a Diretoria de Tecnologia,

havia sido prometido ao Ezequiel por Lula, na frente do Roberto Jefferson e do Fleury. O

cargo prometido ao Ezequiel era do PT. O PMDB não tinha nada a ver com isso. Saí de lá e

liguei para o José Dirceu. Ele me disse que a nomeação era uma ordem do presidente e que

ela iria sair.

Não saiu. O que chegou ao senador, conforme a sua própria explicação, foi uma

carta anônima:

- A nota dizia que a nomeação não sairia porque havia uma licitação no valor de US$ 56

milhões. A carta dizia também que a licitação tinha um sobrepreço de 20%.

Para a revista Veja, a nomeação “atrapalharia uma licitação fraudulenta dirigida por

Eduardo Medeiros, diretor de Tecnologia dos Correios e homem ligado ao PT”. E mais: a

fim de viabilizar a licitação para a compra de kits de informática destinados aos Correios, o

diretor Eduardo Medeiros e um assessor dele, Edilberto Petry, “estavam definindo

especificações dos equipamentos sob orientação da Novadata, empresa pertencente a Mauro

Dutra, o amigo de Lula”.

Após receber a carta anônima, o senador Bezerra encontrou o ministro das Comunicações

num jantar em Brasília. Ouviu de Eunício Oliveira:

- Procure ver as verdadeiras razões para o veto ao Ezequiel na Casa Civil.

30/5/2005 O Jornal Nacional, da TV Globo, divulga informações da CGU (Controladoria-

Geral da União), que descobriu um contrato fraudulento de R$ 8 milhões para os Correios

comprarem 1.500 cofres. Foi Maurício Marinho quem fez o “acerto”. Os cofres são menores

do que os previstos no contrato. Em troca, teria havido um “desconto”.

4/6/2005 Mais um petardo contra o presidente do PTB. A revista Época estampa, na capa:

“O laranja de Roberto Jefferson”. Documenta a história do dono de uma pequena sorveteria

de beira de estrada, em Cabo Frio (RJ). Foi motorista, segurança e funcionário de

gabinete de Jefferson.

Ex-camelô, Durval da Silva Monteiro enfrenta problema para pagar a conta de luz da

sorveteria. O pequeno estabelecimento tem 25 metros quadrados, mas o sorveteiro “ganhou”

duas emissoras de rádio de Jefferson, suspeito de ser o verdadeiro dono dos negócios.

Uma das emissoras, a Rádio Matozinho FM, de Três Rios (RJ), não rendeu um centavo a

Durval em 20 anos. Sobre a outra, em Paraíba do Sul (RJ), o sorveteiro não tinha sequer

informações. Não fazia nem ideia de que era um dos donos do negócio. Trecho da entrevista

publicada em Época traz a reação do sorveteiro:

- Rádio Clube Vale do Paraíba? Eu não sou sócio dela não. Isso aí é um troço novo para

mim. Rádio Clube Vale do Paraíba… Vou lá buscar ela! Quero um pedaço dela já, já. Essa

rádio eu até acho que era sócio dela também.

6/6/2005 Entrevista-bomba de Roberto Jefferson. O deputado denuncia para a Folha de

S.Paulo a existência do mensalão. O Brasil não será mais o mesmo. “PT dava mesada de R$

30 mil a parlamentares, diz Jefferson”, é a manchete de primeira página. A entrevista, concedida

à jornalista Renata Lo Prete, põe Brasília em polvorosa.

O presidente do PTB cita o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, homem da cúpula petista

e da confiança do presidente Lula. Acusa-o de dar dinheiro a representantes do PP e do PL,

em troca de apoio ao governo no Congresso. Jefferson relata o diálogo que manteve com o

ex-presidente do PTB, José Carlos Martinez, morto em acidente aéreo, em outubro de 2003:

- Um pouco antes de o Martinez morrer, ele me procurou e disse: “Roberto, o Delúbio

está fazendo um esquema de mesada, um mensalão, para os parlamentares da base. O PP, o

PL, e quer que o PTB também receba. R$ 30 mil para cada deputado. O que você me diz

disso?” Eu digo: “Sou contra. Isso é coisa de Câmara de Vereadores de quinta categoria. Vai

nos escravizar e vai nos desmoralizar”.

Em outro trecho, Roberto Jefferson conta que Delúbio Soares manteve contato com o

líder do PTB na Câmara dos Deputados, José Múcio (PE):

- Final de dezembro, início de janeiro, o doutor Delúbio o procura: “O Roberto é um

homem difícil. Eu quero falar com você. O PP e o PL têm uma participação, uma mesada, eu

queria ver se vocês aceitam isso”. O Múcio respondeu que não poderia tomar atitude sem

falar com o presidente do partido.

Em seguida, Roberto Jefferson menciona uma reunião entre os deputados Valdemar

Costa Neto (PL-SP), Carlos Rodrigues (PL-RJ) e Pedro Henry (PP-MT), para pressionar

José Múcio:

- “Que que é isso? Vocês não vão receber? Que conversa é essa? Vão dar uma de melhores

que a gente?” Aí o Múcio voltou a mim. Eu respondi: “Isso desmoraliza. Tenho 22 anos

de mandato e nunca vi isso acontecer no Congresso Nacional”.

Roberto Jefferson diz à jornalista Renata Lo Prete ter procurado o ministro do Turismo,

Walfrido dos Mares Guia (PTB-MG):

- No princípio de 2004, liguei para o ministro Walfrido e disse que precisava relatar algo

grave. Conversamos num voo para Belo Horizonte. “Walfrido, está havendo essa história

de mensalão”. Contei desde o Martinez até as últimas conversas. “Em hipótese alguma. Eu

não terei coragem de olhar nos olhos do presidente Lula. Nós não vamos aceitar”.

O deputado diz que passou por “brutal pressão”, pois os parlamentares do PTB sabiam

que os colegas do PL e do PP recebiam o mensalão.

- Fui ao ministro Zé Dirceu, ainda no início de 2004, e contei: “Está havendo essa história

de mensalão. Alguns deputados do PTB estão me cobrando. E eu não vou pegar. Não tem

jeito”. O Zé deu um soco na mesa: “O Delúbio está errado. Isso não pode acontecer. Eu falei

para não fazer”. Eu pensei: vai acabar. Mas continuou.

Agora, o diálogo de Roberto Jefferson com o ministro Ciro Gomes (PSB-CE), da

Integração Nacional:

- Lá para junho eu fui ao Ciro Gomes. Falei: “Ciro, vai dar uma zebra neste governo.

Tem um mensalão. Hoje eu sei que são R$ 3 milhões, R$ 1,5 milhão mensal para o PL e para

o PP. Isso vai explodir”. O Ciro falou: “Roberto, é muito dinheiro, eu não acredito nisso”.

- Aí fui ao ministro Miro Teixeira, das Comunicações. Levei comigo os deputados

João Lyra e José Múcio. Falei: “Conte ao presidente Lula que está havendo o mensalão”.

Nessa época o presidente não nos recebia. Falei isso ao Aldo Rebelo, que então era líder

do governo na Câmara.

- A quem mais no governo o senhor denunciou a situação?

- Disse ao ministro Palocci: “Tem isso e é uma bomba”. Fui informando a todos do

governo a respeito do mensalão. Me recordo inclusive de que, quando o Miro Teixeira,

depois de ser ministro, deixou a liderança do governo na Câmara, ele me chamou e falou:

“Roberto, eu vou denunciar o mensalão. Você me dá estofo?” Eu falei: “Não posso fazer

isso. Vamos abortar esse negócio sem jogar o governo no meio da rua. Vamos falar com o

presidente Lula que está havendo isso”. Me recordo até que o Miro deu uma entrevista ao

Jornal do Brasil denunciando o mensalão e depois voltou atrás.

- No princípio deste ano, em duas conversas com o presidente Lula, na presença do

ministro Walfrido, do líder Arlindo Chinaglia, do ministro Aldo Rebelo, do ministro José

Dirceu, eu disse ao presidente: “Presidente, o Delúbio vai botar uma dinamite na sua cadeira.

Ele continua dando mensalão aos deputados”. “Que mensalão?”, perguntou o presidente.

Aí eu expliquei ao presidente.

- Qual foi a reação dele?

- O presidente Lula chorou. Falou: “Não é possível isso”. E chorou. Eu falei: “É possível

sim, presidente”. Estava presente ainda o Gilberto Carvalho.

- Toda a pressão que recebi neste governo, como presidente do PTB, por dinheiro, foi em

função desse mensalão, que contaminou a base parlamentar. Tudo o que você está vendo aí

nessa queda-de-braço é que o mensalão tem que passar para R$ 50 mil, R$ 60 mil. Essa

paralisia resulta da maldição que é o mensalão.

- Isso não existia também no governo passado?

- Nunca aconteceu. Eu tenho 23 anos de mandato. Nunca antes ouvi dizer que houvesse

repasse mensal para deputados federais por parte de membros do partido do governo.

- O que, em sua opinião, levou a essa situação?

- É mais barato pagar o exército mercenário do que dividir o poder. É mais fácil alugar

um deputado do que discutir um projeto de governo. É por isso. Quem é pago não pensa.

- O que fez o presidente Lula diante de seu relato?

- Depois disso parou. Tenho certeza de que parou, por isso está essa insatisfação aí. Ele

meteu o pé no breque. Eu vi ele muito indignado. Pressão, pressão, pressão, pressão. Dinheiro,

dinheiro, dinheiro, dinheiro, todo mundo tem, todo mundo tem. Acho que foi o

maior erro que o Delúbio cometeu.

Para Jefferson, “o governo agiu para isolar o PTB”, para “circunscrever a desonra ao

PTB”. Ele não perdoa o discurso em que José Genoino falou em “requalificar” a base de

apoio ao governo:

- O PTB é uma base desqualificada. Foi isso que afetou. Não segurou ninguém. Não são

parceiros, não são solidários.

Ele prossegue:

- Eu sempre disse aos meus companheiros, e eles são testemunhas desde o início, o PT

não tem coração, só tem cabeça. Ele nos usa como uma amante e tem vergonha de aparecer

conosco à luz do dia. Nós somos para o PT gente de segunda, eu sempre me senti assim. A

relação sempre foi a pior possível.

E mais:

- Você não pode confiar, o que está fechado não está fechado. Tudo o que é dito não é

cumprido. Toda a palavra que é empenhada não é honrada. O PT esgarçou, esgarçou, esgarçou

a minha autoridade como presidente do PTB, porque prometeu e não cumpriu. O pior foi na

eleição, o que o Genoino fez comigo. Ele e o ‘seu’ Delúbio.

Em outra parte da entrevista à Folha, o presidente do PTB responde a denúncias sobre

o IRB (Instituto de Resseguros do Brasil). Relata encontro com o presidente da estatal,

Lídio Duarte:

- Por volta de agosto de 2004, eu o chamei ao meu escritório no Rio e disse: “Quero

que você me ajude, procurando essas pessoas que trabalham com o IRB, para fazerem

doações ao partido nesta eleição, porque estamos em situação muito difícil”. Ele ficou de

tentar. Em setembro, ele voltou a mim e disse: “Deputado, não consegui que as doações

sejam por dentro, com recibo. Querem dar por fora, e isso eu não quero fazer”. Eu falei:

“Então não faça”.

Jefferson conta que Lídio Duarte aproximou-se de Luiz Eduardo de Lucena, diretor Comercial

do IRB, indicado para o cargo pelo líder do PP na Câmara, deputado José Janene

(PR). Instala-se uma queda-de-braço entre PTB e PP:

- O Palocci conversa comigo e diz o seguinte: “Roberto, vamos fazer uma saída por

cima. Nós temos o diretor Administrativo, um homem de altíssimo gabarito, o Appolônio

Neto, sobrinho do Delfim Netto, fez um dos melhores trabalhos de modernização do IRB. A

gente passa o Appolônio como sendo do PTB, e ele sendo sobrinho do Delfim, que é do PP,

e a gente resolve a situação”. Eu falei: “Não sou problema, está dada a solução”. O doutor

Appolônio foi uma indicação salomônica do ministro Palocci.

O presidente do PTB também reclama que o PT, com 20% da base, responde pela indicação

de 80% dos cargos:

- Mesmo o IRB: o PTB tem a presidência, mas todos os cargos são do PT. A Eletronorte:

o presidente, doutor Roberto Salmeron, é um dos melhores quadros do PTB. Mas, de novo,

toda estrutura abaixo é do PT. O diretor mais importante, o de Engenharia, é o irmão do

ministro Palocci.

O escândalo do mensalão explode em Brasília. O ministro das Relações Institucionais,

escalado pelo Palácio do Planalto, comenta a entrevista de Roberto Jefferson. Admite que

Lula fora informado por Jefferson do suposto pagamento de mesadas a deputados do PL e

do PP, em 23 de março de 2005. Nervoso, Aldo Rebelo (PC do B-SP) afirma:

- É bom deixar claro que não há nenhuma acusação que relacione o pagamento a parlamentares

por parte do governo. A denúncia do deputado Roberto Jefferson refere-se ao

hipotético pagamento de um partido a parlamentares de outros partidos. O governo não

sofreu qualquer tipo de acusação.

O ministro confirma a reunião em que Jefferson levou o assunto ao presidente da República.

Estavam presentes, entre outros, o ministro Walfrido dos Mares Guia (PTB-MG), os

deputados Arlindo Chinaglia (PT-SP), José Múcio (PTB-PE) e ele próprio, Aldo Rebelo.

Diz Aldo:

- De passagem, durante essa conversa, Jefferson fez referência ao pagamento a parlamentares

na Câmara… Jefferson não fez referências nem a fatos nem a pessoas, fazendo

apenas um comentário genérico.

O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), confirma que Lula foi avisado

por Jefferson. E também menciona a reunião de 23 de março:

- Nenhum dos presentes tratou aquilo como denúncia, nem discutiu o assunto na reunião.

Depois, Lula chamou Aldo e Chinaglia e perguntou se havia comentários sobre isso na

Câmara. Não houve denúncia, apenas o relato de boato.

O deputado Miro Teixeira (RJ), que se desligara do PT e voltara ao PDT, confirma os

relatos feitos por Jefferson e põe mais lenha na fogueira:

- O relato do Roberto Jefferson foi mais amplo. Não posso relatar em detalhes, pois não

tenho elementos de prova. Mas ele descreveu uma cena de corrupção em um ambiente

ministerial, a que ele assistiu.

A “cena de corrupção”, como definiu Miro Teixeira, tinha, segundo Jefferson, um ministro,

representantes de três partidos e um diretor de departamento. Ocorreu num ministério e,

na ocasião, o integrante de um partido deu dinheiro a outro, de outra legenda. Quando ouviu

o relato de Jefferson, Miro Teixeira era ministro das Comunicações de Lula. Reação de

Miro Teixeira, segundo ele mesmo:

- Vamos agora ao presidente da República.

Miro Teixeira afirma que Jefferson se recusou e que, sem provas, teria sido irresponsável

se encaminhasse a denúncia. O Jornal do Brasil publicou reportagem sobre o assunto em 24

de setembro de 2004. Mas Miro Teixeira, fonte da notícia, não deu sustentação posterior às

informações. O caso não foi investigado pela Câmara dos Deputados.

O governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), também testemunha: aliados do governo

Lula procuraram dois deputados federais goianos e ofereceram mesada para que trocassem

de partido.

- Foi um assédio. Era para trocar de partido, sair do PSDB e ir para a base do governo,

por uma mesada de R$ 40 mil por mês e R$ 1 milhão por ano de bônus.

O mais grave: o governador conta que relatou o caso ao presidente da República em

5 de maio de 2004, durante uma visita de Lula a Rio Verde (GO). Segundo Marconi

Perillo, Lula reagiu como se não soubesse, disse que iria apurar e responsabilizou o

governo passado, período no qual, conforme Lula, esse tipo de expediente teve início.

O governador não aceitou:

- Eu retruquei. Disse que estava falando do que estava acontecendo no governo atual, no

governo dele.

O ministro Ciro Gomes (PSB-CE) confirma a procedência das denúncias de Roberto

Jefferson:

- É fato que, há um ano, ele esteve na minha sala e, numa conversa, disse que havia um

boato de que haveria essa prática de dinheiro para uma fração de parlamentares que, segundo

mencionou, estavam no PL e no PP.

Para Ciro Gomes, porém, não existiam provas do esquema:

- Perguntei se ele tinha dados mais objetivos, que me obrigassem a tomar alguma atitude

de levar adiante a informação. Ele não tinha.

O ministro Walfrido dos Mares Guia (PTB-MG) ouviu por duas vezes os “boatos de

mesadasfeitos por Roberto Jefferson. Ele confirma que testemunhou a reunião de 23 de

março, da qual Lula participou:

- Ele falou no final da reunião, disse que tinha boatos sobre um mensalão, mas ficou

nisso. Logo depois fomos embora.

Aqui, claramente, o ministro do Turismo, importante aliado de Jefferson, posiciona-se

de forma a minimizar a denúncia e a proteger Lula. E será recompensado no segundo mandato

do presidente da República, no qual ocupará, durante um período, o cargo de ministro

das Relações Institucionais.

O prefeito do Rio, Cesar Maia (PFL), vem a público para dizer que somas em dinheiro

eram distribuídas de forma aberta durante almoços mensais realizados em restaurantes de

Brasília. Descreve que tomou conhecimento do esquema por intermédio de 15 parlamentares,

com os quais conversou.

- O dinheiro chegaria em uma mala, e os pacotes eram distribuídos.

De forma reservada, ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) avaliam que, em

tese, Lula pode sofrer processo de impeachment, por crime de responsabilidade. O presidente

da República teria prevaricado se ficar provado que, informado a respeito da existência

do mensalão, não tomou providências para investigar as denúncias.

Declaração do jurista Fábio Konder Comparato, presidente da Comissão de Defesa da

República e da Democracia, um conceituado advogado:

- A rigor, se ficar comprovado o ato de corrupção, há várias implicações penais. Configura,

inclusive, o crime de responsabilidade por parte do presidente, o que o sujeita a

impeachment.

Fábio Konder Comparato acrescenta, a respeito de Lula:

- Ele, de qualquer maneira, estava ciente e mandou prosseguir, ou ficou ciente e,

como diz Jefferson, mandou frear a coisa, mas não tomou providências para apurar

responsabilidades.

O PPS (Partido Popular Socialista) inicia processo de coleta de assinaturas para

criar a CPI do Mensalão. Em decorrência da crise, o apadrinhado de Roberto Jefferson

na presidência da Eletrobrás, Roberto Salmeron, demite-se do cargo. Outra consequência

do escândalo: o assessor dos Correios, Fernando Godoy, já afastado, é indiciado pela

Polícia Federal.

Enquanto isso, aparentemente alheio à gravidade dos fatos, o PT trata de emitir nota em

que nega a existência do mensalão. E seu presidente, José Genoino, manifesta-se mais uma

vez contrário à CPI dos Correios. A essa altura, a comissão já é fato consumado. O PT sabe

disso e toma providências para blindar o tesoureiro Delúbio Soares. Proíbe-o de dar entrevistas

e o isola na sede do partido, em São Paulo. O tesoureiro só sai de lá à noite, apressado.

O carro dele é escoltado por duas motocicletas.

Apreciador de charutos cubanos, Delúbio Soares usa carro blindado, tem intimidade

com Lula e o comando do PT. Em 2004, contudo, foi denunciado por comprar propriedade

rural em Goiás com dinheiro vivo. No mesmo ano pediu que o Banco do Brasil comprasse

70 ingressos por R$ 1.000 cada um, para um show musical. Detalhe: a arrecadação serviria

para comprar uma nova sede para o PT. Denunciada, a operação foi desfeita.

7/6/2005 Acuado, Lula determina a demissão de diretores do IRB, dos Correios e solicita ao

PT o afastamento do tesoureiro Delúbio Soares. Contrariado, José Genoino trata de defender

o que chama de “patrimônio ético” do partido. E diz que o assunto mensalão jamais

circulou na legenda:

- O que aconteceu com o Delúbio? Uma denúncia falsa e mentirosa.

O secretário-geral do partido, Silvio Pereira, o “Silvinho”, descarta investigação sobre

as atividades de Delúbio Soares:

- Não há necessidade. Não há nada contra ele.

No mesmo tom, Paulo Ferreira, secretário de Relações Internacionais do PT:

- Delúbio é quadro de confiança e seu afastamento não está em pauta.

O tesoureiro permanece recluso, protegido da imprensa. No final do dia, deixa a sede do

PT apressado, mais uma vez. Agora, abaixado no banco de trás de um carro, com vidros

escuros. Outro veículo, para despistar, deixara o local pouco antes, pretendendo confundir

os jornalistas. Coisa de máfia.

Declaração da senadora Heloísa Helena (PSOL-AL). A ex-petista diz que o governo

Lula entregou a máquina pública “para ser parasitada por delinquentes de luxo”:

- Tenho absoluta convicção de que ninguém da cúpula palaciana do PT age isoladamente

na montagem dos crimes contra a administração pública. Se Delúbio, Waldomiro e outros,

entre aspas, quadros partidários agiam, é porque havia autorização e leniência do presidente

Lula. Pelo que eu conheço do PT, não existe atuação individual.

8/6/2005 O tesoureiro Delúbio Soares, com um broche do PT no peito, concede entrevista.

Fala a um batalhão de jornalistas. Não convence. Apesar de orientado por advogados e pela

cúpula do PT, Delúbio está nervoso, usa frases de efeito, evasivas, e não responde a parte

das perguntas. Diz Delúbio:

- Nós não aceitamos chantagem. Não me prejulguem pela versão de uma chantagem

porque o Brasil é maior do que essas acusações. Estou muito indignado. Estão tentando

chantagear não só o PT, mas também o governo e também o Congresso. O PT não se rende

e não se vende.

Perguntado sobre suas idas ao Palácio do Planalto, sede do Governo Federal, apesar de

não ter cargo público, o tesoureiro diz:

- Lá estive várias vezes, para tratar dos assuntos de interesse do PT. É isso que

aconteceu.

A respeito da entrega de dinheiro a partidos da base aliada:

- O PT participou, no ano passado, de campanha eleitoral. Os acordos eleitorais foram

tratados entre os partidos. O PT e os partidos da base aliada fizeram acordos que foram

traduzidos em apoio aos candidatos nos municípios. Isso foi feito em comum acordo entre

os partidos.

Delúbio Soares responde acerca da ligação com o presidente do PL, Valdemar Costa

Neto (SP), cujo partido foi citado por Roberto Jefferson como um dos beneficiários do

mensalão:

- Não tenho nenhuma restrição, o presidente do PL tem sido uma pessoa correta. Não

tenho nenhum problema de encontrar o presidente do PL, seja na minha casa, seja no escritório

do PT, seja na sede do PT ou em Mogi das Cruzes, onde fui visitá-lo, em apoio ao

candidato do PL naquela cidade.

A Polícia Federal investiga denúncias de extorsão praticadas por Maurício Marinho nos

Correios. Um dos dez empresários que prestaram depoimento, Haroldo Cláudio, dono de

uma empresa de calçados, disse que recebeu proposta para pagar R$ 350 mil de propina. Se

desse o dinheiro, ganharia licitações na estatal. Segundo o empresário, Maurício Marinho

disse que os valores iriam para o PTB.

9/6/2005 O Congresso instala a CPI dos Correios. O deputado Sandro Mabel (PL-GO) nega

ter proposto à deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO) que deixasse a oposição e ingressasse

na base aliada do governo, em troca de mesada de R$ 30 mil e bônus de R$ 1 milhão.

Sandro Mabel admite ter conversado com Raquel Teixeira, mas nega que ofereceu dinheiro.

E envolve o vice-presidente da República, José Alencar (PL-MG):

- A deputada uma vez me procurou e disse: “Sandro, estou querendo ter mais espaço”.

Até havia uma assessora dela. Eu falei: “Raquel, o PL está sempre de portas abertas”. José

Alencar já tinha falado isso para ela. Estamos precisando de mulher. Agora, financeiro?

Recusamos 15 parlamentares em um ano, vamos dar recursos financeiros para quê? Em

primeiro lugar, não temos nem recursos.

10/6/2005 A Abin (Agência Brasileira de Inteligência) divulga nota oficial para explicar que

o recém-afastado presidente dos Correios, João Henrique Souza Almeida, integrante da

cota do PMDB no governo Lula, vai ser intimado a depor e poderá responder a processo por

prevaricação e improbidade administrativa. Motivo: antes do escândalo nos Correios vir a

público, João Henrique Almeida recebeu prazo para afastar Maurício Marinho da estatal e

relatar à Polícia Federal atividades supostamente ilícitas do funcionário. Não o fez. A Abin

esclarece que havia infiltrado agentes entre empresários descontentes, porque recebeu informações

sobre a ocorrência de fraudes em licitações nos Correios.

11/6/2005 Nova gravação clandestina com diálogos mantidos por Maurício Marinho chega

à imprensa. Desta vez, é divulgada na Folha de S.Paulo. Investigações sugerem disputas

comerciais como causa das escutas. As conversas revelam tentativas de extorquir empresários

que desejavam firmar contratos para fornecer bens e serviços aos Correios.

A fita segue o mesmo padrão da anterior. Marinho recebeu em sua sala interlocutores

supostamente ligados a empresários, interessados em negócios com os Correios. Sem saber

que estava sendo gravado, uma vez mais mencionou seus contatos com o deputado Roberto

Jefferson e com Marcus Vinícius Vasconcelos Ferreira, o genro de Jefferson e assessor da

diretoria da Eletronuclear. Trecho do diálogo, que começa com o interlocutor:

- Eles querem garantir a condição deles dentro dos Correios. É mais do que importante,

é vital até, para essa empresa. E queriam saber daí de você, de mim, me disseram,

“olha, Joel, vê se é ele mesmo a pessoa”.

- Nós estamos conversando aqui. Eu vou sair daqui ainda hoje e vou direto para o diretor, tá?

- O que eu precisava saber de você… Mas isso bem exato e prático. Quais seriam os

valores, incluindo a diretoria. Porque aí eu acerto com você as coisas, e você faz essa

distribuição.

- Normalmente é feito isso, todo negócio é acertado… Tem algo que sobe, né?, e um “x”

que fica embaixo. Isso é acertado assim.

- Sim, mas você me deixa numa condição meio tranquila, porque efetivamente você

tem essa condição de negociação.

- Tenho. O que for acertado… O que for fechado é o que sobe.

Para ficar claro: o que “sobe” é a propina endereçada ao diretor dos Correios que autoriza

o contrato. O que fica “embaixo” é a comissão para Maurício Marinho, por ter encaminhado

o negócio.

“O PT assombra o Planalto”, diz o título de reportagem de Veja. A revista afirma que o

mensalão, no valor de R$ 30 mil, é pago “para um plantel estimado de uns 90 deputados,

o que daria cerca de R$ 2,7 milhões mensais”. Informa ter conversado com três ministros,

cinco deputados e um senador, e que “todos confirmaram, com a condição de não ter a

identidade revelada, a existência do mensalão”. Afirma que os nove políticos pertencem

ao PT, PMDB, PSB, PP e PFL. “Esses políticos contam que Delúbio desembarcava em

Brasília com o dinheiro e se dirigia à residência dos líderes e presidentes de partidos para

fazer a distribuição”.

A revista Veja publica declaração de um deputado petista que pede para não ser identificado.

Segundo ele, o PT despreza o Congresso:

- O PT acredita que é um poder burguês. Por isso, acha que lá só tem corrupto e que o

jeito mais fácil de controlá-lo é com dinheiro.

O jornal O Estado de S. Paulo denuncia: Delúbio Soares, o tesoureiro do PT, é funcionário

fantasma. Professor de matemática da Secretaria de Educação de Goiás, recebe salário

mas não vai trabalhar. Está licenciado, com remuneração mensal de R$ 1.242,56, para prestar

serviços ao sindicato da categoria, em Goiânia. Mas há cinco anos Delúbio responde

pelas finanças do PT e vive no eixo São Paulo-Brasília, bem distante de Goiás. Antes disso,

foi secretário sindical do PT por cinco anos, e tampouco prestou serviços ao sindicato.

Delúbio costuma se apresentar, falsamente, como professor aposentado.

12/6/2005 Nova entrevista do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) à repórter Renata Lo

Prete, da Folha de S.Paulo. Traz denúncias contra o governo Lula, auxiliares do presidente,

integrantes da base aliada no Congresso, representantes do PT. E introduz um novo personagem

à opinião pública: o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza. Roberto Jefferson

explica a origem do dinheiro do mensalão:

- Vem de operações com empresas do governo e com empresas privadas.

- Que operações?

- Transferência de dinheiro à vista. Esse dinheiro chega a Brasília, pelo que sei, em

malas. Tem um grande operador que trabalha junto do Delúbio, chamado Marcos Valério,

que é um publicitário de Belo Horizonte. É ele quem faz a distribuição de recursos. Sei que

o deputado José Janene é um dos operadores. Ele vai na fonte, pega, vem, é tido como um

dos operadores do mensalão. Inclusive eu já vi o ministro Zé Dirceu muito irritado com ele

porque ele se apresentava como “operador do Zé Dirceu”. Ele também é um dos homens

que constroem o caixa para repartição entre deputados do PP e do PL.

- Qual era exatamente o papel de Marcos Valério?

- Ele é operador do Delúbio, desde o início do governo. O Janene faz a mesma operação.

É de conhecimento notório.

- O senhor poderia citar nomes de deputados que recebiam essa remuneração

mensal?

- Isso eu vou deixar para a imprensa investigar. Mas eu sei que as direções do PP e do PL

recebiam. Não é segredo. Eles insinuaram isso para o Zé Múcio, que não quis entrar.

Outro trecho:

- Se você perguntar: “Tem provas? Fotografou? Gravou?” Não. Mas era conversa cotidiana

na Câmara a repartição de mesada entre os deputados da base aliada, em especial o PL

e o PP. Nunca ouvi falar do PMDB, e tenho certeza de que os deputados e os senadores do

PT jamais receberam isso.

- O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, já anunciou a decisão de processá-lo.

- É um direito dele. Na colocação que fiz, eu o atingi duramente. Ele tem o direito

democrático de me processar.

- Houve problema de dinheiro entre PT e partidos da base na campanha

municipal?

- Eu e o líder Zé Múcio acalmamos nossa base dizendo o seguinte: o PTB não vai ter

mensalão, que desmoraliza e escraviza o deputado, e nas eleições a gente compõe com o PT

uma troca de apoio e pede o financiamento para candidaturas que nós entendemos que

devemos ganhar. Foi pedida ao PTB, pelo José Genoino, uma planilha por Estados de campanhas

a prefeito que o PT financiaria para nós. Apresentamos uma planilha de R$ 20

milhões. Esse recurso foi aprovado pelos dois e pelo Marcelo Sereno. No princípio de julho

de 2004, eu reuni o partido e comuniquei. O repasse do dinheiro se dará em cinco etapas.

- O primeiro recurso chegou na primeira quinzena de julho: R$ 4 milhões, em dinheiro,

em espécie. Em duas parcelas: uma de R$ 2,2 milhões e, três dias depois, uma de R$ 1,8

milhão. Quem trouxe o recurso à sede do PTB foi o Marcos Valério, em malas de viagem.

Eu e o Emerson Palmieri dividimos esses recursos entre candidatos. E assumimos o compromisso,

que era o do Genoino comigo, que outras parcelas viriam. Elas não vieram, e os

candidatos do PTB que haviam assumido compromissos de campanha entraram em crise

brutal. Essas coisas foram esticando a corda, tensionando a relação do PTB com o PT.

- Que avaliação o senhor faz das reações dos membros do governo citados em sua

entrevista anterior?

- Os ministros foram covardes com o presidente. O Palocci sabia do mensalão porque eu

falei para ele. O Walfrido errou por não ter dito ao presidente sobre o mensalão, porque eu

falei com ele. O ministro Ciro sabia. O Zé Dirceu, conversei várias vezes com ele sobre o

mensalão. Deixaram o presidente completamente desinformado de algo que viciou a relação

do governo, e do comando do PT em especial, com a base aliada no Congresso.

- Quando de minha conversa com o presidente este ano, lá no gabinete dele no Palácio

do Planalto, estávamos eu e o ministro Walfrido, quando eu disse a ele do mensalão.

Ele tomou um susto. Expliquei a ele no que consistia: um repasse de recursos do Delúbio

para líderes e presidentes de partidos da base aliada dividirem um dinheiro por mês

com representantes de suas bancadas, em especial o PP e o PL. O PTB fora convidado

a participar e repelira.

- Acho que os ministros traíram a confiança do presidente. Como pode ministros

minimizarem, dizendo que não havia importância em minhas palavras, e ter essa explosão

no Brasil quando a Folha as coloca para a opinião pública? Só eles não tinham dimensão da

explosão que isso iria provocar? O presidente, foi como se alguém dissesse “olha ali a tua

mulher com outro homem”. Aquela reação de surpresa, de mágoa, as lágrimas brotaram.

Ele me pediu que explicasse como funcionava o mensalão. Eu disse. Depois ele se levantou,

me deu um abraço e eu saí.

- E o que eu sei, até pela vivência da Casa, essas coisas não se escondem, é que houve

uma atitude forte, porque o mensalão secou. E nós estamos assistindo a uma crise de

abstinência. O corpo mole é porque está faltando aquilo que o Delúbio sempre transferiu

a líderes e presidentes da base: o dinheiro para pagar o exército de mercenário,

as bancadas de aluguel.

Em outro trecho da entrevista, a repórter pergunta:

- Como se estabeleceu a relação do PTB com a cúpula petista?

- Quando, lá atrás, o José Carlos Martinez era presidente do PTB, e nós começamos a

constituir a relação, depois de nomeado o Walfrido Mares Guia ministro do Turismo, o

segundo cargo foi o do delegado Regional do Trabalho no Rio, Henrique Pinho. Toda a

estrutura abaixo dele foi nomeada pelo Silvio Pereira. Outro cargo: Fernando Cunha, para a

BR Distribuidora. Toda a estrutura abaixo do Fernando Cunha foi nomeada pelo Silvio

Pereira. Na área de Petrobras, de petroquímica, quem manda é ele.

- Um dia, perguntei: “Mas como é isso? Vocês dão a cabeça e tomam o corpo?” E ele

disse que esse era o jeito do PT de repartir o poder. Foi assim no Departamento Nacional de

Infraestrutura e Transportes. A primeira indicação para o Dnit, feita pela bancada de São

Paulo, acho que é Pimentel o nome, esse que hoje aparece nos jornais. Toda a estrutura

abaixo foi montada pelo Silvio e pelo Delúbio. O gerente, um tal de Lauro Corrêa, é homem

do PT. Ele mandava mais que o diretor-geral do Dnit. O PT nomeava as pessoas que controlavam

a estrutura do poder por baixo dos nomeados do PTB.

- A quem o senhor se refere quando fala na direção do PT?

- Genoino, Marcelo Sereno, Delúbio Soares, Zé Dirceu, que sempre soube de tudo. Várias

vezes eu conversei com o Genoino e com o Delúbio no gabinete do ministro Zé Dirceu.

Tudo era tratado com o conhecimento dessas pessoas e do Silvio Pereira. Isso no início do

governo. Há uma sala contígua à do gabinete do ministro Zé Dirceu no Palácio do Planalto,

e de vez em quando nós fazíamos essas conversas. 90% das conversas eram feitas no Palácio,

numa salinha que era reservada ao Silvio Pereira. De vez em quando o Delúbio metia a

mão na porta, entrava, sentava, conversava e saía. O Zé Dirceu participava da conversa, e o

Genoino também.

Roberto Jefferson lembra o encontro com Lula, em janeiro de 2005, quando falou do

mensalão pela primeira vez ao presidente da República:

- E quando eu disse a ele, olhando nos olhos dele, do mensalão, o choque dele… Eu tenho

seis mandatos. Eu sou deputado federal desde o presidente Figueiredo. Eu nunca tinha ouvido

falar de financiamento de bancada aliada na base pelo partido do governo. E contei

isso ao presidente Lula. E vi a reação dele de perplexidade. E então as coisas pararam. Mas

o que eu estranho é que a Abin, depois que eu disse isso ao presidente Lula, parte para

mandar arapongas contra o PTB. Alguém, dentro do governo, não gostou que nós passamos

essa informação ao presidente.

Quanto à reação do governo, desde que decidiu contar o que sabe dos pagamentos a

deputados, Jefferson afirma:

- Num primeiro momento, o Zé Dirceu ficou muito hostil comigo depois do meu discurso

na Câmara, quando eu assinei a CPI. Na véspera, houve reunião da executiva do PTB para que

todos os companheiros assinassem a CPI e nós devolvêssemos os cargos ao governo.

Roberto Jefferson comenta o encontro, em sua casa, com José Dirceu e Aldo Rebelo. Os

dois homens de confiança de Lula pediram para ele retirar o nome do requerimento de

criação da CPI. O presidente do PTB argumentou que desejava a restauração da sua honra,

e que a revista Veja vinha promovendo um “verdadeiro linchamento”. Reação de Dirceu,

segundo Jefferson:

- Ele respondeu: “Roberto, na Veja não tenho nenhuma ação, porque a Veja é tucana”. Eu

falei: “Mas O Globo e a Globo estão repetindo o linchamento”. Ele falou: “No O Globo eu

falo por cima. Dá para segurar”.

Jefferson conclui:

- Retirar a assinatura foi o meu maior erro. Depois que fiz isso, recrudesceu o noticiário

contra o PTB. Eu entendi que foi uma armadilha do Zé Dirceu para mim. Recrudesceu o

noticiário, e eu vi claramente a mão do governo.

- Viu onde e como?

- Nas matérias que saíram na revista Época e no O Globo no fim de semana seguinte.

Violentamente contra mim e contra o PTB. Eu falei: “Eu errei, eu me enfraqueci ao retirar a

assinatura da CPI, e o Zé Dirceu armou essa arapuca pra mim”. (…) Eu vejo nitidamente o

dedo desse segmento, Zé Dirceu, Genoino e Delúbio, para colocar esse cadáver podre no

colo do PTB.

A Folha de S.Paulo publica o editorial “Adeus às ilusões”. O jornal afirma:

“A eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai se revelando um dos maiores

estelionatos eleitorais da história democrática do País. Todas as bandeiras que um dia caracterizaram

o Partido dos Trabalhadores foram conspurcadas. Até mesmo o que se afigurava

como o último baluarte petista, uma relação diferenciada com a ética e a coisa pública, se

reveste de tons de ‘bravata’, para utilizar um termo empregado pelo próprio presidente da

República ao negar propostas antes defendidas pelo seu partido.”

Em outro trecho, o editorial aponta:

“Em termos sociológicos, a ausência de um projeto ajuda a explicar a crise da legenda.

Sem uma utopia à qual aspirar, o poder pelo poder transformou-se em razão de existência.

Muitos de seus expoentes mostraram-se deslumbrados com as mordomias, benesses e oportunidades

de ascensão social oferecidas pela nova situação.”

O jornal conclui:

“Galgado ao comando do País, o partido enredou-se na trama do fisiologismo e da

corrupção. Suas virtudes transmutaram-se em vícios. O despreparo, a ambição e o oportunismo

derrotaram a esperança.”

13/6/2005 O ministro José Dirceu (PT-SP) faz saber, por meio de sua assessoria de imprensa,

que “minha relação com o presidente é excelente”. E manda o recado, pelos jornais:

- Não faço nada que não seja de comum acordo e determinado por ele.

Na declaração, todo o veneno e a ameaça implícita. José Dirceu seria capaz de vir a

público e contar a verdade? Fica claro que não aceitaria ser exonerado por Lula. Ao mesmo

tempo, a denúncia, gravíssima: se José Dirceu foi o grande operador, o cérebro do esquema

de suborno de parlamentares para que apoiassem o Governo Federal e tudo era em “comum

acordo e determinado” pelo presidente da República, não restavam dúvidas: Lula era o

chefe da corrupção e deveria responder pelo esquema delituoso.

É importante ressaltar que José Dirceu faz as afirmações por intermédio de seus auxiliares.

Isso significa que as palavras usadas na declaração haviam sido pensadas e medidas

antes da divulgação, o que só aumenta a gravidade delas. Não foi um desabafo, portanto.

Nem algo falado sem querer, que escapou, no calor de uma situação indesejada, sob pressão

de repórteres experientes. Tampouco foram palavras pinçadas de uma entrevista, para propositadamente

prejudicá-lo. Nada disso. Dirceu manda dizer, ainda:

- Sou um soldado do partido e do governo.

Talvez em nenhum outro momento da crise Lula tenha ficado tão exposto. Afinal, o

todo-poderoso ministro-chefe da Casa Civil, braço direito do presidente da República, acusado

de comandar o esquema de corrupção, diz, com todas as letras, que fez o “determinado

por ele”, Lula.

Mais uma justificativa para abrir um processo de impeachment contra o presidente. Processo

nunca aberto, afinal.

O presidente do PL, deputado Valdemar Costa Neto (SP), vai à forra. Depois de acusado

por Roberto Jefferson (PTB-RJ) de envolvimento no escândalo do mensalão, dispara contra

o oponente. Para Valdemar Costa Neto, Jefferson quer “tomar dinheiro” de alguém. Diz

duvidar da doação de R$ 4 milhões do PT ao PTB, em 2004. Motivo: o PTB está “cheio de

cargos no governo”, e “ajudando um monte de empresários”. Palavras do presidente do PL:

- Como é que vai dar dinheiro em campanha para um cara que tem milhares de cargos? Há

diversos empresários que atuam nessas empresas que podem fazer doações para o partido. Qual

é a justificativa para dar um mundo de cargos e, depois, dar dinheiro para eleição? Isso não bate.

Claríssimo! Os cargos no governo servem para fazer dinheiro: existem acordos para que

empresários entreguem somas de recursos a agentes políticos responsáveis por sua

contratação, e a funcionários públicos que, em conluio, fazem as medições dos serviços e

bens comprados pelo governo. Ou seja: tudo poderia custar menos. E quem paga a conta? O

público. É dinheiro do povo.

Voltemos ao ataque de Valdemar Costa Neto contra Roberto Jefferson:

- Como não bate ele reclamar do mensalão. Um camarada que extorque empresas

abrirá mão de mesada? Vai querer em dobro. Vai dizer: “Tô bravo porque tem mesada?”

Ele falava aquilo para conseguir mais cargo. Foi com essa história de mensalão para

conseguir mais espaço.

Para Valdemar Costa Neto, não tem lógica uma estratégia para fornecer mesadas a dezenas

de deputados:

- Quem vai administrar um negócio desse? Você tem um problema em casa, com a mulher,

um assessor… O pessoal deda.

Ele próprio, Valdemar Costa Neto, será denunciado pela ex-mulher. A história vem

adiante.

A deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO) confirma ter recebido oferta em dinheiro para

mudar de partido e fazer parte da base aliada do governo. Recusa-se, porém, a dar detalhes

do episódio:

- A verdade me obriga a dizer que sim, eu fui convidada a mudar de partido. Agora, a

responsabilidade me obriga a parar por aqui. Porque não posso provar. Vai ser a palavra de

uma pessoa contra a palavra da pessoa que me fez o convite.

O diretor de Administração e Finanças da Embratur, Emerson Palmieri, pede exoneração

do cargo. Ele foi citado por Roberto Jefferson como tesoureiro informal do PTB. Teria a

função de receber pagamentos do PT ao PTB.

O funcionário dos Correios Maurício Marinho admite ao Ministério Público Federal ter

feito contatos com mais de 300 fornecedores e prestadores de serviços. Todos interessados

em assinar contratos com os Correios. A notícia ganha destaque nos jornais. Ele confessou

que o genro de Roberto Jefferson, Marcus Vinícius Vasconcelos Ferreira, intermediou o

acesso de empresários à estatal federal. Trecho do depoimento:

“Marcus Vinícius foi muitas vezes na ECT. Marcus Vinícius pedia ao depoente que atendesse

determinados fornecedores, entre os quais César de tal (fornecedor de copiadoras) e

Cristiano Brandão ou outra pessoa (área de tecnologia). Que não consegue se recordar de

outras pessoas, mas pode informar que Marcus Vinícius o apresentou a outros fornecedores

mais de duas vezes.”

14/6/2005 O Brasil pára a fim de ver e ouvir o depoimento do deputado Roberto Jefferson

(PTB-RJ) ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. A sessão dura quase sete horas,

entre a fase de depoimento e os debates. Provoca um terremoto político. Repleto de acusações,

declarações contundentes e ironias, o depoimento de Jefferson reafirma denúncias

feitas à Folha de S.Paulo. A confissão e o testemunho do deputado comprometem o governo

Lula. Sobre o mensalão:

- Desde agosto de 2003 é voz corrente em cada canto desta Casa, em cada fundo de

plenário, em cada gabinete, em cada banheiro, que o ‘seu’ Delúbio, com conhecimento do

‘seu’ José Genoino, sim, tendo como pombo-correio o ‘seu’ Marcos Valério, um carequinha,

que é publicitário lá em Minas, repassa dinheiro a partidos que compõem a base de sustentação

do governo no negócio chamado mensalão.

Jefferson refere-se ao tesoureiro do PT, Delúbio Soares:

- Atendi na minha casa, no princípio de 2004, janeiro, fevereiro… O Delúbio foi simpático.

Fumou um charuto. Simples, um homem simples, mas cumprindo uma missão. Cheio

de melindres e de tato para falar comigo. Com aquele jeitão dele de goiano do interior, disse

que gostaria de ajudar a desencravar uma unha que pudesse haver, foi a expressão que ele

usou, e que faria alguns repasses para o PTB.

- Com o Zé Dirceu eu falei sobre esse assunto uma meia dúzia de vezes. Não é, Zé

Dirceu? Não é? Ao Genoino, o presidente do partido, falei uma meia dúzia de vezes.

- Disse isso ao ministro Palocci. Ele nega. Mas, Palocci, com todo o respeito, disse isso

a vossa excelência, olhando dentro dos seus olhos.

Agora, Jefferson mira outros deputados, envolvidos com corrupção:

- Será que eu estou falando em um convento de virgens? Será que só eu ouvi falar em

mensalão? Eu apenas destampei a panela, deputado.

- Tem muita gente do PP que está acima disso, tem muita gente do PL que está acima

disso. Mas deputado Valdemar Costa Neto, deputado José Janene, Pedro Corrêa, Sandro

Mabel, Bispo Rodrigues, Pedro Henry. Me perdoem, de coração, não posso ser cúmplice

de vocês.

Para Valdemar Costa Neto (PL-SP), que o acusara de mentiroso:

- Eu afirmo que o senhor recebe repasses.

Dirigindo-se novamente a Valdemar, que é o presidente nacional do PL:

- Diga os nomes dos seus que recebem o mensalão. Vossa excelência recebe e reparte.

Roberto Jefferson aponta que o dinheiro, “no início, era para transferência de partido.

Depois, foi para votação”. E mais:

- Um dia, pedi a um companheiro: (…) Avisa ao Pedro Henry que, se ele tomar os dois

deputados do PTB que está tentando com aquela mala de dinheiro, vou para a tribuna e

conto a história do mensalão. Aí, refluiu, mas o mensalão não parou.

Sobre a saída do deputado Luiz Piauhylino (PDT-PE) do PTB:

- O motivo não é nobre, não é justo, foi por dinheiro.

- Provas não tenho, mas tenho provação. Provação vivi, porque além de eles receberem

a mesada, ainda ficavam tentando os nossos deputados: “Vem para cá, seu otário. Olha, está

na mala. Vocês não tem. Aqui tem”.

Jefferson dá novos detalhes do acordo PT/PTB:

- Em maio do ano passado, conversamos eu, o tesoureiro do meu partido, Emerson

Palmieri, o doutor Delúbio, o presidente José Genoino e o Marcelo Sereno. Lá no prédio da

Varig, onde fui várias vezes, e os senhores podem buscar informação na portaria, porque lá

a gente tem que se identificar. Pedi ao presidente do PT, ex-deputado Genoino, um apoio

para a campanha do meu partido. “Sem problema. Você me dá um planejamento de custo

das campanhas do PTB”. Fizemos. Voltamos. Nos reunimos de novo com os três e eles

aprovaram R$ 20 milhões para o financiamento das campanhas do PTB em todo o Brasil.

- Eles cumpriram a primeira parte do acordo, em princípios de julho, com R$ 4 milhões.

O dinheiro foi levado para o partido (…) pelo senhor Marcos Valério. Foi quando estive com

ele pela primeira vez. É carequinha, falante e fala em dinheiro como se fosse assim uma

coisa que caísse do céu. Primeiro foram R$ 2,2 milhões. Em duas malas enormes, notas de

R$ 50 e R$ 100, etiquetadas por Banco Rural e Banco do Brasil. E três dias depois, (…) ele

volta com R$ 1,8 milhão. Notas de R$ 50 e R$ 100, Banco Rural e Banco do Brasil e a

promessa de outras quatro parcelas iguais. Perguntei ao Genoino: “Como é que a gente vai

fazer para justificar esse dinheiro?” Ele falou: “No final a gente faz a entrada, via partido, e

a saída, conta-contribuição”. Perfeito. Mas até hoje essas notas não chegaram. Isso gerou

uma crise brutal no meu partido…

- Voltei ao Zé Dirceu, uma, duas, dez vezes, e disse: “Zé, está esgarçando, estou perdendo

autoridade”. Ele falou: “Roberto, a Polícia Federal é meio tucana. Meteu em cana

62 doleiros, agora, na véspera da eleição. A turma que ajuda não está podendo internar

dinheiro no Brasil”.

Jefferson usa o depoimento para mandar recado a José Dirceu. Ou, melhor: o recado é

para Lula mesmo.

- Eu percebi que o governo quis botar um cadáver podre, que atinge o senhor Delúbio

Soares, que atinge o senhor Silvio Pereira, que atinge o senhor Zé Dirceu… Estão dizendo

que eu sou réu… Zé Dirceu, se você não sair daí rápido, você vai fazer réu um homem

inocente, o presidente Lula. Rápido, saia daí rápido, Zé, para você não fazer mal a um

homem bom, correto e de quem tenho orgulho de ter apertado a mão.

A origem do dinheiro da corrupção:

- Tem de perguntar isso ao Genoino e ao Delúbio, mas pelo que ouvi da conversa do

Marcos Valério, quando ele foi levar os recursos ao PTB na eleição, ele faz via agência de

publicidade, na relação de contratos que tem com algumas empresas do governo.

Sobre o financiamento de campanhas eleitorais, feito com dinheiro de empresas:

- Nenhum partido aqui recebe ajuda na eleição que não seja assim. Nenhum. Tenho a

coragem de dizer de público aqui. Não aluguei meu partido, não fiz dele um exército de

mercenário, nem transformei os meus colegas de bancada em homens de aluguel. Aqui

todos sabem de onde vem, só que nós temos a hipocrisia de não confessar ao Brasil. Estou

assumindo isso aqui e faço como pessoa física, faço como Roberto Jefferson. O dinheiro

vem dos empresários que, na maioria das vezes, mantêm relação com as empresas públicas.

É assim e sempre foi.

Jefferson toca no problema dos Correios, na acusação de que participou de esquema

de corrupção:

- Não consegui compreender ainda por que o zeloso Ministério Público, a zelosa Polícia

Federal, a zelosa Corregedoria da União não investigaram a Diretoria de Informática… E

60% do depoimento do senhor Maurício Marinho apontam lá para a diretoria do ‘seu’ Silvinho

Pereira, secretário-geral do PT.

- Não entendi por que não pesquisaram a Novadata ainda. Não sei por que correm atrás

de um óbolo de R$ 3 mil, quando os contratos que desfalcam os Correios são de bilhões.

Não compreendi ainda como é que o cioso Ministério Público, a ciosa Polícia Federal e a

ciosa Corregedoria da República ainda não investigaram o correio aéreo noturno, do ‘seu’

Silvinho Pereira, onde as contas de superfaturamento nos primeiros anos da atual gestão

chegam a superfaturamento de 300%.

- A Skymaster? Eu nunca tinha ouvido falar. Sei agora, porque gente boa dos Correios

está começando a me dar essas informações. E a Novadata? Naquela época não sabia nada,

mas gente boa dos Correios começa a me dar agora essas informações. Assim como gente

boa começa a me dar informações, deputado Valdemar Costa Neto, das licitações da Valec,

do ex-deputado Juquinha, do PL. Como gente boa começa a me dar o que está acontecendo

no Dnit, lá do PL. Coisas que, se Deus quiser, a CPI vai conhecer.

A revista Isto É Dinheiro publica duas entrevistas com Fernanda Karina Ramos

Somaggio, ex-secretária do empresário Marcos Valério, dono das agências de publicidade

DNA Propaganda e SMPG Comunicação. Fernanda Karina acusa Marcos Valério de

envolvimento com o esquema de compra de deputados. Conta que havia encontros frequentes

de Marcos Valério com dirigentes do PT. Cita Delúbio Soares, Silvio Pereira e

reuniões em hotéis de São Paulo e Brasília.

- Em que hotéis?

- O Blue Trees, em Brasília, o L’Hotel, em São Paulo, o Sofitel, também em São Paulo.

A secretária testemunhou saídas de dinheiro:

- Com certeza. O Marcos Valério ficava o tempo todo com o Delúbio Soares. Era o

Marcos quem pegava o negócio e levava de um lugar para o outro.

- Onde o dinheiro era retirado?

- Era sempre no Banco Rural. E era coisa grande. Algumas vezes pouco, R$ 50 mil, R$

30 mil. Às vezes muito, mas muito mais.

Para ela, Delúbio Soares era o mais próximo de Marcos Valério no esquema:

- Depois, o Delúbio abriu as portas e aí tinha o José Dirceu, o Silvio Pereira.

- Como era o contato com o ministro José Dirceu?

- Havia ligações. A gente ligava e pedia para a menina do Delúbio colocar ele em contato

com o Marcos Valério.

- Então o Valério tinha uma comunicação direta com o Dirceu?

- Sim.

- A senhora relata também que o irmão do ex-ministro Anderson Adauto teria recebido

dinheiro da agência. Isso aconteceu no Ministério?

- Não. O irmão dele foi lá na agência, pegou uma mala de dinheiro e foi embora.

A ex-secretária conta que Marcos Valério mantinha contato com os deputados José Mentor

(PT-SP) e João Paulo Cunha (PT-SP). Marcos Valério pagou passagens aéreas para Silvana

Jupiassu, assessora de João Paulo Cunha. A filha de Silvana Jupiassu também ganhou

bilhetes aéreos.

- Isso porque ela facilitava o contato com o João Paulo.

Em outra parte da entrevista, Fernanda Karina envolve outra funcionária de confiança de

Marcos Valério nas operações de saques de dinheiro:

- Eram pedidos frequentes. Era tudo feito pela Simone Vasconcelos. Era ela quem ia de

vez em quando para Brasília pagar.

Fernanda Karina fala das atividades de Marcos Valério:

- Ele faz intermediação de negócios. Por exemplo: a SMPB tem a conta do Banco do

Brasil na parte de esportes através da Multi Action, uma das empresas do grupo. E é tudo

negociata. Eu sei que eles passam dinheiro para o pessoal do governo.

- Como isso é feito?

- O Marcos Valério manda e tem um pessoal do Departamento Financeiro que faz isso.

- E como a senhora tinha conhecimento?

- Ele era meu chefe. Eu estava sempre com ele. Todo mundo sabe que tem mutreta no

fato de a empresa ter um bom dinheiro no Banco do Brasil.

- Haveria pagamento de propinas a gente do governo?

- Eu já vi sair muito dinheiro de lá.

- Em que situações?

- Vi sair R$ 100 mil em dinheiro para o irmão do Anderson Adauto, no fim de 2003,

quando ele era ministro dos Transportes.

- E para o pessoal do Banco do Brasil?

- O Marcos Valério dá muitas festas para eles, muitos paparicos, muitos mimos.

- Ele oferece viagens de jatinho para eles?

- Não, o Marcos usa o jato do Banco Rural, eventualmente. O Delúbio Soares também

anda no jato do Banco Rural.

Em outro trecho, o repórter Leonardo Attuch indaga se Marcos Valério fez pagamentos

para obter contas publicitárias do governo. Diz Fernanda Karina:

- Com certeza. Quando você entra numa concorrência, a gente já sabe quem vai ganhar

e quem não vai. Eles fazem a licitação pública, mas é um jogo de cartas marcadas. Tem

quem vai pegar a melhor parte da conta, a pior parte da conta.

- A senhora viu?

- Olha, para o Banco do Brasil, o Marcos dava festas. Festas para a alta cúpula e para a

área de marketing.

A revista Isto É Dinheiro pergunta como os pagamentos eram feitos:

- Tinha duas pessoas da área financeira, a Simone Vasconcelos, e uma assistente, a Geysa,

que cuidavam de tudo.

- A senhora tem noção de quanto?

- Já vi o boy sair com motorista para tirar R$ 1 milhão do Banco Rural. Era para depois

dividir o dinheiro, entendeu?

A Folha de S.Paulo divulga o relatório “Agências & Anunciantes”, do jornal Meio &

Mensagem. Traz informações sobre o faturamento da agência DNA Propaganda, de Marcos

Valério. É o que mais cresceu em 2004, com um aumento superior a 200%. Dos R$ 23,2

milhões de faturamento registrados em 2003, o valor subiu para R$ 70,5 milhões. A agência

atende as contas do Banco do Brasil, Eletronorte e Ministério do Trabalho.

Já a SMPB, outra agência de Marcos Valério, cuida da conta dos Correios. Teve

faturamento de R$ 39,9 milhões em 2004, sendo R$ 29,6 milhões apenas com os Correios.

Além de atender o Banco Rural, a SMPB foi contratada pelo Ministério dos Esportes e pela

Câmara dos Deputados, na gestão do presidente João Paulo Cunha (PT-SP).

Ex-tesoureiro nacional e secretário-geral do PP, Benedito Domingos afirma aos jornais

Correio Braziliense e O Estado de S. Paulo que tomou conhecimento de um esquema de

pagamento de mensalões a parlamentares do PP. A distribuição de dinheiro era feita no

apartamento do deputado José Janene (PP-PR), localizado em edifício da Asa Sul, em Brasília.

- Você sabe que as pessoas tinham, mas não sabia de onde vinha.

Benedito Domingos conversa com o repórter Expedito Filho, de O Estado de S. Paulo.

Diz que o mensalão era conhecido como “apoio financeiro”, e entendido como uma espécie

de caixa 2:

- O zunzunzum era muito forte. Um grupo sempre frequentou a casa do Janene. Sempre

houve uma grande movimentação. A casa do Janene era chamada de pensão.

15/6/2005 O governo conquista o comando da CPI dos Correios. Nomeia dois aliados para

os cargos principais da comissão: o presidente será o senador Delcídio Amaral (PT-MS), e o

relator o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR). Osmar Serraglio tinha boas ligações com

José Dirceu. Apoiara a candidatura do filho do ministro, José Carlos Becker (PT), a prefeito

da cidade de Cruzeiro do Oeste (PR).

Delcídio Amaral e Osmar Serraglio acenam com investigações restritas aos Correios,

deixando de fora denúncias acerca do mensalão. Na véspera, parlamentares de cinco

partidos entregaram ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), pedido

para a criação da CPI do Mensalão. O requerimento continha assinaturas de 255 deputados

e 41 senadores.

Os jornais destacam que durante os trabalhos da CPI do Banestado, no início do governo

Lula, o relator e deputado José Mentor (PT-SP) apresentou sete requerimentos relacionados

ao Banco Rural, determinou a quebra de sigilo bancário da instituição, solicitou cópia de

inquérito policial sobre investigações de empresas do banco no exterior, ouviu diretores e

convocou a presidente da instituição para depor. No final do processo, não concluiu nenhuma

investigação relativa ao Rural.

Outra notícia: o Banco Rural foi condenado a pagar multa de US$ 5,9 milhões por ilegalidades

cometidas no mercado de câmbio, na década de 80. O Rural teria permitido remessas

de dinheiro ao exterior, com a falsificação dos nomes dos verdadeiros remetentes.

16/6/2005 Demite-se do cargo o ministro da Casa Civil, José Dirceu (PT-SP). Considerado

a face do PT no governo, era o mais poderoso auxiliar de Lula. Perdeu força em fevereiro de

2004, em consequência do escândalo Waldomiro Diniz. Com as denúncias do deputado

Roberto Jefferson (PTB-RJ), ficou sem condições de permanecer no governo. Sai contrariado.

Volta à Câmara dos Deputados para exercer mandato por São Paulo.

O senador Jefferson Péres (PDT-AM), dos mais respeitáveis parlamentares do Congresso

Nacional, defende investigação para apurar se Lula sabia do mensalão. Quer saber se o

presidente da República agiu para investigar o esquema e punir eventuais responsáveis.

Jefferson Péres está convicto: Lula “foi conivente, prevaricou”:

- Não acho que o presidente Lula seja capaz de um ato desonesto, no sentido de enriquecer

ilicitamente. Agora, que ele sabia, com certeza sabia.

Para o senador, “ninguém, só quem acredita em Papai Noel, pode imaginar que José

Dirceu com o senhor Delúbio, amigos, companheiros de partido, que há muitos anos acompanham

o presidente da República, tenham feito tudo isso com o seu desconhecimento. E

ficou comprovado, ou há fortes indícios de que ele sabia”.

Jefferson Péres admite que um eventual processo de impeachment “pode levar o País a

uma instabilidade muito grande”. Entende, contudo, que a situação justifica uma investigação

sobre o presidente:

- Se ficar evidenciado que o presidente realmente sabia e não tomou providências, não

podemos, em nome da estabilidade, fingir que não sabemos e ficar de braços cruzados,

senão nós é que estaremos prevaricando também.

O senador amazonense explica que responsabilizar alguém por corrupção não exige farta

documentação para servir de prova. Diz Jefferson Péres:

- Provas são provas. Há provas documentais, técnicas, periciais e testemunhais. Se a

testemunha for idônea, se o seu depoimento for convincente, a testemunha vale também,

é uma prova.

Cerco ao ministro Luiz Gushiken (PT-SP). Ele comanda a Secom, Secretaria de Comunicação

da Presidência da República, e é um dos auxiliares mais próximos de Lula. A Folha

de S.Paulo publica que a mulher de Marco Antônio da Silva, diretor de eventos da Secom,

trabalha para a empresa Multi Action, ligada a Marcos Valério.

A publicitária Telma dos Reis Menezes Silva ocupa posto estratégico de representante

da Multi Action, uma realizadora de eventos. Ela mantém contatos com órgãos públicos em

nome da empresa de Valério. O detalhe: cabe à Secom opinar e determinar o conteúdo de

editais de licitação que definem contratações na área de comunicação do Governo Federal.

É a Secom de Gushiken que controla a publicidade e os patrocínios oficiais do governo.

Marco Antônio da Silva nega qualquer irregularidade. Afirma que não tem envolvimento

com o trabalho da mulher. A Folha pergunta-lhe para quem Telma dos Reis Menezes Silva

trabalha. O marido:

- Não sei. Deve trabalhar para vários eventos.

- Sua mulher nunca lhe disse para quem trabalha?

- Eu evito. Minha mulher não é política, não é militante, não é filiada.

- Como ela conheceu Marcos Valério?

- Não sei.

- O ministro sabe dessa situação?

- Acho que não. É uma questão de foro pessoal. Eu relativizei de forma primária, por ela

já ser do mercado. Ela é uma pessoa ingênua em relação a essas coisas. Problemas políticos

daqui eu não comento em casa.

17/6/2005 O Campo Majoritário, maior segmento interno do PT, liderado pelo deputado

José Dirceu (PT-SP), decide manter nos quadros do partido o tesoureiro Delúbio Soares e o

secretário-geral, Silvio Pereira. De acordo com Delúbio Soares, as acusações contra ele são

falsas. Ele avisa que não deixará o cargo, pois “seria uma confissão de culpa”:

- Agi dentro das regras da política.

Manifestação de Silvio Pereira:

- O que eu fiz foi decisão partidária. Se eu sair, vai ter de sair todo o mundo.

Em reunião do PT, o presidente do partido, José Genoino, recusa-se a pôr em discussão

o afastamento dos dois dirigentes. Para ele, as acusações são inconsistentes:

- Não será sequer objeto de avaliação. Será adotado o melhor para o partido.

18/6/2205 A revista Época traz a manchete de capa “Homem da Mala”. A reportagem, de

Diego Escosteguy, traça um perfil de João Cláudio Genu, chefe de gabinete do líder do PP

na Câmara, deputado José Janene (PR). João Cláudio Genu é apontado como braço direito

de José Janene, e “principal executivo na operação do mensalão”. Época registra:

“O partido de Janene teria um esquema de arrecadação muito semelhante ao do PTB

de Jefferson. Apadrinhados bem posicionados em estatais garantem a arrecadação. O PP

instalou diretores na Petrobras, em Furnas, no Instituto de Resseguros do Brasil e na

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O dinheiro chega a Brasília trazido

por emissários ou pelo próprio Genu. Depois, é distribuído. Segundo relato de um parlamentar,

vem em envelopes.”

A revista aponta que, após aderir ao governo Lula, o PP engordou a bancada do partido.

Passou de pouco mais de 20 para 56 parlamentares. E informa que os mensalões, no PP,

variavam de deputado para deputado:

“Os valores variam de R$ 5 mil a R$ 30 mil, a depender da importância do político

recompensado. O local de entrega varia. Às vezes é o apartamento do próprio Janene, apelidado

de ‘a pensão’ dentro da bancada do PP. Outras, a própria sala da liderança. Em alguns

casos, a casa que Genu mantém para festas no bairro Park Way, em Brasília. O chefe de

gabinete de Janene é apontado como responsável pela logística da operação. O mensalão

vinha sendo usado para atrair novos deputados e para garantir que alguns deles seguissem

fielmente as orientações do partido.”

Sobre o patrimônio de João Cláudio Genu, cujo salário é de R$ 5.720:

“O assessor é dono de um apartamento de luxo, uma casa no setor de mansões de Brasília

e cinco carros, dois deles importados. Numa avaliação pessimista, nos últimos cinco anos,

amealhou entre R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões. Metade disso só no governo atual. Na declaração

que entregou ao Imposto de Renda no início do ano, declarou ter ganho menos de R$

80 mil em 2004. Pelo recolhimento de CPMF, a Receita descobriu que passaram por suas

contas bancárias R$ 680 mil no mesmo período.”

A revista Isto É também destaca o deputado José Janene (PP-PR), chefe de João Cláudio

Genu. O relato dos repórteres Amaury Ribeiro Jr. e Luiz Cláudio Cunha é demolidor:

“Curiosamente, nos dois primeiros anos do governo Lula, que coincidem com a ideia

milagrosa do mensalão denunciado pelo presidente do PTB, Roberto Jefferson, Janene

desencravou da miséria. Documentos obtidos por Isto É em cartórios, órgãos oficiais e

sindicatos rurais do Paraná mostram que Janene e sua mulher, Stael Fernanda, viraram

proprietários em 2003 e 2004 de uma dezena de fazendas, imóveis e uma frota de carros

importados avaliados em cerca de R$ 7 milhões. O casal amealhou tudo isso ganhando,

junto, R$ 200 mil anuais, média mensal de R$ 16,5 mil – pouco mais que meio mensalão.

Nesta fantástica engenharia financeira não estão incluídas outras joias de seu patrimônio:

rebanhos de gado e ovinos, safras de soja e a mansão de R$ 2 milhões, ainda em construção,

encravada no Royal Golf, um elegante condomínio fechado na zona mais elegante de

Londrina, onde é vizinho, entre outras personalidades endinheiradas, do locutor global

Galvão Bueno.”

O jornal O Estado de S. Paulo entrevistou o ex-assessor parlamentar, ex-coordenador de

campanha e sobrinho do deputado José Janene (PP-PR), Aristides Barion Júnior. Ele ataca o

tio. Diz não se surpreender com denúncias que apontam José Janene como operador do

esquema do mensalão:

- Surpreso, eu? Claro que não. O Zé é terrível, você não conhece ele. Quando o Zé vê que

o cara é menor, ele esmaga. Se vê que não pode com o cara, tenta fazer um acordo. O Zé é

o número um do mensalão, não tenho dúvida.

Aristides Barion Júnior conta ao repórter Fausto Macedo que José Janene lhe deve US$

1 milhão, dinheiro que foi emprestado para a campanha eleitoral de 1994. Afirma que o tio

ficou rico depois de entrar para a política:

- O Zé mora em um apartamento que vale mais de R$ 1 milhão, tem fazenda, carros

importados, tem avião, tem dois apartamentos na praia, mas é tudo em nome de terceiros.

José Janene é réu em sete ações civis na Justiça do Paraná. Tem acusação por suposto ato

de improbidade administrativa, desvio de verbas públicas na Prefeitura de Londrina (PR) e

enriquecimento ilícito. O sobrinho conta como José Janene age nas campanhas eleitorais:

- Aí você tira suas conclusões. As campanhas são ostensivas, ele gasta uma fortuna. Na

última eleição, não tinha uma esquina em Londrina que não tinha duas ou três pessoas dele

com bandeiras. É muito dinheiro. Ele trabalha em cidadezinha pequena. Vai lá, acerta com

o prefeito e com os vereadores, 60, 80 cidades pequenas. Aí faz votos, manda bala sem dó

nem piedade.

As agências de publicidade de Marcos Valério são mais uma vez notícia de jornal. A

Folha de S.Paulo traz reportagem informando que a Polícia Civil de Minas Gerais investiga

a DNA e a SMPB por compra de notas fiscais frias. O inquérito policial traz 23 notas falsas,

mas suspeita-se de número ainda maior.

Do repórter Mario Cesar Carvalho: “O uso de notas frias por agências de publicidade

que trabalham para o governo é um método clássico para desviar dinheiro. Imagine que a

agência X contratou 10 figurantes para um comercial. Na nota fiscal, os 10 podem virar 100

e a diferença em dinheiro vai para partidos ou políticos”.

A reportagem informa que Valério já foi condenado a dois anos e 11 meses de reclusão

porque suas agências sonegaram contribuições previdenciárias. Segundo a sentença, a DNA

“deixou de recolher contribuições sociais devidas valendo-se de expedientes escusos diversos,

sobretudo omitindo, de seus registros contábeis, fatos geradores daqueles tributos”.

O jornal explica: “A agência não lançava na folha os valores pagos a empregados a título

de remuneração e também fazia pagamentos a empregados da empresa como se fossem

trabalhadores autônomos. A escrituração de pagamentos de salários em ‘contabilidade paralela’

foi comprovada com a apreensão de um documento que descreve os ‘procedimentos

adotados para efetuarmos pagamentos de salários aos funcionários que recebem seus vencimentos

através do caixa (2)’”.

Mais uma das agências de publicidade de Marcos Valério: contratos assinados no governo

Lula permitiram faturamento de R$ 150 milhões. O contrato da agência SMPB com a

Câmara dos Deputados, na gestão do ex-presidente João Paulo Cunha (PT-SP), talvez seja o

mais curioso. Com três aditivos, o valor subiu de R$ 9 milhões para R$ 21,8 milhões.

Em 2004 Marcos Valério criou a Estratégia Marketing e Promoção, para cuidar de campanhas

eleitorais. A empresa foi contratada para a campanha de um aliado de João Paulo

Cunha, que disputava a Prefeitura de Osasco (SP). Campanha vitoriosa, Emídio de Souza

(PT) foi eleito. O passo seguinte: a SMPB disputa licitação para ganhar a conta de publicidade

da Prefeitura.

19/6/2005 O programa Fantástico, da TV Globo, entrevista a publicitária Maria Christina

Mendes Caldeira, ex-mulher do presidente do PL, deputado Valdemar Costa Neto (SP). Ela

descreve conversas que ouviu do ex-marido, segundo as quais o governo de Taiwan fez uma

contribuição ilegal para a campanha de Lula, em 2002. A transação teria sido intermediada

por Valdemar Costa Neto e o tesoureiro Delúbio Soares. Diz Maria Christina:

- Essa doação foi entregue para o Delúbio, foi administrada para o Delúbio. Eu não

tenho prova de que o PT sabia disso, porém ele representava o acesso ao PT.

Da doação, em dinheiro, no valor de US$ 2 milhões, Valdemar Costa Neto, segundo a

ex-mulher, ficou com 20%. Ou seja, US$ 400 mil. Ela comenta a amizade entre Valdemar

Costa Neto e Delúbio Soares:

- O integrante do PT que tinha uma relação profundamente estreita, que era o único que

estava o tempo inteiro com ele, que estava envolvido com todas as coisas que ele fazia, se

chama Delúbio.

Maria Christina Mendes Caldeira acusa Valdemar Costa Neto de comprar, com R$ 30 mil

desviados do PL, móveis, esculturas e objetos decorativos para a casa em que os dois moravam,

em Brasília. O deputado teria adquirido também dois cofres de aço para a residência.

20/6/2005 O deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) concede entrevista ao programa Roda

Viva, da TV Cultura. Reafirma a existência de esquema de corrupção no governo Lula. Cita

três lideranças do PT na organização das operações de suborno: José Genoino, Delúbio

Soares e Silvio Pereira. Acrescenta: “A última palavra era sempre do Zé Dirceu”. Roberto

Jefferson define o ex-ministro como “uma espécie de presidente do PT”:

- Tudo que era fechado no PT tinha que ser homologado lá na Casa Civil.

Jefferson sugere o afastamento dos três dirigentes dos quadros do PT.

- É melhor que eles saiam para salvar a imagem do PT e melhorar a imagem do governo.

Em outro momento da entrevista, Roberto Jefferson acusa o esquema de distribuição de

dinheiro para deputados da base aliada do governo Lula. Envolve, com ironia, o deputado

João Pizzolatti (PP-SC):

- Era feito no café da manhã. O deputado subia e descia com um pacotinho.

Conhecido no início dos anos 90 como um dos líderes da “tropa de choque” do governo

do ex-presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992), Roberto Jefferson opina que o

nível de corrupção no governo Lula é ainda maior do que aquele que levou ao impeachment

de Fernando Collor. Para o deputado, o esquema montado naquela época por PC Farias, o

tesoureiro de Collor, “era menor, malfeito, às claras, com o rabo de fora”.

Roberto Jefferson volta a falar dos R$ 4 milhões que diz terem sido repassados pelo PT

ao PTB. Refere-se ao tesoureiro informal do PTB, acionado por ele assim que o dinheiro

chegou. Diz o deputado:

- Eu pedi ao Emerson Palmieri que guardasse o dinheiro no cofre de um armário de

aço, grande.

21/6//2005 Depois de prestar depoimento à Polícia Federal e negar o teor da entrevista que

dera à revista Isto É Senhor com acusações ao empresário Marcos Valério e a integrantes do

PT e do governo Lula, a secretária Fernanda Karina Ramos Somaggio concede nova entrevista

ao Jornal Nacional, da TV Globo. Explica que recuara das primeiras declarações por

medo. Um advogado orientou-a melhor, e agora ela confirma as denúncias:

- Estava com muito medo porque na terça-feira, depois que saí do meu trabalho, na rua

por onde passo, veio uma pessoa, um motoqueiro, e parou a moto ao lado do meu carro,

fechou meu carro. E disse que, se falasse qualquer coisa, eu colocaria a vida da minha filha

e do meu marido em risco.

A secretária Fernanda Karina volta a pôr o dedo na ferida. Diz que Marcos Valério costumava

manter contato com o tesoureiro Delúbio Soares, “todos os dias”. Ela menciona as

reuniões “com o pessoal do PT”, após Marcos Valério efetuar saques de grandes quantias

em dinheiro:

- Quando ele saía para as reuniões, antes de sair, passava no andar de baixo, no Departamento

Financeiro, e saía com a mala.

O repórter Ismar Madeira indaga sobre o destino do dinheiro:

- Eles nunca falaram nomes. Esses nomes eu desconheço. Eu sabia que o dinheiro ia para

Brasília, e que eles distribuíam lá. Mas para quem, quando e onde, eles não falavam. Era

entre eles.

Declaração de Fernanda Karina:

- Dinheiro eu sabia que tinha dentro de malas, mas nunca foi aberto o dinheiro. Mas

sempre sabia. Eles tomavam muito cuidado com o dinheiro, claro.

Sobre o relacionamento entre Valério e o deputado José Dirceu (PT-SP):

- Sei que ele conversava muito com o ‘seu’ José Dirceu, o ministro. Apesar de o

ministro ligar diretamente para o celular dele, eu liguei para o ministro uma vez. Mas

ele sempre falava.

Sobre a relação de Valério com o deputado João Paulo Cunha (PT-SP):

- Estreitas. Sempre que pedia para ligar, eu ligava, falava com a secretária dele em Brasília

e ele retornava para o celular do senhor Marcos… As conversas não eram conversas abertas,

né? Sempre conversavam por código.

Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara, o deputado Carlos Alberto Leréia

(PSDB-GO) afirma ter ouvido conversas da deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO) sobre

uma oferta de dinheiro. A proposta teria sido encaminhada pelo líder do PL na Câmara,

deputado Sandro Mabel (GO), para que Raquel Teixeira trocasse o PSDB pelo PL, a fim de

fazer parte da base aliada do governo Lula. Do deputado Carlos Alberto Leréia:

- Não sei de valores. Só sei que ela recebeu uma oferta em dinheiro.

Em seu depoimento, Carlos Alberto Leréia confirma: o governador Marconi Perillo

(PSDB) relatou o episódio de assédio à deputada tucana a Lula, durante um evento em Rio

Verde (GO), no dia 4 de maio de 2004:

- Foi no carro do presidente, na presença do motorista e do ajudante de ordens de Lula.

Para registrar: a CPI dos Correios não convocou o motorista nem o ajudante de ordens

para depor.

22/6/2005 O STF (Supremo Tribunal Federal) determina que o presidente do Senado, Renan

Calheiros (PMDB-AL), nomeie senadores para compor a CPI dos Bingos. Proposta no início

de 2004, a CPI fora engavetada por decisão do então presidente do Senado, José Sarney

(PMDB-AP), que apoia o governo.

Além de apurar suspeitas de lavagem de dinheiro e a suposta ligação de casas de bingo

com o crime organizado, a comissão de inquérito foi proposta com a finalidade de investigar

atividades do ex-subchefe de Assuntos Parlamentares do Ministério da Casa Civil,

Waldomiro Diniz. Ele acabou afastado do governo Lula depois da divulgação de uma fita

no início de 2004, na qual aparece pedindo propina ao empresário do jogo Carlos Augusto

Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Quando a gravação foi feita, em 2002, Waldomiro Diniz era

o presidente da Loterj (Loteria Estadual do Rio), na gestão da governadora Benedita da

Silva (PT-RJ).

A deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO) depõe no Conselho de Ética da Câmara. Afirma

que recebeu proposta em dinheiro do deputado Sandro Mabel (PL-GO) para se transferir

ao PL e apoiar o governo Lula. Da deputada:

- Sandro fez a seguinte colocação: “O PL quer se repaginar e ter uma cara nova. Temos

que ter uma mulher, mas não qualquer mulher. Queremos uma mulher que faça a diferença”.

Confesso que me senti lisonjeada.

Segundo Raquel, Sandro Mabel fez vários elogios, dizendo que ela “viajaria pelo Brasil

adequando a educação ao perfil do PL”. Então, veio a oferta:

- Houve sim uma proposta de R$ 30 mil por mês, que poderia chegar a R$ 50 mil. Em

dezembro, eu receberia mais R$ 1 milhão. Fiquei indignada. Não perguntei mais nada e a

conversa acabou ali.

A deputada decidiu pedir conselho ao governador Marconi Perillo (PSDB). Ela não denunciou

o caso por falta de provas:

- Era uma conversa sem testemunhas. Seria a minha palavra contra a dele. Qualquer

pessoa sensata só fala o que pode provar.

A secretária Fernanda Karina Ramos Somaggio concede entrevista à imprensa. Acrescenta

novos detalhes às atividades do empresário Marcos Valério. Fala do relacionamento

do ex-chefe com integrantes do PT. É questionada sobre “malas de dinheiro” para políticos

em Brasília:

- Os acertos para saques no Banco Rural eram feitos pela Gerência Financeira da SMPB

e também por Marcos. Várias vezes, quando ele precisava de dinheiro, falava diretamente

com a diretoria do banco.

Fernanda Karina menciona “boys e motoqueiros” que tinham a função de ir ao Banco

Rural e ao Banco do Brasil buscar dinheiro:

- As pessoas do Departamento Financeiro falavam que na mala tinha dinheiro. Não falavam

o valor.

Marcos Valério encarregava-se de transportar o dinheiro a Brasília:

- Era para político, porque Marcos sempre estava conversando com político.

Fernanda Karina reafirma: Marcos Valério e o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, voavam

em avião do Banco Rural:

- O Banco Rural sempre disponibilizava o avião, para quando eles precisassem.

A secretária fornece detalhes sobre a licitação para a escolha da agência de publicidade

que atenderia a conta dos Correios. Foi um período em que Marcos Valério manteve intenso

contato com Delúbio Soares, Silvio Pereira, secretário-geral do PT, e outras “pessoas do PT

em Brasília”. As conversas eram incompreensíveis, sempre “codificadas”:

- O que aconteceu foram vários telefonemas, várias viagens a Brasília durante o processo

de licitação. As pessoas que iam às reuniões nunca eram faladas. Eu sempre soube que

eram o Marcos, o Delúbio e o Silvio Pereira, algumas vezes. As reuniões eram sigilosas,

fora da empresa, fora de Belo Horizonte.

A licitação dos Correios chamou a atenção da secretária Fernanda Karina. Antes da sua

conclusão, todos os funcionários da SMPB já sabiam que a agência iria ganhar a conta

publicitária da estatal federal:

- No final de 2003, houve uma festa preparada dois dias antes da divulgação do resultado

da licitação, para os funcionários comemorarem a conquista da conta.

O TCU (Tribunal de Contas da União) aponta sobrepreço em dois contratos dos Correios

com a empresa Skymaster Airlines, contratada para o serviço de postagem noturna. A Diretoria

de Operações da estatal, responsável pelo negócio, estaria na área de influência do

secretário-geral do PT, Silvio Pereira.

O contrato assinado em janeiro de 2004 previa gastos anuais de R$ 78 milhões. Num dos

casos examinados, o TCU apurou acréscimo de 108% no valor contratado. O preço de um

voo de R$ 213 mil, em dezembro de 2003, subiu para R$ 445 mil em 2004.

O TCU compara valores de duas linhas aéreas exploradas pela Varig, nos patamares de

R$ 115,7 mil e R$ 27 mil. No caso dos Correios, os custos dos mesmos serviços subiram,

sem justificativas, para R$ 229,2 mil e R$ 75 mil.

23/6/2005 A publicitária Maria Christina Mendes Caldeira, ex-mulher do presidente do PL,

deputado Valdemar Costa Neto (SP), conversa com a repórter Angélica Santa Cruz, do

jornal O Estado de S. Paulo. Conta detalhes de como o deputado costumava pagar as despesas,

sempre em dinheiro vivo, inclusive quando comprava bilhetes aéreos para viagens internacionais:

- Teve uma época em que comecei a reclamar muito e ele passou a usar eventualmente

um cartão. Mas ele mantinha um cofrão em nossa casa que parecia um armário. Tenho as

notas fiscais desse cofre. Quando nos separamos, saí denunciando a existência dele. E o

Valdemar mandou uma empresa ir lá retirar o cofre.

Maria Christina insinua que houve a “compra” de um pequeno partido político, o PST

(Partido Social Trabalhista). A adesão do PST ao PL teria sido obtida com dinheiro vindo de

uma agência de publicidade. A agência, por sua vez, teria um contrato com uma empresa

estatal. Maria Christina não acrescenta maiores detalhes:

- Tenho provas de que ele usa verbas do PL em despesas pessoais. Ele tem dois carros em

Moji que estão em nome do partido. Tenho cópias de cheques que passei para empresas que

mobiliaram nossa casa e que saíram em nome do partido.

24/6/2005 Levantamento feito pela revista Isto É escancara saques milionários de dinheiro

vivo, em contas bancárias das agências de publicidade SMPB e DNA, de Marcos Valério.

Só no período que vai de julho de 2003 a maio de 2005, R$ 20,9 milhões foram retirados do

Banco Rural, em Belo Horizonte.

Os dados em poder do Ministério Público foram obtidos junto ao Coaf (Conselho de

Controle das Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda) e se referem a retiradas

superiores a R$ 100 mil. O relatório registra os saques de R$ 16,5 milhões de contas da

SMPB. Da DNA, outros R$ 4,4 milhões.

Houve 103 saques na boca do caixa, média de uma retirada por semana, sempre em

valores acima de R$ 100 mil. As investigações identificaram que duas pessoas faziam os

saques. Uma delas, Geyza Dias dos Santos, da SMPB, havia sido mencionada por Fernanda

Karina Ramos Somaggio. Da Isto É:

“Em janeiro de 2004, por exemplo, foram retirados R$ 2,8 milhões. Em setembro do

mesmo ano foi retirado R$ 1,3 milhão. Em 2003 se deram os maiores saques nas contas das

duas empresas: R$ 11 milhões, no total. Apenas entre setembro e outubro foram feitos 20

saques na seguinte sequência: seis de R$ 250 mil, quatro de R$ 300 mil, três de R$ 100 mil,

dois de R$ 200 mil, um de R$ 112 mil, um de R$ 350 mil, um de R$ 500 mil (o maior deles,

no dia 10 de outubro) e um último de R$ 385 mil. Em 2003, os saques somaram R$ 11

milhões. No ano passado, as retiradas chegaram a R$ 10 milhões.”

Divulgado relatório da comissão de sindicância realizada no IRB (Instituto de Resseguros

do Brasil). Detalha operações suspeitas de irregularidades que envolvem o presidente da

estatal, Lídio Duarte, indicado pelo PTB, e o diretor comercial, Luiz Eduardo Pereira de

Lucena, da cota do PP no governo Lula.

O documento indica conluio entre os dois altos funcionários do IRB e executivos das

estatais Furnas Centrais Elétricas, Eletrobrás e Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura

Aeroportuária) para favorecer de forma ilegal três corretoras de seguro: a Assurê, de Henrique

Brandão, amigo do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), e as empresas Cooper Gay, uma

multinacional inglesa, e Alexander Forbes, de origem sul-africana.

A comissão de sindicância recomenda a abertura de processo criminal por tráfico de

influência e ação cível por improbidade administrativa contra os dois dirigentes do IRB.

Eles concederam vantagens indevidas às corretoras.

O relatório implica em irregularidades os diretores do IRB Luiz Appolônio Neto, sobrinho

do deputado Delfim Netto (PP-SP), e Carlos Murilo Goulart Barbosa Lima, que

teria sido indicado para o cargo pelos senadores José Sarney (PMDB-AP) e Edison Lobão

(PFL-MA), que viria a ser nomeado ministro de Minas e Energia no segundo mandato de

Lula, pelo PMDB.

As corretoras citadas tiveram crescimento vertiginoso, graças a contratos de colocação

de resseguros no exterior. Para a comissão de sindicância, os despachos que beneficiaram as

empresas eram “desprovidos de fundamentação”. O relatório cita a empresa aérea TAM,

cujo resseguro seria realizado pela corretora Alexander Forbes, indicada por Lídio Duarte e

Luiz Eduardo Pereira de Lucena, apesar de não levar em conta recomendações da própria

TAM. Os dois também teriam favorecido a Alexander Forbes em outra oportunidade, numa

renovação de apólices do sistema Usiminas.

Outro problema: a despeito de parecer técnico contrário, Luiz Eduardo Pereira de Lucena

teria favorecido a Cooper Gay na renovação de seguro da Petrobras, contando com um “de

acordo” de Lídio Duarte. Em mais um contrato da Petrobras contrariando parecer técnico,

Lídio Duarte teria operado de forma a favorecer a Cooper Gay ao contratar uma empresa.

Para isso, escreveu um simples “a Cooper poderia ser testada neste tipo de negócio”.

25/6/2005 A revista Veja entrevista Marcos Valério. Descreve que o empresário “tem passado

os dias trancado com um batalhão de advogados e mergulhado em documentos e fitas de

vídeo”, com a finalidade de esmiuçar o depoimento de Roberto Jefferson (PTB-RJ) à Comissão

de Ética da Câmara.

Veja questiona Marcos Valério sobre saques em dinheiro com valores e datas compatíveis

às denúncias de Roberto Jefferson. Ele responde:

- Reconheço que já fiz vultosas movimentações financeiras no Banco Rural. Tenho fazendas,

compro animais. Lido com gado. Há fazendeiros que simplesmente não aceitam

cheque. Tenho 13 cavalos de raça.

- Quando e como o senhor conheceu Delúbio?

- Em meados de 2002. Fui levado ao PT pelas mãos do deputado federal Virgílio Guimarães,

meu conterrâneo da cidade de Curvelo (MG). Aí eu pedi e ele me apresentou à maioria

do pessoal do PT, inclusive o Delúbio.

- Como foi o processo de aproximação com os outros líderes do PT?

- Foi também pelo Virgílio. Foi ele quem me apresentou ao ministro José Dirceu e a João

Paulo Cunha.

Marcos Valério fala da amizade com Delúbio Soares:

- Nunca neguei que sou muito, mas muito amigo mesmo do Delúbio. Eu sou do interior,

bicho do mato. O Delúbio é goiano, bicho do mato também. Houve aquela afinidade.

A revista pergunta sobre as 13 vezes que Marcos Valério esteve na sede do PT em Brasília,

em 2005. Resposta:

- Fui tomar cafezinho com meu amigo Delúbio. Discutíamos futilidades e um pouco

de política.

Evasivo, o empresário admite ter ido aos gabinetes dos ministros da Saúde, Humberto

Costa (PT-PE), e dos Transportes, Anderson Adauto (PL-MG), discutir política e campanhas

eleitorais. Quantas vezes Marcos Valério esteve com o ministro José Dirceu (PT-SP)?

- No período em que foi ministro, três ou quatro vezes, no máximo. Por telefone, devo

ter falado duas vezes, logo no início do governo. Nossos encontros foram por acaso.

- Segundo relato de empresários ouvidos por Veja, o senhor foi visto várias vezes no

Palácio do Planalto, na ante-sala do gabinete do ministro José Dirceu.

- Fui mesmo várias vezes ao Palácio do Planalto. Estive lá para visitar uma conterrânea

do Delúbio, chamada Sandra Cabral.

- Sandra Cabral é assessora-chefe da Casa Civil. Que assuntos o senhor tinha para

conversar com o braço-direito do então ministro José Dirceu?

- Ela é de Goiás, como o Delúbio. Como ele tem interesse em ser candidato a deputado

federal, eu e a Sandra discutíamos os projetos do Delúbio. Conversamos muito sobre isso.

- O senhor está dizendo que esteve quatro ou cinco vezes no Palácio do Planalto

apenas para conversar com a assessora-chefe da Casa Civil sobre uma provável candidatura

do tesoureiro do PT a deputado federal?

- É isso mesmo. A Sandra é amiga do Delúbio e estava preocupada com a campanha dele.

Três dias depois de mencionada na entrevista de Marcos Valério, Sandra Cabral faria

declarações a jornalistas na sede nacional do PT, em São Paulo. Diria não ver nada

de errado em tratar da eventual candidatura de Delúbio Soares no Palácio do Planalto,

sede do governo:

- O Planalto, no nosso governo, felizmente, é um palácio aberto. Não só à imprensa,

como a qualquer outra pessoa que entra a qualquer hora. Meu gabinete é absolutamente

aberto.

Após a entrevista, foi anunciada a saída de Sandra Cabral da Casa Civil.

26/6/2005 A Folha de S.Paulo informa que o patrimônio de Marcos Valério subiu de R$ 3,8

milhões para R$ 6,7 milhões, em apenas um ano. Justamente de 2002 para 2003, no primeiro

ano do governo Lula. O jornal esclarece que praticamente todos os bens do empresário

estão em nome dos filhos e da mulher, Renilda Santiago. O casal possui imóveis, carros de

luxo e tem aplicações financeiras. A Folha descreve ganhos de Marcos Valério:

“Em 2002, recebeu das agências de publicidade (e coligadas) das quais é sócio R$ 504

mil a título de lucros e dividendos. No ano seguinte, foram R$ 2,95 milhões. Ou seja, o

retorno que as empresas lhe proporcionaram no primeiro ano do governo Lula foi quase seis

vezes maior do que em 2002.”

28/6/2005 A Polícia Federal analisa documentos apreendidos nos setores de contabilidade

das empresas de Marcos Valério, mas não encontra registros de transações com gado ou

cavalos. Valério mencionara negócios no setor pecuário para justificar saques em dinheiro

de R$ 20,9 milhões, feitos no Banco Rural. A investigação constatou número diferente: no

governo Lula, o patrimônio de Valério teria saltado de R$ 2 milhões para R$ 6,7 milhões.

Pecuaristas estranham as alegações de Valério. R$ 20,9 milhões seriam suficientes para

adquirir até 50 mil cabeças de bezerro de engorda, mas o nome de Valério é desconhecido

no mercado de leilões de gado. Declaração de Daniel Bilk Costa, presidente do Sindicato

Nacional dos Leiloeiros Rurais:

- Os poucos pecuaristas que têm mais de 5 mil cabeças de gado são conhecidos. Ninguém

que gasta R$ 20 milhões, em dinheiro e à vista, fica no anonimato.

A agência de publicidade DNA foi multada em R$ 63,2 milhões pela Receita Federal em

novembro de 2004, por movimentação financeira incompatível com a receita da empresa. A

agência administrou R$ 268 milhões naquele ano, quantia acima do que poderia faturar com

serviços de publicidade. Suspeita-se de dinheiro de caixa 2. As agências de Valério detêm

cinco importantes contas de publicidade no governo Lula: Banco do Brasil, Eletronorte,

Correios, Ministério do Trabalho e Ministério do Esporte.

A secretária Fernanda Karina Ramos Somaggio depõe no Conselho de Ética da Câmara

dos Deputados. Faz novas revelações sobre Marcos Valério:

- Quando o senhor Marcos ia a Brasília, sempre no dia ou no dia anterior eram sacadas

grandes quantias de dinheiro, pela Geyza ou pelos boys. Os boys falavam que tinha saque de

R$ 1 milhão. O dinheiro era levado para o Departamento Financeiro da agência, onde a

Simone e a Geyza dividiam os maços e colocavam nas malas.

- O senhor Marcos passava na empresa e pegava as malas para levar no avião fretado.

Algumas vezes, a Simone diz que ficava em um hotel em Brasília, dentro de um quarto, o

dia todo, contando dinheiro. E era um entra e sai de homem que ela ficava muito cansada.

Ela só contava dinheiro e passava para essas pessoas.

A funcionária Geyza Dias dos Santos trabalha no Departamento Financeiro da SMPB com a

gerente Simone Vasconcelos. Simone também usava quartos do hotel Grand Bittar, em Brasília,

onde se hospedava, para repartir o dinheiro da propina. Os boys são Marquinhos e Orlando, cujo

trabalho era retirar dinheiro no Banco Rural e no Banco do Brasil e transportá-lo até a agência.

Fernanda Karina entrega a agenda de trabalho ao Conselho de Ética, com anotações do

período em que foi secretária de Marcos Valério. Lista quatro encontros do empresário com

Marcus Vinicius di Flora, secretário-adjunto da Secom, a Secretaria de Comunicação da

Presidência da República. Traz referências a Márcio Lacerda, secretário-executivo do Ministério

da Integração Nacional, braço-direito do ministro Ciro Gomes (PSB-CE). Uma

ordem de Marcos Valério: é para deixar motorista à disposição de Delúbio Soares, sempre

que o tesoureiro do PT estiver em Belo Horizonte.

Apontamentos na agenda Fernanda Karina registram encontros de Marcos Valério com

os deputados José Mentor (PT-SP) e João Magno (PT-MG). Tem lembrete para a secretária

presentear Marcus Vinicius di Flora e outro deputado, João Paulo Cunha (PT-SP), com

canetas Mont Blanc. O nome do tesoureiro nacional do PL, Jacinto Lamas, homem de confiança

do deputado Valdemar Costa Neto (SP), aparece três vezes. A agenda também registra

o nome do petista Henrique Pizzolato, diretor de Marketing do Banco do Brasil, com

quem Marcos Valério também se encontrava com certa frequência.

As retiradas de dinheiro, segundo a secretária Fernanda Karina:

- Os saques eram feitos antes das reuniões do senhor Marcos com os senhores Delúbio e

Silvio Pereira, marcadas por mim nos hotéis Blue Tree Towers em Brasília, e Sofitel em São

Paulo. O senhor Marcos só dizia que era para os amigos de Brasília.

“Detalhes” da agenda de Fernanda Karina: em 3 de dezembro de 2003, dois dias antes de

reunião entre Marcos Valério e Silvio Pereira, secretário-geral do PT, o empresário sacou

R$ 200 mil. Alguns dias depois, em 11 de dezembro, novo encontro com Silvio Pereira. Na

véspera, retirada de R$ 120 mil. Outra anotação, esta de outubro de 2003: mandar flores a

Silvio Pereira, um presente pelo nascimento da filha do secretário-geral. “Parabéns pela

vinda de Luana. Que seja feliz”, diz o recado, ditado por Marcos Valério.

29/6/2005 Apesar da resistência da base aliada do governo Lula, o Senado instala a CPI dos

Bingos. Na CPI dos Correios, os governistas trabalham contra a quebra dos sigilos bancá88

rio, fiscal e telefônico de Marcos Valério. O esforço é em vão. Vencidos, a senadora Ideli

Salvatti (PT-SC) e o deputado Maurício Rands (PT-PE) tentam impedir o depoimento de

Marcos Valério. Vencidos mais uma vez, insistem na definição de uma pauta restrita, limitando

o questionamento ao empresário ao caso dos Correios. Não querem indagações acerca

de saques em dinheiro vivo ou perguntas sobre as amizades de Marcos Valério dentro do

governo Lula e do PT.

Marcos Valério, por sua vez, presta depoimento à Polícia Federal. Ao lado dele, três

advogados para orientá-lo. Agora, ele nega ter usado dinheiro vivo para comprar gado,

como havia declarado à revista Veja. Em sua nova versão, o dinheiro serviu para pagar

fornecedores de empresas, comprar ativos e distribuir lucros entre os sócios. Sem

maiores detalhes.

Depois da Polícia Federal, Marcos Valério presta esclarecimentos à Comissão de

Sindicância da Câmara dos Deputados. Não dá informações sobre os “ativos” nos quais

teria aplicado o dinheiro sacado. Em relação à entrevista à revista Veja, teria sido só

uma “brincadeira”.

Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara, o deputado José Múcio (PE), líder do

PTB na Câmara, confirma ter participado de jantar na casa de Roberto Jefferson (PTB-RJ),

em Brasília, em março de 2005. Estavam presentes José Genoino, presidente nacional do

PT, e os tesoureiros do PT e do PTB, Delúbio Soares e Emerson Palmieri. O encontro serviu

para Jefferson pedir mais R$ 4 milhões ao presidente do PT. Com o dinheiro, acertaria a

segunda parcela dos R$ 20 milhões prometidos pelo partido de Lula ao PTB, para gastos

supostamente efetuados na campanha eleitoral de 2004.

José Múcio também confirma reunião anterior, realizada em junho de 2004, na sede do

PT, em Brasília, com as presenças de Roberto Jefferson, Emerson Palmieri, José Genoino,

Delúbio Soares e do secretário de comunicação do PT, Marcelo Sereno, para fazer o acordo

dos R$ 20 milhões. Para registrar: até o jantar de março de 2005, José Múcio desconhecia

que o PT já havia repassado R$ 4 milhões para o PTB. Palavras dele:

- Foi quando ouvi falar nos R$ 4 milhões e quando o Roberto pediu outros R$ 4 milhões

para regularizar a situação, porque ele tinha ficado numa situação extremamente

desconfortável no partido, por causa do acordo não cumprido dos R$ 20 milhões. Ele disse:

“Com R$ 4 milhões resolvo o problema”.

Com elegância, José Múcio insinuou que Roberto Jefferson, presidente do PTB, teria

ficado com os R$ 4 milhões para si:

- Tenho quase certeza absoluta de que não chegou ao partido.

Aqui, José Múcio se distancia de Roberto Jefferson, a quem servia como líder do PTB na

Câmara. A recompensa por isso virá no segundo mandato de Lula, no qual será nomeado

líder do governo na Câmara, ministro das Relações Institucionais e ministro do TCU

(Tribunal de Contas da União).

Prestam depoimento no Conselho de Ética, ainda, José Genoino e a deputada Raquel

Teixeira (PSDB-GO). José Genoino admite conhecer Marcos Valério:

- Eu estive apenas algumas vezes com ele, na sede do PT, para cumprimentar, numa

relação social, na medida em que ele tinha relação mais próxima com o companheiro

Delúbio Soares.

Raquel Teixeira relata telefonema de Alon Feuerwerker, assessor do ministro Aldo Rebelo

(PC do B-SP), nos dias seguintes à entrevista na qual Roberto Jefferson (PTB-RJ)

revelou a existência do mensalão.

- Ele disse que o objetivo era tratar de uma emenda minha de R$ 1 milhão.

A Folha de S.Paulo publica reportagem de Cláudia Trevisan, segundo a qual o PT emprestou

R$ 3,6 milhões do Banco Rural em 2003, apesar de jamais ter tido conta na instituição

financeira até Lula vencer as eleições de 2002. Em dezembro de 2004, o valor do empréstimo

atingira R$ 5,1 milhões. Outro dado: quando o PT conseguiu o financiamento dos

R$ 3,6 milhões, estava com o patrimônio líquido negativo, em R$ 4,2 milhões. Não era

recomendável que um banco concedesse crédito.

Além do Banco Rural, o banco BMG. A Folha revela que o segundo banco, também com

sede em Belo Horizonte, emprestou outros R$ 2,4 milhões ao PT em 2003. A dívida junto ao

BMG chegou a R$ 2,7 milhões em 2004. O Banco do Brasil, por sua vez, único credor do

PT em 2002, aumentou o nível de financiamentos ao partido. Dos R$ 705 mil registrados

em 2002, foram R$ 1 milhão no ano seguinte. Em 2004, R$ 3,5 milhões. Ao mesmo tempo,

o patrimônio líquido do PT alcançava R$ 24,7 milhões, negativos.

30/6/2005 Roberto Jefferson no ataque. A Folha de S.Paulo publica novas acusações do

presidente nacional do PTB. Agora, um esquema de desvio de dinheiro engendrado na empresa

Furnas Centrais Elétricas. A maracutaia envolveria o diretor de Engenharia da empresa,

Dimas Toledo. Ele teria se reunido com Roberto Jefferson, na casa do deputado, em 13

de abril de 2005.

Roberto Jefferson diz à repórter Renata Lo Prete que “sobram” R$ 3 milhões por mês em

Furnas. A operação teria sido relatada por Dimas Toledo. A divisão do dinheiro: R$ 1 milhão

para o PT nacional, repassado ao tesoureiro Delúbio Soares; R$ 1 milhão para o PT de

Minas Gerais, levado ao partido pelo diretor de Administração de Furnas, Rodrigo Botelho

Campos; e R$ 1 milhão dividido meio a meio: R$ 500 mil para a diretoria de Furnas e R$

500 mil para alguns deputados que deixaram o PSDB e ingressaram no PTB.

O presidente do PTB nomeou três deputados desse grupo: Osmânio Pereira (MG), Salvador

Zimbaldi (SP) e Luiz Piauhylino (PE), sendo que o último já se transferira novamente,

para o PDT. Coube ao grupo indicar o diretor de Finanças de Furnas, José Roberto

Cesaroni Cury.

A história, confusa, vai até Lula. Jefferson explica: o PTB havia escolhido Francisco

Pirandel para ser o diretor de Engenharia, no lugar de Dimas Toledo. No loteamento do

governo Lula, coubera ao partido nomear o cargo ocupado por Toledo. Informado da “sobra”

dos R$ 3 milhões por Toledo, que lutava para manter o cargo, Jefferson contou tudo ao

ministro José Dirceu:

- Tudo o que o Dimas me explicou eu relatei depois ao Zé Dirceu. Ele confirmou que

era isso mesmo. Percebi claramente que o Zé Dirceu estava jogando contra a nomeação

do Pirandel.

A proposta de José Dirceu, segundo Roberto Jefferson:

- “Roberto, vamos resolver esse negócio por cima. Deixa o Dimas lá. A gente faz um

acerto direto entre o PT e o PTB”.

Jefferson aceitou. Em 26 de abril de 2005, no Palácio do Planalto, o último encontro

de Jefferson com o presidente. Lula foi logo cobrando, não estava satisfeito com a

situação em Furnas:

- “Roberto, por que está demorando tanto?”

Jefferson responde que estava sofrendo pressões, mas sem dar detalhes. E diz aceitar

uma “solução de compromisso”. Lula não quer:

- Nada disso. O Dimas vai sair.

Pouco mais de duas semanas depois, a revista Veja publicava a gravação com Maurício

Marinho, em que Jefferson aparecia como o chefe da corrupção nos Correios. Veio a crise

do mensalão e a ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff (PT-RS), suspendeu tudo.

Dimas Toledo ficaria no cargo.

Neste ponto, com as novas denúncias de Roberto Jefferson, o Palácio do Planalto exonera

todos os diretores de Furnas mencionados por Jefferson. Para diminuir o desgaste, uma

nota da estatal federal pontua que os afastados “solicitaram licenças de seus cargos, até que

as apurações necessárias estejam concluídas”. Caem Dimas Toledo, com 35 anos de Furnas,

José Roberto Cesaroni Cury e Rodrigo Botelho Campos, ex-vice-presidente da CUT (Central

Única dos Trabalhadores, ligada ao PT), indicado do PT.

Em mais uma sessão tumultuada, Roberto Jefferson presta depoimento à CPI dos

Correios. Ele admite que pediu dinheiro ao diretor de Administração dos Correios,

Antônio Osório:

- Eu pedi a ele que, se possível, na relação com qualquer empresário privado, ele pudesse

no final ajudar o caixa oficial do partido.

Jefferson também chama para si a responsabilidade sobre o destino dos R$ 4 milhões

que, segundo ele, foram repassados ao PTB pelo PT. Recusa-se a dar nomes de supostos

beneficiários do dinheiro.

- Não admito que o partido pegou, morre comigo a informação. Não vou prejudicar os

inocentes, recebo na pessoa física, por omissão do presidente do PT e erro meu.

O foco do depoimento, o pagamento de mensalões:

- Na raiz do mensalão está o troca-troca de partido. Até luvas de R$ 1 milhão e financiamento

de R$ 30 mil de taxa de manutenção nós já temos.

- O senhor Marcos Valério, versão moderna e macaqueada do senhor PC Farias, sacava

R$ 1 milhão por dia nas contas do Banco Rural. Ou sacava em Minas Gerais ou no prédio do

banco no Brasília Shopping, no nono andar, onde muitos assessores dos que recebem

mensalão, que estão registrados na portaria, subiam até o escritório do banco para receber

R$ 30 mil, R$ 40 mil, às vezes R$ 20 mil ou até R$ 60 mil.

91

- Tem que procurar no Banco do Brasil também, porque recordo que, dos recursos que

recebi do PT, 60% eram notas etiquetadas do Banco do Brasil.

Jefferson chuta o pau da barraca:

- Não há, povo do Brasil, cidadãos do Brasil, eleição de deputado federal que custe

menos de R$ 1 milhão ou de R$ 1,5 milhão. Mas a média, aqui na CPI e na Câmara, na

prestação de contas, é de R$ 100 mil. Não há eleição de senador que custe menos que R$ 2

milhões ou R$ 3 milhões, mas a prestação de contas, na média, é R$ 250 mil. Esse processo

começa na mentira e deságua no PC Farias, nos outros tesoureiros e, agora, no senhor Delúbio

e no senhor Valério.

- É de deixar a gente perplexa. Ou alguém tem dúvida que a campanha mais rica de 2002

foi a campanha do PT? A mais milionária, a mais poderosa de todo o Brasil, do Oiapoque ao

Chuí? E as declarações da Justiça Eleitoral não traduzem a realidade. Nem a minha, porque

é igual à dos senhores.

- Participei no passado de uma CPI, a CPI do PC, como advogado. Tentei fazer naquela

CPI o que vi ontem aqui por parte de alguns políticos: impedir que as investigações

avançassem. Procurei evitar que os fantasmas do PC Farias pudessem viver à luz do dia.

E, nessa inversão de papéis, vi que muitos que ontem exorcizavam tais fantasmas agora

estão caçando eles. Só que não são mais os fantasmas de PC. São os fantasmas do Delúbio

e do Marcos Valério.

- PC Farias é pinto perto do que se vê de corrupção no PT.

O deputado Henrique Fontana (PT-RS) acusa Roberto Jefferson de ter servido “ao mais

corrupto governo da história do Brasil, o de Fernando Collor de Mello”. Jefferson retruca:

- Servi também ao de vossa excelência!

E vai em frente:

- Não tente empurrar nada para o PTB. No Rio Grande do Sul, o governo do PT viveu o

escândalo do apoio dos bicheiros e tentou jogar tudo para debaixo do tapete. Bicheiros e

Waldomiro Diniz são coisas do PT.

- O PT, que fez da ética e da moralidade a sua bandeira, rasgou agora a bandeira. A

mim isso não traz felicidade. Chafurdou, se sujou como os outros no passado, nos quais

atirou pedra. E para que isso não se repita temos de enfrentar a raiz do financiamento

eleitoral. Esses fantasmas que ficam rondando o poder, Delúbio, PC Farias, Valério, é

sempre a mesma prática.

- Não vim aqui mendigar em favor do meu mandato. Já passei dele. Não vim perorar

pelo deputado, absolutamente. Enfrento uma luta aqui como cidadão, como homem, como

chefe de família. Saio do Congresso da maneira que entrei, pela porta da frente. Ninguém

vai me colocar de joelhos e com o rabo entre as pernas. Ninguém vai me acanalhar. Não

faço papel do herói, porque não sou melhor que os senhores, sou igual. Não faço papel de

vilão porque não sou, porque os senhores e senhoras não são melhores do que eu.

Já no final do depoimento, mais uma denúncia: Marcos Valério, em reunião intermediada

pelo tesoureiro Delúbio Soares, ofereceu um negócio que renderia R$ 100 milhões ao PT e

ao PTB. Uma operação no coração do IRB (Instituto de Resseguros do Brasil). Jefferson

tinha de convencer o presidente do IRB, Luiz Appolônio Neto, a fazer uma transferência de

US$ 600 milhões de aplicações do IRB. Luiz Appolônio Neto fazia parte do círculo de

influência de Jefferson. A comissão do negócio, os tais R$ 100 milhões:

- O Marcos Valério pediu que eu influenciasse na operação de transferência de US$ 600

milhões de uma conta que o IRB tem no exterior, não sei se na Inglaterra ou na Suíça, para

o Banco Espírito Santo, em Portugal.

A proposta de Marcos Valério teria sido feita em abril de 2005, na sede do PTB, em

Brasília. Na época, o Banco Espírito Santo manteria interesses no Brasil. Roberto Jefferson

conta que, em seguida, telefonou para José Genoino, o presidente nacional do PT. Contoulhe

o que ouviu. Disse assim:

- “Zé, esse cara é doido, ele acha que chove dinheiro, que dinheiro dá em árvore.”

Resposta de José Genoino:

- Fica tranquilo, que ele resolve.

2/7/2005 A revista Veja traz detalhes da “sociedade secreta” entre Marcos Valério e o PT. A

reportagem de Alexandre Oltramari conta a história do empréstimo de R$ 2,4 milhões do

BMG ao PT. A operação foi avalizada por José Genoino, Delúbio Soares e Marcos Valério.

O empréstimo, de fevereiro de 2003, não foi quitado pelo PT. O partido acabou socorrido

por Valério. O empresário pagou uma das parcelas da dívida, no valor de R$ 350 mil.

De posse dos documentos que comprovavam a transação, Veja perguntou ao presidente

do PT se Marcos Valério assinou aval para o partido. Com a palavra, José Genoino:

- Não sei de nada disso, não. Eu tenho de me informar. Acabei de descer do avião… Acho

que não tem isso. Vou me informar. Me liga em uma hora.

Uma hora depois, na sede do PT em São Paulo:

- Olha, não tem isso, não. O que temos com o Marcos Valério são dívidas de campanha

de políticos que ele fez para a gente como publicitário.

- Ele nunca foi avalista do PT em alguma operação bancária?

- Nunca. Ele nunca foi avalista do PT. Não tem isso, não.

A transação é comprometedora porque as agências de publicidade de Marcos Valério,

como se sabe, dispõem de contratos com o Governo Federal avaliados em R$ 144,4 milhões.

Da reportagem:

“Isso mostra a existência de um ciclo conhecidíssimo, mas que raramente se consegue

trazer à luz com tanta nitidez como agora: o dinheiro sai dos cofres públicos, faz uma escala

na conta da agência de publicidade e acaba aterrissando no caixa do PT.”

Para entender melhor:

“No início do ano passado, a empresa de participações de Valério, a Graffiti, que controla

a agência de publicidade DNA, contraiu um empréstimo de mais de R$ 15 milhões e deu

como garantia a receita de um contrato publicitário que, pouco antes, fora firmado entre a

SMPB e os Correios.”

O repórter quis ouvir Valério. Ele havia negado em entrevista anterior que dera aval ao

PT. Quem fala, porém, é o advogado e sócio, Rogério Tolentino:

- Por orientação dos advogados, ele não vai fazer nenhuma afirmação que possa conflitar

com a defesa. Por isso, ele não pode confirmar, m dar nenhum esclarecimento.

A direção do BMG também foi procurada, para explicar por que o banco não executou

as garantias do empréstimo. Afinal, a operação não fora quitada pelo PT. A explicação,

em nota:

“A direção do BMG não pode comentar as informações levantadas pela revista em respeito

à lei do sigilo bancário.”

As investigações mostram Marcos Valério no olho do furacão. Coincidem os saques de

dinheiro no Banco Rural e o troca-troca partidário. O dinheiro saia do Banco Rural, os

deputados deixavam a oposição e ingressavam na base aliada do governo Lula, em quatro

partidos: PTB, PL, PP e o próprio PT.

Dados do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda)

indicam retiradas de R$ 6,4 milhões, entre agosto e outubro de 2003. Foi um período

de grande migração partidária. As bancadas dos quatro partidos governistas ganharam 16

deputados. O crescimento da base aliada prosseguiu depois. A bancada do PL subiu de 26

para 52 parlamentares. A do PTB, de 26 a 47. E a do PP, de 49 a 55.

3/7/2005 O programa Fantástico, da TV Globo, conta a história de uma mala de dinheiro

entregue ao deputado José Borba (PMDB-PR), líder do partido na Câmara. José Borba

esteve na agência do Banco Rural no Brasília Shopping em

dezembro de 2003, quando

ocorreram saques em dinheiro vivo.

Relato da secretária Fernanda Karina Ramos Somaggio, entrevistada pelo Fantástico:

Marcos Valério se encontrou com Borba três ou quatro vezes, em Brasília. E levou uma

mala de dinheiro para o deputado. Diz Fernanda Karina:

- Uma vez, eu me lembro que o senhor Marcos saiu com uma mala e foi para Brasília no

avião do Banco Rural. E eu sabia que nessa mala tinha dinheiro. Ele pediu para eu ligar para

o José Borba e depois para Delúbio ou Silvio Pereira, para dizer que estava indo para Brasília

encontrar José Borba.

José Borba nega conhecer Marcos Valério:

- Nunca houve contato, nenhum encontro.

4/7/2005 Cai Silvio Pereira, o secretário-geral do PT. “Silvinho”, como é conhecido, disfarça

o afastamento do partido com um pedido de licença. Entre outras coisas, ele foi

acusado de organizar a distribuição de cargos no governo Lula, embora nunca tenha ocupado

posição pública na administração federal. Costumava despachar dentro do Palácio

do Planalto. É do grupo do deputado José Dirceu, o Campo Majoritário, corrente do PT

que também abriga Lula.

Silvinho ganhou notoriedade ao defender a permanência do governador Flamarion Portela

(RR) no PT, apesar das acusações de desvio de verba que pesavam contra ele. O governador

acabou cassado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). É possível que o afastamento de

Silvinho já tenha a ver com a história do jipe Land Rover que o secretário-geral ganhou de

presente de uma empresa contratada pela Petrobras. O assunto ainda não é público.

A imprensa põe as mãos em relatório de prestação de contas do PT, do ano de 2004. O

documento foi registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Em dois anos, o partido do

presidente Lula reconheceu que fez empréstimos de R$ 28,1 milhões junto ao Banco do

Brasil, Banco Rural e BMG. O BMG entrou com R$ 2,4 milhões, e os detalhes foram revelados

pela revista Veja. O Banco Rural, com outros R$ 5,1 milhões. E o restante, R$ 20,6

milhões, veio do Banco do Brasil, sendo a maior parte em contratos de leasing, para supostamente

comprar 10 mil computadores e impressoras para o partido.

A oposição estranha a relação entre o partido do presidente da República e o Banco do

Brasil, que se recusa a divulgar garantias, avalistas, taxas de juros ou quaisquer dados sobre

os contratos assinados com o PT. O Banco do Brasil também se nega a informar se as

parcelas do empréstimo vêm sendo honradas pelo partido. Alega sigilo bancário. Balanço

do próprio PT acerca do patrimônio líquido da sigla no final de 2004, porém, registra um

resultado de R$ 24 milhões negativos.

Outra revelação: apesar de o PT não ter saldado a operação de crédito de R$ 2,4 milhões

feita em 2003, o BMG destinou no ano seguinte mais da metade das suas doações às

campanhas eleitorais do partido do presidente da República. Os dados são do TSE. Dos

26 candidatos que receberam R$ 795 mil do BMG, 20 pertenciam ao PT. Ficaram com

R$ 505 mil da bolada.

Mais Marcos Valério. A Folha de S.Paulo apura que as agências DNA Propaganda e SMPB

Comunicação, de Marcos Valério, registraram depósitos bancários de R$ 500 milhões em 2004:

“Especialistas do meio publicitário ouvidos pela reportagem calculam, com base em

estimativas de gastos das duas agências com a compra de espaço para veiculação de comerciais,

que os ingressos de recursos nas contas da DNA e da SMPB são três vezes superiores

ao que poderia ser justificado com a atividade de publicidade e propaganda em 2004.”

No editorial “O amigo publicitário”, a Folha afirma que “a promiscuidade entre a vida

financeira das empresas de Valério e a do PT tornou-se flagrante”:

“O episódio não é apenas constrangedor. Trata-se de uma acintosa violação aos mais

elementares princípios republicanos. O fato de um publicitário responsável por contas

de órgãos governamentais pagar dívida do partido do presidente da República já é, em

si, um escândalo.”

A Agência Reuters divulga tabela com o cruzamento de dados do Coaf (Conselho de

Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda). Existem coincidências entre

votações importantes no Congresso Nacional, para aprovar projetos de interesse do governo

Lula, e saques de dinheiro das contas das empresas de publicidade de Marcos Valério.

A análise contempla R$ 21 milhões em retiradas, durante dois anos. Média de um mensalão

de R$ 30 mil por dia. Nas datas de votação de projetos importantes para o governo, os

saques diários subiam para R$ 106 mil.

O levantamento: a votação em segundo turno da Reforma Tributária na Câmara dos

Deputados, em 24 de setembro de 2003, coincidiu com retiradas de R$ 1,2 milhão nos dias

23, 25 e 26 daquele mês. Em dezembro de 2003, a Reforma Tributária foi aprovada pelo

Senado. Houve um novo pico de saques, no total de R$ 2,8 milhões, em janeiro de 2004.

Em março de 2004, o governo Lula precisou de apoio para neutralizar as investigações

sobre o caso Waldomiro Diniz. Também queria aprovar Medida Provisória contra as casas

de bingo, para sinalizar que não compartilhava das irregularidades. Retiradas no período:

R$ 1 milhão. Em seguida, mais R$ 700 mil, nos dias em que o Congresso debatia e aprovava

o novo salário mínimo.

Mais uma coincidência: a aprovação da Medida Provisória que deu status de ministro ao

presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ocorreu em 1º de dezembro de 2004.

Graças a ela, Meirelles ficou com foro privilegiado para se defender de denúncias de crime

eleitoral, evasão de divisas, sonegação e lavagem de dinheiro. Dois dias antes, saques de R$

480 mil no Banco Rural.

5/7/2005 Cai Delúbio Soares, o tesoureiro do PT acusado de tantas falcatruas. O afastamento

é disfarçado de pedido de licença. Delúbio Soares desliga-se do PT, mas trata de proteger

o presidente do partido, José Genoino. Isenta-o de qualquer responsabilidade nas decisões

da área financeira do partido. E manda a surrada cantilena: acusa “conservadores” e “setores

da direita” pelo escândalo do mensalão. Insiste: tudo não passa de manobra, cuja

orquestração tem o objetivo de aprovar o impeachment de Lula.

Integrante do Campo Majoritário do PT, Delúbio Soares é considerado por correligionários

e gente do próprio governo um “homem-bomba”. Sabe demais. Sempre teve fortes

ligações com Lula. A amizade com o presidente vem dos tempos de sindicalismo. Foi dirigente

da CUT. Em 2000, entrou para a direção executiva do PT. Lula era o presidente de

honra do PT. Participou de reuniões no Palácio do Planalto. Sem ocupar cargo no governo,

foi convidado para eventos oficiais. Esteve na comitiva de Lula em viagem à África.

O líder do PMDB na Câmara, deputado José Borba (PR), volta atrás e agora admite

conhecer Marcos Valério. José Borba, aliado do governo Lula, divulga nota à imprensa para

refutar qualquer comportamento ilegal. O resultado é desastroso. Termina acusando Marcos

Valério de negociar cargos no governo. A repercussão do caso faz Borba perder o cargo de

líder do PMDB. A nota:

“Nunca recebi do senhor Marcos Valério qualquer numerário ou recursos financeiros,

limitando-se o relacionamento ao fato de que o mesmo fazia parte do grupo do PT, que

exercia efetiva influência político-administrativa junto ao Governo Federal.”

E mais: “O meu relacionamento com líderes do PT, integrantes de sua executiva nacional

e o senhor Marcos Valério sempre foram delimitados pela tratativa da ocupação de

cargos públicos, em razão de pleitos de integrantes de nossa bancada, sendo leviana e politiqueira

qualquer especulação de favorecimento financeiro a deputados do PMDB”.

E, por fim: “O que discuti com dirigentes do PT e o senhor Marcos Valério é o que

lideranças partidárias discutem hoje e sempre discutiram em todos os governos, a nomeação

de seus partidários para cargos na administração”.

O Congresso instala a CPI do Mensalão. Mais uma derrota do governo. Durante dez

dias, a bancada governista, orientada pelo Palácio do Planalto, tentou impedir a comissão de

inquérito. Em seu lugar, propunha apurar a compra de votos, com a alegação de que era

preciso investigar a reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP),

ocorrida em 1998. Agora, com três CPIs em funcionamento, muda a tática do governo. A

base aliada parte para confundir as investigações, tumultuar os processos, dispersar os trabalhos

e cansar a opinião pública. Desmoralizar as CPIs.

Relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da

Fazenda) em poder da CPI dos Correios indica que a agência DNA Propaganda recebeu,

durante os primeiros dois anos e meio da era Lula, R$ 419,2 milhões em depósitos, numa

conta do Banco do Brasil em Belo Horizonte. A metade do dinheiro, R$ 219 milhões, foi

depositada irregularmente, sem identificação da origem dos recursos.

O expediente contraria a legislação de combate à lavagem de dinheiro, que obriga os

bancos a obter declarações dos clientes sobre a origem de depósitos com valores superiores

a R$ 100 mil. Além disso, a informação sobre os depósitos precisa ser registrada no Banco

Central. O relatório do Coaf também identificou, no último ano, uma movimentação de R$

5,5 milhões, em dinheiro vivo. A quantia passou por uma conta da SMPB Comunicação, em

agência do Banco Bradesco de Belo Horizonte. Marcos Valério obtém habeas-corpus para

depor na CPI dos Correios sem correr o risco de ser preso.

Investigações mostram que Jacinto Lamas, tesoureiro do PL, esteve 15 vezes na agência

do Banco Rural no Brasília Shopping, nos dois primeiros anos do governo Lula. As visitas

foram registradas no sistema de segurança do edifício. Em nove das 15 vezes, houve saques

que totalizaram R$ 2,3 milhões.

Jacinto Lamas frequentava o Banco Rural nos horários em que as agências bancárias

estão fechadas, no começo da manhã ou no período noturno. O sistema de segurança

também registrou o nome de Alexandre Chaves Rodrigues, motorista do então presidente

do PTB, José Carlos Martinez. Esteve na agência em 14 de janeiro de 2004, dia de um

saque de R$ 250 mil.

6/7/2005 Marcos Valério depõe na CPI dos Correios. Nega conhecer o mensalão. Nega

envolvimento em quaisquer irregularidades. Não satisfaz. Alega que pagou “fornecedores”

com saques em dinheiro vivo de R$ 20,9 milhões. Tampouco convence quando diz que “a

amizade por Delúbio” foi o motivo que o levou a ser avalista do empréstimo bancário de R$

2,4 milhões ao PT. Parlamentares fazem graça da versão. Temendo a execução da dívida,

Valério resolvera pagar uma parcela do empréstimo, no valor de R$ 350 mil.

Valério admite ter se reunido com o presidente do Banco Rural e o ministro José Dirceu

(PT-SP) no Palácio do Planalto. Rechaça a hipótese de ter sido beneficiado em licitação que

escolhia agência de publicidade para atender os Correios. E responde se fez doações a campanhas

eleitorais:

- Se fiz alguma doação, foi dentro da lei… Doação, que me lembre, não. Como pessoa

física, não fiz nenhuma doação.

Os empréstimos de R$ 20,6 milhões do Banco do Brasil para o PT derrubam dois dirigentes

do banco. Caem os vice-presidentes de Finanças, Luis Eduardo Franco de Abreu,

ligado ao PT, e o de Varejo, Edson Monteiro.

De novo o Coaf. Vem à tona que um procurador da Fazenda Nacional, Glênio Guedes,

recebeu R$ 902 mil de Marcos Valério. Foram duas transferências, no final de 2003: uma de

R$ 782 mil, outra de R$ 120 mil. À CPI, Valério disse ter conhecido o procurador num

clube. Guedes foi afastado do Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional. Motivo

alegado: deu parecer a favor do arquivamento de um processo contra o Banco Rural.

O jornalista Gilberto Alípio Mansur admite ter recebido R$ 300 mil da SMPB, por serviços

prestados à agência de Valério. Suspeita-se que ele intermediou encontro de Valério

com a direção da Editora Três, que edita a revista Isto É, para evitar a publicação de entrevista

com Fernanda Karina.

Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, Carlos Rodrigues (PLRJ),

acusado por Roberto Jefferson (PTB-RJ) de ser um dos deputados operadores do

mensalão, reconhece que se reuniu com Delúbio Soares e Silvio Pereira para fazer “negociações

políticas”.

Carlos Rodrigues lista as nomeações que fez no governo Lula: dois diretores da Companhia

Docas do Rio, um diretor do Serviço de Patrimônio da União, o diretor-administrativo

do Portus, fundo de pensão do sistema portuário, e um diretor do Dnit (Departamento Nacional

de Infraestrutura de Transportes).

7/7/2005 E surge mais um empréstimo guardado em segredo pelo PT. O site da revista

Época na internet divulga operação de crédito no Banco Rural, de maio de 2003, no valor de

R$ 3 milhões. O PT é o beneficiário e o avalista do empréstimo, mais uma vez, Marcos

Valério. Ele assina a transação com o presidente petista, José Genoino, e com o tesoureiro,

Delúbio Soares.

Da reportagem dos jornalistas Ricardo Mendonça e Eliane Brum: “As novas revelações

caíram como um petardo sobre a imagem pública do PT. E, da porta para dentro, o partido

implodiu. Quando surgiu o primeiro empréstimo garantido por Valério, no BMG, Genoino

negou sua existência depois de consultar o tesoureiro Delúbio Soares. Desmentido publicamente

e desgastado, Genoino entrou em depressão e se confessou magoado com Delúbio,

que não o teria informado corretamente. Na quinta-feira, quando foi procurado por Época

para falar do novo empréstimo, a respeito do qual novamente não tinha o que explicar, o

presidente do PT deixou a mágoa de lado e passou a xingar Delúbio pelos cantos do partido,

em São Paulo”.

Fernanda Karina Ramos Somaggio, ex-secretária de Marcos Valério, presta depoimento

à CPI dos Correios. Reafirma denúncias e trata do relacionamento de Marcos Valério

com o deputado José Mentor (PT-SP). O petista foi o relator da CPI do Banestado, uma

comissão de inquérito encarregada de investigar remessas ilegais de dinheiro para o exterior,

em 2004:

- Uma vez, quando Mentor telefonou com uma notícia sobre a CPI do Banestado, o

senhor Marcos Valério mandou que eu pegasse as 25 pastas suspensas em que ele guardava

notas fiscais e de investimentos e picotasse tudo. Foram feitos quatro sacos de papel picado.

O Marcos Valério só saiu da minha frente quando eu tinha picado tudo.

Sobre a logística dos saques de dinheiro vivo no Banco Rural, em operações determinadas

por Marcos Valério e tocadas por Simone Vasconcelos, pessoa de estrita confiança

do empresário:

- A Simone ligava, avisando que os boys iam passar no banco e a agência abria mais

cedo. Eram dois ou três boys que se dirigiam ao banco para dar garantia, em caso de assalto.

Acontecia pelo menos uma vez por semana. O dinheiro era acomodado em valises tipo 007,

que ficavam no Departamento de Finanças da agência.

O relator da CPI, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), quer a confirmação de que o

dinheiro ia mesmo para parlamentares no Congresso Nacional. Fernanda Karina Somaggio

descreve o procedimento de Valério:

- Ele falava algumas vezes com o Delúbio e depois ligava para outras pessoas, falando:

“Olá, deputado. Amanhã vou estar em Brasília”. Um dia que eu o ouvi falando isso teve um

saque, e ele viajou no dia seguinte.

Movimentação bancária de Marcos Valério intriga a CPI e dá pistas sobre os caminhos

da corrupção. Trata-se de um crédito de R$ 2,4 milhões, seguido de um débito no mesmo

valor. A operação foi mapeada pela Receita Federal. Ocorreu no BMG, em nome da Graffiti

Participações, empresa de Marcos Valério, em 14 de julho de 2004.

O curioso é o valor do crédito, o mesmo da dívida de R$ 2,4 milhões contraída em fevereiro

de 2003 pelo PT, com o aval de Marcos Valério, no mesmo BMG. Outra coincidência:

naquele mesmo 14 de julho de 2004, Marcos Valério pagou R$ 350 mil da dívida do PT junto

ao BMG. E mais: o Imposto de Renda da Graffiti não faz menção à origem do dinheiro, nem

dá qualquer justificativa para o depósito de R$ 2,4 milhões na conta da empresa.

A Câmara dos Deputados rompe contrato com a SMPB. A agência de Marcos Valério

havia sido contratada por R$ 9 milhões em 2003, quando o presidente da Câmara era o

deputado João Paulo Cunha (PT-SP). Durante a vigência do contrato, o petista assinou dois

aditivos, autorizando acréscimos de R$ 4,7 milhões nos gastos de publicidade.

A Prefeitura de Osasco (SP), berço político de João Paulo Cunha e onde o prefeito, Emídio

de Souza (PT), é aliado do ex-presidente da Câmara, anuncia o cancelamento de licitação

para contratar agência de publicidade. Do certame, no valor de R$ 3 milhões, participavam

17 empresas. Vinha sendo liderado pela SMPB. Marcos Valério já prestara serviços em

Osasco durante a campanha eleitoral, por meio da Estratégia Marketing, contratada para

assessorar o então candidato Emídio de Souza.

Antes de anunciar o fim dos serviços da SMPB, o presidente da Câmara, deputado

Severino Cavalcanti (PP-PE), sucessor de João Paulo Cunha, já havia autorizado mais R$

8,2 milhões para a agência de Marcos Valério.

Em cena, o ministro Luiz Gushiken (PT-SP). O publicitário Alarico Neves Assumpção prestava

serviços à agência DNA de Marcos Valério. Aí, assumiu importante cargo na Secom, a

Secretaria de Comunicação da Presidência da Repúbica, comandada por Luiz Gushiken. Depois,

acabou transferido para a SMPB, a outra agência de publicidade do mesmo Marcos Valério.

Alarico Neves Assumpção ocupou o posto de diretor de Mídia da Secom. Foi responsável

pela supervisão de contas publicitárias do Governo Federal em ministérios e estatais.

Antes de ir para a SMPB, atuou no comitê do governo Lula que negociava preços de anúncios

e respondia por gastos públicos com propaganda oficial.

A força de Luiz Gushiken vem da influência nos fundos de pensão de empresas estatais.

O ministro da Previdência Social, Ricardo Berzoini (PT-SP), é aliado histórico de Luiz

Gushiken. Foi ele quem indicou o nome de Adacir Reis para chefiar a poderosa SPC (Secretaria

de Previdência Complementar). Ela regula os 366 fundos de pensão do País, responsáveis

por 960 planos de previdência complementar. Os fundos atendem 2,3 milhões de pessoas.

Negócio de R$ 280 bilhões.

Outro aliado de Luiz Gushiken, José Valdir Gomes, foi nomeado na diretoria de Assuntos

Atuariais da SPC, para exercer o controle estratégico dos fundos de pensão. Já Sérgio

Rosa é presidente da Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil, o maior do País. Tem

patrimônio de R$ 70 bilhões. Como Luiz Gushiken, Sérgio Rosa começou no Sindicato dos

Bancários de São Paulo. Veio de lá também outra indicação de Luiz Gushiken: Wagner

Pinheiro, presidente da Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, o segundo

maior do País. Patrimônio de R$ 24,9 bilhões.

Lula põe fim a boatos sobre a saída do ministro Luiz Gushiken:

- Eu quero dizer aqui, para todo o mundo ouvir, que o companheiro Gushiken continuará

dirigindo a Secom. O companheiro Gushiken cuida não apenas bem da Secretaria de Comunicação,

mas do mundo de assuntos estratégicos, que é uma coisa extremamente importante.

Eu acho que nós não podemos, a qualquer insinuação contra qualquer companheiro, a

priori, achar que as pessoas são culpadas.

O deputado José Dirceu (PT-SP), por sua vez, defende a permanência de José Genoino

no comando do PT. Em reunião do Campo Majoritário, a corrente hegemônica do PT, o exministro

fala em “conspiração das elites”:

- Querem o impeachment do presidente Lula. É disso que se trata.

Agora, o loteamento de cargos na Fundação Real Grandeza, fundo de pensão dos funcionários

de Furnas, cujo patrimônio é de R$ 4,8 bilhões. A reportagem de Irany Tereza, do

jornal O Estado de S. Paulo, aponta um rateio entre os partidos políticos da base aliada do

governo Lula:

“A presidência do fundo foi entregue a Marcos Antonio Carvalho Gomes, funcionário

de Furnas, ex-sindicalista e petista do grupo do deputado Jorge Bittar (PT-RJ), e os demais

diretores são indicados pelo PTB, PMDB e PP, num convívio administrativo extremamente

conflituoso.”

Os investimentos do fundo de pensão estavam concentrados em bancos de segunda linha,

como o BMG e o Banco Rural. As aplicações no Banco Santos, quebrado em 2004,

provocaram perdas de R$ 153,6 milhões.

Os “investimentos” no Banco Santos levaram ao afastamento do gerente deInvestimentos

do fundo, Benedito Siciliano, da cota do PTB. Ele foi dispensado, apesar dos protestos

do diretor de Administração e Finanças, José Dias, nomeado pelo PMDB.

De acordo com o Estadão, “aplicações desse tipo, de alto risco, costumam gerar do

banco compromissos de elevada rentabilidade. A suspeita é de que parte desse rendimento

seria desviada para financiar partidos políticos”.

8/7/2005 Os jornais estampam nas primeiras páginas as fotografias de uma bolada de dinheiro.

Trata-se do conteúdo de uma maleta com R$ 200 mil e de outros US$ 100 mil,

carregados escondidos dentro da cueca do assessor de um deputado do PT. Não qualquer

deputado. José Adalberto Vieira da Silva, preso no aeroporto de Congonhas, em São Paulo,

trabalha para o deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), líder petista na Assembléia

Legislativa do Ceará, integrante do Diretório Nacional do PT e irmão do presidente nacional

do partido, José Genoino (SP).

Antes de se calar e se recusar a prestar esclarecimentos à Polícia Federal, José Adalberto

Vieira da Silva age com rapidez para apagar a memória do telefone celular. Diz ser agricultor.

O dinheiro em seu poder, resultado da venda de verduras. Desmascarado, confessa ser assessor

do irmão de José Genoino. Usa o paletó para cobrir o rosto e esconder-se dos fotógrafos.

José Nobre Guimarães, por sua vez, é um dos 14 parlamentares cujo nome aparece na

agenda de Marcos Valério. Em entrevista, o deputado diz não saber por que seu nome está

grafado entre os registros de Valério. Também ignora o que o assessor fazia em São Paulo.

Deputado do Ceará, José Nobre Guimarães estava na capital paulista, no mesmo dia da

prisão. Explicação dele:

- Foi tudo uma grande armação para atingir a mim e ao Genoino. Vou desvendar esse

mistério.

Silvio Pereira, o ex-secretário-geral do PT, depõe na Polícia Federal. Define-se como

“dirigente profissionalizado da executiva nacional do PT”. Salário, R$ 9.000 mensais. O

delegado Luís Flávio Zampronha de Oliveira considera incompatíveis salário e patrimônio

declarado: um apartamento em São Paulo, no valor de R$ 180 mil, uma casa de praia em

Ilhabela (SP), avaliada em R$ 400 mil, e um jipe da marca Land Rover, no valor de R$ 80

mil, que, segundo o depoente, foi financiado. Veremos.

9/7/2005 Caem José Genoino, presidente nacional do PT, e Marcelo Sereno, secretário de

Comunicação do partido. Marcelo Sereno é do grupo de José Dirceu. Em 2008, ele voltaria

à cena, como principal executivo da Grandiflorum Participações, compradora da refinaria

de petróleo Manguinhos, no Rio. Já José Genoino, ligado diretamente a Lula, manteve o PT

sempre próximo do Palácio do Planalto. Outro petista afastado: José Adalberto Vieira da

Silva, assessor do deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), irmão de José Genoino, o

homem dos US$ 100 mil na cueca.

Lula põe gente de seu primeiro time no PT. O ministro da Educação, Tarso Genro (PTRS),

desliga-se do governo e assume a presidência do partido. O ministro do Trabalho,

Ricardo Berzoini (PT-SP), vira secretário-geral. E o da Saúde, Humberto Costa (PT-PE), é o

novo secretário de Comunicação.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Tarso Genro fala de uma “crise de coerência

moral do partido”, com consequência “devastadora”:

- O PT vive a pior crise da sua história.

11/7/2005 O Jornal Nacional, da TV Globo, leva ao ar conversa telefônica gravada pela

Polícia Federal. Foi travada em agosto de 2004, quase dez meses antes de estourar o escândalo

do mensalão. A fala é de Maria Auxiliadora de Vasconcellos, auditora fiscal do INSS

(Instituto Nacional de Seguro Social). Ela foi presa sob a acusação de integrar uma quadrilha

de fraudadores.

Na conversa com outra auditora, Maria Auxiliadora de Vasconcellos insinua que o

ministro José Dirceu (PT-SP) e o ex-tesoureiro Delúbio Soares recebiam uma “mensalidade”

da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro). Em troca da propina, haveria

relaxamento na fiscalização de empresas fluminenses. No diálogo gravado, Maria

Auxiliadora de Vasconcellos cita o ex-ministro da Previdência Social do governo Lula,

Amir Lando (PMDB-RO):

- Chegou às mãos do Almir Lando. Aí foi que ele disse: “Olha, na realidade, o que

acontece é o seguinte: eu, no Rio de Janeiro, não vou mexer, porque eu me comprometi a

não mexer. O Rio tem um contrato com a Firjan.” Ele mesmo abriu o jogo: “A Firjan dá uma

mensalidade, dá não sei o quê, e quem vai buscar é o Delúbio de Souza, sei lá, Soares, para

as empresas não serem fiscalizadas”.

Outro trecho da gravação:

- O Amir Lando é uma pessoa maravilhosa, é uma pessoa acessível, e ele foi muito claro

ao dizer: “No Rio de Janeiro, eu realmente não vou mexer porque eu tenho compromisso

com o José Dirceu”.

O Ministério Público tem três testemunhas do suposto esquema de pagamento de propina

para autoridades do Governo Federal por parte da Firjan. Os auditores receberiam ordens

para não multar determinadas empresas. Em um caso investigado, houve pressão para anulação

de uma multa. Após a autuação, o empresário multado obteria o cancelamento do

processo, por interferência política.

12/7/2005 Caem os ministros Luiz Gushiken (PT-SP), da Secom, e Romero Jucá (PMDBRR),

da Previdência Social. Romero Jucá, acusado de desviar dinheiro de um abatedouro de

frangos, voltaria a ter forte influência na administração Lula no segundo mandato, como

líder do governo no Senado e relator da CPI da Petrobras em 2009. Já Luiz Gushiken,

integrante do “núcleo duro” de Lula, assegura por ora um cargo na assessoria do presidente.

Vai cuidar de um certo Núcleo de Assuntos Estratégicos. A Secretaria de Comunicação e as

verbas de propaganda da Presidência da República ficam por enquanto com a nova ministra

da Casa Civil, Dima Rousseff (PT-RS).

Em depoimento à CPI dos Correios, Eduardo Medeiros, diretor de Tecnologia dos Correios

nomeado por influência de Silvio Pereira, garante: nada sabe sobre cobrança de propina

por parte de funcionários da estatal federal, cujo cargo de presidente e seis diretorias,

reconhece, foram loteados entre PMDB, PTB e PT. Ele admite que tomou conhecimento em

duas ou três ocasiões do vazamento de informações acerca de especificações técnicas de

licitações. Era “comum”, segundo ele, a visita de deputados aos Correios, acompanhados

de empresários interessados em negócios com a estatal:

- A maioria era do PMDB, naturalmente, porque o ministro, o presidente e três diretorias

eram do PMDB.

Durante o depoimento, surge o caso do empresário Vilmar Martins, da Metalúrgica Gadotti

Martins Carrinhos Industriais. Ele denunciou licitação dirigida e a cobrança de propina no

valor de 20% do valor da nota fiscal, que deveria ser entregue em dólares, sendo a metade

nas mãos do próprio Eduardo Medeiros. A chantagem: se o dinheiro não fosse pago, os

Correios não aceitariam a mercadoria e não haveria pagamento. Depois de negar conhecer

o empresário, Eduardo Medeiros, pressionado, confessa ter conversado com Vilmar Martins,

“dois ou três dias” atrás.

Em outro depoimento à CPI, Antonio Osório, ex-diretor de Administração dos Correios,

aponta na direção do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). Ele teria pedido dinheiro a

diretores da estatal indicados pelo PTB. Alegou precisar de recursos para o caixa de campanha

do partido. O dinheiro deveria ser fornecido por empresários que mantinham contratos

com os Correios. Antonio Osório se reuniu com Roberto Jefferson em mais de 50 ocasiões.

A CGU (Controladoria-Geral da União) divulga relatório preliminar. Apurou 18 irregularidades

em 69 contratos e licitações dos Correios. Um total de R$ 37,5 milhões em

sobrepreços. Prejuízo potencial: R$ 79 milhões.

A Polícia Federal faz operações sigilosas de busca e apreensão de documentos nas instalações

do Banco Rural em Lagoa Santa (MG) e no Brasília Shopping. Quer comprovar o

que disse José Francisco de Almeida Rego, ex-tesoureiro do banco. Ele deu detalhes de

como a SMPB remetia dinheiro de Minas Gerais para Brasília.

Segundo Almeida Rego, os saques se tornaram usuais desde o início de 2003, no primeiro

ano da era Lula, e as retiradas chegaram a ultrapassar R$ 200 mil por operação realizada.

O ex-tesoureiro recebia ligações da tesouraria da agência Assembléia do Banco Rural, em

Belo Horizonte, onde a SMPB mantinha conta bancária. Eram solicitações para pagamentos

em Brasília. Por fax eram indicados os valores e os nomes dos sacadores.

O tesoureiro tinha a responsabilidade de cuidar da liberação dos recursos junto ao Banco

Central, e dos detalhes para a entrega. O dinheiro não deveria fazer volume. Por isso, vinha

em notas de R$ 50 e R$ 100. Era levado para uma sala especial da agência. Ali as cédulas

eram colocadas em bolsas que os próprios sacadores traziam. Tudo gente apressada que ia

embora, em geral, sem conferir os valores.

José Francisco de Almeida Rego relata que Simone Vasconcelos, executiva da SMPB

em Belo Horizonte, fazia retiradas na agência do Brasília Shopping. Mas não levava o

dinheiro com ela. Assinava recibos e listava os nomes daqueles que passariam depois para

receber. Na maioria das vezes eram pacotes de R$ 50 mil ou R$ 100 mil. As pessoas, por

determinação dela, não precisavam se identificar. A Polícia Federal confirma que localizou

documentos comprovando saques em nome da SMPB na agência do Banco Rural em Brasília,

mas estranhou a falta de identificação dos sacadores.

13/7/2005 Mais uma versão para o caso do petista preso com R$ 200 mil numa maleta e

US$ 100 mil na cueca. No início, José Adalberto Vieira da Silva alegou ser agricultor e o

dinheiro, resultado da venda de verduras. Agora, o deputado José Nobre Guimarães (PTCE),

chefe dele, envolve outro assessor de seu gabinete, José Vicente Ferreira. Os dois

iriam usar o dinheiro para abrir uma locadora de veículos em Aracati (CE), em sociedade

com um terceiro petista, Kennedy Moura Ramos. Diz o deputado Guimarães:

- Isso comprova que eu não tenho nada a ver com esse caso, nem o PT e muito menos o

ex-presidente nacional do partido.

José Nobre Guimarães afirma que tudo foi uma “armação” contra o PT. Manifesta-se

“decepcionado” e “traído” pelo assessor preso. A primeira pessoa que José Adalberto Vieira

da Silva avisou ao ser detido foi Kennedy Moura Ramos. Ele é assessor especial da presidência

do BNB (Banco do Nordeste do Brasil). O presidente, Roberto Smith, também pertence

às fileiras do PT. Da mesma forma que Kennedy Moura Ramos, assumiu o cargo por

conta da amizade e ligação com José Nobre Guimarães, o irmão de Genoino.

Kennedy Moura Ramos, ex-marido da presidente do PT do Ceará, Sônia Braga, foi assessor

jurídico de José Nobre Guimarães. Kennedy Moura Ramos é responsável pelas finanças

do PT no Ceará. Avisou José Nobre Guimarães da prisão do assessor. Pede exoneração

dos quadros do BNB.

Em depoimento à CPI dos Bingos, o empresário de jogos Carlos Augusto Cachoeira, o

“Carlinhos Cachoeira”, ataca Waldomiro Diniz. Segundo ele, o ex-subchefe da Casa Civil e

assessor direto do ex-ministro José Dirceu (PT-SP) pediu propina de R$ 100 mil a R$ 300

mil, em troca de favorecimento em licitação. Na época, Waldomiro Diniz presidia a Loterj,

estatal que administra loterias no Rio. Waldomiro Diniz teria dito que o dinheiro era para

financiar campanhas eleitorais. Para Carlinhos Cachoeira, Diniz agia sozinho:

- Em todas as conversas, no final, era pedida propina. O Waldomiro dizia: “Quero 1% do

contrato bruto”. Ele sempre pedia dinheiro para campanha. Hoje, tenho certeza de que esse

dinheiro ficava com ele.

14/7/2005 O Jornal Nacional, da TV Globo, noticia que assessores e até familiares de deputados

do PT estiveram no Banco Rural, na agência do Brasília Shopping, local de pagamento

do mensalão. Anita Leocádia Pereira Costa, assessora do líder do PT na Câmara, deputado

Paulo Rocha (PA), foi à agência duas vezes. Reação do deputado Rocha: a funcionária

foi fazer consulta médica em uma clínica neurológica, que também funciona no prédio.

Márcia Milanésio Cunha, casada com o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), esteve no

Banco Rural três vezes. Reação de João Paulo Cunha, por meio de nota à imprensa: a mulher

esteve na agência bancária para resolver problema relativo ao pagamento de uma conta

de televisão a cabo.

O presidente do PT na Bahia, deputado Josias Gomes, foi pessoalmente ao Banco Rural.

Explicação dele:

- Como havia almoçado no shopping, fui ao banco pedir uma informação. Não fiz

saques.

Os três não contaram a verdade.

Azeda o caso do assessor do deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), preso com R$

200 mil numa maleta e US$ 100 mil na cueca. A matéria vai ao ar pelo Jornal Nacional, da

TV Globo. Kennedy Moura Ramos, petista afastado do BNB (Banco do Nordeste do Brasil)

em consequencia do escândalo, não gostou de ser envolvido na história pelo deputado José

Nobre Guimarães. Não engoliu a versão de que o dinheiro serviria para abrir uma locadora

de carros no interior do Ceará. A entrevista ao JN:

- Não sei que rancores fizeram com que o deputado me fizesse uma vinculação a uma

empresa que nunca ouvi falar.

Kennedy Moura Ramos vai além. Relata a conversa com José Nobre Guimarães, padrinho

de seu casamento, quando ele lhe pediu para assumir que era o dono do dinheiro. Para

Ramos, foi uma “proposta indecente”:

- Ele falou que o Adalberto tinha que ser protegido por questões de Estado.

Kennedy Moura Ramos também descreve o diálogo com José Nobre Guimarães, quando

lhe contou sobre a prisão de José Adalberto da Silva:

- Perguntou se ele tinha falado alguma coisa. Disse que não sabia. Ele disse: “Graças

a Deus”.

Outra contradição: José Vicente Ferreira, assessor de José Nobre Guimarães apontado

pelo deputado como participante do negócio da locadora, havia concedido entrevista ao

jornal O Povo, do Ceará. Dissera que emprestou um cheque a José Adalberto Vieira da

Silva, seu amigo, a fim de que pudesse comprar uma passagem aérea para Recife. José

Vicente Ferreira não sabia da viagem a São Paulo. Muito menos de locadora.

O Ministério Público investiga a hipótese de Vieira da Silva ter sido um emissário de

Kennedy Moura Ramos em São Paulo. A finalidade da viagem, buscar dinheiro de propina

repassado por empresários que mantêm negócios com o BNB. No dia anterior à prisão,

Vieira da Silva teria se deslocado até o escritório de um empresário do setor de construção

civil do Grupo Cavan.

A polícia de Minas Gerais apreende restos de 2 mil notas fiscais da DNA Propaganda. Os

documentos estavam jogados em 12 caixas de papelão, na casa do ex-policial Marco Túlio

Prata, em Contagem (MG). Ele é irmão do contador da agência, Marco Aurélio Prata. Na

residência são localizados dois tambores de lata, com notas fiscais carbonizadas.

Entre as notas fiscais queimadas, provavelmente registros frios, recibos da DNA relativos

a serviços supostamente prestados por empresas terceirizadas ao Banco do Brasil,

Eletrobrás e Ministérios do Trabalho e do Esporte.

Os policiais também acham documentos carbonizados, nos quais ainda se consegue ler o

nome da DNA. Estavam numa rua de terra, sem movimento, bem perto da casa do irmão do

contador de Marcos Valério. A papelada queimada encheu cinco sacos.

Cai o diretor de Marketing e Comunicação do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato.

Ligado ao ex-ministro Luiz Gushiken (PT-SP), dividiu com ele apartamento em Brasília.

Na campanha de Lula, Henrique Pizzolato, militante do PT havia 20 anos, trabalhou com

Delúbio Soares para captar recursos.

Ele tinha relação próxima com o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo (PT-PR), e

era amigo de Ricardo Berzoini (PT-SP), ex-ministro do Trabalho e secretário-geral do PT.

Henrique Pizzolato é desligado da presidência do Conselho Deliberativo da Previ, o fundo

de pensão do Banco do Brasil.

No governo Lula, Henrique Pizzolato ocupou o posto estratégico de responsável pelos

gastos de propaganda do Banco do Brasil. Foram R$ 153 milhões em 2003, e R$ 262

milhões em 2004. Afastado Henrique Pizzolato, o Banco do Brasil rescinde contrato de

publicidade com a DNA de Marcos Valério. Henrique Pizzolato também era amigo de

Marcos Valério.

O ex-diretor de Marketing ficou conhecido por participar do episódio dos R$ 70 mil que o

Banco do Brasil deu a um show de arrecadação de fundos, com objetivo de comprar uma sede

nova para o PT. Com a divulgação da história, o dinheiro teve de ser devolvido. Ele também

foi apontado como responsável por um evento artístico considerado suspeito, no valor de R$

2,5 milhões, promovido pelo então governador de Mato Grosso do Sul, Zeca do PT.

Banho de água fria. A base governista impede que a CPI dos Correios quebre os sigilos

bancários, fiscais e telefônicos de José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares, Silvio Pereira

e do empresário Mauro Dutra, o “Maurinho”, amigo de Lula. O Palácio do Planalto

também consegue bloquear a convocação e o depoimento do ex-ministro Luiz Gushiken.

15/7/2005 Operação orquestrada. Marcos Valério vem a público por meio de nota e nega

mais uma vez a existência do mensalão. Explica que, “em atenção a pedidos de Delúbio

Soares”, “contraiu vários empréstimos bancários em nome das agências de publicidade

SMPB e DNA, no período de 2003 a 2005”.

A nota, estratégia de defesa, diz que o dinheiro, “a título de empréstimos”, foi depositado

“na rede bancária para pessoas indicadas pelo então secretário de Finanças do PT, senhor

Delúbio Soares”. Em seguida, o empresário menciona que o dinheiro, segundo determinação

de Delúbio Soares, servia para “saldar dívidas relacionadas a campanhas eleitorais”.

O reconhecimento de que Marcos Valério participou de esquema para financiar o PT é

manchete dos principais jornais do País. Poucos se dão conta da manobra: desviar as investigações

do pagamento de propina. Em vez do mensalão, ou seja, do dinheiro entregue a parlamentares

da base aliada do governo, crime grave de corrupção, a estratégia é fazer crer que o

dinheiro foi repassado para pagar dívidas de campanha. Apenas um mero crime eleitoral.

Em entrevista ao Jornal Nacional, Marcos Valério não fornece nomes, valores, número

de operações bancárias, nem formas de ressarcimento do que teria sido emprestado ao PT.

Nega a existência de malas para pagar grandes somas e de favorecimentos às suas empresas

por parte de gente do governo.

A Folha de S.Paulo publica detalhes de alguns depoimentos secretos prestados à

Corregedoria da Câmara dos Deputados. A reportagem conseguiu ler transcrições em notas

taquigráficas. Num deles, José Genoino admite que Silvio Pereira usava mesmo sala do

Ministério da Casa Civil, no Palácio do Planalto, para discutir a divisão de cargos federais

entre os partidos da base aliada. Declaração de José Genoino:

- Ele conversava com os demais partidos e era o encarregado quando tinha conflitos. E

tinha muitos conflitos com os partidos da base aliada. Ele fazia isso ou na sede do PT ou na

liderança. Ou então na sala de reuniões ordinárias da Casa Civil.

Em outro depoimento, Emerson Palmieri, tesoureiro informal do PTB, afirmou que Marcos

Valério havia sido designado pelo PT para obter R$ 20 milhões de empresários. O dinheiro

seria repassado ao PTB nas eleições de 2004. O acerto foi feito em reuniões das quais

participaram José Genoino, Delúbio Soares, Silvio Pereira, Marcelo Sereno, Roberto Jefferson

e ele próprio, Emerson Palmieri.

O tesoureiro também contou detalhes dos R$ 4 milhões entregues por Valério. Foram

dois pagamentos. O dinheiro chegou em duas malas “de rodinhas”, em notas de R$ 50, na

maioria, e umas “poucas notas de R$ 100”.

O jornal Correio Braziliense traz a história do apartamento de Henrique Pizzolato. O

diretor de Marketing do Banco do Brasil, afastado do cargo, comprou o imóvel de 160

metros quadrados por R$ 400 mil, em endereço dos mais valorizados do Rio de Janeiro, a

uma quadra da praia de Copacabana.

Detalhe: neste mesmo dia da revelação do Correio Braziliense, um grupo de auditores da

Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil, toma depoimento do officeboy Luiz Eduardo

Ferreira da Silva. Ele conta que em 15 de janeiro de 2004, cerca de um mês antes da compra

do apartamento em Copacabana, sacou R$ 326 mil de conta da DNA Propaganda em agência

do Banco Rural do centro do Rio. E levou o pacote diretamente a Henrique Pizzolato.

O relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), desabafa durante

entrevista em Curitiba:

- Nunca imaginei que houvesse algo nesse sentido no País, independentemente de governo.

Não significa que não possa ter existido em outros governos, mas na minha ótica

pensei que, apesar de tudo o que se diz, nosso País não tivesse tantos tropeços no entrelaçamento

entre a administração, políticos e empresas.

16/7/2005 Depois de Marcos Valério, a vez de Delúbio Soares apresentar a versão de que

não houve o esquema do mensalão, ou seja, pagamentos de propina a parlamentares da base

aliada do governo Lula, em troca de apoio no Congresso. O que houve, simples assim,

foram repasses para quitar dívidas de campanha, por meio de caixa 2. Delúbio leva a explicação

espontaneamente ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza.

O depoimento de Delúbio vaza em seguida para a imprensa. Faz parte da estratégia. Os

jornais dão destaque. Delúbio procurou usar o procurador-geral para passar o recado de que

o PT recebera cerca de R$ 40 milhões em empréstimos, mas, de maneira nenhuma, assegurava

o tesoureiro, o dinheiro era fruto do desvio de verbas públicas ou teve sua origem no

superfaturamento de contratos com estatais. Importante: os milhões, conforme frisara Valério,

foram usados para acertar despesas de campanhas eleitorais, tão-somente.

A revista Veja não deixa por menos. A reportagem de capa, “Mensalão – quando e como

Lula foi alertado”, descreve cinco situações nas quais informações sobre o esquema de

pagamento de propina chegaram aos ouvidos do presidente da República. A primeira vez,

em 25 de fevereiro de 2004, por meio do deputado Miro Teixeira (RJ), na época filiado ao

PT. O episódio ocorreu duas semanas após a queda de Wadomiro Diniz.

Escreve o repórter Otávio Cabral: “Waldomiro Diniz, na condição de braço-direito de

José Dirceu, era quem cuidava da relação do governo com o Congresso e, com sua demissão,

os credores do mensalão entraram em polvorosa. Miro Teixeira, que havia apenas três

semanas assumira a liderança do governo na Câmara, começou a ser procurado pela tropa

interessada em saber como seria paga a mesada dali em diante. O deputado ficou estupefato.

Não sabia o que era mensalão. Entre os dias 17 e 19 de fevereiro, Miro Teixeira recebeu

várias sondagens. Numa delas, na manhã do dia 17, a pressão veio em comitiva. Eram três

deputados juntos, querendo saber do futuro financeiro: Valdemar Costa Neto, presidente do

PL, Sandro Mabel, líder do PL, e Pedro Henry do PP”.

Miro Teixeira conversou reservadamente com Lula. Disse que deixaria o cargo de líder

do governo por causa do mensalão. A revista Veja documenta:

“Lula demonstrou surpresa, disse que nunca ouvira falar naquilo e prometeu conversar

com o então ministro José Dirceu para apurar a denúncia – mas não voltou a tocar no

assunto. No dia 31 de março, Miro voltou ao Palácio do Planalto e, diante do fato de que

nada fora feito a respeito do mensalão, pediu para deixar a liderança. Saiu no dia 6 de abril,

sendo substituído pelo Professor Luizinho.”

O segundo aviso ao presidente, em 5 de maio de 2004. Quem deu foi o governador de

Goiás, Marconi Perillo (PSDB). O Palácio do Planalto, em comunicado oficial, deu a seguinte

explicação à revista: Lula não se recorda de ter ouvido nenhum comentário de Marconi

Perillo sobre o assunto.

O governador Marconi Perillo, no entanto, chegou a ilustrar a conversa com o presidente

da República ao mencionar os casos de dois deputados de Goiás. Um deles virou escândalo.

É o da deputada Raquel Teixeira (PSDB), a quem o deputado Sandro Mabel (PL) teria

oferecido dinheiro para que se mudasse para o PL. Sobre o outro, o governador não deu

detalhes. O motivo: o deputado Enio Tatico, do PSC, aceitou a proposta e se transferiu para

o PL. Enio Tatico apresentou justificativa para a mudança:

- Mudei de partido porque o líder do PL é de Goiás e é meu amigo. Não recebi proposta.

O terceiro episódio. O próprio presidente abordou o assunto, durante viagem oficial à

China. Aconteceu em 25 de maio de 2004. Durante um jantar, Lula perguntou ao deputado

Paulo Rocha (PT-PA) se ele já ouvira falar sobre o pagamento de mesadas a deputados.

Paulo Rocha negou ter ocorrido a indagação do presidente, mas dez deputados estavam na

mesa do jantar. Três deles confirmaram a veracidade da conversa.

Nos outros dois casos, o aviso foi dado pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). No

primeiro deles, em 5 de janeiro de 2005, o ministro Walfrido dos Mares Guia (PTB-MG)

testemunhou a conversa. No segundo, em 23 de março de 2005, parte da alta cúpula do

governo estava presente, no gabinete de Lula no Palácio do Planalto: José Dirceu (PT-SP),

ministro da Casa Civil; Aldo Rebelo (PC do B-SP), ministro das Relações Institucionais;

Walfrido dos Mares Guia, do Turismo; Gilberto Carvalho (PT-SP), chefe de gabinete do

presidente; Arlindo Chinaglia (PT-SP), líder do governo na Câmara; e o deputado José Múcio

(PTB-PE). A reportagem conclui:

“Se soube do assunto e não tomou providências, Lula pode ser acusado de crime de

responsabilidade, previsto nos artigos 84 e 85 da Constituição e, também, na Lei nº 1.079,

editada em 1950, conhecida como Lei do Impeachment. Pela lei, o presidente, se soube

do mensalão, tinha de ter mandado apurar. ‘Se o presidente teve ciência disso, caracteriza-

se uma omissão, que é um caso típico de crime de responsabilidade’, afirma o jurista

Miguel Reale Júnior, que redigiu a petição que resultou no impeachment de Fernando

Collor, em 1992.”

17/7/2005 Em surpreendente entrevista concedida na França e exibida no programa Fantástico,

da Rede Globo, Lula faz coro às recentes versões sobre a crise política, que foram

manifestadas por Delúbio Soares e Marcos Valério. Dessa forma, fecha a manobra para

convencer a sociedade brasileira: houve “erros”, sim, mas apenas decorrentes de empréstimos

e operações de crédito, usados para pagar dívidas de campanha, por caixa 2. A versão

oficial minimiza o escândalo do mensalão à manipulação de verbas não-declaradas.

Lula esforça-se para reduzir o problema. Exime-se de qualquer ato indevido, pois “já faz

tempo que eu deixei de ser presidente do PT”. Para o presidente da República, “o PT tem

que explicar à sociedade brasileira que erros cometeu”:

- O que o PT fez do ponto de vista eleitoral é o que é feito no Brasil, sistematicamente.

Eu acho que as pessoas não pensaram direito no que estavam fazendo, porque o PT tem na

ética uma das suas marcas mais extraordinárias. E não é por causa do erro de um dirigente

ou de outro que você pode dizer que o PT está envolvido em corrupção.

A oposição vai para cima. Acusa o governo de engendrar uma nova Operação Uruguai,

em alusão ao esquema simulado pelos aliados do ex-presidente Fernando Collor de Mello,

em 1992, para tentar explicar a origem do dinheiro que financiava gastos do ex-presidente.

Na época, um empréstimo de US$ 3,7 milhões foi forjado para justificar despesas de Fernando

Collor. O presidente acabou afastado do cargo, depois de um processo de impeachment.

Agora, a farsa contábil é a série de operações de crédito de Marcos Valério. Os falsos empréstimos

serviriam para esquentar dinheiro de caixa 2 oriundo de fontes ilegais, usado em

acertos com políticos da base aliada.

O jornal O Estado de S. Paulo traz uma lista com os nomes de 22 deputados do PP.

Testemunha cuja identidade é mantida em segredo aponta-os como destinatários de

mensalões, distribuídos a mando do líder do partido, deputado José Janene (PR). Os operadores

do esquema seriam João Cláudio Genu, chefe de gabinete de José Janene, e o deputado

João Pizzolatti (PP-SC). Os locais de entrega da propina: o apartamento de Janene, em

Brasília, e uma sala da Comissão de Minas e Energia, na Câmara dos Deputados. Segundo

a denúncia, Pizzolatti circulava com o dinheiro dentro de malas, nos corredores da Câmara,

protegido por funcionários da área de segurança do Congresso.

Um perfil de Marcelo Sereno, ex-secretário de Comunicação do PT e ex-chefe de gabinete

de José Dirceu (PT-SP), de quem também foi assessor especial, é publicado pela Folha

de S.Paulo. Para ilustrar a reportagem, a fotografia de um prédio de alto padrão na Barra da

Tijuca, no Rio de Janeiro, em cuja cobertura mora Marcelo Sereno. É atribuída a ele, ainda,

a compra, em março de 2005, de um outro apartamento no Rio, no valor de R$ 700 mil.

Marcelo Sereno é acusado de “manipular” o Nucleos, fundo de pensão das estatais de

energia nuclear. O objetivo seria levar dinheiro para as campanhas eleitorais do PT. Os

repórteres Elvira Lobato e Leonardo Souza ouvem o petista Neildo de Souza Jorge, integrante

do Conselho Deliberativo do Nucleos. Ele denuncia operações financeiras lesivas

aos fundos de pensão:

- A grande mutreta é que eles compravam títulos públicos e depois vendiam com deságio

para corretoras. Estas faturavam a corretagem e parte desse dinheiro, pelo que sabemos

agora, iria para mensalões, caixas de campanha.

18/7/2005 O Brasil debate o caixa 2. É crime de falsidade ideológica prestar informações

fraudulentas sobre a arrecadação de dinheiro para campanhas políticas sem declarar os

valores à Justiça Eleitoral. Omitir receitas é crime de sonegação fiscal. Para a legislação

de crimes contra o sistema financeiro nacional, considera-se fraude a movimentação de

recursos de forma paralela, à margem da contabilidade legal. O caixa 2 é crime contra a

ordem tributária.

Na prática, porém, o uso de caixa 2 em campanhas eleitorais não recebe punição. No

máximo, multa. Ninguém fica preso por crime eleitoral. Muito mais grave é dar propina a

parlamentares. Neste caso, o crime de corrupção pode condenar a 12 anos de prisão, fora

processos e outras penas, caso sejam constatadas formação de quadrilha, lavagem de dinheiro

e sonegação fiscal. E isso sem mencionar a perda do mandato, por crime de responsabilidade

ou falta de decoro parlamentar.

Por isso o esforço dos envolvidos no escândalo do mensalão para descaracterizar a existência

de um esquema de suborno de parlamentares. Ao circunscrever tudo ao rol de crimes

eleitorais, os delitos poderiam ser diluídos para um número grande de receptores, se possível

anônimos, o que, afinal, dificultaria a comprovação e a responsabilização dos culpados.

Cai o presidente da Petrobras, o ex-senador José Eduardo Dutra (PT-SE). Em seu lugar

assume José Sérgio Gabrielli, também filiado ao PT. Justificativa do governo para o afastamento:

José Eduardo Dutra vai disputar uma vaga no Senado em 2006. Faltam 15 meses

para a eleição. Pela legislação, a desincompatibilização precisa ocorrer seis meses antes do

pleito. História mal contada. Dutra acabaria derrotado em 2006, mas no ano seguinte voltaria

a ocupar cargo importante no sistema Petrobras, o de presidente da BR Distribuidora.

Em 2009, apoiado por Lula, seria eleito presidente do PT.

Outras mudanças no governo: Antônio Batista Brito, diretor Comercial da Brasil Veículos,

e Josenilton Andrade, do Centro Cultural Banco do Brasil, são afastados do Banco

do Brasil. Motivo: reportagem do Correio Braziliense mostrou os dois pressionando um

funcionário de baixo escalão. O episódio ocorreu no apartamento do petista Henrique

Pizzolato, ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil, que participou da ação. Os três

tentaram fazer o boy Luiz Eduardo Ferreira da Silva assumir a responsabilidade pelo

saque de R$ 326 mil, o mesmo que motivou a saída de Henrique Pizzolato do Banco do

Brasil. O dinheiro foi retirado pelo boy no Banco Rural, de conta bancária da agência de

publicidade DNA, de Marcos Valério, e entregue a Henrique Pizzolato. Depois, o petista

comprou um apartamento. O boy resistiu.

Em entrevista à Rádio Jovem Pan, de São Paulo, o respeitado senador Pedro Simon

(PMDB-RS) comenta as acusações do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). Para Pedro

Simon, o escândalo do mensalão vem sendo comprovado por fatos novos, todos os dias, e é

mais grave do que aquele que vitimou o ex-presidente Fernando Collor de Mello:

- A coisa lá, a Operação Uruguai e tudo mais, foi bem inferior. Lá eles usaram dinheiro

das empresas, fizeram garantias, só que isso aconteceu com eles fora do governo. Agora, o

partido está dentro do governo, e foram usadas empresas públicas como o Correio e Furnas

para fazer transações ilícitas. Favoreceram essas empresas em troca do dinheiro dado ao

partido. O nome disso é peculato, é formação de quadrilha.

De Roberto Busato, presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil):

- Valério e Delúbio são personagens menores, nessa comédia infame que estarrece a

nação. Valem menos pelo que são e mais pelos personagens que buscam inutilmente ocultar

e aos quais serviram, com ações criminosas nos subterrâneos da política.

19/7/2005 O escândalo do jipe Land Rover. Silvio Pereira está na CPI dos Correios, com

habeas-corpus para não ser preso. Não precisa responder, se não quiser. Pode evitar perguntas,

e mesmo cair em contradição. Não sairá algemado. Show de cinismo. O ex-secretáriogeral

do PT nunca ouviu falar em mensalão. Não tem ideia sobre empréstimos de Marcos

Valério ao PT.

O que fez “Silvinho”? Segundo a sua própria versão, apenas um banco de dados, com

mais de 5 mil nomes, todos de pessoas prontas a assumir postos no governo Lula. Gentilmente,

Silvinho informa aos integrantes da CPI: existem 1.400 cargos ocupados por filiados

do PT na administração federal. O secretário-geral não se lembra se viajou no avião de

César Roberto Santos Oliveira, vice-presidente da GDK, empresa contratada da Petrobras:

- Eu mantinha contatos institucionais com César Oliveira, mas repito que não intermediei

interesses da empresa.

Silvinho cala-se. Recusa-se a dizer se ganhou um jipe Land Rover da GDK:

- Não falo sobre meu patrimônio, por orientação dos advogados.

O Jornal Nacional, da TV Globo, localiza o vendedor do jipe. O carro está em nome de

Silvio Pereira. Um telefonema para o homem que fez o depósito, de R$ 73.500. Confirmado:

ele é funcionário da GDK.

José Paulo Boldrin, dono da revendedora de automóveis Eurobike, de Ribeirão Preto

(SP), comprova o negócio. Recebeu o depósito de R$ 73.500 e vendeu o jipe, um Land

Rover modelo Defender 90-SW, ano 2003. O carro já saiu da Eurobike em nome de Silvinho.

E foi entregue na residência do secretário-geral do PT, na cidade de São Paulo.

A GDK doou R$100 mil para a campanha de Lula. Em 2003, primeiro ano de governo,

faturou R$ 145 milhões em contratos com a Petrobras. Em 2004, venceu dez licitações

promovidas pela estatal. Total em jogo: R$ 512 milhões. O maior contrato foi para reformar

a plataforma de extração de petróleo P-34, no valor de US$ 88 milhões. Em 2005, mais

cinco contratos celebrados com a Petrobras, no valor de R$ 272 milhões.

Na campanha eleitoral de 2004, a GDK só deu dinheiro para uma campanha política.

Foi a de Osasco (SP), justamente o berço político de Silvinho. Doou R$ 400 mil para o

candidato Emídio de Souza (PT), e com isso foi a maior doadora daquela campanha. O

petista foi eleito.

Silvinho desliga-se do PT.

Evidências do mensalão. Deputados fizeram saques de dinheiro de contas das empresas

de Valério, em agências do Banco Rural de Belo Horizonte e de Brasília. Documentos em

poder da CPI dos Correios mostram autorizações de retiradas, beneficiando três deputados

do PT, um do PP e um do PL.

Márcia Milanésio Cunha, mulher do deputado João Paulo Cunha (PT-SP), ex-presidente

da Câmara dos Deputados, sacou R$ 50 mil. Anita Leocádia Pereira Costa, assessora do

deputado Paulo Rocha (PT-PA), o então líder do PT na Câmara, retirou R$ 470 mil. O

deputado Josias Gomes (PT-BA) sacou duas vezes. Ele próprio, em pessoa, R$ 50 mil de

cada vez. João Cláudio Genu, chefe de gabinete de José Janene (PR), líder do PP, levou R$

1,1 milhão. Em nome do deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ) saíram R$ 150 mil.

Simone Vasconcelos, funcionária executiva de Marcos Valério e autora de vários dos

pagamentos do mensalão, fez saques de R$ 6,1 milhões. Em outubro de 2003, em Brasília,

Simone Vasconcelos efetuou duas retiradas, sendo uma de R$ 800 mil e outra de R$ 650

mil. O dinheiro foi entregue em carro-forte no escritório da SMPB na capital federal.

Tem mais: Jacinto Lamas, tesoureiro do PL, retirou R$ 1,3 milhão. As seguintes pessoas

também fizeram saques: Vilmar Lacerda, presidente do PT do Distrito Federal. Total:

R$ 100 mil. Raimundo Ferreira da Silva Júnior, assessor do deputado Paulo Delgado

(PT-MG). Total: R$ 100 mil. Roberto Costa Pinho, ex-assessor, com currículo extenso:

trabalhou para os ministros da Cultura e da Fazenda, Gilberto Gil e Antônio Palocci (PTSP),

e para o senador Delcídio Amaral (PT-MS), presidente da CPI dos Correios. Total:

R$ 350 mil. José Luiz Alves, secretário de Governo da Prefeitura de Uberaba (MG).

Total: R$ 150 mil. O prefeito de Uberaba, Anderson Adauto (PL), aliás, foi ministro dos

Transportes de Lula. E Solange Pereira de Oliveira, funcionária da tesouraria do PT de

São Paulo. Total: R$ 100 mil.

Brasília vive um corre-corre. João Paulo Cunha (PT-SP) não comenta. Sai-se com um

“tudo tem explicação”. O deputado Professor Luizinho (PT-SP) defende João Paulo Cunha:

- A informação que tenho, do próprio João Paulo, é de que a Márcia esteve no Rural para

resolver problema da televisão a cabo.

O ex-ministro Anderson Adauto não foge da briga. Segundo ele, Delúbio Soares, o tesoureiro

do PT, o ajudou a pagar uma dívida de campanha:

- Encerrei 2002, quando me elegi deputado federal, com uma dívida de campanha. Então,

pedi para o Delúbio e ele me ajudou. Não sei precisar a quantia, mas foi entre R$ 100

mil e R$ 150 mil.

Foram R$ 150 mil, e Anderson Adauto era o ministro dos Transportes:

- Não vejo nenhuma irregularidade em ser ajudado para pagar dívidas de campanha.

Nas fileiras do PT, algumas “explicações”: Vilmar Lacerda recebeu dinheiro para pagar

dívidas de campanha. Solange Pereira de Oliveira, do Diretório de São Paulo, não quer

comentar. E Raimundo Ferreira da Silva Júnior, que também é vice-presidente do PT do

Distrito Federal, cumpriu ordens de Delúbio Soares. Buscou o envelope, mas não sabia

quanto tinha dentro:

- O Delúbio me ligou de São Paulo e pediu para que eu fosse até a agencia do Rural, onde

deveria pegar um dinheiro que ele estava precisando para umas despesas. Ele me disse que precisava

de alguém de confiança para buscar o pacote. Como sou amigo dele, nada mais natural.

Cai Marco Antônio Silva, diretor de eventos da Secom, a Secretaria de Comunicação da

Presidência da República. Era um dos mais importantes auxiliares do ex-ministro Luiz

Gushiken (PT-SP). Militante do PT, foi acusado de favorecimento ilícito e tráfico de influência.

É casado com Telma dos Reis Menezes da Silva, funcionária da Multi Action, empre113

sa de organização de eventos de Marcos Valério. Em um ano de governo Lula, a Multi

Action movimentou R$ 28 milhões.

Marco Antônio Silva integrou a comissão julgadora da licitação que escolheu a agência

de publicidade contratada pelos Correios. Venceu a SMPB, de Marcos Valério. Contratada

a SMPB, a Multi Action foi chamada para prestar serviços aos Correios.

20/7/2005 Mais evidências do mensalão. A CPI dos Correios usa os dados da quebra do

sigilo bancário de Marcos Valério para identificar o caminho do dinheiro. Surge Zilmar

Fernandes da Silveira, sócia do publicitário Duda Mendonça. Foi identificada retirada de

Zilmar Fernandes da Silveira de R$ 250 mil. Duda Mendonça foi o responsável pela campanha

eleitoral de 2002, que elegeu Lula pela primeira vez. Além de orientar ações do presidente,

Duda Mendonça gerencia contratos de publicidade da Petrobras, Ministério da Saúde

e Secom, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República.

Rodrigo Barroso Fernandes, assessor do prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel

(PT), sacou R$ 274 mil. Com a notícia, é desligado da Prefeitura. E começa a novela de um

tal Roberto Marques, amigo de José Dirceu (PT-SP) que fugiu feito o diabo da cruz para não

esclarecer determinada retirada de R$ 50 mil.

Outros nomes: Paulo Menegucci, diretor dos Correios. Recebeu R$ 205 mil. Jair dos

Santos, motorista do ex-presidente do PTB, Flávio Martinez. Sacou R$ 300 mil. Nestor

Francisco de Oliveira, assessor do deputado Roberto Brant (PFL-MG). Pegou R$ 102 mil

no banco. Cantídio Cotta Figueiredo, candidato a deputado pelo PTB. Sacou R$ 68 mil.

Luiz Carlos de Miranda Faria, outro candidato do PTB. Fez retirada de R$ 68 mil. Benoni

Nascimento de Moura, da corretora Bônus-Banval. Pôs a mão em R$ 255 mil. E Luiz Carlos

Masano, também ligado à Bônus-Banval, recebeu R$ 50 mil. Suspeita-se das ligações da

Bônus-Banval com o deputado José Janene (PP-PR).

Chamam a atenção, ainda, os saques atribuídos a David Rodrigues Alves, um policial

mineiro, no valor de R$ 4,9 milhões. Localizado, o policial explica que foi contratado por

Cristiano de Mello Paz, sócio de Marcos Valério.

A versão dele: recebia entre R$ 50 e R$ 100, sempre que ia buscar dinheiro no Banco

Rural. Levava a grana diretamente a Cristiano de Mello Paz, na SMPB em Belo Horizonte.

Diz o policial:

- Os pacotes já estavam prontos nas agências, eu apenas assinava o recebimento. Meu

trabalho era retirar o dinheiro e entregar na SMPB. Quero deixar claro que eu fazia a retirada

do dinheiro do banco. Eu não sacava e não sei de quem era o dinheiro.

Cristiano de Mello Paz, o sócio de Marcos Valério, informa, por meio da assessoria, que

não conhece o policial. David Rodrigues Alves devolve, à altura: foi apresentado a Cristiano

Paz por um doleiro, Haroldo Bicalho.

Chega ao Conselho de Ética da Câmara o teor de um depoimento prestado à Polícia

Federal. É de Simone Vasconcelos, apresentada como diretora administrativa e financeira

da SMPB, a agência de publicidade de Valério.

A confissão de Simone Vasconcelos choca. Sozinha, ela sacou R$ 6,1 milhões de contas

de Valério no Banco Rural. Os números foram apurados pela CPI dos Correios e são

irrefutáveis. Simone Vasconcelos entregou pacotes de dinheiro a desconhecidos. Ela pagava

o mensalão a pessoas mandadas por Valério à agência do Rural em Brasília. Os apressados

pegavam os pacotes, sem conferir, e punham o conteúdo em pastas executivas.

Simone Vasconcelos não tem a mínima ideia do destino do dinheiro, mas confessa:

sentia-se “constrangida e preocupada de estar sendo identificada por desconhecidos”, e

também por estar “entregando altas somas de dinheiro para estes, sem ao menos saber

quem eram”.

Numa ocasião, Marcos Valério queria saber a cor da blusa de Simone Vasconcelos, “para

que fosse identificada pelo estranho que deveria receber o dinheiro”. Os valores variavam

de R$ 50 mil a R$ 300 mil, sendo que, em algumas ocasiões, ela teve de levar altas somas

até as mãos de Valério, em hotéis de luxo. Uma vez, carregou o dinheiro até um táxi que já

a esperava na frente de um centro de compras em Brasília.

Mais números contra Marcos Valério. Dos R$ 836 milhões faturados nos últimos seis

anos pelas 14 empresas nas quais o nome do empresário aparecia como sócio, o Coaf (Conselho

de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda) descobre: R$ 500

milhões não tiveram origem identificada. E surge mais um braço financeiro de Marcos

Valério: o BRB (Banco de Brasília), pelo qual passaram, em dois anos, R$ 100 milhões. É

dinheiro atribuído às chamadas “contas lavanderia”.

As movimentações são descritas como atípicas. Depósitos e transferências imediatas,

que vão de R$ 20 mil e R$ 120 mil cada uma, feitas pelo sistema TED (Transferência

Eletrônica Direta). O dinheiro é posto instantaneamente nas contas dos beneficiados.

Em cinco anos, Valério pagou R$ 26 mil de Imposto de Renda. Dinheiro para comprar

um carro popular. Nada. Para o fisco, o empresário tem renda média mensal pouco superior

a R$ 5.000. O patrimônio declarado de Valério, porém, é de R$ 18,5 milhões. 80% dos bens,

nos nomes da mulher, Renilda de Souza, e dos filhos do casal. Em 2004, Valério pagou

apenas R$ 2.800 em impostos. Em 2005, R$ 3.000. Um espanto.

Com estrela do PT na lapela, o tesoureiro Delúbio Soares depõe à CPI dos Correios.

Protegido por habeas-corpus, não pode ser preso. Ao longo de todo o escândalo, como se

verá, Delúbio Soares agiu sempre como um grande escudo, protegendo Lula e a cúpula do

PT. Ele isenta o governo e integrantes do PT de quaisquer responsabilidades pelas transações

financeiras com Marcos Valério. Assume todos os eventuais erros. Mata no peito.

Orientado por advogados, evita falar em caixa 2:

- Não existe caixa 2, existe dinheiro não-contabilizado.

Delúbio Soares nega a existência do mensalão. Deixa dúvidas:

- Eu definia quem iria receber o dinheiro. Quem definia o método de pagamento do

dinheiro era o Marcos Valério. Eu não sei como era feita a entrega do dinheiro.

E foi assim que tudo começou, segundo a versão de Delúbio Soares: Marcos Valério se

ofereceu para pagar as dívidas de campanha, “eu concordei”. Simples assim. Tudo “na base

da confiança”. Sem documentos ou contratos, sem que ninguém do partido tivesse conhecimento.

E como devolver os quase R$ 40 milhões que foram emprestados dos bancos? O

tesoureiro do PT provoca risos dos parlamentares presentes à sessão com a resposta que dá:

- Estou diante de um grande problema, e preciso resolvê-lo o mais rápido possível.

Delúbio Soares esquiva-se de responder sobre a quantia de R$ 29.436,26, dinheiro emprestado

pelo PT ao presidente Lula, em 2003. O dinheiro vai dar muito pano para manga.

Por ora, a informação: no livro-caixa do PT, oficialmente entregue ao TSE (Tribunal Superior

Eleitoral), o dinheiro foi quitado em quatro parcelas. Diz o tesoureiro:

- Nossa prestação de contas é rigorosa.

Questionado sobre a legalidade do ato, encerra o assunto:

- Não convém me pronunciar.

Depoimento à Comissão de Ética da Câmara dos Deputados. Maria Christina Mendes

Caldeira, ex-mulher do deputado Valdemar Costa Neto (SP), presidente do PL, faz relato

sobre a conversa telefônica entre o ex-marido e o deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ), na

qual os dois trataram de operação financeira para atrair deputados à bancada do PL.

- Ouvi a conversa e vi o dinheiro, guardado no cofre da nossa casa.

Ela testemunhou a entrega de uma mala repleta de dólares ao deputado maranhense

Remi Trinta. Ouviu o diálogo em que Valdemar pediu para Jacinto Lamas, o tesoureiro do

PL, pegar “várias malas” em Belo Horizonte:

- Ele era como o boy do Valdemar.

Além de movimentar altas somas, o ex-marido tinha o costume de andar de jatinho e

torrar milhões em cassinos. Em uma noite, perdeu US$ 500 mil numa casa de jogo do

Uruguai. Outra vez, foram US$ 300 mil em Las Vegas, nos Estados Unidos.

- Na volta de uma viagem acabei trazendo, sem saber, uma mala de dinheiro.

O deputado João Paulo Cunha (PT-SP) admite nos bastidores renunciar ao mandato. A

mulher dele, Márcia Milanésio Cunha, sacou mesmo R$ 50 mil do valerioduto, no Banco

Rural. Cunha chegou a escrever a carta de renúncia, mas José Dirceu (PT-SP) e os senadores

José Sarney (PMDB-AP) e Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, convencem-

no a recuar.

Cunha não comenta a quase-renúncia. A assessoria, porém, já está pronta para rebater: os R$

50 mil foram gastos integralmente na campanha eleitoral de Osasco (SP). Com o tempo, a versão

vai ser aprimorada. E o deputado? Viajou com a família para destino ignorado. Por dez dias.

O Congresso Nacional instala a CPI do Mensalão. O governo tem o controle da comissão,

com a nomeação do senador Amir Lando (PMDB-RO) para presidente, e do deputado

Abi-Ackel (PP-MG) para relator. Amir Lando foi ministro da Previdência Social de Lula, é

peemedebista fiel ao Planalto. Quem o banca é o líder do governo no Senado, Aloizio

Mercadante (PT-SP). Abi-Ackel foi ministro da Justiça do presidente João Figueiredo (1979-

1985), o último da ditadura militar. Aloizio Mercadante define Abi-Ackel:

- É um deputado acima de qualquer suspeita.

21/7/2005 Mais um deputado do PT no escândalo do mensalão. José Mentor (SP), ligado a

José Dirceu (PT-SP) e à ex-prefeita Marta Suplicy (PT-SP), da qual foi líder de governo na

Câmara Municipal de São Paulo, recebeu dois cheques, no total R$ 120 mil. Os comprovantes

das transações estão entre aqueles que fazem referência aos R$ 50 milhões transferidos

de contas atribuídas às empresas de Marcos Valério, via Banco do Brasil.

Os R$ 120 mil vieram da 2S Participações, empresa ligada a Marcos Valério, que movimentou

R$ 26,4 milhões em dois anos. O dinheiro foi transferido para o escritório de advocacia

de José Mentor. O deputado vincula a soma a serviço jurídico prestado a Rogério

Tolentino, sócio de Valério. No escritório de José Mentor não há cópias do parecer que diz

ter sido elaborado.

José Mentor foi identificado por causa de um cheque nominal. Na maioria dos casos,

porém, os cheques do Banco do Brasil em poder da CPI dos Correios mencionam números

sigilosos, das contas bancárias dos favorecidos.

Detalhe importante: em julho de 2004, quando José Mentor pôs as mãos nos dois cheques,

ele ocupava o cargo estratégico de relator da CPI do Banestado. A comissão investigava

lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Suspeita-se que Mentor poupou o Banco Rural,

ligado a Valério, no relatório final da CPI.

O deputado Paulo Rocha (PT-PA), líder do PT na Câmara dos Deputados, afasta-se

do cargo. Ligado a José Dirceu (PT-SP), foi tesoureiro do PT do Pará e presidente da

CUT (Central Única dos Trabalhadores, ligada ao PT) paraense. Sai sem explicar saques

de R$ 470 mil, feitos pela assessora Anita Leocádia Costa. O dinheiro foi retirado

de contas bancárias de Valério, no Banco Rural. Rocha promete conceder entrevista,

mas some do gabinete.

A nota da assessoria de Paulo Rocha, coerente com as explicações de Lula, Delúbio

Soares e Marcos Valério, mas contradizendo o que ele mesmo dissera anteriormente: o

deputado pedira R$ 300 mil a Delúbio Soares para quitar gastos de campanha eleitoral

no Pará. Não há menção sobre os R$ 170 mil restantes. Como se verá adiante, há mais

dinheiro envolvido.

“Escárnio à nação” é o título do editorial da Folha de S.Paulo. Fala dos saques nas contas

das empresas de Marcos Valério, que “indicam que o dinheiro não servia apenas para financiar

ou saldar dívidas de campanhas, mas para complementar salários”:

“Vai ficando cada vez mais claro que os desvios praticados pelo Partido dos Trabalhadores

não dizem respeito a um esquema pelo qual irregularidades seriam cometidas em nome

de uma causa política – o que, de qualquer forma, caracterizaria corrupção e crime.”

Outro trecho:

“Perplexos, os brasileiros que acompanham o desenrolar dos depoimentos e das revelações

da imprensa vão assistindo ao desvelamento de um amplo esquema de apropriação da

máquina pública e movimentação irregular de recursos orquestrado pela cúpula do PT, com

evidentes ramificações no Governo Federal.”

A Polícia Federal avança no caso da cueca milionária. Reúne indícios sobre a origem dos

R$ 200 mil encontrados na maleta e os US$ 100 mil escondidos nas partes íntimas, tudo

transportado por José Adalberto Vieira da Silva, assessor do deputado José Nobre Guimarães

(PT-CE), irmão de José Genoino. A investigação aponta para propina. A suspeita vem

do fato de Vieira da Silva ter se encontrado com o dono de uma empreiteira. Do procurador

Márcio Torres, sobre o depoimento de Vieira da Silva ao Ministério Público Federal:

- Ele confirma que esteve com o empresário José Petronilho de Freitas. Disse que foi

fazer uma visita e conversaram amenidades, nada a ver com o dinheiro.

O empresário é ligado ao grupo Cavan. Está em jogo um negócio de R$ 450 milhões. O

sistema de transmissão de energia elétrica do Nordeste previa a construção de um linhão de

550 quilômetros ligando Teresina a Fortaleza. O empreendimento recebeu financiamento

do BNB (Banco do Nordeste do Brasil) e envolve a Chesf (Companhia Hidrelétrica do Vale

do São Francisco).

Recapitulando: ao receber a ordem de prisão no aeroporto de Congonhas, após ser flagrado

com a dinheirama, Vieira da Silva telefonou ao amigo petista e assessor especial do BNB,

Kennedy Moura, que seguiu para São Paulo. A propósito: José Nobre Guimarães também

estava na capital paulista. Foi ele, aliás, quem indicou Kennedy Moura para o BNB de Lula.

Vieira da Silva seria apenas “mula”, alguém incumbido de transportar dinheiro.

Lula demite Olívio Dutra (PT-RS), ministro das Cidades. É um acordo para dar espaço

ao PP. Em seu lugar assume Márcio Fortes (RJ), uma indicação do presidente da Câmara

dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE). Olívio Dutra não esconde o ressentimento:

- O PT tem problemas muito sérios, que acabam respingando no governo.

Para Olívio Dutra, “disputa” e “concentração de poder no governo” deram espaço para o

crescimento da “erva daninha” da corrupção. Ele não explica nem cita nomes, mas acrescenta,

com gravidade:

- O problema foi provocado por figuras e políticos que predominaram por certo tempo

dentro do nosso partido.

22/7/2005 A dívida de R$ 29.436,26 do presidente Lula. Durante cinco dias, o jornal

Folha de S.Paulo solicitou explicações do Palácio do Planalto. A reportagem queria saber

como o débito fora pago. O governo, finalmente, emitiu nota oficial: “A Presidência da

República não tem conhecimento dessas informações, que devem ser buscadas junto ao

Partido dos Trabalhadores”.

O jornal recorda: no segundo dia, o Palácio do Planalto ainda respondeu que o dinheiro

se referia a viagens de Lula, como presidente de honra do PT. Em seguida,

estranhamente, retirou a informação. Ou seja, ela não procederia. Depois disso, nenhuma

nova manifestação.

Dos dados da prestação de contas do PT, assinados pelo então tesoureiro Delúbio Soares

e entregues ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral): a primeira das quatro parcelas que quitou

a dívida de R$ 29.436,26 foi de R$ 12 mil, e o depósito efetuado em 30 de dezembro de

2003, ao final do primeiro ano do governo Lula.

No mesmo dia, coincidência! Extratos bancários do PT encaminhados ao mesmo TSE

revelam um depósito on line na conta do Diretório Nacional. Nos extratos aparece o nome

da funcionária Solange Pereira Oliveira, da tesouraria do PT. O nome dela também faz parte

da lista dos sacadores de dinheiro das contas de Marcos Valério. Retirou R$ 100 mil, em

dinheiro vivo.

A grande dúvida, que perdurava: a dívida de Lula teria sido paga com dinheiro de caixa

2, das contas de Valério? Outra informação, apurada pelos repórteres Marta Salomon e

Rubens Valente: no mesmo dia 30 de dezembro de 2003, um saque na conta da SMPB de

Valério. Não há identificação a respeito. O nome do sacador desapareceu do interior da sala

da CPI dos Correios. Intrigante. Quem desapareceu também foi Solange Pereira Oliveira.

Sumiu da sede do PT. A nova direção do PT não se manifesta a respeito.

Surgem indícios contra mais um deputado do PT. O Professor Luizinho (PT-SP) também

usufruiu os serviços de caixa 2 de Marcos Valério. Ex-líder do governo Lula na Câmara dos

Deputados, Luizinho é ligado a José Dirceu (PT-SP). O parlamentar, no entanto, manda

Rosana Lima, sua solícita chefe de gabinete, negar qualquer problema: José Nilson dos

Santos, identificado entre os sacadores do esquema do mensalão, não é o José Nilson dos

Santos que trabalha para o Professor Luizinho. Trata-se de um homônimo. O José Nilson

dos Santos assessor, segundo a chefe de gabinete, trabalha em Santo André (SP). “Nunca

esteve em Brasília com a finalidade de sacar dinheiro no Rural. Não sacou R$ 20 mil de

forma alguma”.

O deputado José Borba (PMDB-PR) vai para o noticiário. Ele não aparece como

sacador, nem funcionários dele aparecem como sacadores. Mas José Borba esteve no

Banco Rural em Brasília, no mesmo dia e horário que Simone Vasconcelos, a fiel executiva

de Marcos Valério.

Em 26 de novembro de 2003, Simone Vasconcelos fez quatro saques, num total de R$

400 mil. De acordo com o sistema de controle, José Borba entrou no prédio apenas dois

minutos antes de Simone Vasconcelos. Saiu cinco minutos depois. Uma semana na frente,

em 3 de dezembro: Borba e Simone, novamente. No mesmo dia, no mesmo Banco Rural.

Cenas de cinema.

Em viagem ao Rio, Lula ridiculariza as investigações sobre o mensalão:

- O que o povo quer mesmo é resultado. É saber se, no frigir dos ovos, a sua vida vai estar

melhor do que quando nós entramos no governo.

Em outras palavras, Lula defende o “rouba, mas faz”.

23/7/2005 A revista Época acusa o deputado Abi-Ackel (PP-MG), relator da CPI do Mensalão.

Ele teria ligações com Marcos Valério, que doou R$ 100 mil à campanha dele para deputado

federal, em 1998. O filho do parlamentar, Paulo Abi-Ackel, recebeu R$ 50 mil de Marcos Valério.

Abi Ackel dá entrevista. Não se lembra do fato, ocorrido sete anos atrás. Mas nega que

as supostas doações possam prejudicar o trabalho do relator:

- Estou apurando o mensalão, que pressupõe uma contribuição periódica para votar com

o governo. Em 1998, era outra situação.

Em seguida, a explicação: a contribuição de Marcos Valério foi recebida não por ele,

mas pelo setor financeiro da campanha de Eduardo Azeredo (PSDB), candidato à reeleição

ao Governo de Minas Gerais naquele ano. O depósito teria sido ordenado por Cláudio Mourão,

o tesoureiro da campanha.

25/7/2005 A CPI dos Correios identifica novos depósitos milionários. Beneficiam a corretora

Bônus-Banval, relacionada ao deputado José Janene (PP-PR). Num primeiro momento apareceram

saques efetuados no Banco Rural, num total de R$ 305 mil, destinados a pessoas

ligadas à empresa. Desta vez a Bônus-Banval aparece por ter recebido R$ 2,9 milhões da

empresa 2S, de Valério, por meio de sete transferências eletrônicas do Banco do Brasil.

Surgem também depósitos suspeitos de R$ 6 milhões na conta de uma tal Guaranhuns

Empreendimentos, Intermediações e Participações. São transferências por meio de cheques

do Banco Rural. Para constar: Garanhuns (PE) é a cidade de nascimento do presidente Lula.

No endereço registrado da Guaranhuns, em Santana do Parnaíba (SP), apenas um terreno

baldio, usado pela garotada do lugar como campinho de futebol.

O deputado Romeu Queiroz (PTB-MG) admite o recebimento de R$ 102 mil do

valerioduto. O dinheiro veio da conta da SMPB no Banco Rural, em 31 de agosto de 2004.

Romeu Queiroz assegura: o repasse não ficou com ele, mas foi transferido para candidatos

às eleições daquele ano do interior de Minas Gerais, filiados ao próprio PTB e ao PT. O

deputado não fornece nomes.

Mais um beneficiário do caixa 2 do PT. É o secretário de Finanças do PT de Minas

Gerais, Carlos Magno Ribeiro Costa. Recebeu R$ 90 mil.

Jorge Moura, ex-presidente da Refer, o fundo de pensão dos ferroviários, acusa: Marcelo

Sereno, homem de confiança de José Dirceu (PT-SP), tentou influenciar investimento de R$

1,4 bilhão da Refer. Para Jorge Moura, Marcelo Sereno trabalhou para direcionar as aplicações

do fundo de pensão em benefício dos bancos Rural, BMG, Santos e Pactual.

Ele denuncia outras pressões, vindas do deputado Carlos Santana (PT-RJ). A mulher

dele, Tânia Santana, ocupava cargo na diretoria da Refer. Do esquema participariam Cristina

Montemor, presidente do Conselho Deliberativo da Refer, ligada a Carlos Santana e a Juarez

Barroso, integrante do PT e secretário de Administração da Prefeitura de Nova Iguaçu (RJ).

26/7/2005 Depoimento à CPI dos Correios. É de Renilda Maria Santiago Fernandes de

Souza, mulher de Marcos Valério e sócia das agências de publicidade DNA e SMPB. Ponto

alto do que ela diz: o ex-ministro José Dirceu (PT-SP) participou de negociações que culminaram

com dois empréstimos concedidos pelos bancos Rural e BMG ao PT. Ambas as

operações financeiras foram avalizadas por Marcos Valério.

Renilda Santiago dá detalhes: José Dirceu viajou a Belo Horizonte no fim de 2004, para se

reunir com dirigentes do Banco Rural e discutir empréstimos para o PT. O encontro foi no hotel

Ouro Minas. Segundo ela, o ex-ministro também esteve com diretores do BMG em Brasília.

Por meio de nota, José Dirceu admite que manteve encontros com executivos dos dois

bancos, mas nega ter tratado de empréstimos ao PT. De acordo com a assessoria de José

Dirceu, a conversa com diretores do BMG, no Palácio do Planalto, tratou exclusivamente da

conjuntura econômica.

A agenda do Ministério da Casa Civil informa, ainda, que houve uma terceira reunião,

em agosto de 2003, também em Brasília, com Kátia Rabelo, presidente do Banco Rural.

Durante os 30 meses em que permaneceu à frente da Casa Civil, José Dirceu confirma

encontros com dirigentes de apenas quatro bancos: Rural, BMG, Bradesco e Citibank.

Não foi só o jipe Land Rover de Silvio Pereira. A GDK, contratada da Petrobras, também

empregou Mônica Wagner, filha do ministro das Relações Institucionais de Lula, Jaques

Wagner (PT-BA). Ela trabalha na empresa desde maio de 2004. Na época, o pai comandava

o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, nomeado por Lula. Em 2002, a GDK

doou R$ 225 mil para a campanha do PT na Bahia. Jaques Wagner era candidato a governador.

Perdeu. Em 2006, Wagner elegeu-se governador.

27/7/2005 Apesar das negativas, José Nilson dos Santos é mesmo assessor do deputado

Professor Luizinho (PT-SP), ex-líder do governo Lula na Câmara dos Deputados. Sacou R$

20 mil em dinheiro, de conta bancária da SMPB de Marcos Valério. Foi em 23 de dezembro

de 2003, no Banco Rural. Deixou o número do RG na agência. Reação do Professor Luizinho:

- Alguém está montando documentação falsa. Vou processar todos.

Em Santo André (SP), o assessor confirma o RG, mas se diz surpreso:

- Não sei o que aconteceu. Nunca entrei em uma agência do Banco Rural. Nem aqui

nem em Brasília.

José Nilson dos Santos está na lista de 11 pessoas indicadas pelo PT a Marcos Valério.

Todas autorizadas a fazer saques de dinheiro do caixa 2 do partido. Já faz sete anos que José

Nilson dos Santos trabalha com Luizinho.

Dia seguinte, Luizinho admite, finalmente: José Nilson dos Santos sacou mesmo R$ 20

mil da conta da SMPB, no Banco Rural. Em nota à imprensa, o deputado reconheceu: o

assessor se lembrou de um deslocamento para uma agência bancária, em São Paulo, em

dezembro de 2003:

“No final de 2003, procurei o senhor Delúbio Soares para tratar deste assunto. Ele me

orientou que retirasse o valor de R$ 20 mil em uma agência bancária na avenida Paulista. Só

fui me dar conta que era o Banco Rural agora.”

Luizinho, aguerrido defensor do governo Lula, justifica os R$ 20 mil, dez meses antes

das eleições de 2004:

- O dinheiro foi usado na preparação de pré-campanhas de vereadores em municípios

paulistas.

O governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), envia ofício ao Conselho de Ética da

Câmara. Confirma que alertou Lula sobre o esquema de pagamentos a parlamentares, em 5

de maio de 2004. Diz o documento:

“Relatei ao senhor presidente que ouvira rumores sobre a existência de mesada a parlamentares

em conversas informais em Brasília, porém sem provas concretas. Repeti o

inteiro teor das informações que havia recebido. O senhor presidente disse que não tinha

conhecimento e que ia tomar as providências que o assunto requeria. Não sei quais foram

as providências tomadas.”

Marconi Perillo aponta duas testemunhas da conversa. Estavam dentro do carro em que

manteve diálogo com Lula o motorista e o chefe da segurança do presidente. Como se sabe,

os dois não seriam convocados a depor na CPI.

28/7/2005 Análise da movimentação das contas bancárias das empresas de Marcos Valério

alimenta as provas do esquema de corrupção. Novas revelações vêm a público: o deputado

João Magno (PT-MG) recebeu duas transferências eletrônicas da SMPB, por meio do Banco Rural. Um total de R$ 29 mil, em agosto e setembro de 2004. Por meio da assessoria,

explicações, com a mesma ladainha: João Magno nunca teve contato com a SMPB, mas

pediu ajuda financeira ao tesoureiro do PT, Delúbio Soares, para saldar compromissos assumidos

durante as eleições de 2002. Delúbio autorizou.

Outro que se apresenta para tentar explicar, o deputado Romeu Queiroz (PTB-MG). Os

R$ 50 mil depositados na conta dele, transferidos eletronicamente em agosto de 2004 da

conta da SMPB no Banco Rural, fizeram parte das doações de campanha daquele ano.

Vieram da empresa siderúrgica Usiminas, que teria contribuído para a eleição de Queiroz

com R$ 102 mil. A SMPB, portanto, apenas teria repassado o dinheiro, imediatamente encaminhado

por Queiroz, por sua vez, a candidatos a vereador de seis partidos, em 20 cidades.

Quanto aos R$ 50 mil depositados diretamente em sua conta, foi um engano cometido

por um assessor. Diz Romeu Queiroz:

- Não fiquei com nada.

Levantamento identifica novos saques de R$ 300 mil atribuídos a Jacinto Lamas, o tesoureiro

informal do PL. O dinheiro foi repassado por meio da conta da SMPB no Banco

Rural. Existem R$ 1,6 milhão em retiradas em nome de Jacinto Lamas. O irmão dele, Antônio

de Pádua Lamas, assessor do PL, também fez um saque, de R$ 350 mil.

Esteve no

Banco Rural, em Brasília, em 7 de janeiro de 2004, por 14 minutos. Das 14h22 às 14h36.

Atualização de somas acrescenta mais R$ 1,6 milhão aos saques atribuídos ao policial

mineiro David Rodrigues Alves. Os novos cálculos chegam a R$ 6,5 milhões. Identificados

mais R$ 100 mil sacados por Roberto Pinho, assessor do PT. No total, ele retirou R$ 450 mil.

Célio Siqueira, assessor do deputado Vanderval dos Santos (PL-SP), sacou outros R$ 150 mil.

Dados atualizados mostram que a empresa Guaranhuns recebeu R$ 7,1 milhões. A origem

do dinheiro: cheques emitidos por empresas de Marcos Valério via Banco Rural, na

agência do Brasília Shopping. Aberta mais uma investigação: a CPI dos Correios suspeita

que a Guaranhuns é uma empresa de fachada, utilizada para lavar dinheiro e remeter ilegalmente

divisas para o exterior. 99% do capital da empresa estão nas mãos de uma offshore

chamada Esfort Trading, sediada no Uruguai. Outra suspeita: os R$ 7,1 milhões foram parar

nas mãos do tesoureiro Jacinto Lamas, que repassou a soma ao deputado Valdemar Costa

Neto (SP), presidente nacional do PL.

Entrevista com o economista Paulo de Tarso Venceslau. Ele relata ao repórter Luiz

Maklouf, do jornal O Estado de S. Paulo, esquema de corrupção, de 1995, cujo operador era

o advogado Roberto Teixeira, compadre do presidente Lula. Roberto Teixeira representava

a Cpem (Consultoria para Empresas e Municípios). Por ter denunciado a trama, Venceslau

foi expulso do PT em 1998. Para ele, Roberto Teixeira era o Marcos Valério da época:

- Ele era o grande operador. Ele se apresentava nas prefeituras em nome do Lula, para

pegar dinheiro para o PT.

Paulo de Tarso Venceslau conversou pessoalmente com Lula, naquele ano de 1995. Queria

alertá-lo para os métodos ilícitos de Roberto Teixeira:

- Lula foi o primeiro a saber do caso. Sabia do comprometimento do seu compadre, sabia

do volume de dinheiro público envolvido, e fez questão não só de acobertar, mas de punir

quem tinha descoberto.

Definição de Paulo de Tarso Venceslau: Lula é um caudilho, “e o partido se ajoelha

diante dele. Esse ajoelhar foi mortal para o PT”:

- O poder do Lula passou a ser quase que absoluto diante da máquina partidária. O

partido se ajoelhou.

Em seguida, o economista fala do deputado José Dirceu (PT-SP):

- Até então aparentava manter uma velha amizade comigo, mas passou a ser meu algoz.

Naquele momento ele provou ao Lula sua extrema lealdade. Um caudilho com esse poder,

um partido de joelhos e um executor como o Zé Dirceu, só podia levar a isso que estamos

vendo hoje.

- Como pôde ser possível a montagem dessa máquina de dinheiro, o valerioduto,

dentro do PT?

- Silvio, Delúbio, essas pessoas foram postas no entorno de Dirceu. Silvinho, por exemplo,

sempre foi uma pessoa medíocre no PT. Foi alçado a dirigente pelo Zé Dirceu e virou

pau-mandado. Assim como o Delúbio. São pessoas que raciocinam muito pouco, não precisam

pensar muito. Tinham de executar.

- Paus-mandados de quem?

- Do Zé Dirceu, que era o grande comandante, o grande chefe desse pessoal. Quem

mandava e desmandava era Dirceu. A máquina partidária era controlada a mão-de-ferro

por ele.

- Delúbio Soares afirma que Dirceu não sabia do esquema.

- Isso é conversa para boi dormir. Zé Dirceu controlava o partido, colocava as pessoas

nos postos que lhe interessavam, mantinha sob rígido controle. É ingenuidade achar que

não sabia a origem dos recursos. Até porque o Delúbio não tem capacidade, nem origem,

formação, preparo nem nada para montar um aparelho desse tipo. Vamos ser realistas. É um

sindicalista do interior de Goiás, professor de carreira do Estado, neófito em São Paulo,

nunca circulou nas rodas do poder e de repente adquire amizade sólida com um grande

operador chamado Marcos Valério. É piada achar que fez isso da cabeça dele.

Sobre Lula:

- O Lula sempre geriu de perto as questões que envolvem sua relação de poder. Claro

que não vai estar mandando fazer, mas saber, ele sabia. Não os detalhes. Comparando com

a época que estourou o negócio do Teixeira: a primeira pessoa que soube foi Lula. Eu levei

para ele, pessoalmente. E o tempo todo fingiu que não sabia. Evidentemente que Lula não

operava, assim como não está operando hoje. Mas como ele sabia naquela época, ele sabe

hoje, sempre soube.

29/7/2005 Depoimento à Polícia Federal. É de João Cláudio Genu, assessor do deputado

José Janene (PP-PR). Ele admite que fez vários saques em dinheiro vivo na agência do

Banco Rural no Brasília Shopping. De setembro de 2003 e janeiro de 2004, foram R$ 850

mil em retiradas. Genu agiu por determinação de Janene e dos deputados Pedro Corrêa (PPPE)

e Pedro Henry (PP-MT).

Genu nega que distribuiu dinheiro do mensalão a deputados do PP. Apenas transportou somas,

como uma espécie de “mula”. Segundo Genu, ele pegava o dinheiro dentro da agência, em

envelopes entregues por Simone Vasconcelos, executiva de Marcos Valério. Tudo ia para dentro

de uma pasta tipo 007, sem conferir. Da agência bancária, Genu ia para o anexo do Senado, onde

estão a presidência e a sede do PP. Lá funcionava uma espécie de tesouraria do PP.

A Polícia Federal monta esquema para proteger a vida de Soraya Garcia. Ela cuidou das

finanças da campanha de Nedson Micheletti (PT) à Prefeitura de Londrina (PR) em 2004.

Militante do PT, acabou denunciando a sonegação de R$ 6,5 milhões nos gastos da campanha

apresentados pelo PT à Justiça Eleitoral. Ela acusa o envolvimento do então deputado

Paulo Bernardo (PT-PR), nomeado depois ministro do Planejamento de Lula, e de outro

deputado, André Vargas (PT-PR). Declaração do promotor eleitoral Sérgio Correia de Siqueira

sobre o caixa 2 que reelegeu Nedson Micheletti, com referências ao ministro Paulo Bernardo

e ao deputado André Vargas:

- O que ela fala é que eles chegavam de Brasília num dia e o dinheiro aparecia no outro.

O dinheiro surgia dentro de sacos plásticos de lixo ou em sacolas de lojas. Oficialmente,

a campanha custou R$ 1,3 milhão. De acordo com os números de Soraya Garcia, foram R$

7,8 milhões. Ela relatou ao promotor que foi incumbida de fazer duas planilhas de despesas.

Uma, em letras azuis, a oficial. A outra, em vermelho, mostrava o caixa 2. Depois que os

documentos eram impressos, os arquivos tinham de ser apagados do computador.

Soraya Garcia põe no rolo o chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho

(PT-SP). Ele é natural da mesma Londrina. Gilberto Carvalho foi procurado várias vezes

para dar socorro financeiro à campanha de Nedson Micheletti. Olha a coisa batendo na

porta de Lula, novamente.

Em entrevista ao repórter Sérgio Gobetti, do jornal O Estado de S. Paulo, o deputado

João Magno (PT-MG), ex-prefeito de Ipatinga (MG), confessa que errou ao receber R$ 50

mil do valerioduto em 2003. Diz que o dinheiro foi usado para pagar dívidas de campanha

do ano anterior:

- Não declarei. Não digo que a gente não deva respeitar a lei, mas se não jogar as regras

do jogo tem de deixar a política. Recebi consciente de que era desvio da lei, mas essa é a

regra do jogo no Brasil.

João Magno apresentou Marcos Valério, um velho conhecido, aos deputados João Paulo

Cunha (PT-SP) e José Mentor (PT-SP). Valério também tinha bom relacionamento com o

deputado Virgílio Guimarães (PT-MG). Agora, essa: para obter dinheiro do caixa 2 do PT, o

petista João Magno procurou Valério, e não Delúbio Soares. A confissão:

- Foi quando perguntei se era possível ele liberar algum dinheiro, para pagar dívidas da

minha campanha. Ele disse que dependia de ter o consentimento do Delúbio. Ele não entregaria

dinheiro sem autorização do PT.

Em 2002, antes de conversar com Marcos Valério, João Magno já havia ido a Delúbio

Soares procurar “ajuda financeira”. É revelador:

- Ele disse que ia ver o que era possível fazer. Naquele momento achei uma providência

bastante solidária dele. Esse assunto não era discutido no Diretório Estadual, mas cada

deputado sabia que existia essa fonte de ajuda.

30/7/2005 Um documento do Banco Rural autorizava Roberto Marques, o “Bob”, amigo

e uma espécie de ajudante-de-ordens do deputado José Dirceu (PT-SP), a sacar R$ 50 mil.

O dinheiro, da SMPB. A matéria está na revista Veja. A prova, um fax, veio em papel

timbrado do Banco Rural, endereçado à agência da avenida Paulista, em São Paulo, em

15 de junho de 2004. Bob trabalhava na Assembléia Legislativa de São Paulo, não muito

longe da agência da avenida Paulista.

O saque vivo dos R$ 50 mil foi no dia seguinte. Mas quem fez foi um certo Luiz Carlos

Manzano, sob suspeição de trabalhar como contador na Bônus-Banval. A corretora teria

dado um emprego a Michele Janene, filha do deputado José Janene (PP-PR). José Dirceu e

Bob negam. Não sabem nada sobre o saque de R$ 50 mil. A revista:

“A confirmação de que o Roberto Marques do documento do Rural é o mesmo Bob

ajudante de Dirceu foi dada a Veja na última sexta-feira pelo deputado Carlos Abicalil (PTMT).

Sub-relator da CPI dos Correios, o parlamentar contou que foi procurado pelo próprio

Marques na semana retrasada para tentar esclarecer o aparecimento de seu nome nos documentos

contábeis do Banco Rural. Segundo o deputado, o assessor repassou o número de

sua identidade e do CPF, para que ele pudesse conferir com os documentos em poder da

CPI. O resultado da pesquisa, nas palavras do deputado, foi o seguinte: ‘O número do RG

conferia. Só não conferia o saque’, diz.”

Publicada a reportagem, Simone Vasconcelos, diretora administrativa e financeira da

SMPB, confirma: Roberto Marques, o Bob de José Dirceu, recebeu mesmo autorização

para o saque de R$ 50 mil. Carlos Abicalil evita a imprensa e não fala mais sobre o assunto.

Deve ter tomado uma bronca.

1/8/2005 Marcos Valério faz tremer. Simone Vasconcelos depõe na Polícia Federal, em

Brasília. Fornece uma lista elaborada por Valério, com os nomes de 31 pessoas. Traz os

sacadores e beneficiários do mensalão. Todos autorizados pelo PT a fazer retiradas em dinheiro.

Total que saiu das contas bancárias das empresas de Valério: R$ 55,8 milhões. Um

esclarecimento: nem sempre os beneficiários foram pegar quantias em cédulas no banco.

Os mais espertos mandaram assessores e familiares. Eis os principais nomes da lista, com

os respectivos valores agraciados, por ordem de grandeza:

Duda Mendonça, publicitário e marqueteiro de Lula, responsável pela campanha eleitoral

vitoriosa de 2002, R$ 15,5 milhões. Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, R$

10,8 milhões. Diretório Nacional do PT, R$ 4,9 milhões. Deputado José Janene (PP-PR),

R$ 4,1 milhões. Deputado Vadão Gomes (PP-SP), R$ 3,7 milhões. Manoel Severino dos

Santos, presidente da Casa da Moeda e ligado ao PT do Rio de Janeiro, R$ 2,6 milhões.

Emerson Palmieri, tesoureiro do PTB, R$ 2,4 milhões.

Tome fôlego: deputado José Borba (PR), líder do PMDB, R$ 2,1 milhões. Marcelino

Pies, tesoureiro do PT do Rio Grande do Sul, R$ 1,2 milhão. Anderson Adauto (PL-MG),

ex-ministro dos Transportes de Lula, R$ 1 milhão. José Carlos Martinez, falecido ex-presidente

do PTB, R$ 1 milhão. Deputado Paulo Rocha (PT-BA), R$ 920 mil, bem mais, portanto,

que os R$ 420 mil identificados anteriormente.

Rodrigo Barroso Fernandes, ex-secretário do prefeito de Belo Horizonte, Fernando

Pimentel (PT-MG), também está na lista de Marcos Valério, agraciado com R$ 774 mil.

Márcio Araújo de Lacerda, secretário-executivo do ministro da Integração Nacional, Ciro

Gomes (PSB-CE), pegou R$ 457 mil. Roberto Costa Pinho, assessor do ministro da Cultura,

Gilberto Gil, R$ 450 mil. Deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ), R$ 400 mil.

E mais estes aqui, imperdíveis: Raimundo Ferreira da Silva Júnior, do PT do Distrito Federal,

R$ 370 mil. Deputado João Magno (PT-MG), R$ 350 mil. Deputado Romeu Queiroz

(PTB-MG), R$ 350 mil. Deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), o irmão de José Genoino,

R$ 250 mil. Vilmar Lacerda, presidente do PT do Distrito Federal, R$ 235 mil. Deputado

Paulão (PT-AL), presidente do PT de Alagoas, R$ 160 mil. Deputado Josias Gomes (PT-BA),

R$ 100 mil. Deputado João Paulo Cunha (PT-SP), R$ 50 mil. José Adelar Nunes, tesoureiro

do PT de Santa Catarina, R$ 50 mil. E deputado Professor Luizinho (PT-SP), R$ 20 mil.

A estratégia de Valério: convencer a Polícia Federal de que a lista dos R$ 55,8 milhões

tem origem em empréstimos bancários, e que o dinheiro foi totalmente repassado, por meio

de caixa 2, a pessoas indicadas pelo PT. Valério queria um acordo, o benefício da delação

premiada. Um abrandamento de penas, para evitar possível condenação. Em troca, forneceria

informações. Mais alguns pedidos de Valério: ele não quer ser preso e quer o desbloqueio

de R$ 1,8 milhão, aplicado no nome da mulher, Renilda Santiago.

Valério mantém pressão sobre o PT. Quer negociar, ser protegido. Por ora, ameaça: pode

revelar os detalhes de suposta reunião entre cinco integrantes do PT e o vice-presidente do

BMG, Roberto Rigotto. O encontro teria ocorrido durante o período de votação da Medida

Provisória 130, que tratou de crédito consignado para aposentados. História enroladíssima,

como se verá adiante. De qualquer forma, Valério jamais falou publicamente dos tais detalhes,

durante a crise do escândalo do mensalão. Provavelmente, porque conseguiu o que

desejava. Com o negócio, o BMG obteve exclusividade para operar créditos consignados,

durante alguns meses. Fez um dinheirão.

Outro petardo: escancarados bastidores da relação entre Marcos Valério e José Dirceu

(PT-SP), o superministro do presidente Lula. A psicóloga Maria Ângela Saragoça, ex-mulher

de Dirceu, foi contratada pelo BMG em 2003. Trabalhava meio expediente em uma

agência em São Paulo, por R$ 3.265. Um mês depois, obteve empréstimo de R$ 42 mil do

Banco Rural.

O dinheiro foi usado para pagar parte do apartamento comprado por ela no tranquilo

bairro de Perdizes, em São Paulo. Antes de comprá-lo, porém, Maria Ângela teve de vender

o antigo imóvel, situado na Vila Madalena. Quem o comprou por R$ 115 mil foi o advogado

Rogério Tolentino, sócio de Marcos Valério. Depois, alugou-o a Ivan Guimarães, petista

que ocupou a presidência do Banco Popular do Brasil. O apartamento novo custou R$ 150

mil. O vendedor do imóvel concedeu entrevista ao jornal Estado de Minas. Maria Ângela

foi comprá-lo com dinheiro vivo, trazido numa sacola.

Para anotar: a DNA, de Marcos Valério, fez campanha de lançamento do Banco Popular,

braço do Banco do Brasil, sem licitação. Custos da campanha: R$ 25 milhões. O

BMG aproveitou os bons ventos no governo Lula e fez lucrativa parceria com a Caixa

Econômica Federal e o INSS (Instituto Nacional de Seguro Social) para operar sistema de

créditos consignados.

Voltando à ex-mulher de José Dirceu. O ministro pediu emprego a Valério para ela, logo após

a posse de Lula. A notícia sai no Correio Braziliense. Dirceu não quer falar sobre o assunto.

Maria Ângela divulga nota: diz que foi apresentada a Marcos Valério por Silvio Pereira, um

velho conhecido, de mais de 20 anos. Dirceu, segundo ela, não tem nada a ver com isso:

“Em setembro de 2003, encontrei-o (Silvio Pereira) em companhia do senhor Marcos

Valério, a quem fui apresentada. Conversamos sobre minha situação profissional e o publicitário

mineiro se colocou à disposição para me indicar alguma empresa que eventualmente

necessitasse de meus serviços. Também disse que tinha contatos se eu precisasse de financiamento

para a compra do novo apartamento.”

Renuncia o deputado Valdemar Costa Neto (PL-SP). Ele preferiu perder o mandato a

correr o risco de ficar inelegível até 2015, caso fosse cassado por envolvimento no escândalo

do mensalão. Ficou livre para se candidatar em 2006. Valdemar Costa Neto não abriu

mão do cargo de presidente do PL.

De Roberto Busato, presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil):

- A renúncia não pode ser um salvo-conduto para a impunidade.

Valdemar Costa Neto profere discurso da tribuna na Câmara dos Deputados. Recebeu,

sim, dinheiro do valerioduto, apesar de ter negado anteriormente. Todo o dinheiro do caixa

2 do PT foi usado, segundo ele, para pagar despesas de campanhas eleitorais. Não houve

mesadas a deputados:

- Fui induzido ao erro quando aceitei receber recursos destinados à campanha, sem a

devida documentação que oficializasse a doação.

O patrimônio de Valdemar Costa Neto, conforme declaração apresentada por ele ao TRE

(Tribunal Regional Eleitoral) em 2002: R$ 2,9 milhões. Em Mogi das Cruzes (SP), base

eleitoral de Valdemar, ele é conhecido como “Boy”. De Frederico Augusto, irmão de

Valdemar, ao repórter José Maria Mayrink, do jornal O Estado de S. Paulo:

- Não entendo como o Boy tem tantos bens, pois nosso pai morreu pobre e não deixou

quase nada para os filhos.

Em Brasília, o discurso de renúncia do presidente do PL. Menção ao PT:

- Não tínhamos razões para suspeitar da origem dos recursos que recebíamos. Em nenhum

momento poderíamos colocar sob suspeita as ações de um partido aliado que, junto

conosco, venceu as eleições.

O presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), elogia Valdemar

Costa Neto. Severino falou exatamente desse jeito:

- Não posso deixar de ressaltar a prova da dignidade da maneira correta como vossa excelência

agiu para engrandecer o mandato popular, que espero que São Paulo faça de volta.

Daria certo. Valdemar seria reeleito deputado federal em 2006. E o PL, chamuscado pelo

escândalo do mensalão, viraria PR (Partido da República). Valdemar continuou forte nos

bastidores, durante o segundo mandato de Lula.

2/8/2005 José Dirceu (PT-SP) e Roberto Jefferson (PTB-RJ) enfrentam-se em sessão do

Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Um duelo com ofensas, denúncias para todos

os lados e muita ironia. Dirceu trata de proteger Lula, minimizando a influência que teve no

governo do presidente. Jefferson rouba a cena. Eis as intervenções de Dirceu, retrucadas por

Jefferson:

- Tenho consciência da tragédia que se abateu no PT. Sei da gravidade dos erros que

setores da direção do PT cometeram na campanha de 2004, mas quero repetir que só respondo

pelo que decidi, participei e autorizei.

- Tratei de todos os assuntos com vossa excelência, deputado José Dirceu, os republicanos

e os não-republicanos. Vossa excelência nos deixava a todos à vontade para

qualquer conversa, na ante-sala do presidente da República.

- O senhor se desentendeu conosco porque queria capturar vários órgãos públicos e não

permitimos as nomeações.

- Falei do mensalão para o todo-poderoso José Dirceu, hoje humilde, ele deu um

soco na mesa e disse: “Não pode, o Delúbio não está autorizado”.

- No caso de se comprovar que o mensalão é realidade, quem vai decidir isso é a Justiça.

Por enquanto é um indício, não uma certeza.

- O José Genoino era o vice-presidente do PT. O presidente de fato era José Dirceu.

Tudo tinha de ser fechado e homologado depois na Casa Civil, pelo José Dirceu.

- Não é fato. Não é verdade.

- O acordo da Bahia foi fechado na Casa Civil. O acordo de São Paulo, o do Paraná

que envolvia a nomeação em Itaipu, foi fechado na Casa Civil.

- Não posso ser prejulgado, transformado, como fez o deputado Roberto Jefferson, no

chefe de quadrilha ou no chefe do maior esquema de corrupção no País.

- Foi o maior tráfico de influência, a maior corrupção política que eu já vi por parte

de um partido. O braço desse partido no governo é vossa excelência.

- O falecido presidente Martinez recebeu R$ 1 milhão do Marcos Valério. Se esses saques

são para o mensalão, como diz o deputado Roberto Jefferson, o PTB também recebeu.

- O senhor acusou um homem que não pode se defender, mas eu vou fazer isso por

ele. O Martinez me mostrou que havia recebido do PT R$ 1 milhão para pagamento de

programas de televisão de campanha, que são caríssimos.

- Jamais propus para qualquer deputado, deputada, senador, senadora, para qualquer

presidente de partido, qualquer proposta que não fosse lícita, republicana.

- Não tem mensalão no Brasil. É conversa da imprensa, todos os jornais mentem,

todas as revistas mentem. Os gestos do Delúbio não são de conhecimento de vossa

excelência. As atividades de Marcos Valério, que foi 12 vezes à Casa Civil, vossa excelência

não viu, não.

Comentário da jornalisa Dora Kramer, de O Estado de S. Paulo:

“Quem ouvisse pela primeira vez pensaria tratar-se do ministro da Pesca, não do chefe

da Casa Civil, poderosíssimo, comandante de uns, integrante de outros e influente em

todos os grupos de trabalho governamentais, participante ativo e explícito dos atos do PT

nesse período.”

Do jornalista Clóvis Rossi, da Folha de S.Paulo:

“Que diabo de político mambembe é esse que, tendo participado do alto comando petista

por 12 anos, não percebeu que os seus colegas eram capazes de praticar ‘atos’ capazes de

gerar o que o próprio Dirceu chamou de ‘tragédia’ do PT?”

Rossi acrescentou: “É, diga-se, o mesmo dirigente político que conviveu durante 13

anos com um certo Waldomiro Diniz e, ainda assim, foi incapaz de notar nele qualquer

tendência delinquencial, a ponto de levá-lo para o coração do governo, posição a partir da

qual negociava com delinquentes”.

Roberto Jefferson denuncia: José Dirceu, com o conhecimento e o aval de Lula, articulou

uma viagem de Marcos Valério e Emerson Palmieri, tesoureiro do PTB, a Lisboa. O

objetivo: negociar a captação de recursos junto à Portugal Telecom, para conseguir “fundos”

e pagar dívidas de campanha do PT e do PTB. O ministro do Turismo, Walfrido dos

Mares Guia (PTB-MG), segundo Jefferson, foi quem pediu socorro ao presidente da República.

O PTB precisava de dinheiro. Nasceu a operação Portugal Telecom.

Fatos denunciados: Valério e Emerson Palmieri voaram de primeira classe para a capital

portuguesa, em 24 de janeiro de 2005, a fim de se encontrar com representantes do Banco

Espírito Santo e com o ministro de Obras Públicas de Portugal, Antonio Mexia, que mantinha

ligações com banqueiros. Valério queria se meter numa transferência de US$ 600 milhões

do IRB (Instituto de Resseguros do Brasil). O dinheiro estava depositado numa instituição

financeira do Reino Unido e com a jogada iria para o Banco Espírito Santo. O banco

é um dos principais acionistas da Portugal Telecom. A “comissão” do negócio, de R$ 100

milhões, injetaria recursos de caixa 2 para “salvar” PT e PTB. Ao final, a “solução” acabou

descartada, pelo alto risco.

Reação de José Dirceu:

- Não é verdade, isso não é fato. Nunca tive relação com a Portugal Telecom, de nenhum

tipo. Nem administrativa, nem funcional, nunca tratei com a Portugal Telecom,

nenhuma matéria.

Reação de Marcos Valério:

- Havia o rumor de que a Portugal Telecom estava comprando a Telemig Celular. Como

a minha agência DNA tinha a conta da Telemig, fui a Portugal atrás de oportunidades de

negócios. Palmieri foi comigo a passeio. É amigo e estava estressado.

Emerson Palmieri iria negar, como veremos.

Reação do Palácio do Planalto: em nota oficial, admitiu as visitas de dois representantes

da Portugal Telecom a Lula, em Brasília. Agenda do encontro: “novos investimentos no

Brasil”. Da nota: “Em nenhum momento foi tratado qualquer assunto que não se referisse

aos empreendimentos da companhia portuguesa no Brasil”.

Marcos Valério depõe à Procuradoria-Geral da República. Afirma que se encontrou três

vezes com o ex-ministro José Dirceu (PT-SP), no Palácio do Planalto. Ele faz menção a

contratos de gaveta, fechados com Delúbio Soares. Uma espécie de garantia para os bancos

Rural e BMG, que teriam emprestado R$ 55,8 milhões ao PT.

Valério entrega cópia de documento assinado por Delúbio, dirigido ao BMG. O tesoureiro

do PT assumia “o compromisso irretratável e irrevogável de garantir, como avalista e

devedor solidário”, todas as operações de empréstimos firmadas com o PT e as empresas

ligadas a Valério, a saber: DNA, SMPB, Graffiti e Rogério Tolentino Associados.

Os procuradores ficam intrigados. Delúbio Soares, um homem sem grandes posses, foi

aceito como avalista de empréstimos milionários. O BMG também emprestou R$ 83,4 milhões

às empresas de Marcos Valério, entre fevereiro de 2003 e abril de 2004.

Um momento do depoimento de Valério chama atenção: o empresário informa que R$

4,9 milhões foram entregues, em dinheiro vivo, nas sedes do PT em São Paulo e em Brasília.

Por fim: os advogados Aristides Junqueira e Pedro Fonseca, contratados para defender o PT

no caso da morte do ex-prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel (PT), receberam R$ 185

mil em recursos do chamado valerioduto. O dinheiro que pagou os advogados, portanto,

não tinha nada a ver com as tais dívidas de campanha.

Cai Márcio Araújo de Lacerda (PSB-MG), secretário-executivo do Ministério da

Integração Nacional. Amigo do ministro Ciro Gomes (PSB-CE), era seu assessor mais importante.

Em 2002, foi coordenador financeiro da campanha de Ciro Gomes, então no PTB,

à Presidência da República. Em 2008, Márcio Lacerda seria eleito prefeito de Belo Horizonte,

apoiado pelo PT e pelo PSDB. O nome de Márcio Lacerda apareceu na lista do

valerioduto, beneficiário de R$ 457 mil. Segundo ele, o dinheiro pagou a agência de publicidade

que fez a campanha de Ciro a presidente:

- A campanha do Ciro terminou sem dívida e, no segundo turno, com o apoio à candidatura

de Lula, houve uma junção das equipes na campanha do PT. O pessoal da agência New

Trade, responsável pelo marketing de Ciro, integrou-se, a convite de Duda Mendonça, à

campanha do PT e dos aliados nos Estados. O dinheiro foi depositado na conta da agência,

não podia imaginar que tinha esse esquema todo.

O empresário Jacome Einhart, dono da New Trade, confirma e descreve o telefonema

que deu ao publicitário Duda Mendonça, responsável pela campanha eleitoral de Lula:

- Liguei para o Duda e dei os parabéns pela vitória, e ele me chamou para ajudar no

segundo turno.

O dinheiro do caixa 2 do PT repassado à New Trade saldou despesas da campanha de

Lula à Presidência da República. Fato grave, mas sem os desdobramentos que poderiam ter

ocorrido, nem as implicações merecidas.

Depoimento do ex-secretário de Segurança Nacional do governo Lula, Luiz Eduardo

Soares, à CPI dos Bingos. Ele ouviu do empresário de jogos Sérgio Canozzi, em

2002, que o ex-presidente da Loterj do Rio, Waldomiro Diniz, levantava R$ 300 mil

mensais de propina.

Sérgio Canozzi também teria oferecido suborno de R$ 10 milhões para a governadora do

Rio, Benedita da Silva (PT), num esquema de desvio de dinheiro público. Luiz Eduardo

Soares garante que denunciou a “oferta” ao secretário de Coordenação de Governo de

Benedita da Silva, Marcelo Sereno, aliado de José Dirceu (PT-SP). Mais: fez três tentativas

para contar o caso diretamente à governadora, mas ela desconversou. Waldomiro Diniz

continuou na presidência da Loterj. Da governadora Benedita a Luiz Soares:

- Você deveria ser mais construtivo, e não ficar me trazendo mais problemas.

3/8/2005 A operação Portugal Telecom. Notícia do jornal Expresso, de Lisboa: o ex-ministro

de Obras Públicas de Portugal, Antonio Mexia, recebeu Marcos Valério, “na qualidade de

consultor do presidente do Brasil”. O encontro, em outubro de 2004, teve caráter “de cortesia”,

com duração de 15 minutos. A conversa, “de circunstância”, não teve “tema específico”.

Em nota, a Presidência da República nega, “enfaticamente”. Afirma que Marcos Valério

não foi autorizado a representar Lula. Mas é fato: Valério foi recebido em audiência pelo

ministro José Dirceu (PT-SP), em 11 de janeiro de 2005, 13 dias antes da viagem a Lisboa,

em companhia do tesoureiro do PTB, Emerson Palmieri. Para anotar: Valério foi ao encontro

de Dirceu com o representante do Banco Espírito Santo no Brasil, Ricardo Espírito

Santo. Ele é primo do presidente do banco, Ricardo do Espírito Santo Salgado. Dados em

poder da CPI dos Correios mantêm registro de que Ricardo do Espírito Santo Salgado esteve

no Brasil no fim de 2004, para jantar com Delúbio Soares.

Mais uma informação que corrobora a denúncia de Roberto Jefferson: o IRB (Instituto

de Resseguros do Brasil) confirma que rejeitou proposta para aplicar US$ 100 milhões no

Banco Espírito Santo. Não são os números de Jefferson, mas são números milionários.

Quem forçou a posição do IRB pela rejeição da proposta, em abril de 2005, foi o diretor de

Finanças da estatal, Alberto Pais, o único que não teria sido indicado por partidos políticos.

Simone Vasconcelos na CPI dos Correios. A diretora administrativa e financeira da

SMPB conta que esteve cerca de 30 vezes em Brasília por determinação de Marcos Valério,

em 2003. Foi tratar de retiradas de dinheiro, atendendo interesses de Delúbio Soares. Ela

conhece um pouco da história do saque em nome de Roberto Marques, o “Bob”, fiel

amigo de José Dirceu:

- A Geyza Dias, gerente financeira da SMPB, autorizou o saque de R$ 50 mil do Rural em

São Paulo, em nome dele. Mas no dia seguinte enviou outro fax ao Rural, mudando o destinatário.

Se foi mudado, foi por ordem do Valério, que deve ter mudado a pedido do Delúbio.

Dava muito na cara.

Os R$ 50 mil, afinal, foram recebidos por um emissário da corretora Bônus-Banval. Na

primeira fase das operações do valerioduto, aliás, o dinheiro era entregue em espécie ou

mediante transferências eletrônicas, diretamente aos beneficiados. Depois, Marcos Valério

procurou procedimentos mais seguros, dificultando a identificação dos recebedores. Passou

a usar os serviços das corretoras Bônus-Banval e Guaranhuns para distribuir o dinheiro.

Além de tudo, tinha outro problema: Simone Vasconcelos não aguentava mais lidar com

tanto dinheiro. Palavras dela à CPI:

- Quando chegava ao Rural em Brasília tinha impressão de que até o guarda sabia que eu

ia tirar dinheiro. Não gostava disso, pelo risco pessoal. Achava perigoso. Com o passar de

alguns meses, fiquei incomodada, constrangida. Não me ocorreu que fosse ilegal, mas pedi

para não fazer mais.

De Simone Vasconcelos:

- Não me arrependo de nada. Sou muito grata ao Marcos Valério. Ele me deu possibilidade

de crescimento profissional. E quando fiquei incomodada por entregar valores, isso mudou.

Fiz tudo por determinação do meu patrão.

Cai Manoel Severino dos Santos, presidente da Casa da Moeda, órgão subordinado ao

Ministério da Fazenda. Manoel Severino dos Santos aparece na lista de Valério como sacador

de R$ 2,6 milhões. É um dos fundadores do PT no Rio. Foi secretário da ex-governadora

Benedita da Silva (PT-RJ). Exerceu a função de tesoureiro informal do PT e trabalhou na

campanha de reeleição de Benedita. É próximo de Marcelo Sereno e Delúbio Soares.

Mais denúncias: a DNA pagou R$ 34 mil mensais, entre abril de 2003 e dezembro de

2004, para a IFT (Idéias, Fatos e Texto), empresa do jornalista Luís Costa Pinto, em

troca de serviços de comunicação aos deputados Professor Luizinho (PT-SP) e Virgílio

Guimarães (PT-MG).

A SMPB, outra agência de Marcos Valério, pagou R$ 20 mil mensais a Luís Costa Pinto,

pela assessoria ao deputado João Paulo Cunha (PT-SP), na época em que ele presidia a

Câmara dos Deputados. A CPI dos Correios descobriu uma transferência de R$ 50 mil das

contas de Valério a Luís Costa Pinto.

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4/8/2005 Mais uma história que passa raspando em Lula. O jornal O Estado de S. Paulo faz

nova revelação sobre o caixa 2 do PT. A reportagem é de Christiane Samarco. Trata-se de

R$ 2,1 milhões do valerioduto que foram entregues ao líder do PMDB na Câmara, deputado

José Borba (PR), em 2004.

Segundo o próprio José Borba, boa parte dos R$ 2,1 milhões foi repassada a Carlos Roberto

Massa, o “Ratinho”, apresentador do Programa do Ratinho, do SBT. Bancou uma entrevista-churrasco

com Lula no programa de televisão. Foram cinco horas de gravação na Granja do Torto com

Lula, registradas por seis câmeras do SBT. O programa foi ao ar em 30 de abril de 2004.

José Borba relatou a história a dois integrantes da cúpula do PMDB. José Borba

intermediou pessoalmente o pagamento. Deu a entender que poderia renunciar ao mandato.

Iria preferir isso a contar a verdade. Afinal, Ratinho é compadre e velho amigo. Financiara

a campanha de José Borba a deputado em 2002, incluindo o empréstimo de um jatinho para

ele percorrer o Paraná.

O Palácio do Planalto e Ratinho negam o pagamento. Da reportagem:

“Foi justamente a eleição de 2002 que aproximou Ratinho, que já foi deputado, e o

candidato Lula, apoiado pelo PMDB de Borba no Paraná. Os contatos entre eles se estreitaram

a ponto de a grande entrevista exclusiva ter sido acertada pelos dois em um café da

manhã em Brasília, um mês antes do churrasco no Torto. A entrevista teria custado caro

porque incluiu a participação da dupla sertaneja Bruno e Marrone, que cantou com Lula.”

Em depoimento à CPI do Mensalão, Roberto Jefferson (PTB-RJ) conta detalhes da operação

Portugal Telecom. Foi procurado por Marcos Valério, em março de 2005, para tratar

do negócio com o Banco Espírito Santo, acionista da Portugal Telecom. Valério queria que

Jefferson conseguisse uma transferência de US$ 600 milhões para o Banco Espírito Santo,

cuja sede fica em Portugal. O dinheiro era do IRB (Instituto de Resseguros do Brasil) e

estava aplicado na Europa.

Além disso, Jefferson teria de atuar junto à Eletrobrás. A estatal federal precisaria

reestatizar linhas de transmissão de energia. O Banco Espírito Santo providenciaria financiamento

de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões para isso. A comissão proposta para a trama

era de 3%. Isso renderia uma bolada entre R$ 90 milhões e R$ 120 milhões, dinheiro que

iria irrigar os cofres do PT e do PTB. Na época, o IRB e a Eletrobrás estavam na área de

influência do PTB.

Havia outro negócio, proposto pelo então ministro José Dirceu (PT-SP). Renderia R$ 24

milhões por fora, também para PT e PTB. Esse o motivo da viagem de Valério e do tesoureiro do

PTB, Emerson Palmieri, a Lisboa. Rogério Tolentino, sócio de Valério, também foi a Portugal.

Segundo Jefferson, Dirceu disse que a Portugal Telecom oferecera a bolada em nome de

uma antecipação de recursos para futuras campanhas eleitorais. Jefferson afirma que Valério,

Tolentino e Delúbio Soares viajavam com frequência a Portugal.

Em seu depoimento, Jefferson aponta a origem da crise política: dificuldades do PT e do

PTB para pagar dívidas:

- Se as operações tivessem dado certo, as crises estariam sanadas. As tensões seriam

superadas.

Para ele, os problemas começaram quando tomou a decisão de contar a Lula sobre o

pagamento de mensalões. Jefferson acusa o ministro da Justiça:

- Passaram a perseguir a mim e ao PTB. O ministro Márcio Thomaz Bastos disse

que divulgaria corrupção em três órgãos administrados pelo PTB, o IRB, os Correios

e a Eletronorte.

Roberto Jefferson acrescenta:

- Procurei o José Dirceu e pedi que ele não “viajasse”, mas ele não me deu ouvidos.

Depois fiquei sabendo que os arapongas da Agência Brasileira de Inteligência estavam lá

nos Correios, querendo me pegar.

Um “acordo” na CPI dos Correios impede a abertura dos sigilos bancários e fiscais de 11

fundos de pensão de empresas estatais. A alegação: a investigação iria gerar clima de instabilidade

na economia, e prejudicar investimentos no Brasil. Deputados e senadores abrem

mão da apuração das irregularidades num veio importante de abastecimento do caixa 2. Do

deputado Maurício Rands (PT-PE):

- Os investimentos dos fundos são ativos da escala de bilhões. Temos de ter responsabilidade

com a economia do País.

Com a decisão, o inquérito restringe-se a um pedido de informações à Secretaria de

Previdência Complementar, do Ministério da Previdência Social.

A CPI dos Correios ouve o policial David Rodrigues Alves, autorizado a sacar R$ 6,5

milhões das contas das empresas de Marcos Valério, em agências do Banco Rural em Belo

Horizonte. Ele confirma: o dinheiro ficava separado no banco, em maços lacrados. Transportava

os valores para a SMPB, em caixas de sapato, caixas de camisa ou de celular,

dependendo da quantia. Fazia até três viagens por dia, carregando de R$ 50 mil a R$ 150

mil. Em troca, recebia pagamento de R$ 50 a R$ 100 por viagem, mais o dinheiro do táxi.

Na CPI dos Bingos, Antonio Carlos Lino da Rocha, ex-presidente da multinacional Gtech

no Brasil, e Marcelo Rovai, ex-diretor de Marketing da empresa. Os dois acusam o advogado

Rogério Buratti e Waldomiro Diniz, ex-subchefe do Ministério da Casa Civil. Ambos

teriam tentado extorquir R$ 20 milhões da Gtech, em abril de 2003. A exigência caiu depois

para R$ 6 milhões. Em troca, o Governo Federal facilitaria a renovação de um contrato da

multinacional norte-americana com a Caixa Econômica Federal. Rogério Buratti foi secretário

de Governo do ministro da Fazenda, Antonio Palocci (PT-SP), quando ele era prefeito

de Ribeirão Preto (SP).

A história de Marcelo Rovai: ele aceitou conversar com Waldomiro Diniz, porque lhe

informaram que o assessor de José Dirceu (PT-SP) era o terceiro homem mais importante

do governo Lula. Quanto a Buratti, era poderoso o suficiente para impedir a assinatura do

contrato. Afinal, já assessorara três petistas de peso: Palocci, José Dirceu e o deputado João

Paulo Cunha (SP).

Os ex-dirigentes da Gtech negam o pagamento da propina. Senadores acreditam que,

para evitar o rompimento do contrato de processamento de loterias, o dinheiro foi pago, e

por isso a prorrogação, um negócio de R$ 650 milhões, recebeu sinal verde. Não ficou por

aí a boa relação Gtech/governo Lula. Houve a criação de mais um jogo, a Loto Fácil, e o

aumento de 50% no preço de outro, a Mega Sena, que também beneficiaram a Gtech.

Outra indicação do suborno: as ligações telefônicas entre Marcelo Rovai e Rogério Buratti.

O ex-diretor da multinacional negou os telefonemas, mas a quebra de sigilo telefônico mostrou

que os dois se falavam com frequência. É fato: a Caixa Econômica Federal prorrogou

o contrato de US$ 100 milhões com a Gtech por mais um ano.

5/8/2005 A operação Portugal Telecom. O jornal português Público informa que Ricardo

Espírito Santo Salgado, presidente do Banco Espírito Santo, confirmou o encontro mantido

com Marcos Valério em Lisboa, no final de 2004. Na audiência, o banqueiro comentou que

tinha dificuldade para marcar uma reunião com altos funcionários do governo Lula.

De volta ao Brasil, Valério marcou o encontro, sem problemas. Em dois dias estava

agendado. A reunião ocorreu em 11 de janeiro de 2005. Ricardo Espírito Santo, representante

do banco português no Brasil, foi recebido pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu

(PT-SP). Valério também estava na audiência. O banqueiro e Valério confirmaram, embora

Dirceu tenha informado que não se lembrava da presença de Valério na reunião.

Outro diário português, o Jornal de Negócios, publica entrevista com o presidente da

Portugal Telecom, Miguel Horta e Costa. Ele também se reuniu com Valério, “grande empresário

de Minas Gerais”, em Lisboa. Em outubro de 2004, em audiência oficial realizada

no Palácio do Planalto, ocorreu encontro entre Lula e Miguel Horta e Costa.

Em entrevista ao repórter Expedito Filho, do jornal O Estado de S. Paulo, Marcos Valério

descreve José Dirceu como “avalista político” dos empréstimos bancários do Banco Rural e

do BMG ao PT:

- Por que você acha que os bancos emprestaram? Algum banqueiro deste País daria o

aval para Delúbio e Valério? Os bancos só deram aval porque sabiam que por trás tinha um

conforto, uma garantia.

Segundo Valério, Delúbio Soares avisava José Dirceu sobre todas as transferências de

dinheiro do valerioduto:

- Delúbio tinha fidelidade canina e não fazia nada sem conversar com Dirceu.

Mais bastidores do mensalão, na versão de Valério:

- Nos dois últimos anos, eu fui a pessoa mais íntima do Delúbio. Ele me disse que Zé

Dirceu sabia das dívidas do partido, que Zé Dirceu sabia dos compromissos com os outros

partidos da base. Delúbio assumiu mais compromissos do que realmente poderia. Além de

Zé Dirceu, todo mundo na cúpula do PT sabia dos empréstimos de Delúbio e das transferências

para diretórios do PT e para partidos aliados.

- Eu via a maneira como Silvinho Pereira respeitava o Delúbio, o Delúbio ao Genoino, e

todos ao Dirceu.

Tudo começou no segundo turno da eleição para presidente da República, em 2002.

Valério se aproximou de um velho amigo, o deputado Virgílio Guimarães (PT-MG),

conterrâneo dele da cidade de Curvelo (MG). Conheceu José Dirceu e a cúpula do PT. As

operações de empréstimo e transferências começaram depois da eleição:

- No PP, os saques eram autorizados para João Cláudio Genu, chefe do gabinete da

liderança, e distribuídos para os deputados pelo líder, deputado José Janene. O PL, primeiro

partido a receber, tinha como distribuidor o deputado Valdemar Costa Neto, embora os

saques fossem feitos pelo tesoureiro Jacinto Lamas. No PMDB, quem sacava era Maria

Sebastiana, e o Borba distribuía.

Valério lembra-se de conversa que ouviu na sede do PT em Brasília, no edifício Varig.

Era a respeito de uma discussão entre o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) e o tesoureiro

Delúbio Soares:

- Jefferson queria grana, chantageou e ameaçou o Delúbio. Ele me disse: “Vamos ter

problemas com o Roberto Jefferson”.

O publicitário Duda Mendonça emite nota para repudiar, “com veemência e indignação”,

o que chama de “tentativas absurdas e absolutamente improcedentes” de Marcos Valério.

Duda Mendonça não aceita que ele e a sócia, Zilmar Fernandes da Silveira, sejam envolvidos

no “inexplicável esquema de distribuição de dinheiro”. Duda Mendonça foi apontado

como o destinatário de R$ 15,5 milhões, por meio de cinco cheques lançados entre fevereiro

e novembro de 2003.

A Polícia Federal indicia o coordenador financeiro da campanha de Fernando Pimentel

(PT) a prefeito de Belo Horizonte. Chamado a depor, Rodrigo Barroso Fernandes prefere

não se manifestar sobre os R$ 274 mil que recebeu, por meio do caixa 2 do PT. Com o nome

na lista dos recebedores de dinheiro do valerioduto, Rodrigo Barroso Fernandes já havia

pedido demissão da Prefeitura de Belo Horizonte.

6/8/2005 O PT decide suspender Delúbio Soares por tempo indeterminado, mas rejeita a

abertura de processo de investigação sobre as atividades do tesoureiro. Do deputado Chico

Alencar (PT-RJ), que depois se transferiria para o PSOL (Partido Socialismo e Liberdade):

- Delúbio sabe de muita coisa. Ele não faria operações milionárias de moto próprio, e por

isso tem que ter blindagem, proteção. O partido não quer ser melindrado. O Campo Majoritário

está vivo e José Dirceu, trabalhando firme.

Para o deputado Mauro Passos (SC-PT), o receio é um só. Delúbio Soares poderia contar

tudo o que sabe:

- Tornou-se perigoso, do ponto de vista que pode liquidar figuras do nosso partido e do

nosso governo. Imagino o esforço para que não abra o verbo.

O jornal O Estado de S. Paulo comenta a decisão do PT, no editorial “Pizza no Diretório

do PT”. Critica a influência de José Dirceu e classifica Delúbio Soares como o “parceiro de

falcatruas de Valério”, autor de “negócios escabrosos”, no “maior escândalo de corrupção

de que se tem notícia no País.”

A revista Época publica fotografia de casa ampla, de bom gosto, avaliada em R$ 600

mil. Recém-construída por José Dirceu. Fica no condomínio Vale de Santa Fé, em Vinhedo

(SP). Tem 431 metros quadrados de área construída, piscina e churrasqueira, num belo

terreno de 1.680 metros quadrados.

Análise da CPI dos Correios sobre operações financeiras. É de envolvidos no escândalo

do mensalão. Traz dúvidas sobre movimentações de José Dirceu. Cerca de R$ 535 mil,

transferidos ao ex-ministro entre os anos de 2000 e 2005, não dispõem de identificação.

Não se sabe quem foram os depositantes. Para a assessoria de José Dirceu, o deputado está

protegido por sigilo bancário, e não fará comentários sobre o assunto.

A operação Portugal Telecom. Quem se manifesta agora é o ex-diretor de Finanças da

Embratur no governo Lula, Emerson Palmieri. O tesoureiro informal do PTB contesta a

versão apresentada por Marcos Valério, segundo a qual ele, Palmieri, fora a passeio a Lisboa

por estar estressado e ser amigo de Valério. Palmieri fala ao repórter Rubens Valente, da

Folha de S.Paulo:

- Não sou amigo dele, não tenho nada com ele, eu o conheço há poucos meses.

Emerson Palmieri aproximou-se de Marcos Valério “por contingência”. Foi a Portugal

em “missão partidária”, mas não há clareza sobre o encontro de Marcos Valério com representantes

da Portugal Telecom:

- O Jefferson tinha combinado com José Dirceu e que era para eu acompanhar, para

saber se iria ocorrer a reunião. Mais nada, eu não tinha detalhes disso.

Na explicação confusa, Palmieri diz ter sido convocado por Roberto Jefferson para a

viagem. O deputado não explicou o motivo da ida a Portugal. Refere-se assim ao encontro

entre Valério e diretores da empresa portuguesa:

- Ele não permitiu que eu entrasse na reunião, disse apenas que “provavelmente vamos

equacionar em 20 dias o problema do PT e do PTB”.

88

9/8/2005 Surge Paulo Okamotto, presidente do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro

e Pequenas Empresas), nomeado por Lula para o cargo. Apresenta-se como autor do pagamento

da dívida de R$ 29.436,26 do presidente da República junto ao PT. Okamotto foi

tesoureiro da campanha de 1989, a primeira em que o líder petista disputou a Presidência da

República. A CPI dos Correios investiga se teve dinheiro de caixa 2 no pagamento da dívida.

No Sebrae, Okamotto administra orçamento anual de R$ 900 milhões. Ele diz que pagou

a dívida em quatro parcelas, mas não contou ao presidente:

- Tirei recursos da minha conta pessoal.

Okamotto não tem provas de que pagou. Não tem recibos, nada. A história não tem

lógica. Ele diz que sacou dinheiro vivo em caixas eletrônicos em Brasília, e enviou os

valores em espécie para São Paulo. Na capital paulista, aconteceram os depósitos em conta

bancária do PT, feitos de quatro agências diferentes do Banco do Brasil.

Em depoimento à CPI do Mensalão, Marcos Valério confirma que destinou R$ 15,5

milhões das contas bancárias de suas agências para pagar o publicitário Duda Mendonça. O

dinheiro foi entregue à sócia de Duda, Zilmar Fernandes da Silveira, e a outras pessoas

autorizadas por ela. Zilmar é íntima da família presidencial. Cuida pessoalmente da imagem

de Lula e da primeira-dama, Marisa Letícia. Faz isso desde a eleição de 2002. Sugere roupas

novas para o presidente, e tratamentos estéticos para dona Marisa. No mercado publicitário,

é tida como próxima de Delúbio Soares.

Em depoimento à CPI dos Bingos, o advogado Rogério Buratti diz que foi procurado por

emissários da multinacional norte-americana Gtech, em abril de 2003. Eles queriam que Buratti

fosse intermediário dos interesses da empresa junto ao ministro Antonio Palocci (PT-SP), para

que houvesse a renovação de um contrato de R$ 650 milhões com a Caixa Econômica Federal.

Em troca da influência, Buratti receberia uma comissão milionária de R$ 16 milhões.

Rogério Buratti garante que não aceitou a proposta, e isenta o ministro da Fazenda de

qualquer irregularidade. A Gtech teve o contrato renovado. Buratti nega tráfico de influência,

mas não desmente a amizade com Antonio Palocci. E desvia o foco do ministro. Diz

suspeitar que a Gtech contratou, por R$ 5 milhões, a MM Consultoria. A empresa, esta sim,

teria ajudado na obtenção do novo contrato. A MM seria ligada ao advogado Marcelo Coelho

Aguiar, que foi assessor de Luiz Gushiken (PT-SP) na Secom, a Secretaria de Comunicação

da Presidência da República. A história teria desdobramentos.

Em Brasília, outra história eletrizante: o sacador do valerioduto que passou recibo. É

Charles dos Santos Dias, assessor do ex-senador Ademir Andrade (PSB-PA), candidato

ao Governo do Pará em 2002, derrotado no primeiro turno. Dos R$ 920 mil do caixa 2 do

PT em nome do deputado Paulo Rocha (PT-PA), R$ 300 mil foram retirados de conta da

SMPB, em dinheiro vivo, na agência Assembléia do Banco Rural, em Belo Horizonte.

Dias fez o saque.

O dinheiro teria sido usado para comprar o apoio político do ex-senador. Em troca da

bolada, ele teria ficado ao lado de Maria do Carmo (PT-PA), candidata a governadora no

segundo turno das eleições do Pará naquele ano. Ela também foi derrotada. De qualquer

forma, Charles dos Santos Dias descontaria três cheques de R$ 100 mil cada um, em 6 de

maio de 2003. Assinou recibo, deixou rastro: os números do RG, CPF e do telefone celular.

Do ex-senador Ademir Andrade, ao jornal O Estado de S. Paulo:

- Tenho 30 anos de vida pública dedicada à luta do povo, sempre na esquerda, defensor

dos sem-terra. Nunca me servi de qualquer coisa de governo, tive sempre comportamento

absolutamente impecável, e de repente me vejo envolvido em situações como essa.

10/8/2005 Na CPI do Mensalão, o vice-presidente da comissão, deputado Paulo Pimenta

(PT-RS), trata de “esquentar” lista de sacadores das contas de Marcos Valério, numa jogada

para envolver parlamentares de oposição no escândalo do mensalão. Um documento, supostamente

apócrifo, relacionava 128 nomes para os quais teriam sido entregues R$ 10,8

milhões na campanha de reeleição do governador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) em 1998.

Eduardo Azeredo perdeu aquele pleito para Itamar Franco (PMDB-MG).

No primeiro momento, Paulo Pimenta afirma que “achou” a lista com os nomes em cima

da mesa de trabalhos da CPI. Diz supor que Marcos Valério a deixou ali, por distração, ao

prestar depoimento à comissão. Mas Paulo Pimenta foi visto ao lado de Valério após o final

do depoimento, na madrugada anterior, caminhando em direção à garagem do Senado.

Paulo Pimenta apressa-se em dar uma segunda versão. Foi mesmo até o carro de Valério

pegar a tal lista, mas com o advogado de Valério. A história não prospera. O advogado,

Marcelo Leonardo, nega. E, pior, fica provado que Pimenta saiu do Senado, naquela madrugada,

dentro do carro de Valério.

Do jornalista Janio de Freitas, na Folha de S.Paulo:

“Assim tem agido a tropa de choque petista. Procura esvaziar tudo o tempo todo,

sem decência no trato dos fatos, sem dignidade política e sem compostura pessoal.

Disso só pode resultar a sua associação moral a Marcos Valério e a quantos acusados

haja. E, como o PT domina as CPIs ao somar-se a seus aliados da ‘base governista’, as

inquirições e investigações ficam prejudicadas, particularmente as referentes ao

mensalão.”

Paulo Pimenta renuncia à vice-presidência da CPI do Mensalão.

Depoimento à CPI dos Correios de Cristiano Mello Paz, sócio de Marcos Valério na agência

de publicidade SMPB. Ele afirma que assinou “pilhas” de cheques identificados apenas como

“assunto PT/Marcos Valério”, sem saber o destino do dinheiro. Diz Cristiano Mello Paz:

- Marcos Valério fez uma reunião conosco em que falou da importância da aproximação

com o partido. Toda agência de publicidade tem interesse em estar próxima. Não vejo nada

de ilícito nisso.

Cristiano Mello Paz defende o sócio:

- Valério colocou a importância de ter bom relacionamento com o PT. Disse que queria

se aproximar do PT e tomou a decisão de fazer o empréstimo, se nós concordássemos.

Assinei na confiança e achei que deveria assinar.

Os cheques da “conta PT” vinham separadamente. Não eram nominais. Eram ao portador

ou endereçados a determinadas empresas.

- Todas as vezes que os cheques chegavam na minha mesa eram pilhas desse tamanho,

até me incomodava. Eu não tinha tempo para ficar conferindo.

Os parlamentares estranham. Que motivos teriam levado a agência a assumir riscos,

emprestando dinheiro a um partido político? Justificativa de Paz:

- Senti desconforto por causa da dívida da empresa. O Valério dizia: “Não se preocupe,

o PT vai pagar”. Achei que tudo seria cumprido. Hoje vejo que foi um erro.

A Polícia Federal entrega à CPI dos Correios laudo apontando suspeitas de manipulação

em números e informações do Banco Rural. Há indícios de transações que foram apagadas

ou modificadas nas operações de crédito, débito, transferências bancárias e saques atribuídos

às empresas de Valério.

Os peritos da Polícia Federal desconfiam de modificações feitas intencionalmente na

contabilidade eletrônica do banco, para que coincidissem com as versões dos saques. As

mudanças poderiam escamotear falsificações de valores, omitir sacadores e até incluir operações

fantasmas. De acordo com dados da CPI, não há identificação sobre a origem de R$

11,8 milhões, referentes a 50 movimentações das empresas de Valério no Banco Rural.

11/8/2005 A crise assume aspectos ainda mais chocantes. Duda Mendonça e Zilmar Fernandes

da Silveira depõem na CPI dos Correios. O marqueteiro de Lula aparece sem ser convocado.

Confessa que recebeu R$ 11,9 milhões em caixa 2, de Marcos Valério. O dinheiro pagou

serviços prestados na campanha de 2002, que elegeu Lula. Pior: R$ 10,5 milhões do total

foram depositados no exterior, segundo Duda Mendonça, por orientação de Marcos Valério.

Duda Mendonça teria sido obrigado a constituir uma empresa offshore, cuja característica

principal é a ausência de identificação dos donos. Nasceu a Dusseldorf, nas Bahamas. De

acordo com a versão, Marcos Valério fez seguidos depósitos à Dusseldorf em 2003, por

meio dos bancos BAC Flórida Bank, Banco Rural Europa, Israel Discount Bank de Nova

York e a empresa Trade Link. Duda Mendonça não fornece senha ou extratos para permitir

a análise da movimentação. Diz o marqueteiro de Lula:

- Esse dinheiro era claramente de caixa 2, a gente não é bobo. Nós sabíamos, mas não

tínhamos outra opção, queríamos receber. Não vou dar uma de santinho. Ou eu recebia

daquele jeito, ou tomava cano.

Além dos R$ 10,5 milhões na Dusseldorf, Marcos Valério repassou R$ 1,4 milhão em

dinheiro vivo, em várias parcelas. Duda Mendonça recebeu tudo. Os primeiros R$ 300 mil

foram na agência do Banco Rural da avenida Paulista, em São Paulo. Zilmar Fernandes da

Silveira foi buscá-lo:

- Cheguei na tesouraria do Rural e o rapaz me trouxe um pacote de dinheiro. Eu me

assustei, porque pensei que ia receber um cheque administrativo.

A sócia de Duda Mendonça acostumou-se. Voltou à mesma agência nos dias seguintes

para pegar mais duas boladas de R$ 300 mil cada uma, em dinheiro vivo. E depois fez

outras duas retiradas, também em espécie, de R$ 250 mil cada. Total: R$ 1,4 milhão. Só

parou porque disse ter sido assaltada. Aí um doleiro teria sido incumbido de fazer os

saques na agência.

O depoimento de Duda abala o País. Além do marketing de Lula, o publicitário cuidou das

campanhas dos candidatos do PT aos governos de São Paulo e do Rio, José Genoino e Benedita

da Silva, e do senador Aloizio Mercadante (PT-SP). Recebeu R$ 11,9 milhões de Valério, e

outros R$ 3,6 milhões de Delúbio. Todos os R$ 15,5 milhões “por fora”, sem nota fiscal.

As televisões transmitem o depoimento de Duda Mendonça. O publicitário escancara a

promiscuidade entre público e privado nas relações do Governo Federal. Segundo ele, o

pacote fechado com o PT para as eleições de 2002 era de R$ 25 milhões. Faltou o acerto de

R$ 9,5 milhões do combinado, mas Duda Mendonça voltou a trabalhar para o partido do

presidente Lula em 2004. Foi responsável pelas campanhas eleitorais em São Paulo, Porto Alegre,

Belo Horizonte, Curitiba, Recife e Goiânia. Duda detém contas milionárias de publicidade

do governo Lula, a saber: Petrobras, Secom e Ministério da Saúde. Juntas, renderam faturamento

de R$ 120 milhões em 2003 e 2004. O acesso de Duda à esplanada dos Ministérios e ao ministro

Luiz Gushiken (PT-SP) é constante. Recebeu o apelido de ministro da propaganda.

Ao depor à CPI, Duda Mendonça quer se livrar da acusação de evasão de divisas. O

crime teria sido cometido por quem enviou o dinheiro ao exterior. Não ele. Duda apenas

o recebeu e, portanto, seria autor de crime mais leve, de sonegação fiscal. Caso fizesse

acerto com a Receita Federal antes da denúncia do Ministério Público, ficaria livre de

processo criminal.

Repercussões do depoimento de Duda Mendonça: para o jornal Folha de S.Paulo, em

editorial, “o presidente Lula perde o pouco de autoridade que lhe restava: como pode o

governo exigir dos cidadãos e das empresas o cumprimento de obrigações fiscais se o mais

alto magistrado da República chegou ao poder valendo-se de operações fraudulentas?”

O jornalista Clóvis Rossi, na mesma Folha, escreve que o depoimento do “publicitário do

rei” mostra que não foram apenas deputados os beneficiados pelo valerioduto. “Foi o próprio

presidente da República, cuja propaganda foi paga com esse dinheiro. Pior: não foram pagamentos

feitos durante a campanha e, portanto, antes da presidência de Lula, mas depois da

posse e depois de a agência de Duda ter obtido contratos de publicidade do governo”.

O presidente do PT, Tarso Genro (RS), defende Lula:

- Não há nenhuma legitimação moral e jurídica para a proposta de impeachment. Vamos

fazer todos os movimentos políticos, jurídicos e sociais para defender o mandato do

presidente.

Da senadora Heloísa Helena (PSOL-AL):

- Agora se fecham todos os indícios de crime. E esse dinheiro não veio de empréstimo.

Veio de licitações fraudadas, de investimentos de fundos em bancos que depois retribuíam.

Tudo que o Código Penal diz que dá cadeia eles fizeram.

O deputado José Dirceu (PT-SP) alerta para “convulsão social”, em caso de impeachment

de Lula:

- Vocês acham que não vai acontecer nada no País se fizerem isso?

Enquanto Duda Mendonça depunha à CPI dos Correios, Marcos Valério comparece à

CPI do Mensalão. Ele tampouco fora convocado. O depoimento não tem a mesma repercussão,

mas cria um problema. Segundo Valério, foi o próprio Duda quem pediu para o dinheiro

ser depositado no exterior:

- Fui procurado pelo Delúbio, que me incumbiu de pagar o Duda, por intermédio da

Zilmar. Fiz os pagamentos à pessoa que ela indicou, o consultor financeiro de nome Jader.

A grana foi sacada pelo doleiro Jader Kalid Antônio, autor de 22 operações de retirada de

dinheiro da SMPB. Diz Valério:

- Fui usado pelo PT e cuspido para fora. É muito mais fácil acusar o publicitário Valério

do que o marqueteiro Duda Mendonça. É mais fácil falar em valerioduto do que em

dirceuduto ou ptduto.

Ex-diretores do Banco Central são entrevistados pelos repórteres Fernando Dantas e

Suely Caldas, do jornal O Estado de S. Paulo. Os pagamentos a Duda Mendonça no exterior

seriam mais uma evidência de que os empréstimos dos bancos Rural e BMG ao PT e ao

empresário Marcos Valério foram obras de ficção. As operações de crédito fariam parte,

portanto, de estratégia para camuflar doações prévias, depositadas por empresas em contas

bancárias no exterior, e cujos titulares seriam os próprios bancos envolvidos no esquema.

Os empréstimos serviriam para cobrir as doações, e não eram para ser pagos.

Segundo a análise, não faria sentido aprovar empréstimos de milhões de reais, em operações

avalizadas por dirigentes do PT, políticos com baixo patrimônio. A suspeita é de que os

empréstimos não deveriam ser quitados e nem cobrados, pois já haviam sido pré-pagos com

depósitos no exterior.

Em outro texto, Suely Caldas explica que os empréstimos foram inventados para “esquentar”

dinheiro depositado no Banco Rural em paraíso fiscal:

“A empresa interessada em doar dinheiro ao governo Lula deposita, digamos, US$ 5

milhões na conta do Banco Rural, lá no paraíso fiscal. Feito isso, o Rural concede um

empréstimo do mesmo valor, no Brasil, à SMPB, empresa de Marcos Valério. Em seguida,

a SMPB repassa o dinheiro do ‘crédito’ aos ‘protegidos’ indicados por Dirceu/Delúbio (por

enquanto, deputados do PT e de partidos aliados).”

A suspeita sobre a verdadeira face do esquema vinha do fato de o Banco Rural ter levado

calote de R$ 6,5 milhões de Marcos Valério em 1998. Na época, Valério teria engendrado

operação semelhante para a campanha de reeleição do governador de Eduardo Azeredo

(PSDB-MG). O esquema ficaria conhecido como mensalão mineiro. “Que banco sério premia

o insistente e reincidente caloteiro com tantos outros milionários empréstimos?”

Da repórter Suely Caldas: “Além de comissões polpudas faturadas por eles, o Rural

provisiona no balanço o ‘prejuízo’ decorrente do calote dos ‘empréstimos’, obviamente

concebidos para se transformar em ativos podres. Com isso, o banco reduz ‘seu lucro’ e se

livra do Imposto de Renda referente à parcela do falso ‘prejuízo’”.

O repórter Lourival Sant’Anna, do mesmo Estadão, obtém informações de bastidor, de

fonte próxima a Delúbio Soares. Os gastos com a campanha de Lula, em 2002, teriam

alcançado R$ 200 milhões. O PT admitiu despesas de R$ 21 milhões, quase dez vezes

menos. Os R$ 21 milhões teriam sido suficientes para todas as despesas, e havia ainda uma

sobra de R$ 11 mil. Nos números de verdade, ficaria uma dívida de caixa 2, de mais de R$

20 milhões. E a arrecadação não-contabilizada teria sido de quase R$ 160 milhões.

A CPI dos Bingos recebe informações do Ministério Público de São Paulo. O advogado

Rogério Buratti manteve relações próximas com Antonio Palocci (PT-SP), ministro da Fazenda,

pelo menos até fevereiro de 2004. Mentira à CPI ao dizer que não tinha contato com

Palocci. O ministro também negara.

Rogério Buratti foi secretário de Governo de Ribeirão Preto (SP), no período em que o

prefeito da cidade era Antonio Palocci. Foi afastado por suspeita de corrupção. Motivo: fita

gravada pelo próprio Rogério Buratti continha indícios de acerto ilegal com um empresário.

A gravação, furtada por integrante do PT e divulgada, inviabilizou a permanência de Rogé142

rio Buratti na Prefeitura. Saiu do PT, e não teria mais convivido com Antonio Palocci.

Agora, sabe-se que ligou duas vezes de um telefone fixo, em 7 de fevereiro de 2004, para

a casa do ministro, em Brasília. E no dia 21 daquele mês, mais uma vez, de um celular. Além

disso, manteve contatos telefônicos com Juscelino Antonio Dourado, chefe de gabinete de

Antonio Palocci no Ministério da Fazenda. E fez outras 99 ligações para Ralf Barquete, um

consultor da Caixa Econômica Federal. Os telefonemas ocorreram no período da renovação

do contrato entre a Caixa e a multinacional Gtech. Ralf Barquete também foi secretário de

Antonio Palocci na Prefeitura de Ribeirão Preto. Rogério Buratti minimiza a importância

dos telefonemas ao ministro. Segundo o advogado, as conversas tiveram “caráter pessoal”:

- Nunca disse que não conheço Palocci e não converso com ele. Disse que não tenho

intimidade com ele. Foi isso que eu falei.

Antonio Palocci insiste na versão furada. Em nota emitida por sua assessoria, afirma que

“eventuais telefonemas foram provavelmente tentativas de contato que não prosperaram”.

Sobre os contatos com Rogério Buratti nos últimos anos, “apenas sociais, eventuais e esporádicos”.

Muita água ainda vai passar por baixo dessa ponte.

12/8/2005 Lula improvisa em reunião ministerial no Palácio do Planalto:

- Eu não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos que pedir

desculpas. O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas.

O presidente não diz com clareza a que se refere. Nem aponta os culpados:

- Quero dizer a vocês, com toda a franqueza, eu me sinto traído. Traído por práticas

inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento. Estou indignado pelas revelações que aparecem

a cada dia, e que chocam o País.

Lula não menciona que fora alertado pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) para a

existência do esquema de distribuição de mensalões:

- Se estivesse ao meu alcance, já teria identificado e punido exemplarmente os responsáveis

por esta situação.

O presidente jamais iria apontar os responsáveis pela suposta traição.

13/8/2005 A revista Veja traz entrevista com o jurista Hélio Bicudo, um dos quadros mais

respeitáveis do PT. Ele diz à repórter Lucila Soares que o partido chegou ao governo sem

projeto, tratou de aparelhar o Estado e adotou a “tática de alcançar resultados pela corrupção

do Congresso Nacional”:

- Não posso admitir que dentro da história que venho construindo, muitas vezes penosamente,

eu possa ser considerado partícipe do que está acontecendo.

- O senhor acredita que o presidente Lula sabia dos fatos que estão vindo a público?

- Lula é um homem centralizador. Sempre foi presidente de fato do partido. É impossível

que ele não soubesse como os fundos estavam sendo angariados e gastos e quem era o

responsável. Não é porque o sujeito é candidato a presidente que não precisa saber de dinheiro.

Pelo contrário. É aí que começa a corrupção.

- Por que o presidente não tomou nenhuma atitude para impedir que a situação

chegasse aonde chegou?

- Ele é mestre em esconder a sujeira embaixo do tapete. Sempre agiu dessa forma.

Em outro trecho, Hélio Bicudo trata de um caso que envolveu Lula:

- Em 1997, presidi uma comissão de sindicância do PT para apurar denúncias contra o

empresário Roberto Teixeira, que estava usando o nome de Lula para obter contratos de

prefeituras em São Paulo. A responsabilidade dele ficou claríssima. Foi pedida a instalação

de uma comissão de ética, e isso foi deixado de lado por determinação de Lula, porque o

Roberto Teixeira é compadre dele.

- Em que momento o senhor começou a perceber que o partido estava no caminho

errado?

- Quando a direção passou a tomar a frente das campanhas políticas. No início, a militância

era a grande força eleitoral. Isso foi mudando na medida em que o partido começou a abandonar

os princípios éticos. A partir da campanha eleitoral de 1998 instalou-se definitivamente

a política de atingir o poder a qualquer preço.

Hélio Bicudo abandona o PT.

O Jornal Nacional, da TV Globo, entrevista a mulher do doleiro Antonio Oliveira

Claramunt, o “Toninho da Barcelona”. Ela não é identificada, por segurança. Diz temer pela

vida do marido, preso na penitenciária de segurança máxima de Avaré (SP):

- Ele se transformou num arquivo vivo.

Em cartas endereçadas à família, Toninho da Barcelona contou que remeteu dinheiro ao

exterior, por solicitação do PT, desde a primeira campanha de Lula a presidente, em 1989.

Segundo ele, as remessas se multiplicaram na década de 90 e foram concentradas na empresa

Trade Link, ligada ao Banco Rural, nas Ilhas Cayman, e em outra offshore situada no Panamá.

A mulher de Toninho da Barcelona fala ao Jornal Nacional de ameaças ao marido. Teriam

sido feitas por supostos advogados que o procuraram na prisão, a mando do deputado

José Mentor (PT-SP):

- Ele falou para mim que os advogados perguntaram se ele tinha mesmo revelações a

fazer sobre as remessas do partido.

Toninho da Barcelona perguntou aos advogados o que ganharia para responder a pergunta.

A resposta foi a seguinte:

- Temos três reis e um ás que podem ajudá-lo a sair daqui.

A revista Veja aborda o assunto. Para a publicação, as cartas de Toninho da Barcelona

dão pistas sobre os caminhos do dinheiro:

“Os doleiros, normalmente, recebem dinheiro frio no Brasil – das mãos do dono do

dinheiro ou de seu representante – e se encarregam de enviá-lo ao exterior, por meio de uma

cadeia de laranjas.”

15/8/2005 Técnicos da CPI dos Correios suspeitam da versão de Duda Mendonça. O publicitário

disse ter sido obrigado a abrir empresa em paraíso fiscal para ser remunerado pela

campanha que elegeu Lula em 2002. O problema: remessas de R$ 8,8 milhões à offshore

Dusseldorf, nas Bahamas, foram feitas nos dias seguintes a saques em contas de Marcos Valério.

A coincidência de datas é considerada forte indicador de que o dinheiro dos depósitos

teve origem no Brasil. Depois de sacado, os valores seriam depositados por doleiros em

contas no exterior, até chegarem a offshores como a Trade Link, ligada ao Banco Rural, nas

Ilhas Cayman. De lá, seguia transferência para a Dusseldorf. Como evidência, os técnicos

apontam 35 dos 40 depósitos em dólares na conta de Duda Mendonça no BankBoston de

Miami, cuja origem teriam sido recursos retirados do Banco Rural no Brasil.

Os dados: em 11 de março de 2003 sacaram-se R$ 300 mil do Banco Rural, em Belo

Horizonte. No dia seguinte, a Trade Link autorizou uma transferência de US$ 83,6 mil

(equivalente a R$ 300 mil, menos as comissões) para a Dusseldorf. No dia 12 de março de

2003, um dia depois, sacaram-se outros R$ 300 mil do Banco Rural de Belo Horizonte.

Mais um dia, novo depósito em dólares, de valor equivalente, no BankBoston de Miami.

Para os técnicos da CPI, a exigência de Marcos Valério para que Duda Mendonça abrisse

uma offshore em paraíso fiscal só faria sentido se o dinheiro já estivesse no exterior, sem a

possibilidade de ser “internalizado” no Brasil, o que, aparentemente, não ocorreu.

Em entrevista a Lourival Sant’Anna, repórter de O Estado de S. Paulo, Roberto Busato,

presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), aponta motivos para a abertura de

processo de impeachment contra Lula. Roberto Busato denuncia falhas da Polícia Federal e

do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda) para

detectar movimentações de dinheiro do valerioduto. Diz Roberto Busato:

- Não é possível que esse Banco Rural tenha praticado tantos fatos que não foram detectados

pela análise sistêmica que o Banco Central é obrigado a fazer. Onde estava a Receita

Federal, com todos esses ilícitos tributários declarados? É incrível a inoperância de instrumentos

do Estado brasileiro para evitar ou estancar uma corrupção sistêmica que estava

ocorrendo dentro do governo Lula. Temos de reexaminar a legislação e as instituições.

- Os membros do PT envolvidos na corrupção fazem uma separação entre erro e corrupção,

entendendo que em benefícios para o partido não há delito, mas erro. E que delito é apenas

o aproveitamento próprio das verbas desviadas. Isso é desvio de conduta muito grave. Agiram

criminosamente.

O presidente da OAB justifica o pedido de impeachment:

- O presidente é a expressão máxima do PT. Portanto, não me parece lógico que ele desconhecesse

as práticas que seu partido estava adotando na sua própria campanha e, depois,

dentro do seu governo. Havia denúncias a partir do caso Waldomiro Diniz. E o presidente da

República nunca veio a público demonstrar transparência na solução desses problemas. Esses

indícios todos autorizam juridicamente um pedido de impeachment do presidente.

A CPI dos Correios inicia o processo de notificação de 18 deputados envolvidos no

escândalo do mensalão. Todos são convocados a apresentar suas defesas por escrito. A lista

dos que podem ser cassados tem sete deputados do PT, quatro do PP, três do PL, dois do

PTB, um do PMDB e um do PFL (Partido da Frente Liberal, cujo nome é alterado para

Democratas durante o segundo mandato de Lula). Os nomes: José Dirceu (PT-SP), João

Paulo Cunha (PT-SP), José Mentor (PT-SP), Professor Luizinho (PT-SP), Paulo Rocha (PTBA),

Josias Gomes (PT-BA), João Magno (PT-MG), José Janene (PP-PR), Pedro Corrêa

(PP-PE), Pedro Henry (PP-MT), Vadão Gomes (PP-SP), Sandro Mabel (PL-GO), Carlos

Rodrigues (PL-RJ), Wanderval Santos (PL-SP), Roberto Jefferson (PTB-RJ), Romeu Queiroz

(PTB-MG), José Borba (PMDB-PR) e Roberto Brant (PFL-MG).

16/8/2005 Uma comissão de 12 parlamentares da CPI dos Correios desloca-se a São Paulo

para ouvir o doleiro Antonio Oliveira Claramunt, o “Toninho da Barcelona”. Ele se diz

disposto a colaborar com as investigações, em troca de proteção e da revisão da condenação

a 25 anos de prisão. Fornece os nomes de quatro expoentes que fizeram operações de remessa

de dinheiro ao exterior: José Dirceu (PT-SP), Delúbio Soares, o presidente do Banco

Central, Henrique Meirelles, e o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos.

Diz mais: a corretora Bônus-Banval fez operações para o líder do PP, deputado José

Janene (PR), e também para José Dirceu. Fala de grandes quantias em moeda nacional,

trocadas por dólares. Foi pedido do deputado José Mentor (PT-SP). Informa conhecer detalhes

de operações em Santo André (SP), feitas por doleiros que prestavam serviços ao PT.

Cita o envolvimento do MTB Bank no esquema de remessa de divisas ao exterior, e relata

operações cruzadas entre o Banco Rural e o BankBoston no exterior.

Em agosto de 2004, Toninho da Barcelona vendeu US$ 134 mil para o superintendente

da Polícia Federal em São Paulo, Francisco Baltazar da Silva. Ele foi indicado para o cargo

por Lula, depois de coordenar a equipe de segurança de Lula nas quatro eleições presidenciais

disputadas pelo petista. Com o escândalo, Francisco Baltazar da Silva deixou o cargo.

O ministro Márcio Thomaz Bastos admite remessas de dinheiro e aplicações financeiras

no exterior, mas ressalva: as operações, feitas pelo Unibanco, foram legais, por contratos de

câmbio e registradas no Banco Central.

A Folha de S.Paulo reporta que duas diretoras uruguaias da Guaranhuns, empresa apontada

como intermediária no esquema de distribuição de dinheiro do mensalão, foram denunciadas

por lavagem de dinheiro pelo DEA (Departamento de Combate ao Narcotráfico,

dos Estados Unidos). Elas teriam atuado com o Cartel de Juarez, uma organização de

drogas mexicana.

Em depoimento à CPI do Mensalão, Emerson Palmieri, tesoureiro informal do PTB, dá

detalhes sobre a reunião em que o PT se comprometeu a repassar R$ 20 milhões para a

campanha eleitoral do PTB em 2004:

- Estávamos eu e o deputado Roberto Jefferson, com José Genoino, Delúbio Soares,

Silvio Pereira e Marcelo Sereno. Genoino disse que a contribuição seria de partido para

partido, e os recibos seriam providenciados depois. Seriam cinco parcelas de R$ 4 milhões.

Depois disso, Genoino levantou-se e disse que ia ligar para José Dirceu.

As negociações com o PT, segundo o tesoureiro do PTB, eram conduzidas principalmente

por José Genoino e o tesoureiro Delúbio Soares.

- Depois, Delúbio nos apresentou Valério e passamos a tratar com ele.

Das cinco parcelas de R$ 4 milhões, só uma teria sido paga. Veio em duas etapas, em

dinheiro vivo, no início de julho de 2004. Uma de R$ 2,2 milhões, outra de R$ 1,8 milhão.

Palmieri foi encarregado por Roberto Jefferson de dividir o dinheiro em “bolos” de R$ 150

mil e R$ 200 mil. Do tesoureiro:

- Não coube tudo no cofre do partido, passei uma parte para um armário ao lado. Entreguei

a chave ao deputado Roberto Jefferson e ele me pediu sigilo. Poucos dias depois, disse

a ele que deveríamos providenciar um segurança para tomar conta daquela dinheirama. Ele

me respondeu: “O dinheiro já não está mais aqui no PTB”. Não sei para onde ele levou.

Acho que Jefferson não distribuiu o dinheiro.

Jacinto Lamas, o ex-tesoureiro do PL, também depõe na CPI do Mensalão. Afirma ter

ido buscar, por determinação do ex-deputado Valdemar Costa Neto (PL-SP), “pacotes”,

“envelopes” e “encomendas”, sempre em dinheiro vivo, na sede da SMPB em Belo Horizonte,

e na agência do Banco Rural no Brasília Shopping. Confessa também o recebimento

em hotéis. Neste caso, Simone Vasconcelos, diretora da SMPB, entregava o dinheiro.

- Era sempre um acerto entre o Valdemar e o Delúbio.

7/8/2005 Preso o advogado Rogério Buratti, ex-secretário de Antonio Palocci (PT-SP) na

Prefeitura de Ribeirão Preto (SP). Acusado de tentar destruir contratos de venda de imóveis

e cheques, documentos que o incriminariam em negócios suspeitos, Rogério Buratti é denunciado

pelo Ministério Público por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, num

esquema de compra e venda de fazendas e de duas empresas de ônibus. Preso também o

corretor de imóveis Claudinet Mauad, envolvido nas transações de Rogério Buratti.

Investigações sustentam que Rogério Buratti comprou três fazendas nos últimos dois

anos. Por uma propriedade em Ituverava (SP), pagou R$ 280 mil. Em seguida, trocou-a por

terras em Pedregulho (SP), que custaram R$ 600 mil. Em novo negócio, vendeu a fazenda

de Pedregulho e comprou uma outra em Buritizeiro (MG), por R$ 1,2 milhão. Mais recentemente,

teria se desfeito da última propriedade, e comprado duas empresas de ônibus por

R$ 2,6 milhões, nas cidades de Rancharia (SP) e Presidente Venceslau (SP).

Para o Ministério Público, os negócios evidenciam operações de lavagem de dinheiro.

Teriam sido firmados por meio de contratos de gaveta. As empresas de ônibus estariam em

nome de terceiros. Interceptação telefônica autorizada pela Justiça indicaria que Buratti já

comprara nova fazenda, em Catalão (GO).

Em 1992, Rogério Buratti chegou a Ribeirão Preto para coordenar a campanha vitoriosa

do então candidato a prefeito, vereador Antonio Palocci. Chegou sem nada, dirigindo

um fusca. O petista Palocci governou Ribeirão Preto de 1993 a 1996. Em 2000, foi eleito

prefeito pela segunda vez. Em 2005, o patrimônio de Buratti ultrapassaria R$ 3 milhões.

Ele acabou afastado da Prefeitura de Ribeirão por se meter com uma empreiteira. Veio a

público a gravação de uma conversa suspeita entre Buratti e um empresário. Em seguida,

Buratti trabalhou como assessor da Prefeitura de Matão (SP), na época também sob

comando do PT.

De lá foi para a empreiteira Leão Leão, que havia sido a principal doadora da segunda

campanha de Antonio Palocci a prefeito de Ribeirão. Buratti tinha o cargo de vice-presidente

da Leão Leão em 2004, quando foi forçado a sair da empreiteira. Palocci era ministro da

Fazenda de Lula e Buratti estava metido em novo escândalo, o da suposta extorsão de

dinheiro da multinacional Gtech. A empresa norte-americana queria renovar um contrato

com a Caixa Econômica Federal, subordinada justamente ao Ministério da Fazenda.

Waldomiro Diniz também teria participado da operação.

Buratti é indiciado por suspeita de envolvimento em esquema de fraude em licitações e

contratos irregulares de limpeza pública em Ribeirão e outras nove cidades de São Paulo e

Minas Gerais, em benefício da Leão Leão. Palocci não comenta a prisão. Buratti fecha

acordo com o Ministério Público. Iria colaborar com a Justiça nas investigações, em troca

de redução da pena.

18/8/2005 Em depoimento à CPI do Mensalão, Delúbio Soares sai-se com evasivas. Além

da sucessão de negativas, o ex-tesoureiro do PT não se lembra de mais nada. E os empréstimos

de Marcos Valério ao partido? “Tem que verificar se foram R$ 55 milhões, R$ 56

milhões, R$ 58 milhões”. Do dinheiro repassado ao publicitário Duda Mendonça, “não sei

se são R$ 12 milhões, R$ 16 milhões, R$ 17 milhões”. Sobre a grana que o PT ficou de dar

ao PL pelo apoio em 2002, “algo em torno de R$ 9 milhões a R$ 10 milhões”.

De acordo com Delúbio Soares, ele “não tinha nenhum tipo de controle sobre quanto foi

pago, e a quem”. Também nega a existência de documentação sobre empréstimos feitos por

Marcos Valério:

- Não fizemos contabilidade nenhuma. Eu falava com o Marcos Valério, ele fazia o

empréstimo. Não temos nem contabilidade de caderneta.

Delúbio Soares tem precisão cirúrgica, no entanto, quando interessa:

- O PT nunca comprou voto, nunca comprou deputados, nunca comprou votação.

O deputado Virgílio Guimarães (PT-MG) introduziu Marcos Valério:

- Quando o Virgílio me apresentou ao Marcos Valério, disse que ele tinha experiência em

campanhas. Ao falar de experiência, quero dizer alguém que sabe trabalhar com recursos,

que não faz mutreta.

Dos repasses de dinheiro do PT a partidos aliados:

- Parte do dinheiro era para resolver débitos de 2002. Uma parte para planejar, em 2003,

as campanhas eleitorais de 2004. E uma parte para a eleição de 2004. Sei que foi uma

ilegalidade. Pagar dívida de outro partido com dinheiro não-contabilizado é proibido pela

lei eleitoral.

Apesar de se definir como “pessoa fiel”, incapaz de delatar as pessoas, enumera parceiros

com quem manteve negociações:

- No PMDB, rachado em relação ao apoio ao governo, o contato era feito com o deputado

José Borba. No PTB, o contato inicial foi com o ex-presidente José Carlos Martinez e,

depois da sua morte, com o deputado Roberto Jefferson. No PL, as conversas eram com o

presidente, Valdemar Costa Neto. No PP, com o deputado José Janene.

O tesoureiro lista os diretórios do PT que receberam recursos de caixa 2. Cita São Paulo,

Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal.

- Pedi para o Marcos Valério resolver com esses Estados.

Delúbio se atrapalha ao ser inquirido pelo deputado Júlio Redecker (PSDB-RS). O deputado

procura esclarecer a transferência de R$ 457 mil do valerioduto para Márcio Lacerda,

ex-secretário executivo do ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes (PSB-CE). O dinheiro

teria sido usado para quitar dívida com a agência New Trade, do publicitário Einhart

Jacome Paz. Depois de trabalhar para Ciro no primeiro turno de 2002, o publicitário prestou

serviços à campanha de Lula no segundo turno. O diálogo é tenso:

- O dinheiro foi enviado para Ciro Gomes?

- Sim.

- Pagou despesas de campanha de Ciro ou de Lula?

- De Ciro.

- Mas Ciro disse que foi serviço prestado pelo marqueteiro dele no segundo turno à

campanha de Lula.

- Não foi. O dinheiro pagou serviços prestados pelo Einhart à campanha de Ciro no

segundo turno.

- Mas Ciro não foi candidato no segundo turno. Ele apoiou a candidatura de Lula.

- O Einhart trabalhou com o Duda Mendonça. Eles filmaram o Ciro para o programa de

Lula no segundo turno, o dinheiro pagou despesas que o Ciro teve no segundo turno.

- Então o dinheiro de Valério, de caixa 2, pagou despesas de campanha de Lula no

segundo turno.

Delúbio silencia.

19/8/2005 Em depoimento na Delegacia Seccional da Polícia Civil de Ribeirão Preto (SP),

Rogério Buratti admite esquema irregular de financiamento da campanha de Lula em 2002,

com dinheiro de caixa 2 de casas de bingo de São Paulo e do Rio de Janeiro. A operação

rendeu R$ 2 milhões à campanha, o que lhe foi confidenciado por Ralf Barquete, secretário

da Fazenda do então prefeito de Ribeirão Preto, Antonio Palocci (PT). Para lembrar: o

prefeito Palocci virou coordenador de campanha de Lula em 2002, substituindo o prefeito

petista Celso Daniel, de Santo André (SP), assassinado. Ralf Barquete também morreu,

vítima de câncer.

Rogério Buratti relata que as casas de bingo tinham interesse na regularização do jogo

no Brasil. A Medida Provisória que regulamentava a atividade, elaborada a pedido do ministro

José Dirceu (PT-SP), foi abandonada depois de divulgada a gravação em que Waldomiro

Diniz aparecia pedindo propina ao empresário de jogo “Carlinhos Cachoeira”. De Buratti

aos seis promotores do Ministério Público que tomaram o depoimento:

- Em relação à exploração dos bingos no País, tenho conhecimento de que houve duas

contribuições em 2002 para a campanha do presidente Lula, que foram efetivadas por dois

grupos. Um do Rio, cujo nome desconheço, outro de São Paulo. O grupo de São Paulo

ofereceu R$ 1 milhão. Não sei o montante oferecido pelo grupo do Rio. Acredito que seja

em torno de R$ 1 milhão ou mais. A contribuição foi encaminhada diretamente ao comitê

financeiro da campanha, na sede nacional do PT. O comitê era coordenado por Delúbio

Soares, ele tinha conhecimento. O interesse dessas contribuições era a regulamentação do

jogo de bingo no Brasil, o que não aconteceu.

O economista César Queiroz Benjamim, fundador do PT. Em entrevista ao repórter Wilson

Tosta, do jornal O Estado de S. Paulo, ele afirma que tomou conhecimento de financiamentos

irregulares de bancos e empreiteiras ao PT, durante a campanha presidencial de 1994.

O dinheiro beneficiava o candidato Lula, derrotado por Fernando Henrique Cardoso (PSDBSP).

Na época, César Queiroz Benjamin fazia parte da coordenação da campanha do PT:

- Tentei discutir na direção nacional, não houve possibilidade, e resolvi levar ao encontro

nacional do PT de 1995, que era o primeiro na sequência da eleição. E aí ficou claro para

mim que já estava havendo no PT o início do esquema que agora vem à luz, inclusive com

os mesmos personagens. Eu tive a percepção de que isso continha um perigo extraordinário,

que era a entrada no PT, pesadamente, de esquemas de financiamento que teriam um impacto

grande na vida interna do partido. O Dirceu foi eleito para a presidência, esse grupo que

agora está nas manchetes assume cargos-chave, e fica claro que o PT tinha tido uma inflexão

para pior. A direção passava a gerenciar interesses.

Segundo César Queiroz Benjamin, o processo de corrupção no PT talvez tenha começado

antes, com esquemas de financiamento montados por Delúbio Soares. O tesoureiro petista

representara a CUT (Central Única dos Trabalhadores, ligada ao PT) no FAT (Fundo de

Amparo ao Trabalhador):

- Até essa época, a Articulação, que é o grupo do Lula e do Dirceu, ainda disputava a hegemonia

no PT, cabeça com cabeça. A minha interpretação é a de que esse grupo usou esquemas de

financiamento heterodoxos para fortalecer a Articulação. Porque o FAT faz convênios com sindicatos.

E assim fortaleceu as finanças da Articulação, que passa a manejar poder financeiro que

é uma arma nova na luta. Passa a ter capacidade de financiar candidaturas, trazer pessoas, estabelecer

pontes. Delúbio se tornou figura paradigmática. Foi tesoureiro da CUT, foi para o PT

como tesoureiro. E esse grupo começa a ser conhecido como “os operadores”.

Para César Benjamin, Lula “dissolveu por dentro os valores da esquerda”:

- O Lula garante que foi traído, que não sabia. Mas eu não acredito nisso. Foram práticas

sistemáticas durante mais de dez anos, do grupo que era mais próximo dele. Parece completamente

inverossímil que ele fosse o único a não saber. Eu, que já estava fora do PT, sabia.

Como o Lula poderia não saber?

- O grande legado do Lula é essa disseminação do antivalor. O valor da esperteza, o valor

de se dar bem, de não estudar, ter orgulho de não estudar… Eu diria que o Lula sempre foi um

grande guarda-chuva para os oportunistas no PT. Uma coisa é o partido ter um líder que é

honesto, honrado. Então, quem quer ser picareta fica meio acuado. Pode até querer ser picareta,

mas não é a regra. Outra coisa é você estar num ambiente em que veio de cima o exemplo.

Então, sob a liderança do Lula, eu diria que se formou a pior geração de militantes da esquerda

brasileira de toda a sua história: pragmática, oportunista, individualista, carreirista.

20/8/2005 A revista Veja obtém informações exclusivas do doleiro Antonio Oliveira

Claramunt, o “Toninho da Barcelona”. Ele responde a uma lista de 20 perguntas do repórter

Policarpo Junior. Relata o envolvimento do PT com o mundo das remessas de divisas

para o exterior, as trocas de dólares por reais e outras transgressões. Fala de uma conta

clandestina do PT operada pelo Trade Link Bank, uma offshore ligada ao Banco Rural,

nas Ilhas Cayman.

O esquema funcionava para o PT sacar dinheiro do exterior e usá-lo no Brasil. Segundo

Toninho da Barcelona, a operação era conduzida por Dario Messer, um doleiro do Rio. O Trade

Link remetia o dinheiro para a offshore de Dario Messer, no Panamá. Ao mesmo tempo, uma

quantia correspondente era liberada, em reais, no Banco Rural, em Belo Horizonte. Do repórter:

“O esquema é uma forte evidência de que os R$ 28 milhões que Valério diz ter obtido na

forma de dois empréstimos junto ao Banco Rural sejam simplesmente recursos internados

pelo PT a partir de sua conta clandestina no exterior.”

Conforme a reportagem, “os cofres do PT viviam abarrotados de dólares. Em 2002, no

auge da campanha presidencial, a casa de câmbio do doleiro Antonio Oliveira Claramunt, a

Barcelona, chegou a fazer trocas de moeda em ritmo quase diário”. A revista implica o

deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), há 30 anos amigo de Lula:

“As trocas de dólares por reais, que se materializavam no gabinete do então vereador e

hoje deputado Devanir Ribeiro, integram outro braço do esquema petista. Neste caso, o

partido mantinha volumes consideráveis de dólares em dinheiro vivo, escondido em cofres

ou malas ou cuecas, e acionava a casa de câmbio quando precisava convertê-los em reais.

Em geral, quem ligava para a casa de câmbio Barcelona era o assessor legislativo da Câmara

dos Vereadores, Marcos Lustosa Ribeiro – que vem a ser filho do deputado Devanir

Ribeiro. No telefonema, Marcão, como é conhecido, perguntava a cotação de venda e informava

quanto queria trocar. No início de 2002, as trocas eram esporádicas e ocorriam a cada

dez ou 15 dias. No meio do ano alcançaram ritmo alucinado. ‘Com a aproximação das

eleições tornaram-se quase diárias’, lembra o doleiro.”

O repórter entrevista Marcelo Viana, responsável pelas operações de balcão da Barcelona

na época. As trocas de dólares por reais chegaram à casa dos R$ 500 mil semanais.

Dependendo do volume, as somas eram entregues em sacolas ou envelopes, no gabinete do

vereador Devanir Ribeiro. Diz Viana:

- Mas também já levei dinheiro preso às meias e debaixo da roupa.

Marcos Lustosa, o filho de Devanir, não nega. Ressalva, para livrar o pai:

- Não era dinheiro de política, meu pai não tinha nada a ver com isso. Era dinheiro que eu

ganhava com serviços de informática que fazia na Câmara, e trocava por dólar. Coisa pequena,

para meu uso mesmo.

O pai, convenientemente, esconde-se atrás do filho:

- Se o Marcos trocou dinheiro com Toninho da Barcelona, o problema é dele. O Marcos

é maior de idade, casado, vacinado e cuida da vida dele.

Outro esquema relatado por Toninho da Barcelona funcionou em Santo André (SP),

durante a administração do prefeito Celso Daniel (PT). Movimentou dinheiro a ponto de a

cambista Nelma Cunha ter de acionar Toninho da Barcelona por não dispor das quantias

solicitadas. Sobre a corretora Bônus-Banval, de São Paulo:

“Um dos esquemas mais complexos – mas igualmente clássico – do PT funcionava

na corretora Bônus-Banval. Toninho da Barcelona conta que a corretora era usada pelo

partido para intermediar operações fraudulentas e, assim, tornou-se uma das principais

fontes de pagamento do mensalão. Sua especialidade eram as operações de ‘esquentaesfria’,

nas quais os prejuízos eram sempre dos fundos de pensão das estatais. ‘As ligações

entre o PT e a Bônus são estreitas. Os sócios são amigos íntimos de José Dirceu’,

acusa o doleiro.”

22/8/2005 Cai Marcos Antonio Carvalho Gomes, presidente do fundo de pensão Fundação

Real Grandeza, dos funcionários de Furnas Centrais Elétricas e da Eletronuclear. Filiado ao

PT, ele teria investido irregularmente R$ 151 milhões em certificados de depósitos bancários

do Banco Santos. Do total aplicado, R$ 131 milhões não foram mais recuperados.

23/8/2005 Em depoimento à CPI do Mensalão, o ex-deputado Valdemar Costa Neto (SP),

presidente do PL, dá explicações. Recebeu R$ 6,5 milhões em recursos do caixa 2 do PT,

entre janeiro de 2003 e setembro de 2004. Pagou despesas com material de campanha do

presidente Lula, no segundo turno das eleições de 2002. O jogo de Valdemar Costa Neto:

- A situação em São Paulo era difícil. Lula tinha vencido José Serra no primeiro turno por

apenas 100 mil votos. Tínhamos que entrar com força. Encomendei o material e o dinheiro

foi gasto para pagar os fornecedores.

Valdemar Costa Neto foi autorizado a fazer os gastos pelo tesoureiro Delúbio Soares,

“porque ele estava cheio de dívidas e não podia mais procurar os fornecedores”. Mas Valdemar

não tem como comprovar os dispêndios:

- Só tenho recibos de R$ 1,7 milhão. Os outros R$ 4,8 milhões foram entregues sem

comprovação. Estou tentando pegar alguns recibos no PT.

Ivan Guimarães, ex-presidente do Banco Popular, depõe na CPI dos Correios. Braço do

Banco do Brasil, o Banco Popular foi criado em 2003 para fomentar a concessão de

microcréditos. Em 2004, Ivan Guimarães alugou apartamento de Rogério Tolentino, sócio de

Marcos Valério. Imóvel vendido por Ângela Saragoça, ex-mulher de José Dirceu (PT-SP).

No primeiro ano de funcionamento, o Banco Popular gastou R$ 29,7 milhões com propaganda,

mais que os R$ 21,3 milhões liberados para a concessão de microcréditos. Diz

Ivan Guimarães:

- Os gastos de marketing são mais elevados no primeiro ano, porque é preciso construir

a imagem da instituição.

Em seu depoimento, ele atribui toda a responsabilidade pelas despesas e decisões sobre

gastos de propaganda à diretoria de Marketing do Banco do Brasil, chefiada por

Henrique Pizzolato.

- Remetíamos os recursos ao Banco do Brasil e eles efetuavam os dispêndios. Não tínhamos

contato com agências de publicidade.

O Banco Popular contratou, sem licitação, a Lumens Serviço de Informação. Por R$

35 mil por mês, a empresa de consultoria faria o “desenvolvimento de suporte à estrutura

e gestão de serviços”. A Lumens é de Bonerges Ramos Freire. Ele é casado com

Patrícia Valente, irmã de Mônica Valente, mulher de Delúbio Soares. O negócio foi

encerrado em abril de 2005.

24/8/2005 Depois de quase dois meses, o ex-líder do PT na Câmara dos Deputados, Paulo

Rocha (PA), admite publicamente que a assessora Anita Leocádia Pereira Costa sacou R$

620 mil do valerioduto. O dinheiro, explica o deputado, foi usado para pagar dívidas da

campanha eleitoral no Pará, apesar de nada ter sido informado ao Tribunal Regional Eleitoral.

Em relação aos outros R$ 300 mil atribuídos a Paulo Rocha na lista de Marcos Valério,

o parlamentar informa que foram entregues ao PSB paraense.

Paulo Rocha, presidente do diretório do PT no Pará, considera o ato da assessora

“irregular, mas não estranho”. Afinal, justifica o deputado, Ana Leocádia Pereira Costa

fez as retiradas “na condição de militante” do PT. Paulo Rocha não vê motivos para

ser cassado:

- Não cometi nenhum crime. Não matei, não roubei. Cumpri meu dever de presidente

regional do PT.

Em Passo Fundo (RS), o escritor Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, amigo

histórico de Lula, afirma que um pequeno grupo de dirigentes do PT “atola pé e alma na

corrupção”, e compromete todo um projeto. Frei Betto, nomeado para trabalhar no Palácio

do Planalto como assessor especial de Lula, pediu para deixar o cargo depois de um ano. Ele

concede entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo:

- Nem sob os anos da ditadura a direita conseguiu desmoralizar a esquerda como esse

núcleo petista fez em tão pouco tempo. Na ditadura, apesar de todo sofrimento, perseguições,

prisões e assassinatos, nós saímos de cabeça erguida e certos de que tínhamos contribuído

para a redemocratização do País. Agora, não. Esses dirigentes desmoralizaram o partido

e respingaram lama por toda a esquerda brasileira.

26/8/2005 O Ministério Público do Rio de Janeiro conclui inquérito que investigou gravação

clandestina de conversa entre o empresário de jogos Carlos Augusto de Almeida Ramos,

o “Carlinhos Cachoeira”, e o então presidente da Loterj, a estatal fluminense de loterias,

Waldomiro Diniz. A divulgação da fita, em fevereiro de 2004, provocou um escândalo.

Em consequência, Waldomiro Diniz pediu demissão do Ministério da Casa Civil, onde era

importante assessor de José Dirceu (PT-SP). Note-se: ele não foi demitido. Na gravação,

Waldomiro Diniz e Carlinhos Cachoeira aparecem negociando contratos e propina, durante

reunião realizada em 2002.

A Polícia Federal fez perícia na fita e não detectou montagem ou edição fraudulenta. O

diálogo trata da doação de dinheiro do empresário a campanhas eleitorais, em troca de

vantagens em contratos da Loterj. Waldomiro Diniz pede comissão de 1% sobre os negócios

aprovados. O Ministério Público requer que a Justiça obrigue o ressarcimento aos cofres

públicos, aplique multa e o puna com a perda dos direitos políticos. Note-se bem: Waldomiro

Diniz não foi demitido do governo Lula. Pediu para sair.

Extrato bancário do PT na CPI dos Correios. É do período de 15 de dezembro de 2003 a

31 de maio de 2004. Mostra 23 depósitos ao partido, num total de R$ 3,2 milhões. Os

depósitos têm valores redondos, e variam de R$ 20 mil a R$ 300 mil, como se fossem

mensalinhos, mensalões e supermensalões. Era a época de glória da relação PT/Marcos

Valério, com saques e pagamentos sem fim. Além dos valores redondos, chama a atenção

que apenas dois dos 23 depósitos têm identificação. Um dos depositantes, Carlos Alberto

Timóteo, é funcionário do PT. Mas não confirma a operação.

27/8/2005 A revista Época traz a reportagem “Lavanderia mensalão”. Denuncia operações

suspeitas de mais de R$ 100 milhões, com recursos dos fundos de pensão. De acordo com a

revista, o dinheiro dos fundos foi parar nas mãos de operadores do mensalão e, em parte,

acabou desviado e levado ao exterior, principalmente para paraísos fiscais do Caribe. O

texto é assinado pelos repórteres Ricardo Grinbaum, Leandro Loyola e David Friedlander:

“O esquema foi executado em 2003 e 2004 e envolve pelo menos cinco fundos de pensão

de empresas estatais. Os fundos, que são os investidores mais ricos do País, teriam

perdido dinheiro – fraudando os associados de propósito.”

A suspeita é de que dirigentes dos fundos, donos de cargos políticos, aplicavam os recursos,

de forma intencional, em investimentos sabidamente perdedores. O prejuízo ficava

com os trabalhadores que, supostamente, deveriam ter as suas poupanças administradas

com eficiência, para não lhes faltarem recursos na hora de receber as pensões, no futuro. A

maracutaia é justamente o rateio do dinheiro perdido, entre especuladores e políticos:

“A simulação da aposta no mercado financeiro servia para justificar a saída do dinheiro

dos fundos. No mercado financeiro esse tipo de golpe é muito popular, até pela dificuldade

em incriminar os responsáveis. Como as operações na BM&F (Bolsa de Mercadorias &

Futuros) são muito complicadas e todo dia há gente ganhando e perdendo milhões, quando

alguém é apanhado em delito financeiro costuma se defender dizendo que errou na hora de

aplicar e que isso faz parte do jogo.”

28/8/2005 O jornal O Globo, do Rio, traz reportagem mostrando o resultado de trabalhos de

auditoria realizados em contratos firmados pelos Correios no valor de R$ 7 bilhões, em

2003 e 2004. O assunto é grave. Foram constatados 525 tipos de irregularidades, a maior

parte considerada de “alto risco” para os cofres públicos. O repórter José Casado mergulhou

num mundo de licitações dirigidas, orçamentos irreais, pagamentos sem cobertura contratual,

reajustes indevidos e pregões eletrônicos distorcidos.

A força tarefa que examinou os contratos de 40 departamentos da estatal foi formada por

técnicos do TCU (Tribunal de Contas da União) e da CGU (Controladoria-Geral da União).

A maior distorção ocorreu no chamado “correio híbrido postal”, sistema de correspondência

eletrônica para grandes clientes. O projeto estava pronto em 2002, por R$ 861 milhões.

A licitação foi suspensa. Reapareceu em 2004, com orçamento de R$ 4,4 bilhões. “Variação

injustificada”. Exigência de “capacidade tecnológica de impressão de 100 milhões de páginas

por mês” direcionaria o certame à American Bank Note.

Os auditores descobriram gastos fraudulentos de R$ 1,2 bilhão para comprar equipamentos,

num projeto feito sem estudo de viabilidade, sem comprovação de gastos e sem

informações adequadas sobre custos. Os resultados foram máquinas ociosas e softwares

desperdiçados. O projeto foi definido como exemplo de “ineficiência e antieconomicidade”.

A inspeção detectou vários rombos, como gastos de R$ 100 milhões em produtos dispensáveis.

Houve despesas irregulares da ordem de R$ 175 milhões, no projeto “rede

corporativa”. Outros R$ 90 milhões, aplicados em “estudos de viabilidade”, foram considerados

“ineficientes e desatualizados”.

29/8/2005 A semana começa quente no Congresso Nacional. Pronto o parecer que recomenda

a cassação do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), autor das denúncias do escândalo

do mensalão. Para o relator, deputado Jairo Carneiro (PFL-BA), Jefferson comportou-se de

forma incompatível com a ética e o decoro parlamentar. Jairo Carneiro acusa-o por receber

dinheiro de caixa 2 na campanha de 2004 e por tráfico de influência em empresas estatais.

O presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), não aceita a tese de

que houve pagamentos de mensalões. Fazendo coro ao discurso governista, fala em dinheiro

repassado com a finalidade de quitar dívidas eleitorais, algo “menos grave”. Severino Cavalcanti

sugere apenas censura ou repreensão para os envolvidos, não a perda de mandatos.

O senador Delcídio Amaral (PT-MS), presidente da CPI dos Correios, admite ter

havido distribuição de “recursos” a deputados, mas não aconteceu, necessariamente,

em cotas mensais:

- Dependeu de migração partidária, das grandes votações.

O deputado Júlio Delgado (PSB-MG) não usa meias palavras:

- Qual a diferença entre um deputado que recebeu recursos mensalmente e outro que

recebeu para pagar despesa de campanha? Nenhuma. Ambos ficam comprometidos com

o governo.

Fernando Gabeira (PV-RJ) critica a tese de que não-registro de dinheiro de campanha é

crime menor:

- Não é só caixa 2. E tampouco importa se houve mensalão ou semestrão. Houve suborno.

De Ricardo Izar (PTB-SP), presidente da Comissão de Ética da Câmara:

- Existem provas cabais, e não meros indícios, de que houve pagamentos e retiradas

irregulares de dinheiro, por parte de alguns parlamentares, oriundos das empresas do senhor

Marcos Valério, via Banco Rural e outros meios. Algumas retiradas foram, inclusive, cíclicas,

o que é um indício de um esquema de pagamento mensal e sistemático de deputados.

O deputado André Costa (PT-RJ) anuncia o seu desligamento do PT. Em nota, acusa a

decadência moral e ética:

- O aparelhamento do partido, sob o rígido controle de uma oligarquia, tem produzido

uma inaceitável corrupção de valores e práticas.

Também se desliga do PT o senador Cristovam Buarque (DF).

30/8/2005 Em depoimento à CPI do Mensalão, o operador de mercado José Carlos Batista,

dono da empresa Guaranhuns. Diz ter sido contratado por Valério em novembro de 2002.

Deveria intermediar entregas de dinheiro à coligação PT-PL. Ao PL, repassou R$ 4,5 milhões.

Já foram identificados 63 depósitos da SMPB à Guaranhuns, no valor de R$ 6 milhões.

Relata Batista:

- A partir de 2002, quase toda a semana eu levava em espécie dinheiro para os representantes

da coligação com o PL.

O empresário conta mais uma história. Foi chamado por Valério para intermediar a aquisição

de R$ 10 milhões em certificados de reflorestamento. A compra de títulos iria lavar dinheiro

para pagar dívidas do PT e do PL. A Guaranhuns e a Bônus-Banval trabalharam juntas.

Teriam sido criadas para atuar no financiamento de partidos políticos. No meio do depoimento,

Batista resolve recuar. Desdiz o que afirmara, porque entende que iria se complicar.

- Se algum erro cometi, foi o de acreditar na hipnose coletiva que colocava o PT como

partido da honestidade, da ética e da transparência.

Para o deputado José Rocha (PFL-BA), José Carlos Batista é um “laranja”:

- Tudo indica que a Guaranhuns é uma empresa de fachada, usada para dificultar o

rastreamento do dinheiro que saía das empresas do senhor Valério.

Em desabafo ao repórter Expedito Filho, de O Estado de S. Paulo, Valério:

- Minha vida virou um molambo. Eu virei um molambo. Fui usado e abandonado pelo

PT, um partido de pessoas sem coração. Somente eu e Delúbio somos responsabilizados por

tudo. Cadê José Dirceu? José Genoino? Silvinho Pereira? Antonio Palocci? Todos sumiram

e só se fala em Marcos Valério como o responsável por tudo. Estão preparando uma pizza.

Marcos Valério se diz amigo de Delúbio Soares. Para ele, o ex-tesoureiro “não fez nada

sem a ordem e orientação do ex-ministro José Dirceu”:

- Delúbio não conta tudo o que sabe porque é um idiota. Ele tem uma fidelidade canina

e é o único por quem eu tenho amizade. Mas eu tenho raiva do PT e gostar do Delúbio e

odiar o PT pode parecer um paradoxo. Mas o Delúbio foi afastado, expulso e, como eu,

abandonado.

31/8/2005 Entrevista de Soraya Garcia, assessora financeira do PT na campanha de reeleição

do prefeito de Londrina (PR), Nedson Micheletti (PT), em 2004. Ela fala ao repórter

José Maschio, da Folha de S.Paulo. Acusa o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu (PTSP),

de carregar dinheiro vivo para Londrina, onde circulou num automóvel blindado da

marca BMW:

156

- O ministro José Dirceu veio a Londrina em 18 de setembro. Era um sábado e durante a

semana todo o mundo no comitê financeiro reclamava de dificuldades para pagar contas de

campanha. Na segunda-feira o comitê tinha R$ 300 mil em caixa. Todo esse dinheiro era em

notas de R$ 100 e com lacre do Banco do Brasil. O Dirceu veio em um jatinho particular,

chegou às 15h30 e foi embora antes das 17 horas.

Soraya Garcia menciona o coordenador da campanha de Nedson Micheletti, Augusto

Dias Júnior. Ele confirmou, na época, que José Dirceu trouxera o dinheiro. Filiada ao PT,

Soraya Garcia decidiu denunciar o que viu em razão do desencanto com a forma como o PT

fez política em Londrina.

Mais dois envolvidos por Soraya Garcia: Gilberto Carvalho (PT-SP), chefe de gabinete

de Lula, e a irmã dele, Márcia Lopes, vereadora licenciada do PT em Londrina e secretáriaexecutiva

do Ministério do Desenvolvimento Social:

- Eu nunca vi o Gilberto Carvalho trazer dinheiro pessoalmente a Londrina. Mas todas as

vezes que existiam dificuldades de caixa, o Augusto Dias Júnior e o Jacks falavam que era

preciso ligar para ele. E o dinheiro surgia.

Jacks Aparecido Dias é presidente do PT de Londrina. Sobre Márcia Lopes:

- Tinha também a Márcia Lopes, que era acionada para despesas em eventos. O Jacks e

o Augusto me avisavam que eventos no Buffet Carvalho eram problema da Márcia Lopes.

Aconteceram vários eventos desse gênero.

Soraya Garcia cita mais dois: o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo (PT-PR), e o

presidente do PT do Paraná, deputado André Vargas. Ambos participaram de reunião para

decidir a contratação de cabos eleitorais:

- O Jacks disse que tinha reunido 2 mil pessoas que seriam contratadas por R$ 100 ao

dia. O André Vargas perguntou ao Paulo Bernardo se o número de cabos eleitorais estava

bom e se havia como pagá-los. O Bernardo falou que estava bom e que existia lastro para

isso. Lastro era dinheiro. Além dos três, estavam na reunião o Augusto Dias Júnior, coordenador

da campanha, e os candidatos a vereador Gláudio Renato Lima e Eloir Valença. Eu

assisti à reunião, estava separando dinheiro para pagar despesas de campanha.

Depoimento à CPI dos Correios. É de Enivaldo Quadrado, dono da corretora Bônus-

Banval. Ele conta que atendeu pedidos de Marcos Valério. Mandou um funcionário fazer

três retiradas de dinheiro na agência do Banco Rural da avenida Paulista, em São Paulo,

num total de R$ 605 mil. Dá como exemplo um dos saques, ocorrido em março de 2004, no

valor de R$ 255 mil:

- Não havia saque de cheque. Era só chegar na agência do Rural, procurar o senhor Guanabara

na tesouraria, e já estava tudo separadinho. O dinheiro foi entregue integralmente ao Valério.

Segundo Enivaldo Quadrado, Valério pediu indicações de investimentos para fundos de pensão.

Na CPI, suspeita-se que os fundos abasteceram indiretamente o caixa 2 do PT. Faziam

aplicações em instituições como o Banco Rural e o BMG, e em troca os bancos autorizavam

empréstimos para as empresas de Marcos Valério, cientes de que o dinheiro não seria devolvido.

O Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda)

entrega relatório à CPI dos Correios. O documento classifica de “operações atípicas”, com

“movimentações incompatíveis” e “sistemáticas contabilizações de prejuízos”, as operações

do fundo Geap, ligado a vários Ministérios, e o Portus, fundo de pensão vinculado a

companhias portuárias.

O Geap tem faturamento bruto anual de R$ 1,1 bilhão. Movimentou R$ 55 milhões entre

janeiro de 2003 e março de 2005. Teve perdas de R$ 1,3 milhão nas transações. Além disso,

efetuou dois saques suspeitos, em dinheiro, nos valores de R$ 201 mil e de R$ 144 mil. O

Portus tem faturamento bruto anual de R$ 1 bilhão. Girou R$ 26,5 milhões e acumulou

prejuízo de R$ 747 mil.

1/9/2005 Em sessão conjunta, as CPIs dos Correios e do Mensalão aprovam, por unanimidade,

relatório denunciando 18 deputados federais por “um amplo conjunto de

crimes políticos”. O documento solicita a abertura de processos de cassação de mandatos

contra os citados. Os parlamentares fazem parte da lista de beneficiários dos

saques das contas de Marcos Valério. Entre os crimes, improbidade administrativa,

corrupção ativa e passiva, prevaricação, infração à legislação eleitoral e sonegação

fiscal. O relatório vai para o Conselho de Ética da Câmara. Do relator da CPI, deputado

Osmar Serraglio (PMDB-PR):

- Não será fácil alguém se contrapor a algo tão evidente, aos fatos documentados. O que

fizemos foi reunir provas.

Da senadora Heloísa Helena (PSOL-AL):

- Deve ficar claro que esses 18 são insignificantes perto do número de parlamentares que

receberam dinheiro para ser base de bajulação do governo.

Do relatório:

“Em 2003, com a posse do novo governo, vivia-se um sonho de um Brasil diferente, com

inclusão social, participação popular, boa escola e salário digno. Hoje, ao contrário, percebe-

se um sentimento generalizado, misto de decepção e indignação por conta da corrupção

política praticada pelos dirigentes de alguns partidos políticos e pelas suspeitas que pairam

sobre membros do Congresso.”

O documento refere-se ao deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ):

“Ninguém melhor do que quem, diuturnamente, compartilhava o exercício do poder,

para destrinçar-lhe as entranhas. O parlamentar comandava, através de indicados, cargos

nos Correios, IRB, Dnit, Eletronorte, etc.”

“A ninguém convence a versão de que Valério tenha garantido os empréstimos do

Banco Rural e do BMG ao PT apenas em nome da amizade com Delúbio Soares. Mais

difícil ainda de acreditar é a alegação de que essa amizade justifica os empréstimos para

financiar partidos.”

Outro trecho do relatório:

“Cabe constatar a migração exagerada em direção a determinados partidos e os métodos

de cooptação utilizados. Para explicar esse nebuloso esquema, é perfeitamente plausível a

tese de que os empréstimos foram simulados para dar aparência lícita a dinheiro de origem

ilícita, que seria destinado ao bolso de políticos sob o falso argumento de dívidas passadas.

O que resta inconteste é o recebimento de dinheiro por parlamentares e dirigentes de partidos

da base do governo na Câmara.”

Agora, aborda o mensalão:

“O que menos interessa, a esse respeito, é a periodicidade dos pagamentos. O fato importante,

do qual não podemos nos afastar, é o recebimento de vantagens indevidas.”

Sobre estatais, acusa a “utilização de diretorias como forma de empresas contratadas

pela administração pública contribuírem para partido, como se isso não fosse adicionado ao

custo dos serviços, onerando a população”.

O relatório traz críticas à prática do caixa 2:

“Quem admite o caixa 2 confessa ilícito eleitoral, o que, só por si, é merecedor de severa

reprimenda, porque aceita a burla à eleição. Nada mais compromete a democracia que uma

eleição viciada. Daí a necessidade de punição.”

“Não há legitimidade em mandato financiado com caixa 2. A utilização de meios ilícitos

para ganhar eleições, não como instrumento do interesse público, mas particular ou partidário,

são condutas que atentam contra o princípio do estado democrático.”

Os 18 deputados denunciados: José Dirceu (PT-SP), João Paulo Cunha (PT-SP), José

Mentor (PT-SP), Professor Luizinho (PT-SP), Paulo Rocha (PT-PA), João Magno (PT-MG),

Josias Gomes (PT-BA), José Janene (PP-PR), Pedro Corrêa (PP-PE), Pedro Henry (PPMT),

Vadão Gomes (PP-SP), Wanderval Santos (PL-SP), Carlos Rodrigues (PL-RJ), Sandro

Mabel (PL-GO), José Borba (PMDB-PR), Roberto Brant (PFL-MG), Romeu Queiroz (PTBMG)

e Roberto Jefferson (PTB-RJ).

O Conselho de Ética da Câmara aprova, por unanimidade, pedido de cassação de Roberto

Jefferson. Ele é acusado de confessar o recebimento de R$ 4 milhões do PT por meio do

valerioduto, e de fazer indicações partidárias para obter benefícios financeiros ao PTB. O

processo segue para votação final e secreta no plenário da Câmara. Diz o deputado Gustavo

Fruet (PSDB-PR):

- Jefferson confessou ter quebrado o decoro parlamentar ao participar, como beneficiário,

do mais vergonhoso esquema de submissão do Legislativo ao Executivo.

Do deputado Chico Alencar (PSOL-RJ):

- Ele não é um paladino da ética, mas um sócio dissidente de um esquema.

Do deputado Josias Quintal (PMDB-RJ):

- Jefferson prestou um serviço ao País e ao parlamento. Ele permitiu desvendar o esquema

de corrupção.

Os principais jornais do País publicam fotografias de Lula ao lado do presidente da Câmara

dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE). As imagens mostram solenidade em Brasília.

Lula preside a cerimônia. Condecora Severino com a Ordem de Rio Branco, no grau de Grã-

Cruz, a mais alta condecoração do Itamaraty. Os dois estão juntos, mais que nunca.

Criticado por defender punição branda aos envolvidos no escândalo do mensalão, Severino

passa o dia ao lado de Lula. Além do evento no Itamaraty, se faz presente em solenidade no

Palácio do Planalto e, depois, reúne-se com Lula, no gabinete presidencial. Para atrair

Severino como aliado, Lula demitiu Olívio Dutra (PT-RS) e nomeou Márcio Fortes (PP-RJ)

ministro das Cidades.

2/9/2005 Com a reportagem de capa “O mensalinho de Severino”, a revista Veja denuncia

esquema pelo qual o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE),

cobrou propina de R$ 10 mil mensais, de março a novembro de 2003, do empresário

Sebastião Augusto Buani, concessionário do restaurante Fiorella, instalado no 10º andar

do prédio da Câmara.

O repórter Alexandre Oltramari teve acesso ao texto no qual o empresário relata a extorsão.

Sebastião Buani afirma que entregava envelopes com o dinheiro exigido pelo deputado

às duas secretárias de Severino Cavalcanti, Gabriela Kênia Martins e Rucely Paula Camacho.

Algumas vezes, a propina ia diretamente às mãos de Severino. Um cheque foi descontado

pelo motorista do deputado, numa agência do Bradesco. A gerente Jane de Albuquerque

confirmou a operação. Em agosto, Sebastião Buani, em dificuldade, despachou envelope

com apenas R$ 6 mil. O resultado:

- Levei uma bronca do deputado por telefone.

A partir de dezembro de 2003, o empresário não conseguiu mais pagar a propina. Em dois

meses, perdeu seis das oito concessões de restaurantes e lanchonetes que tinha no Congresso.

O repórter procurou o presidente da Câmara. Reação de Severino Cavalcanti, dando tapas na

mesa, ao lado de um advogado, três assessores de imprensa e dois funcionários:

- Isso é uma mentira. Ele é um canalha, safado! Esse homem não merece as calças

que veste.

Da reportagem:

“A defesa de Severino tem muito adjetivo, e pouca substância. O contrato de concessão

de Buani para explorar o restaurante encerrou-se em janeiro de 2003, depois da quarta e

necessariamente última prorrogação. Buani, no entanto, não foi convidado a se retirar. O

deputado Severino mandou que fosse feita uma licitação para escolher o novo concessionário,

mas a licitação não se realizou, e ficou tudo por isso mesmo. De tal modo que Buani

operou seu restaurante ao longo de todo o ano de 2003 sem nenhum amparo legal.”

O esquema teria começado no início de 2002. Sebastião Buani queria prorrogar a licença

de funcionamento do restaurante. Procurou Severino, na época o primeiro-secretário da

Câmara, responsável pela administração da Casa. O empresário foi obrigado a desembolsar

R$ 40 mil, dinheiro que foi dividido, segundo Buani, entre Severino e o deputado Gonzaga

Patriota (PSB-PE). O empresário obteve a prorrogação. A reportagem afirma:

“É o documento mais escandaloso e comprometedor de toda essa história. Ali, num

clandestino ato de ofício, Severino prorroga a licença de Buani até 2005. Severino não tinha

poderes para isso e, ao fazê-lo, produziu uma prova cabal das relações promíscuas que

manteve com Buani.”

Explicação de Severino:

- Eu sou um homem experimentado. Tenho mais de 40 anos de vida pública, mas não

tenho a menor lembrança de ter assinado esse documento dando a prorrogação. O que pode

ter acontecido é ter juntado esse negócio, ou alguém ter botado no meio dos documentos e

eu ter assinado sem ler.

A revista Veja também relata o episódio da nomeação do deputado Augusto Nardes (PPRS)

como ministro do TCU (Tribunal de Contas da União). Aliado de Severino Cavalcanti,

Augusto Nardes era suspeito de crime eleitoral, peculato e concussão. Quando soube da

ficha do protegido do presidente da Câmara, Adylson Motta, presidente do TCU, pediu a

Lula para não sancionar a nomeação, devido à “inobservância do requisito constitucional da

reputação ilibada e idoneidade moral”.

Lula assinou.

3/9/2005 A Folha de S.Paulo publica detalhes de reunião do Campo Majoritário do PT

realizada na véspera, em São Paulo. A repórter Catia Seabra obtém informações de

bastidor. O destaque foi o discurso do deputado João Paulo Cunha (PT-SP). Ele é um

dos acusados de envolvimento no escândalo do mensalão. Fez desabafo “repleto de

ameaças veladas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, afirma o texto. Reclamou de

ingratidão e hipocrisia:

- Quem tomou a decisão de fazer alianças? Foi o Zé Dirceu? Quem exigiu o contrato

com Duda Mendonça?

Fica implícito que, para João Paulo Cunha, Lula é o responsável. Lula é o chefe. A

aliança PT-PL, aponta o deputado, foi “quase uma exigência do Lula”. O mensaleiro insistiu,

sempre se referindo ao presidente da República:

- Éramos nós que dizíamos ser amigos do Duda Mendonça? Que frequentávamos a casa

de praia do Duda Mendonça?

João Paulo Cunha também condenou a cassação de mandatos:

- Ninguém agiu por interesse pessoal. Se houve erro, não adianta crucificar o Zé Dirceu.

5/9/2005 Lula sai em defesa do deputado Severino Cavalcanti (PP-PE). Pede ajuda ao

presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Quer evitar que Severino seja obrigado

a deixar a presidência da Câmara. Afinal, o deputado pernambucano se revelou um

fiel aliado do governo na crise política. O ministro Jaques Wagner (PT-BA), das Relações

Institucionais, recebe orientação de Lula para atuar ao lado de Severino Cavalcanti, contra

o afastamento pretendido pela oposição. Ao longo do dia, Jaques Wagner conversa

com dirigentes petistas e integrantes da base aliada do governo. Pede a todos para que não

critiquem Severino Cavalcanti.

Enquanto Jaques Wagner pressiona, circulam em Brasília cópias de um texto escrito por

Sebastião Buani, o dono do restaurante Fiorella. Traz o título sugestivo “A história de um

mensalinho”. Em duas páginas, a denúncia de que Severino Cavalcanti recebeu 13 pacotes

de dinheiro em 2003, num total de R$ 84 mil. O presidente da Câmara chegou a ligar até

seis vezes num mesmo dia, para cobrar o pagamento da propina de R$ 10 mil mensais que

estava atrasado. O dinheiro era uma exigência dele em troca de um contrato forjado de

concessão, instrumento que permitiu o funcionamento do Fiorella, outros dois restaurantes

e seis lanchonetes nas dependências do Congresso.

6/9/2005 A CPI dos Correios conclui análise de documentos provenientes da quebra dos

sigilos telefônicos de duas estrelas do escândalo do mensalão. Delúbio Soares, ex-tesoureiro

do PT, fez 121 telefonemas para o Palácio do Planalto, sede do Governo Federal, em

2003 e 2004. Do total, 59 foram para o Ministério da Casa Civil, sob comando de José

Dirceu, inclusive para Waldomiro Diniz, no período que antecedeu o seu afastamento.

As empresas de Marcos Valério, por sua vez, fizeram 129 ligações para a Presidência da

República, no período em que a DNA e a SMPB disputavam licitações pertinentes a contratos

publicitários com o Banco do Brasil, no valor de R$ 111 milhões, e com os Correios, no

total de R$ 23 milhões. Foi entre agosto e dezembro de 2003. Do total de 268 chamadas das

empresas de Marcos Valério sob suspeita, a grande maioria foi para a Secom, a Secretaria de

Comunicação da Presidência da República, sob comando do ministro Luiz Gushiken (PTSP).

O mesmo Luiz Gushiken que sempre negou qualquer interferência em contratos de

publicidade de empresas estatais.

Em depoimento à Polícia Federal, Marcos Valério reafirma ter repassado R$ 15,5 milhões

para Duda Mendonça, o marqueteiro de Lula, atendendo a pedido de Delúbio Soares.

Mas nega ter depositado o dinheiro no exterior e refuta a acusação de que orientou Duda

Mendonça a abrir conta fora do País, como condição para receber o pagamento por serviços

prestados ao PT.

Segundo Marcos Valério, o dinheiro fazia parte do caixa 2 do PT e as parcelas eram

sacadas por Zilmar Fernandes da Silveira. A sócia de Duda fazia as retiradas em agência do

Banco Rural, em São Paulo. Ela teria sido assaltada e, a partir daí, solicitou que os cheques

fossem entregues ao doleiro Jader Kalid, em Belo Horizonte. Diz Marcos Valério:

- Zilmar falou que Jader seria seu consultor financeiro e ficaria encarregado de descontar

os cheques emitidos para pagar Duda.

Explicação de Marcos Valério:

- A Zilmar afirmou que não poderia contabilizar os recebimentos, motivo pelo qual solicitou

que os cheques fossem nominais à SMPB.

No depoimento, Valério cita o deputado José Janene (PP-PR), integrante da base aliada do

governo Lula e suspeito de ser um dos operadores do mensalão. Segundo Valério, Janene foi

o responsável pela indicação da corretora Bônus-Banval para intermediar pagamentos de dinheiro.

Por meio da corretora, R$ 10 milhões foram repassados para PP, PL e PT, da seguinte

forma: R$ 900 mil para o PL, R$ 1,2 milhão para o PP e R$ 7,9 milhões para o PT.

Em outro depoimento à Polícia Federal, o deputado José Mentor (PT-SP) tenta justificar

o recebimento de R$ 120 mil de Marcos Valério. Alega que o dinheiro foi pagamento por

“estudos jurídicos” feitos por seu escritório de advocacia, a pedido de empresas de Valério.

José Mentor não apresenta documentos. Diz que o contrato foi verbal e que os tais estudos

jurídicos não podem ser revelados, “por questões de sigilo profissional”. A suspeita: José

Mentor recebeu propina para favorecer o Banco Rural, ligado a Marcos Valério, durante a

CPI do Banestado.

Também depõe à Polícia Federal Izeílton Carvalho de Souza, ex-gerente do restaurante

Fiorella. Ele confirma: o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PPPE),

recebeu propina de R$ 10 mil mensais em 2003, para que as portas do restaurante

ficassem abertas. O dinheiro era entregue em envelopes ou em cheques. O pagamento ficou

a cargo da diretora do restaurante, Gisele Buani, filha do dono, Sebastião Buani.

7/9/2005 Em Nova York, em viagem oficial para representar o Brasil em evento da União

Interparlamentar, o deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) está transtornado. Nas entrevistas

concedidas, dá versões divergentes para tentar explicar o caso do mensalinho. Na primeira

manifestação, pela manhã, nega a existência da propina. Mas faz uma ressalva:

- Eu não assinei esse contrato. E, se assinei, é um contrato normal, que deve estar junto

com toda a documentação.

Minutos depois, se diz reticente:

- Tenho de ver o original. O ônus da prova cabe a quem denuncia.

No período da tarde, Severino volta a ser questionado. E volta a dizer que o contrato

não existiu.

- Aquele documento não existe. Mas, se existe, é uma falsidade. Documento como aquele

eu não assinei. Só pode ser um documento falso.

8/9/2005 O empresário Sebastião Buani concede entrevista coletiva. Ao lado de 50 funcionários

e da mulher, Diana, revela os detalhes do escândalo do mensalinho de Severino

Cavalcanti. Informa que entregou R$ 110 mil de propina ao deputado em 2002 e 2003, em

troca de autorização para operar restaurantes e lanchonetes no Congresso. Tudo começou

ao pedir ajuda ao deputado Gonzaga Patriota (PSB-PE) a fim de prorrogar contrato de funcionamento

do Fiorella. Na época, Severino era o primeiro-secretário da Câmara. A conversa

ocorreu nos corredores do Congresso:

- Comentei com ele: “Estou com um pedido lá na mesa do primeiro-secretário e o

senhor, que é amigo dele, poderia ver se pode dar uma decisão final, ou pode ou não pode,

ou é lei ou não é”. Pouco tempo depois, recebi um telefonema para comparecer ao gabinete

de apoio do primeiro-secretário. Na conversa, o primeiro-secretário me disse: “Você

sabe, eu sou um homem que não tenho empresas, e neste ano de eleição a gente precisa de

uma ajuda”.

Severino Cavalcanti pediu R$ 60 mil para renovar o contrato. Sebastião Buani recusou.

Severino propôs R$ 50 mil. Nova recusa e o valor acabou fixado em R$ 40 mil, metade para

Severino e metade para Gonzaga Patriota. O dinheiro foi pago, o empresário recebeu em

abril um termo assinado por Severino, prorrogando a concessão por cinco anos.

Em outubro de 2002, porém, surgiu um problema. Sebastião Buani recebeu correspondência

da direção da Câmara dos Deputados perguntando se ele tinha interesse em renovar

a concessão, em caráter de emergência, por mais um ano. O empresário se sentiu enganado

por Severino Cavalcanti. Concluiu que o documento assinado pelo deputado, colocado dentro

de um processo administrativo, não tinha validade. Diz Sebastião Buani:

- Esse documento foi colocado dentro do processo e foi me dada uma cópia do processo

com essa via dentro. Não existe isso de “não vi o documento”, “não existe documento”.

Mas quando a gente abriu o processo, no lugar daquele papel prorrogando o contrato, havia

outro do próprio Severino, dizendo que indeferia o processo por isso e aquilo. Pensei, então,

“não estou acreditando”, “fui enganado de uma forma… como eu caí numa dessa?” Dinheiro

ganho suado, com dificuldade, por documento que não valia nada?

Inconformado, o empresário procurou Severino Cavalcanti para reclamar. Recebeu garantias

de que não haveria problemas:

- Fui direto ao Severino e ele me disse: “Não se preocupe, enquanto eu estiver na Mesa

Diretora você estará na Casa”.

Sebastião Buani achou que estava tudo resolvido. Em janeiro de 2003, no entanto, Severino

Cavalcanti o procurou novamente para dizer que seria assinado um contrato emergencial,

com a prorrogação do contrato por um ano. De fato, a prorrogação de cinco anos, assinada

anteriormente pelo deputado, não valia nada. Severino Cavalcanti disse:

- Quero que você ganhe muito dinheiro, porque você merece.

Foi aí que surgiu o acerto do mensalinho. Sebastião Buani já havia recebido autorização

para aumentar em quase 40% o valor das refeições. Severino Cavalcanti pediu R$ 20

mil mensais para prorrogar o contrato. O empresário reclamou. A conversa teria demorado

quatro horas:

- Ele bateu o pé, mas depois de muita negociação ficou por R$ 10 mil.

O mensalinho foi pago de fevereiro a agosto de 2003.

- O dinheiro era entregue em envelopes pardos, nós saíamos pelos corredores com o

dinheiro nas mãos, eu e ele andando pelos corredores.

Sebastião Buani diz que resolveu interromper o pagamento da propina atendendo ao

pedido da filha, Gisele, diretora da empresa.

- Um dia minha filha me viu contando dinheiro numa quarta-feira para pagar a propina,

e disse: “Pai, sai dessa vida porque a gente não precisa disso. O senhor está deixando de

pagar funcionários que moram longe e ganham pouco para pagar propina”.

Suspenso o mensalinho, vieram os problemas. Sebastião Buani foi perdendo, uma a

uma, as concessões para operar restaurantes e lanchonetes na Câmara. Só restou o restaurante

Fiorella, agora com os dias contados.

Ainda em Nova York, Severino Cavalcanti reage à entrevista de Buani:

- É mentira, é mentira, é mentira.

Anunciada a demissão de Maurício Marinho, o funcionário dos Correios que foi pivô do

escândalo do mensalão. Mas o homem filmado ao receber propina de R$ 3 mil continuará

recebendo salário, de R$ 10 mil mensais, enquanto estiver em licença médica, cuja prorrogação

pode se estender por nove meses.

10/9/2005 A revista Isto É denuncia que parte do dinheiro pago pelo PT ao publicitário

Duda Mendonça veio de recursos públicos da Prefeitura de Belo Horizonte. Duda trabalhou

na campanha de reeleição do prefeito da capital mineira, Fernando Pimentel (PT), em 2004.

Segundo o repórter Amaury Ribeiro Jr., convênio de R$ 14 milhões foi assinado entre a

municipalidade e o CDL (Clube dos Diretores Lojistas de Belo Horizonte) para comprar e

instalar cerca de 300 câmeras de segurança e filmar as ruas centrais da cidade.

O convênio recebeu a chancela do prefeito Fernando Pimentel e do empresário Glauco

Diniz Duarte, diretor do CDL e dono da GD International, empresa que teria transferido o

equivalente a R$ 2 milhões dos recursos municipais a uma conta do banco BAC Flórida. De

lá, o montante teria sido encaminhado para a conta Dusseldorf, de Duda Mendonça, no

BankBoston das Bahamas. O Ministério Público investiga as suspeitas de fraude, contrabando,

superfaturamento e participação de empresas fantasmas.

11/9/2005 O ministro Jaques Wagner (PT-BA), das Relações Institucionais, reúne-se reservadamente

com Severino Cavalcanti (PP-PE). O encontro ocorre na residência oficial

do presidente da Câmara, antes de uma entrevista que seria concedida por Severino. Durante

o encontro, Jaques Wagner pede-lhe que tenha cautela nas declarações aos jornalistas.

Quer evitar desmentidos posteriores. O governo Lula continua dando respaldo a

Severino. Do ministro:

- O governo decidiu que não vai fazer prejulgamento e vai esperar a apuração da

denúncia.

Trecho da entrevista de Severino Cavalcanti:

- O governo tem certeza absoluta de que não estou dentro desse enlameado que tentaram

lançar em meu nome.

Reação do empresário Sebastião Buani, ao dizer que até pouco tempo atrás era bemvindo

no gabinete de Severino Cavalcanti:

- Ele não falou da ligação que tinha comigo, por que ia lá no restaurante, o tanto que me

ligava. Se quebrarem o sigilo telefônico, vão estranhar por que um primeiro-secretário liga

tanto para um concessionário.

A CPI dos Correios divulga levantamento parcial obtido com a quebra de sigilos telefônicos

de 2003 a 2005. Os dados apontam três deputados envolvidos no escândalo do mensalão,

trocando telefonemas com a SMPB, a agência de Marcos Valério usada para repassar dinheiro

de caixa 2.

São eles: Professor Luizinho (PT-SP), com 13 ligações telefônicas, inclusive no dia

23 de dezembro de 2003, data do saque de R$ 20 mil atribuído a ele, na agência da

avenida Paulista do Banco Rural, em São Paulo. Sandro Mabel (PL-GO) manteve nove

conversas telefônicas. Ele é acusado de ter oferecido dinheiro para a deputada Raquel

Teixeira (PSDB-GO) mudar de partido. E José Janene (PP-PR) teria usado telefone

celular para conversar com Valério.

12/9/2005 Renuncia o deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ). Ele abre mão do mandato para

evitar processo de cassação e eventual inelegibilidade. É acusado de ter recebido R$ 400

mil do valerioduto. Nega. Diz ter sacado R$ 250 mil, apenas para quitar dívidas referentes

ao segundo turno da campanha que elegeu Lula em 2002. Na época, Carlos Rodrigues era

presidente do PL no Rio. Ele faz referência ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa

Neto (SP), que também renunciara:

- Fui chamado pelo Valdemar para apoiar o presidente Lula. Apoiei, fiz dívida do partido,

e o Valdemar mandou eu receber o dinheiro em dezembro de 2003.

Depois de almoçar com Lula, o ministro Jaques Wagner (PT-BA) desmente boatos de

que o governo iria pedir ao PT e ao aliado PSB para não assinarem representação contra o

deputado Severino Cavalcanti (PP-PE):

- Não vou pedir. A decisão cabe a cada presidente de partido.

No período da tarde, o líder do PT, deputado Henrique Fontana (RS), que já anunciara a

decisão de assinar representação contra Severino, tem encontro com Jaques Wagner e o

líder do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP). Henrique Fontana volta

atrás. Diz o ministro Wagner:

- Prevaleceu o bom senso.

O deputado José Janene (PP-PR) não usa meias palavras:

- Severino tem o apoio integral, solidário e irrestrito da bancada do PP.

O empresário Sebastião Buani entrega à Polícia Federal extrato de sua conta bancária.

Mostra um saque de R$ 40 mil, efetuado em 4 de abril de 2002. O dinheiro teria

sido usado para pagar propina ao deputado Severino Cavalcanti. A retirada foi no mesmo

dia em que Severino assinou documento com autorização para o funcionamento do

restaurante Fiorella.

Em depoimento à Polícia Federal, três empregados do Fiorella confirmam que levaram

dinheiro para as secretárias de Severino, a pedido de Sebastião Buani. O maître José

Ribamar da Silva fez duas entregas. Ele cita a filha do empresário, Gisele Buani:

- Levei pacotes com dinheiro para a secretária. Não sabia quanto, porque estava lacrado,

mas Gisele pedia para ter cuidado porque continha dinheiro.

O garçom Hélio Antônio da Silva levou três “encomendas”:

- Não posso dizer que era para Severino, mas a recomendação foi que eu entregasse na

primeira-secretaria.

O garçom Rosenildo Francisco Soares fez o serviço uma vez:

- Sabia que era dinheiro, mas para que, eu não sabia.

13/9/2005 O publicitário Duda Mendonça anuncia o pagamento de R$ 4,3 milhões para

regularizar a situação dele junto à Receita Federal. A quantia seria o total de tributos sonegados

pela Dusseldorf, a empresa offshore aberta pelo marqueteiro de Lula no paraíso fiscal

das Bahamas. Com o envio da declaração retificadora do Imposto de Renda, o publicitário

pretende impedir eventual condenação por crime de sonegação fiscal.

14/9/2005 A Câmara dos Deputados cassa Roberto Jefferson (PTB-RJ). A interrupção do

mandato do deputado, autor da denuncia do mensalão, é endossada por 313 parlamentares.

Outros 156 votam contra. Há ainda 13 abstenções, cinco votos em branco e dois nulos. O

petebista fica inelegível até 2015. Em discurso de 42 minutos, Roberto Jefferson acusa Lula

de ser um presidente relapso. “Se ele não praticou o crime por ação, pelo menos por omissão”.

Roberto Jefferson afirma que tomou providências, assim que soube do esquema de

pagamento da propina a deputados:

- Fiz uma peregrinação. Ao José Dirceu, como ministro-chefe da Casa Civil, falei isso

umas dez vezes. Falei ao Ciro. Depois nós descobrimos que o Márcio, secretário-executivo

do Ministério, tinha recebido do Marcos Valério R$ 500 mil para saldar contas de campanha.

Mas falei ao Ciro, com lealdade. Ele disse: “Eu não acredito nisso”. Falei ao ministro

Miro Teixeira. Falei com o presidente.

Com a língua afiada, sua melhor característica, Roberto Jefferson ataca:

- Tirei a roupa do rei, mostrei ao Brasil quem são esses fariseus, mostrei ao Brasil o que

é o governo Lula.

- Rufiões da pátria, proxenetas do parlamento. Este é o governo mais corrupto que

testemunhei nos meus 23 anos de mandato, o mais escandaloso processo de aluguel de

parlamentar.

- Meu conceito do presidente é que ele é malandro, preguiçoso. O negócio dele é passear

de avião. Governar que é bom, ele não gosta.

Roberto Jefferson não perdoa o ex-ministro José Dirceu (PT-SP):

- O PT não tem projeto de governo. Eu quero dizer o PT, esse Campo Majoritário e essa

cúpula que assaltou o Brasil. Rato magro, hein? Quem nunca comeu mel quando come se

lambuza. Rato magro. PC Farias é aprendiz de feiticeiro ante essa gente que assaltou o

Brasil. Rato magro. Mas eu nunca bati no peito para dizer que eu sou o paladino da ética e

o campeão olímpico da moralidade. Todo fariseu e farsante emprega culpa ao adversário

como se fosse um biombo para esconder os seus defeitos.

- O presidente escolheu o ministro José Dirceu como uma espécie de Jeany Mary Corner,

o rufião do Planalto, para alugar prostitutas, algo que ele entendia poder fazer na Câmara

dos Deputados. Tratou esta Casa como se fôssemos um prostíbulo.

O empresário Sebastião Buani apresenta prova contra o presidente da Câmara, deputado

Severino Cavalcanti (PP-PE). Entrega à Polícia Federal cópia de um cheque de R$ 7.500, em

nome de Gabriela Kênia Martins, secretária de Severino. O dinheiro foi sacado em 30 de julho

de 2002 e é indício de extorsão, crime de concussão praticado pelo deputado. Diz Buani:

- Este cheque foi entregue ao deputado no restaurante. Ele ia quase diariamente almoçar

e ali dava o aperto. “Não esquece que hoje nós temos uns compromissos, não vai me deixar

na mão”. Ele sempre dava um toque. Não deixa de ser um arrocho.

Naquele mês, período de férias no Congresso, o empresário alegou dificuldades para

repassar o combinado a Severino, em razão do baixo movimento. Severino não quis saber.

Falou assim, segundo Sebastião Buani:

- Você tira da sua conta na Suíça.

Na Polícia Federal, a secretária Gabriela Kênia Martins confirma o saque de R$ 7.500.

E, como última tentativa de livrar Severino Cavalcanti, apresenta versão de que o dinheiro

foi doação de Sebastião Buani ao próprio filho do deputado, Severino Cavalcanti Ferreira

Júnior, morto depois em acidente de trânsito. Naquele ano, ele disputava uma vaga de deputado

na Assembléia Legislativa de Pernambuco. Sebastião Buani nega.

Na hoste do PT, o líder do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP),

comenta a situação:

- Severino não aceita a hipótese de não trabalhar para esclarecer a verdade.

A frase é enrolada mesmo. Leia assim: Severino rejeita a hipótese de esclarecer a verdade.

A verdade, do mesmo dia 30 de julho de 2002: a secretária Gabriela Kênia Martins

transferiu R$ 6.800 para a conta de Severino, após fazer a retirada dos R$ 7.500. Severino

Cavalcanti pegou dinheiro de Sebastião Buani.

O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Nelson Jobim, concede liminar e impede

o Conselho de Ética da Câmara de abrir processos contra seis deputados do PT, todos

acusados de envolvimento no escândalo do mensalão. Nelson Jobim argumenta que os parlamentares

não tiveram o direito a defesa prévia. Na prática, a decisão dá mais tempo para

os deputados renunciarem aos mandatos, a fim de preservarem os direitos políticos. Os

beneficiados: Paulo Rocha (PA), Josias Gomes (BA), João Magno (MG), João Paulo Cunha

(SP), Professor Luizinho (SP) e José Mentor (SP).

A boa notícia se espalha e, sem perder tempo, outros deputados mensaleiros também

entram com o mesmo mandado no STF. São eles: José Dirceu (PT-SP), José Janene (PPPR),

Pedro Corrêa (PP-PE), Pedro Henry (PP-MT), Vadão Gomes (PP-SP), José Borba

(PMDB-PR) e Wanderval Santos (PL-SP).

Com base na liminar do STF, a Mesa Diretora da Câmara decide dar mais tempo para a

defesa dos deputados acusados. Adia por cinco sessões a abertura dos processos de cassação.

No segundo mandato de Lula, Nelson Jobim (PMDB-RS) será nomeado ministro da Defesa.

Em depoimento à CPI do Mensalão, o presidente do PP, deputado Pedro Corrêa (PE),

afirma que o chefe de gabinete da liderança do partido, João Cláudio Genu, sacou apenas

R$ 700 mil das contas de Marcos Valério. Segundo Valério, João Cláudio Genu recebeu R$

4,1 milhões, entre setembro de 2003 e julho de 2004. Diz Pedro Corrêa:

- Nenhum outro saque feito por Genu nas agências do Banco Rural era do conhecimento

do partido, nem foi autorizado pelo partido. Se houve saque, o dinheiro foi para pessoas que

eu não conheço.

O dinheiro, pelo jeito, sumiu. Explicação de Corrêa para os R$ 700 mil:

- O Genu foi duas vezes ao Banco Rural sacar dinheiro para pagar os serviços do advogado

Paulo Goyaz, que defendeu o deputado Ronivon Santiago em 36 ações.

Ronivon Santiago (PP-AC) ficou famoso com a confissão de que vendera por R$ 200

mil o voto a favor da emenda da reeleição, o que permitiu ao então presidente Fernando

Henrique Cardoso (PSDB-SP) concorrer novamente ao Palácio do Planalto, em 1998.

Pedro Corrêa, por sua vez, informa que os tais R$ 700 mil do valerioduto não tiveram

registro na contabilidade do partido. Nem quitaram dívidas de campanha eleitoral, como

se vê. De Pedro Corrêa:

- Não foi contabilizado porque o PT não esclareceu quem era o doador.

15 /9/2005 Relatório do TCU (Tribunal de Contas da União) entregue à CPI dos Correios

aponta “irregularidades graves” em 15 de 54 contratos dos Correios. A auditoria encontrou

indícios de favorecimento à empresa Novadata, do empresário Mauro Dutra, o “Maurinho”,

amigo do presidente Lula, no valor de R$ 3,4 milhões. O consórcio Alpha, do qual a Novadata

também faz parte, teria sido beneficiado irregularmente com R$ 5,5 milhões.

Há indícios de superfaturamento de R$ 53 milhões no contrato com a Skymaster, responsável

pelo transporte de cargas para os Correios, e de irregularidades na compra de

1.500 cofres da empresa Conan, com pagamento indevido de R$ 4,8 milhões. A SMPB, de

Marcos Valério, foi apontada por cometer sete infrações no contrato com os Correios. Entre

elas, recebimento de comissões sem a prestação de serviços, superfaturamento na aquisição

de bens e prestação de serviços e subcontratações sem justificativas contratuais.

19/9/2005 Lula reúne-se a portas fechadas com o presidente da Câmara dos Deputados,

Severino Cavalcanti (PP-PE). A conversa leva uma hora. O Palácio do Planalto não permite

que a reunião seja fotografada. Severino entrou pela garagem, para evitar ser visto em público.

Do que transpira do encontro, Severino Cavalcanti recebeu garantias do presidente de

que o ministro das Cidades, Márcio Fortes (PP-RJ), será mantido no cargo. A indicação de

Severino continuará valendo durante o segundo mandato de Lula.

O presidente da Câmara vai renunciar. Da mesma forma que Márcio Fortes, José Maurício

Valadão Cavalcanti, filho de Severino, permanecerá no posto de superintendente federal

de Agricultura em Pernambuco. Continuarão empregados em cargos de confiança na Câmara,

ainda, os seguintes parentes de Severino: Olga Maria, nora; Catharina, filha; Marlene

Cavalcanti, irmã; e Rafaella, neta. Todas com vencimentos entre R$ 1.600 e R$ 7.500.

O TCU (Tribunal de Contas da União) divulga resultado de auditoria que apontou indícios

de lucros excessivos por parte da GDK, a empresa contratada pela Petrobras que ficou

famosa ao dar um jipe Land Rover de presente ao ex-secretário-geral do PT, Silvio Pereira.

Auditores do TCM encontraram indícios de superfaturamento de R$ 7,2 milhões, e

sobrepreços de outros R$ 48,9 milhões. O suspeito “lucro excessivo” também foi obtido por

despesas financeiras em duplicidade, direcionamento de licitação e falhas na elaboração de

orçamentos em dois contratos de R$ 160 milhões.

20/9/2005 Em depoimento conjunto às CPIs dos Correios, do Mensalão e dos Bingos, o

doleiro Antonio Oliveira Claramunt, o “Toninho da Barcelona”, acusa conluio entre a

corretora Bônus-Banval, Marcos Valério, PT e PP. Condenado a 25 anos por lavagem de

dinheiro, Toninho da Barcelona chega à sessão algemado e protegido por forte esquema de

segurança. Ele levanta dúvidas sobre os empréstimos que Marcos Valério e Delúbio Soares

dizem ter tomado nos bancos Rural e BMG. Diz o doleiro:

- Esse tipo de operação é comum nos casos em que as partes interessadas desejam esquentar

dinheiro de origem ilícita.

Para Toninho da Barcelona, os empréstimos seriam uma forma de “esquentar” o dinheiro

que Marcos Valério e o PT já dispunham no exterior. O montante teria ingressado no

Brasil pelo Trade Link Bank, um braço do Banco Rural que faz operações com empresas

offshore.

Toninho da Barcelona afirma que Dario Messer, “o principal doleiro do PT”, enviava a

moeda norte-americana do Panamá. A Barcelona Tour trocava os dólares por reais e entregava

os valores convertidos à Bônus-Banval, cujo dono, Enivaldo Quadrado, era “amigo

íntimo” do deputado José Dirceu.

A corretora transferia o dinheiro para pessoas indicadas pelo PT e pelo PP, principalmente

ao deputado José Janene (PP-PR). Toninho da Barcelona afirma ter trocado US$ 2 milhões,

a pedido de Dario Messer, entre 3 de setembro e 9 de outubro de 2002. Era o auge da

campanha que elegeu Lula. A bolada, convertida em reais, rendeu cerca de R$ 7 milhões.

Diz o doleiro:

- Esse dinheiro teve como destino a Bônus-Banval.

Toninho da Barcelona levanta suspeita contra o deputado José Mentor (PT-SP), relator

da CPI do Banestado, que não o chamou para ser ouvido pela comissão. Os doleiros Dario

Messer e Vivaldo Alves, o “Birigui”, tampouco prestaram depoimento. Para Toninho da

Barcelona, José Mentor procurou proteger o ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf (PPSP),

em troca do apoio dele a Marta Suplicy (PT-SP), que disputava o segundo turno da

reeleição à Prefeitura de São Paulo, em 2004:

- O Mentor sabia que eu podia citar o Birigui como operador do Maluf, e aí as coisas

poderiam se complicar.

O deputado Devanir Ribeiro (PT-SP) também é citado pelo doleiro. Toninho da Barcelona

afirma que trocou dólares para Marcos, filho de Devanir, então vereador em São Paulo.

As operações ocorreram entre julho e setembro de 2002. Na sessão, Devanir procura intimidar

o doleiro, ameaçando processá-lo.

Em resposta, Toninho da Barcelona enumera repasses feitos ao filho Marcos: US$ 30 mil

em 10 de julho, US$ 25 mil em 17 de julho, US$ 20 mil em 5 de agosto, US$ 8,5 mil em 9 de

agosto, US$ 10 mil em 10 de agosto e US$ 35 mil em 30 de setembro. Total: US$ 128,5 mil.

Parte do depoimento de Toninho da Barcelona é fechada ao público e restrita a apenas

cinco parlamentares. O doleiro relata o que ouviu do doleiro Najun Turner, com quem ele

estava preso na mesma cela. Os representantes do povo ouvem que o PT teria entregado R$ 8

milhões ao deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), em troca do seu apoio ao governo Lula.

Segundo o doleiro, a quantia foi paga nos meses de março e abril de 2005, após a eleição

de Severino Cavalcanti à presidência da Câmara dos Deputados. De fato, o deputado foi

eleito pela oposição, que pretendia derrotar Lula ao vencer o governista Luiz Eduardo

Greenhalgh (PT-SP), candidato do Palácio do Planalto a dirigir o Legislativo. Depois, porém,

Severino bandeou-se para o lado do presidente da República.

Toninho da Barcelona diz que foram dois depósitos para Severino: um de R$ 5 milhões,

providenciado pelo esquema de Marcos Valério, e outro de R$ 3 milhões, intermediado por

Dario Messer. O dinheiro teria sido repassado ao deputado José Janene (PP-PR).

O doleiro abordou o esquema de corrupção em Santo André (SP). Segundo Toninho da

Barcelona, o dinheiro proveniente da propina paga por empresas de ônibus era depositado

num banco nos Estados Unidos.

21/9/2005 Renuncia o presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE). Ao

abrir mão do mandato, evita a inelegibilidade até 2015, em caso de cassação. “Voltarei. O

povo me absolverá”, diz ele, adaptando o título do livro de Fidel Castro, A História me

Absolverá. Severino anuncia que disputaria as eleições de 2006. De fato, ele iria concorrer,

mas não se elegeria deputado. Em 2008, seria eleito prefeito de João Alfredo (PE). No

discurso de despedida da Câmara, Severino ataca os jornalistas:

- Sempre defendi a liberdade de imprensa. Mas, em nosso País, liberdade de imprensa

tem sido a porta aberta para suspeitas sem comprovação, para acusações sem provas, para a

destruição de reputações. Liberdade de imprensa, sim, mas o rigor da lei para os que enxovalham

sem qualquer limite a honra e a dignidade alheias.

Das galerias da Câmara, os estudantes gritam:

- Vai embora, Severino, seu corrupto!

Seguranças entram em ação para esvaziar o recinto. Os estudantes, em coro:

- É mensalinho, é mensalão, queremos verbas para a Educação!

E mais, em ritmo de chacota:

- Congresso do mensalão, não vai prender nenhum ladrão!

Em depoimento à CPI dos Bingos, Jorge Luiz Dias, funcionário da Assembléia Legislativa

do Rio de Janeiro, acusa o ex-deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ), que renunciou ao mandato

para evitar a cassação. É o caso do “mensalinho invertido”.

Segundo ele, Carlos Rodrigues, um ex-bispo e ex-coordenador político da Igreja Universal

do Reino de Deus, exigia de R$ 10 mil a R$ 15 mil mensais, de 22 deputados federais e 29

estaduais, em troca de apoio. Funcionários dos deputados também eram obrigados a contribuir.

Jorge Luiz Dias diz que Carlos Rodrigues faturava uma média de R$ 630 mil por mês.

Presente à sessão, Carlos Rodrigues nega as acusações, mas admite a força da Igreja

Universal nas eleições:

- Um político com apoio da igreja salta do carro e tem 2 mil, 5 mil pessoas que dizem

amém. O pastor diz: “Este é meu candidato, quero que vocês votem nele. Não quero só seu

voto, mas os de sua família, seu pai, sua mãe, seu irmão, empregado e de seu patrão”. Todos

levantam a mão.

De acordo com Jorge Luiz Dias, Waldomiro Diniz e Carlos Rodrigues montaram um

esquema de corrupção na Loterj, a estatal que administra as loterias no Governo do Rio. O

esquema funcionava em conjunto com agências de publicidade e casas de bingo.

Uma das agências, a JOB Niterói, teria recebido R$ 134 mil por mês, durante um ano,

para colar cartazes do jogo da raspadinha nas ruas. Parte do dinheiro, porém, voltava para o

esquema. Jorge Luiz Dias confessa ter entregado o dinheiro a Carlos Rodrigues:

- Eu pegava os cheques, sacava e entregava o dinheiro na mão dele.

Durante o período em que Waldomiro Diniz presidiu a Loterj, os gastos da estatal

fluminense com publicidade subiram de R$ 7,5 milhões para R$ 17,1 milhões, e chegaram

a comprometer 34% da arrecadação da estatal. Em troca da autorização para abrir 13 casas

de bingo, por sua vez, a dupla Waldomiro/Carlos Rodrigues teria recebido propina de R$ 1

milhão por mês.

A CPI dos Correios divulga relatório que aponta perdas de R$ 9 milhões em seis fundos

de pensão, em decorrência de operações de compra e venda de títulos públicos. Suspeita-se

que os prejuízos foram intencionais e têm relação com dinheiro do caixa 2 do PT.

As operações com saldos negativos estão concentradas em 12 corretoras. Entre elas, a

Bônus-Banval, envolvida no escândalo do mensalão. Operações com a Bônus-Banval deram

prejuízos de R$ 708 mil ao Geap, o fundo dos funcionários públicos federais.

O maior prejuízo detectado é da ordem de R$ 4,4 milhões e atingiu o Serpros, o fundo

dos funcionários da estatal de processamento de dados. O segundo maior é o do Geap, com

perdas atualizadas de R$ 2,2 milhões. E em terceiro lugar no ranking dos maus investimentos

aparece o Portus, dos funcionários portuários, com perdas estimadas agora em R$ 846 mil.

O TCU (Tribunal de Contas da União) divulga os resultados de auditoria realizada no contrato

da Câmara dos Deputados com a agência de publicidade SMPB. Responsabiliza o deputado

João Paulo Cunha (PT-SP), ex-presidente da Câmara, por prejuízos de R$ 252 mil aos cofres

públicos. O contrato investigado rendeu R$ 21,9 milhões à agência de Marcos Valério.

O relatório sugere que Cunha, diretores da Câmara e a SMPB devam ser obrigados a

devolver os R$ 252 mil, devidamente corrigidos, pagos à empresa IFT (Ideias, Fatos e

Texto), do jornalista Luís Costa Pinto. Subcontratada pela SMPB, a IFT não teria prestado

os serviços para os quais foi paga.

Outro problema constatado diz respeito a pesquisas de opinião feitas pela Vox Populi,

igualmente subcontratada pela SMPB, por R$ 757 mil. Foram incluídas perguntas de cunho

político. Usaram dinheiro público para obter uma avaliação sobre o envolvimento do exministro

José Dirceu (PT-SP) no caso Waldomiro Diniz, e fizeram perguntas sobre a popularidade

do então presidente da Câmara, João Paulo Cunha.

Entre as irregularidades listadas, o uso do contrato com a agência de Marcos Valério

para executar obras de construção civil nos estúdios da TV Câmara. A prorrogação do contrato

entre a Câmara dos Deputados e a SMPB também foi considerada indevida.

22/9/2005 Em depoimento ao juiz Paulo Alberto Sarno, da 2ª Vara Federal de São Paulo, o

doleiro Vivaldo Alves, o “Birigui”, acusa o ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf (PP), de

ter enviado ilegalmente US$ 161 milhões para os Estados Unidos. Birigui admite ter aberto

em 1998 a conta Chanani, no Safra National Bank, em Nova York, mas a sua movimentação

seria feita por Maluf.

De acordo com o doleiro, a conta foi aberta a pedido de Flávio Maluf, filho do exprefeito.

Pai e filho estão presos na carceragem da Polícia Federal em São Paulo há 12 dias.

Ambos são acusados de tentar impedir o depoimento de Birigui no processo que investiga

Maluf por corrupção passiva, lavagem de dinheiro, evasão fiscal e formação de quadrilha.

Além da conta Chanani, Birigui denuncia a abertura de outras duas contas bancárias no

exterior, a pedido de Flávio Maluf. Segundo o doleiro, de uma das contas foram transferidos

US$ 5 milhões para o publicitário Duda Mendonça, responsável pela campanha derrotada

de Paulo Maluf a governador de São Paulo, em 1998.

Conforme o Ministério Público, Paulo Maluf e parentes dele enviaram outros US$ 446

milhões para a Suíça. Os promotores responsáveis pela investigação das atividades do exprefeito

afirmam que a origem do dinheiro estaria no desvio de verbas públicas da Prefeitura

de São Paulo, de 1993 a 1996, durante a gestão do por ora prisioneiro federal.

Paulo Maluf, aliado do presidente Lula, ficaria preso por 41 dias.

24/9/2005 A revista Isto É publica entrevista com Soraya Garcia, assessora financeira do PT

de Londrina (PR) nas eleições de 2004. Ela trabalhou no comitê de reeleição do prefeito

Nedson Micheletti (PT). A reportagem de Luiz Cláudio Cunha trata do esquema de aluguéis

de automóveis para a campanha política. Soraya Garcia denuncia 17 notas em nome da

Yaktur, empresa de turismo de São Paulo, e da Gtech, multinacional norte-americana envolvida

no escândalo da renovação de um contrato de R$ 650 milhões com a Caixa Econômica

Federal. Existe suspeita de extorsão e cobrança de propina na assinatura do contrato, crimes

nos quais haveria a participação de dois importantes personagens da era Lula, Waldomiro

Diniz e Rogério Buratti.

Os automóveis foram alugados para uso de assessores da campanha de Micheletti. A

coisa enrolou quando um deles, Rafael Silva, ex-presidente da União Londrinense de Estudantes

Secundaristas, bateu o carro. Isto É relata:

“Em 10 de novembro de 2004, a Avis ligou para Soraya, no PT, cobrando R$ 200 do

seguro pela batida leve num pára-lamas do Celta dirigido por Rafael. ‘Eu não sabia dos

carros, não eram pagos por mim’. Soraya, então, ligou para a Avis de Curitiba e, lá, informaram

que o locador era a Yaktur. Na Yaktur, deram um número de telefone em Brasília para

Soraya tratar do problema. Ela ligou e a voz do outro lado respondeu: ‘SMPB, bom dia!’.

Exposto o caso, a moça explicou: ‘Meu chefe, o senhor Marcos, não está. Ele viaja muito’,

esclareceu, sem citar o nome Marcos Valério. Mas pediu que Soraya ligasse para o gabinete

do então deputado Paulo Bernardo na Câmara. ‘Foi com ele que fizemos o negócio. A gente

ficou de pagar só o mês, sem cobrir batidas’.”

Em outro caso envolvendo a campanha em Londrina, a revista aborda o depoimento do

motorista Rogério Bicheri à Polícia Federal. Ele trabalhava para o PT na época e disse ter

recolhido dinheiro vivo no apartamento de Zeno Minuzo, um assessor do ex-deputado e

ministro do Planejamento de Lula, Paulo Bernardo (PT-PR). Palavras do motorista:

- Fui duas vezes lá, em setembro e em outubro de 2004, dirigindo o carro de Fábio Reali,

assessor do prefeito. Estacionei e o Fábio voltou com 20 envelopes, todos com nomes de

coordenadores e vereadores em campanha. Era coisa de uns R$ 50 mil. Ele botou dois

envelopes no porta-luvas, e o resto debaixo do banco. Ele disse que dessa forma, se fôssemos

roubados, levariam menos dinheiro.

25/9/2005 O jornal Folha de S.Paulo publica entrevista do ex-ministro e deputado José

Dirceu (PT-SP), concedida à repórter Mônica Bergamo. Ela pergunta quem são os responsáveis

pela crise política. Com a palavra, Dirceu:

- Muita gente. Parece que eu fui presidente do PT sete anos sozinho, secretário-geral

cinco anos sozinho, né? O PT não foi construído assim. Tem dezenas de dirigentes importantes

que hoje são prefeitos, governadores, ministros, deputados e senadores que participaram

da construção de toda essa estratégia comigo.

- E o presidente.

- E o próprio presidente da República. É isso o que eu digo. A responsabilidade é de

todos nós. Nós temos que debater isso, num congresso do partido, e fazer o balanço.

- O senhor acha que o presidente da República assume a responsabilidade que tem?

- Não quero nominar ninguém. O que eu não aceito é prejulgamento, que foi tudo errado,

que foi tudo um fracasso, que a política de alianças do PT estava errada. Tudo foi aprovado

democraticamente.

José Dirceu responde se Lula participou das discussões:

- Participou. Todos participaram. Mas eu quero discutir e avaliar. Eu não quero julgar

ninguém porque eu não quero que me prejulguem. O que não aceito é a imagem de que eu

fiz tudo sozinho e depois apareceu Silvio Pereira, Delúbio Soares e Marcelo Sereno, que

são o mal. Então corta esse mal e o PT está salvo. Isso é maniqueísta. E eu não mereço isso.

Outro trecho da entrevista:

- As pessoas que votaram no PT a vida inteira imaginavam que votavam num partido

que tinha práticas diferentes.

- Esse é um erro e o PT vai pagar por ele. Nós vamos ter que pedir desculpas ao País. Nós

assumimos compromissos na campanha eleitoral com partidos e repassamos recursos. Se

fossem da arrecadação oficial do PT, não teria problema nenhum. Como foram recursos de

empréstimos tomados num banco e foram repassados fora da prestação de contas, há uma

ilegalidade aí que vai ser punida pela Justiça.

O próprio deputado indaga à repórter se será julgado pela política de alianças e o programa

de governo de Lula. E ele mesmo responde:

- Então estão julgando Lula também. Tem de saber qual é o julgamento e qual é o grau de

responsabilidade de cada um.

- E a responsabilidade política? As pessoas votam no Lula e ele não sabe de nada? É

difícil acreditar que ele ignorava tudo.

- Não é isso. É que ele não tem responsabilidade. Eu não posso atribuir responsabilidade

a ele no grau dele. O Lula tem responsabilidade política porque ele era líder do PT. Mas os

graus são diferentes. Não posso atribuir a ele responsabilidade sobre o caixa 2. Aí eu não

vou atribuir.

- Ele não tem responsabilidade como liderança?

- Isso é uma pergunta que tem de ser dirigida a ele. Eu não vou responder por ele.

27/9/2005 Investigações da Receita Federal apontam suspeitas sobre o enriquecimento do

publicitário Duda Mendonça. Em 2002, ano da eleição de Lula, os bens dele totalizavam R$

6,8 milhões. Em 2004, chegaram a R$ 13 milhões líquidos, livres de dívidas e obrigações.

Apesar do envolvimento de Duda Mendonça no escândalo do mensalão, ele mantém as

contas publicitárias federais da Petrobras e do Ministério da Saúde.

O empresário Marcos Valério tinha R$ 5 milhões em 2002. Em 2004, no segundo ano

do primeiro governo Lula, seu patrimônio chega a R$ 18,5 milhões. A movimentação

financeira do empresário também impressiona. Passaram R$ 13 milhões por suas contas

bancárias em 2003.

A Receita Federal vê indícios de sonegação de impostos de sete envolvidos no escândalo.

São os deputados Romeu Queiroz (PTB-MG), Josias Gomes (PT-BA), Paulo Rocha (PTPA),

José Janene (PP-PR), Vadão Gomes (PP-SP) e os ex-deputados Valdemar Costa Neto

(PL-SP) e Carlos Rodrigues (PL-RJ).

Romeu Queiroz declarou renda de R$ 420 mil em 2004, mas movimentou como pessoa

física R$ 4,3 milhões, mais de dez vezes os rendimentos informados ao fisco. Josias Gomes

declarou renda de R$ 33 mil em 2002. Depois que Lula se tornou presidente, passaram R$ 697

mil pelas contas do deputado em 2003, e R$ 678 mil em 2004. Em dois anos, 20 vezes mais.

Valdemar Costa Neto declarou renda de R$ 293 mil em 2002, mas movimentou R$ 827

mil. Carlos Rodrigues informou rendimento de R$ 446 mil, enquanto sua movimentação financeira

chegou a R$ 1,8 milhão. A renda de João Paulo Cunha (PT-SP) e da mulher, Márcia

Milanésio Cunha, subiu dos R$ 489 mil, declarados em 2002, para R$ 841 mil em 2004.

A Receita Federal descobriu mais: o deputado Paulo Fernando dos Santos (AL), presidente

do diretório do PT de Alagoas, declarou renda de R$ 80 mil em 2004, mas movimentou

R$ 1,3 milhão. O deputado Professor Luizinho (PT-SP) teve acréscimo patrimonial

líquido de R$ 477 mil entre 2003 e 2004.

O deputado José Janene (PP-PR), estrela do escândalo do mensalão, declarou renda de

R$ 565 mil em 2004. A movimentação financeira dele foi de R$ 1 milhão. O deputado

Vadão Gomes (PP-SP), outro envolvido no escândalo, declarou renda de R$ 1,2 milhão em

2004. A Receita Federal apurou movimentação de R$ 2,8 milhões. E Jacinto Lamas, tesoureiro

do PL, declarou R$ 495 mil em 2004. Movimentou R$ 1,9 milhão.

Ligações perigosas. O Jornal Nacional, da TV Globo, noticia as andanças do empresário

Arthur Wascheck, tido como o mandante da gravação na qual o alto funcionário dos Correios,

Maurício Marinho, aparece recebendo propina de R$ 3 mil. Arthur Wascheck teria feito

quatro depósitos, em dinheiro, no total de R$ 26 mil, ao então tesoureiro Delúbio Soares,

entre 2003 e 2005.

1/10/2005 A revista Época traz à tona mais um jipe misterioso na história do PT. Desta vez,

um Mitsubishi Pajero, modelo TR4, que custou R$ 70.500. A reportagem de Matheus Machado

relata que até o estouro do escândalo do mensalão o deputado João Paulo Cunha (PTSP)

podia ser visto circulando com o carro em Brasília. Quando não estava com Cunha, o

veículo ficava guardado na garagem do seu apartamento funcional. Depois, o jipe sumiu.

A Polícia Federal descobriu que o Mitsubishi Pajero está em nome de Valdir Pereira

Roque, um assessor de João Paulo Cunha lotado na Prefeitura de Osasco (SP), reduto eleitoral

de Cunha e onde um aliado dele, Emídio de Souza (PT), foi eleito prefeito em 2004.

Chamou a atenção dos federais que R$ 29.500 do valor da compra do Mitsubishi Pajero

foram depositados em dinheiro vivo na conta da concessionária que vendeu o automóvel.

Os R$ 41 mil restantes vieram da venda de um automóvel EcoSport, modelo 2005, que

estava em nome do irmão de Roque, Valmir. Ele também é funcionário da Prefeitura de

Osasco, mas tem salário de R$ 1.700 e circula na cidade dirigindo um carro popular.

Convocado pela Polícia Federal para dar explicações, João Paulo Cunha disse ter usado

o carro “por volta de duas vezes, e sua esposa por algumas vezes”. Sempre a mulher no

meio. Cunha não tem ideia do paradeiro do jipe.

2/10/2005 O jornal Folha de S.Paulo publica entrevista com o ex-secretário-geral do PT,

Silvio Pereira, o “Silvinho”, afastado do cargo depois de ganhar um jipe Land Rover da

GDK, empresa contratada da Petrobras. Ele admite ao repórter Leonardo Souza esquema de

caixa 2 no PT. Diz Silvio Pereira:

- Eu assumo a minha responsabilidade política. A minha responsabilidade não é diferente

da de nenhum outro dos 21 membros da executiva nacional do PT. O nível de decisão que

eu tinha não era diferente do de nenhum dos 21 membros da executiva nacional do PT.

Silvinho evita citar nomes:

- Eu assumo a responsabilidade como membro da direção do PT, em que pese a direção

do PT ter realmente a noção do que estava acontecendo. Ninguém é hipócrita de achar que

não sabia que existia caixa 2. Qual membro da direção do PT não sabia disso?

O repórter pergunta se o então presidente do partido, José Genoino (PT-SP), sabia do

esquema de caixa 2. Silvinho responde:

- Eu pergunto: qual o membro da alta direção do PT que não poderia supor que

pudesse existir?

Sem dar nomes, o ex-secretário-geral envolve dirigentes de todo o País:

- Os 27 Estados bateram à porta do Delúbio. Por que os Estados não assumem isso,

pô? Todo mundo pegava no pé do Delúbio para arrumar recursos, todo mundo, todo

mundo. Agora ele está lá, sozinho. As pessoas não perguntavam: “Bom, de onde vem

esse dinheiro”?

Silvinho admite o acordo PT-PTB nas eleições municipais de 2004, pelo qual o partido

do presidente Lula ficou de repassar dinheiro de caixa 2 para o partido de Roberto Jefferson.

Ele diz que a origem do acordo foi o isolamento de Marta Suplicy (PT-SP), candidata à

reeleição na Prefeitura de São Paulo:

- O custo político para trazer o PTB e o PL para a campanha da Marta foi alto. O partido

cabeça de chapa tem que arcar com todos os custos.

3/10/2005 Em entrevista à Folha de S.Paulo, o presidente da CPI dos Correios, senador

Delcídio Amaral (PT-MS), afirma que o dinheiro alimentador do caixa 2 do PT pode ter tido

origem em recursos do próprio partido, mantidos no exterior. Para Delcídio Amaral, existem

indícios de que os empréstimos de Marcos Valério eram fictícios:

- Você tem várias movimentações. Com o Valério pegando esses empréstimos entre aspas,

porque a cada dia nós nos convencemos mais de que essas operações de empréstimo

são de fachada.

A hipótese, portanto, é de que a história dos empréstimos pode ter sido falseada para

justificar uma repatriação de dinheiro:

- Você poderia ter contas lá fora e os empréstimos seriam de fachada, empréstimos de

você para você mesmo.

Uma das razões para os empréstimos terem sido apenas um meio de despistar a origem

do dinheiro de caixa 2 é o fato de as operações de crédito não estarem registradas na contabilidade

da SMPB, agência de publicidade usada para obter os empréstimos.

- Qualquer empresa minimamente séria contabiliza, principalmente operações desse montante.

É absolutamente claro que isso era para não se pagar.

5/10/2005 A comissão de sindicância da Corregedoria da Câmara dos Deputados recomenda

ao Conselho de Ética da Casa a abertura de processo de cassação contra 13 deputados acusados

de envolvimento no escândalo do mensalão. São os seguintes: João Paulo Cunha (PT-SP),

Professor Luizinho (PT-SP), José Mentor (PT-SP), Paulo Rocha (PT-PA), João Magno (PTMG),

Josias Gomes (PT-BA), José Janene (PP-PR), Pedro Corrêa (PP-PE), Vadão Gomes

(PP-SP), Pedro Henry (PP-MT), Wanderval Santos (PL-SP), José Borba (PMDB-PR) e Roberto

Brant (PFL-MG). Além deles, os deputados José Dirceu (PT-SP), Romeu Queiroz (PTB-MG)

e Sandro Mabel (PL-GO) sofrem processo de cassação no Conselho de Ética.

A CPI dos Bingos faz acareação entre o advogado Rogério Buratti, o ex-assessor da

Casa Civil, Waldomiro Diniz, o empresário de jogos Carlinhos Cachoeira, o diretor da

multinacional Gtech, Marcelo Rovai, e o ex-consultor jurídico da Gtech, Enrico Gianelli.

Em pauta, a renovação do contrato entre a Caixa Econômica Federal e a Getch, no valor de

R$ 650 milhões, efetivado em abril de 2004. A Gtech acusa Rogério Buratti e Waldomiro

Diniz de tentarem extorquir R$ 6 milhões da empresa, em troca da renovação. Buratti e

Waldomiro, afinados, afirmam que a Gtech tentou suborná-los, oferecendo até R$ 16 milhões

de propina pelo mesmo contrato.

A sessão é tumultuada e repleta de bate-bocas e xingamentos. Relatório do TCU (Tribunal

de Contas da União) analisou a execução do contrato entre a Caixa e a Gtech, pelo qual

a multinacional explorou serviços de loteria, entre abril de 2003 e agosto de 2004. No período

foram pagos R$ 408 milhões à Gtech. O relatório concluiu que, do total, R$ 120 milhões

representaram gastos desnecessários, cujos dispêndios não teriam acontecido se a

renegociação do contrato fosse feita com rigor.

Durante a sessão, Marcelo Rovai afirma que Waldomiro Diniz foi até a Gtech em 1º de

abril de 2004, para dizer que o contrato só seria assinado com a contratação de um consultor.

Não mencionou o nome de ninguém. No dia seguinte apareceu o consultor Rogério

Buratti, que pediu R$ 6 milhões.

Rogério Buratti, aos gritos, diz que a afirmação é mentirosa. E garante que Marcelo

Rovai lhe ofereceu de R$ 500 mil a R$ 16 milhões, dependendo do que ficasse definido na

renovação do contrato, e depois pagou R$ 5 milhões para a empresa MM Consultoria.

Reação de Marcelo Rovai:

- O senhor recusou R$ 16 milhões? O senhor é tolinho por acaso? O senhor, com a sua

biografia, recusou? Quantos ônibus dava para comprar com esse dinheiro?

De acordo com informações da CPI, houve mesmo um pagamento à MM Consultoria,

no valor de R$ 5 milhões. Pode ter havido também um rateio da bolada entre os grupos do

Ministério da Casa Civil, representado por Waldomiro Diniz, e o do Ministério da Fazenda,

cujo expoente era Rogério Buratti. De qualquer forma, os R$ 5 milhões teriam sido descontados

e transportados da agência bancária em carro-forte.

Depoimento à CPI do Mensalão. É de José Luiz Alves, ex-chefe de gabinete do primeiro

ministro dos Transportes de Lula, Anderson Adauto (PL-MG), eleito prefeito de Uberaba

(MG) em 2004. José Luiz Alves admite ter recebido R$ 200 mil do esquema de Marcos

Valério, no Banco Rural. Afirma que o dinheiro foi usado para pagar dívidas da campanha

de 2002, quando Anderson Adauto foi candidato a deputado federal. Informações de Valério

dão conta de que José Luiz Alves sacou R$ 1 milhão de conta da agência SMPB. Anderson

Adauto seria reeleito prefeito de Uberaba em 2008. Em novembro daquele ano, ele chegaria

a ser afastado do cargo, em virtude do suposto envolvimento da administração municipal na

chamada máfia dos parasitas, um esquema de corrupção em hospitais públicos. O juiz responsável

pelo caso decretaria o sequestro dos bens de Anderson Adauto.

6/10/2005 Em depoimento à CPI dos Bingos, Bruno Daniel, irmão do prefeito assassinado

Celso Daniel (PT), confirma ter ouvido o chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto

Carvalho (PT-SP), reconhecer ter levado dinheiro do esquema de corrupção de Santo André

(SP) para o PT. Bruno Daniel conta que Gilberto Carvalho, então secretário de Governo de

Santo André, pediu para conversar com a família em 26 de janeiro de 2002, após a missa de

sétimo dia em memória de Celso Daniel:

- Eu e meu irmão ficamos surpresos com a detalhada revelação de Gilberto Carvalho,

feita logo após a missa de sétimo dia de Celso Daniel. Ele foi claro: disse que os recursos

arrecadados eram enviados ao PT para serem usados no financiamento de campanhas. Era

ele quem entregava o dinheiro a José Dirceu. Ele disse que havia momentos de tensão

porque carregava o dinheiro, sem segurança, em seu Corsa preto. Em uma só ocasião, entregou

R$ 1,2 milhão ao deputado Dirceu.

Para o irmão de Celso Daniel, o prefeito foi morto porque não concordou com o destino

que vinha sendo dado ao dinheiro desviado da Prefeitura de Santo André. Daniel queria que

o dinheiro fosse apenas para o PT, mas estava enriquecendo empresários, políticos e pessoas

ligadas à Prefeitura, como o ex-secretário e ex-vereador Klinger Luiz de Oliveira (PT), o

empresário Ronan Maria Pinto e o ex-segurança de Celso Daniel, Sérgio Gomes da Silva, o

“Sombra”, acusado de ser o mandante da morte do prefeito. Diz Bruno Daniel:

- Há evidências de que havia na Prefeitura de Santo André um esquema de arrecadação

para o PT. Suponho que Celso enveredou naquilo como um mal necessário para viabilizar

as atividades do partido e lamentavelmente deu no que deu. O que possivelmente aconteceu

é que parcelas desses recursos começaram a ser destinadas para outras finalidades, razão

pela qual o Celso resolveu alterar a situação e esta pode ter sido a motivação do crime.

Bruno critica o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), para quem o assassinato foi

um crime comum. Ele acha que o irmão foi torturado para contar se dispunha de provas do

esquema de corrupção. Daniel pode ter sido torturado para fornecer números de senhas que

dariam acesso ao dinheiro da propina, provavelmente guardado em contas bancárias no

exterior. Diz Bruno: – O povo de nossa cidade não aceita as explicações dadas até o momento, porque são

superficiais e contraditórias para um crime que desde o início se revelou complexo. Falamos

com outros membros do PT esperando trazer elementos para elucidar o caso. E o que

posso afirmar é que poucas pessoas dentro do partido contribuíram para isso.

Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara, o deputado Romeu Queiroz (PTBMG)

admite ter recebido R$ 350 mil de contas bancárias do empresário Marcos Valério. Ele

afirma que o dinheiro, doação do PT, foi entregue à direção do PTB. Segundo Romeu Queiroz,

dois assessores dele, orientados pelo então tesoureiro Delúbio Soares, sacaram a quantia:

- Não botei um centavo no bolso.

Presidente do PTB de Minas Gerais, Romeu Queiroz relata que um dos assessores, com

receio de transportar as cédulas, “fez a besteira de depositar o dinheiro na minha conta”. O

deputado não desconfiou da origem dos recursos:

- O PT era sério.

7/10/2005 Algumas semanas depois de se dizer traído e pedir desculpas em pronunciamento

de televisão pelos erros cometidos pelo PT, Lula reúne 67 dos 83 deputados do PT no

Palácio do Planalto. Alguns acusados de envolvimento no escândalo do mensalão estão

presentes. Lula lhes presta solidariedade:

- Vocês não são corruptos. Vocês cometeram erros, mas não de corrupção. Todos vocês

são construtores do PT.

E, referindo-se diretamente aos parlamentares acusados:

- Vocês são companheiros que não têm nenhuma doença contagiosa, nada que impeça a

nossa convivência.

Lula mostra-se fortalecido depois da eleição do governista Aldo Rebelo (PC do B-SP)

para a presidência da Câmara dos Deputados. Ele substituiu Severino Cavalcanti (PP-PE),

que renunciou ao mandato em meio ao caso do mensalinho. Sobre a CPI dos Bingos que

fará acareação entre os irmãos de Celso Daniel e seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho,

Lula diz:

- É a CPI do fim do mundo.

9/10/2005 O jornal Folha de S.Paulo noticia o resultado de uma investigação da Procuradoria

da República no Distrito Federal, sobre uso da máquina pública e tráfico de influência no

Ministério da Casa Civil. Os trabalhos foram conduzidos pelo procurador Luciano Sampaio

Rolim. Conclusões: Waldomiro Diniz, ex-sub-chefe de Assuntos Parlamentares e um dos

principais auxiliares do ex-ministro José Dirceu (PT-SP), organizou reuniões e audiências

para José Carlos Becker de Oliveira, o “Zeca Dirceu”, filho de José Dirceu, com pelo menos

sete ministros de Estado.

Com o poder que lhe foi atribuído, Zeca Dirceu, um funcionário de terceiro escalão do

Governo no Paraná, passou a circular em Brasília acompanhado de prefeitos paranaenses,

que viajavam à capital federal para se aproveitar da influência do filho do ministro e obter

projetos e recursos para suas cidades.

Em 2004, Zeca Dirceu foi eleito prefeito de Cruzeiro do Oeste (PR) pelo PT. Graças ao

apoio do pai, teriam incluído pleitos de Zeca Dirceu em planilhas para execução orçamentária,

algumas vezes de forma cifrada com as iniciais “JCB”. Escrevem os repórteres Eduardo

Scolese e Rubens Valente:

“Zeca passou a atuar como se fosse um deputado federal, o que lhe garantia publicidade,

fotos em capas de jornais e prestígio no interior do Paraná.”

E mais:

“Na pressa em atender o filho do ministro, funcionários do extinto Ministério da Assistência

Social montaram, de forma irregular, processos com datas retroativas, o que

provocou o comprometimento de recursos relativos a projetos que nem sequer existiam

no Ministério.”

Por determinação de Waldomiro Diniz, funcionários da Casa Civil trabalharam para

acelerar repasses de interesse de Zeca Dirceu, apresentando-o como “filho do ministro José

Dirceu”, e pedindo “atenção especial” para os projetos encaminhados. Zeca Dirceu só precisava

telefonar para dizer em quais Ministérios gostaria de ser recebido e as datas das

viagens a Brasília.

A investigação identificou um tratamento especial concedido pela então chefe de gabinete da

ministra da Assistência Social, Benedita da Silva (PT-RJ), Cícera Bezerra de Morais. Os proces180

sos relacionados ao filho de José Dirceu eram privilegiados. Trecho do depoimento da funcionária

Maria de Fátima Gonçalves, chefe do protocolo do Ministério da Assistência Social:

“Em relação aos processos, Cícera chegou a passar pedaços de papel, sem qualquer

timbre ou assinatura, indicando o nome do município e o assunto do convênio, para que a

depoente desse origem a um processo, sem nenhuma documentação; que isso era feito para

que existisse um número de processo que tornasse possível o empenho (reserva de recursos

para pagamento); que tais processos eram empenhados e até mesmo publicados sem que

tivessem nos autos ao menos uma folha; que, após a publicação, eram providenciados os

documentos necessários à instrução do processo, documentos esses que nem sequer existiam

no Ministério.”

Maria de Fátima Gonçalves narrou que exerceu o cargo de chefe do protocolo por nove

anos, mas nunca viu alguém sem mandato com tanto poder sobre a liberação de verbas.

- Cheguei a pensar que se tratava do próprio ministro.

Procurado pela reportagem do jornal, José Dirceu não se manifestou.

10/10/2005 Mais informações sobre o relacionamento entre a direção nacional do PT, o

empresário Marcos Valério e os bancos Rural e BMG. O PT e Valério rolaram 30 vezes

supostas operações de crédito feitas junto àquelas instituições financeiras. Ao longo de dois

anos, os empréstimos não pagos alcançam R$ 100 milhões. Durante o período, foram

efetuadas apenas quatro amortizações, num total de R$ 3,6 milhões. Equivalem a cerca de

5% da dívida original, apontada em R$ 63 milhões, em valores corrigidos.

De acordo com o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), sub-relator de movimentação financeira

da CPI dos Correios, os bancos Rural e BMG mantiveram a política de autorizar a

liberação de recursos, mesmo sem a quitação de dívidas anteriores. O deputado aponta o

ocorrido em 14 de julho de 2004. Em 24 horas, o BMG rolou supostos empréstimos não

pagos pelo PT e por Valério, no valor de R$ 18,1 milhões, e concedeu um novo crédito para

a agência SMPB, no valor de R$ 3,5 milhões. Este empréstimo tampouco foi pago. Alguns

meses depois, acabou rolado como os outros. Diz Gustavo Fruet:

- É estranho negociar sempre, sem nada receber. É o tipo de empréstimo contraído para

não ser cobrado.

A quebra de sigilos telefônicos revela os caminhos do tráfico de influência nos subterrâneos

de Brasília. A CPI dos Correios divulga dados de Silvio Pereira, o ex-secretário-geral

do PT que nunca ocupou cargo no governo Lula. Ele fez 670 ligações para números telefônicos

da Presidência da República. E conversou frequentemente com diretores de empresas

estatais como Correios, IRB, Furnas, Infraero e Eletronorte, além de falar com Marcos

Valério e funcionários das agências de publicidade dele.

“Silvinho” recebeu 15 ligações do empresário Armênio Mendes, dono de casas de bingo

em Santos (SP). Chamam a atenção, ainda, as 113 ligações telefônicas entre o ex-secretáriogeral

do PT e grandes construtoras – 65 dessas conversas com a OAS e 28 com a Odebrecht.

Ele também discou para o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes).

E, por fim, foram identificadas 127 ligações entre Silvinho e Fernando Moura, conhecido

como lobista e amigo do ex-ministro José Dirceu (PT-SP).

A quebra de sigilos telefônicos detectou ligações entre o ex-tesoureiro petista Delúbio

Soares e André Gustavo Vieira, dono da agência de publicidade Arcos, vencedora de um

contrato com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Delúbio

Soares também manteve 60 contatos telefônicos com empresas do Grupo TBA, que detêm

contratos de informática com os Correios, Caixa Econômica Federal e Eletronorte.

O deputado João Magno (PT-MG), por sua vez, um dos mensaleiros sob risco de ter o

mandato cassado por receber dinheiro de caixa 2, trocou 67 ligações com Marcos Valério e

o sócio dele, Cristiano de Mello Paz.

11/10/2005 A Mesa da Câmara dos Deputados aprova a abertura de processos de cassação

contra 13 deputados acusados de envolvimento no escândalo do mensalão. Em sessão fechada,

o Conselho de Ética da Câmara faz acareação entre a deputada Raquel Teixeira

(PSDB-GO) e o deputado Sandro Mabel (PL-GO). Ela o acusa de lhe ter oferecido R$ 30

mil mensais, mais R$ 1 milhão. Em troca, teria de mudar de partido e integrar a base aliada

do governo Lula. Ele, cujo mandato corre risco de cassação, nega. Diz Raquel:

- O Sandro mente. Ele tem três versões diferentes para o convite que me fez: primeiro,

disse que estava atrás de uma educadora com meu perfil. Depois, disse que me convidou a

pedido do vice-presidente José Alencar. E fala ainda que eu estava sem espaço no PSDB e

pedi para ser convidada a ir para o PL.

16/10/2005 O Ministério Público de Goiás abre investigação para apurar eventual crime de

sonegação fiscal nas compras de propriedades em Buriti Alegre (GO) pela família de Delúbio

Soares. Os pais do ex-tesoureiro do PT aparecem como donos de quatro imóveis com o total

de 185 hectares. As aquisições foram feitas entre maio de 2004 e abril de 2005.

Num automóvel Omega blindado, recém-adquirido, pelo qual pagou R$ 67 mil, Delúbio

Soares comemora o aniversário em Buriti Alegre. Na fazenda registrada em nome do pai, o

ex-tesoureiro, protegido por dois seguranças, concede entrevista ao jornal O Estado de S.

Paulo. Ele faz chacota com o escândalo do mensalão ao conversar com o repórter Expedito

Filho:

- Nós seremos vitoriosos, não só na Justiça, mas no processo político. É só ter calma. Em

três ou quatro anos, tudo será esclarecido e esquecido, e acabará virando piada de salão.

17/10/2005 Renunciam os deputados mensaleiros Paulo Rocha (PT-PA) e José Borba (PMDBPR).

Eles abrem mão dos mandatos após o STF (Supremo Tribunal Federal) rejeitar recurso

apresentado por deputados do PT. Os parlamentares pretendiam evitar a instauração dos

processos de cassação por envolvimento no esquema do mensalão. Ao contrário do que

pleiteavam, o STF considerou não ter havido cerceamento ao direito de defesa.

As renúncias de Paulo Rocha, acusado de receber R$ 920 mil de Marcos Valério, e de

José Borba, a quem foram atribuídos saques de R$ 2,1 milhões, acontecem pouco antes de

o Conselho de Ética da Câmara abrir processos contra os deputados acusados de se beneficiarem

do esquema de corrupção. Com a manobra, Borba e Rocha mantêm o direito de

disputar eleições.

Com a instauração dos processos, os outros denunciados não podem mais renunciar para

evitar a inelegibilidade até 2015, caso sejam cassados. Já haviam renunciado os deputados

Valdemar Costa Neto (PL-SP) e Carlos Rodrigues (PL-RJ). Explicação de José Borba:

- O momento não me concederá a oportunidade de apresentação de plena e ampla defesa,

equivalendo dizer que estarei, apesar de inocente, submetido a tribunal de exceção, onde

subjetividade e arbítrio prevalecerão sobre provas.

Explicação de Paulo Rocha:

- O Congresso Nacional não assume que, nas investigações, não há mensalão. Há dinheiro

de campanha sem estar contabilizado perante os tribunais. Isso é uma coisa que

acontece na política brasileira.

Paulo Rocha seria eleito novamente deputado federal em 2006. José Borba não, mas se

elegeria prefeito da pequena Jandaia do Sul (PR) em 2008.

18/10/2005 O deputado Júlio Delgado (PSB-MG), relator do processo de cassação do deputado

José Dirceu (PT-SP), recomenda a perda do mandato do ex-ministro no Conselho de

Ética, “como meio de restaurar a dignidade e a credibilidade” da Câmara dos Deputados.

Júlio Delgado afirma:

- Não é eticamente concebível e muito menos crível que um parlamentar com tamanho

poder de decisão e capacidade de articulação em seu partido e no governo, como José Dirceu,

tenha permitido que o maior esquema de corrupção do sistema político pelo sistema

econômico de que o País tem notícia tenha sido idealizado e praticado por correligionários

e pessoas de seu relacionamento, sem que ele soubesse, controlasse e coibisse.

Para Júlio Delgado, José Dirceu jamais deixou de ser deputado no período em que foi

ministro da Casa Civil. Por isso, pode ser cassado por quebra de decoro parlamentar. O

relatório denuncia a aliança política engendrada pelo governo do PT, que “envolvia um

esquema de patrocínio de despesas de campanha e de incentivos financeiros”. De acordo

com Júlio Delgado, existem “evidências irrefutáveis” para afirmar que “Dirceu tinha poderes

para ser o intelectual de todo este esquema ou, pelo menos, poderes suficientes para

impedir que tais práticas prosperassem”.

Em seu relatório, Júlio Delgado destaca o empréstimo do Banco Rural à ex-mulher de

José Dirceu, Ângela Saragoça, e o emprego obtido por ela no BMG, por influência de Marcos

Valério. Também cita Roberto Marques, o “Bob”, assessor informal de José Dirceu, que

fazia parte da lista de sacadores do valerioduto. O relatório cruza datas de votações importantes

na Câmara, com as retiradas de dinheiro do esquema do mensalão. Do relatório:

“A maioria dos nomes dos sacadores é de parlamentares ou de pessoas ligadas a eles, e

as datas de liberação coincidem com votações de interesse do governo na Câmara. O BMG

emprestou ao PT R$ 2,4 milhões, em 17 de fevereiro de 2003, e R$ 40,4 milhões às empresas

de Valério, entre 2003 e 2004. Esses R$ 40,4 milhões teriam sido repassados ao partido.

Em 20 de fevereiro de 2003, três dias depois do primeiro empréstimo ser concedido, a

diretoria do banco teve audiência com o então ministro da Casa Civil. Em 24 de fevereiro de

2003, a SMPB, a empresa de Valério responsável pela maioria dos saques no esquema de

caixa 2, fechou a primeira operação financeira com o BMG, no valor de R$ 12 milhões.”

A deputada Ângela Guadagnin (PT-SP) faz pedido de vista, mecanismo pelo qual obtém

prazo para analisar o relatório de Júlio Delgado. A votação é adiada. José Dirceu ganha tempo.

21/10/2005 Técnicos das CPIs dos Correios e do Mensalão levantam a lógica dos pagamentos

do valerioduto ao PL. Há cheques, depósitos em dinheiro e transferências eletrônicas,

ao longo de vários meses. Em fevereiro de 2003, os repasses ao partido da base

aliada de Lula foram de R$ 500 mil semanais, em intervalos de oito dias. Total: R$ 2

milhões. No mês seguinte, depósitos de R$ 300 mil por semana, durante cinco semanas.

Total: R$ 1,5 milhão.

Em junho daquele ano começou uma operação que funcionou sempre da mesma forma:

remessas em três dias consecutivos por semana, perfazendo R$ 200 mil a cada sete dias. O

esquema foi até agosto e somou mais R$ 2,4 milhões. Em agosto houve um pagamento

avulso, no valor de R$ 100 mil. Total repassado: exatos R$ 6 milhões. Cálculo do deputado

Júlio Redecker (PSDB-RS): se a quantia for repartida por 41, número de deputados e senadores

do PL na época, o resultado é de R$ 29.268,29 mensais para cada parlamentar, número

bem próximo da quantia de R$ 30 mil, apontada por Roberto Jefferson como sendo o

valor do mensalão.

Auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União) apura prejuízos de R$ 15,7 milhões em

serviços de publicidade contratados pela Secom, a Secretaria de Comunicação da Presidência

da República, no período em que o ministro Luiz Gushiken (PT-SP) comandava o órgão.

Não há quaisquer documentos que atestem, por exemplo, a produção de 1,2 milhão de

revistas e encartes por parte da agência de publicidade Duda Mendonça Associados, pelos

quais o governo desembolsou R$ 3 milhões.

O relatório do TCU aponta também superfaturamento de 200% em serviços de publicidade,

envolvendo a agência Matisse Comunicação e Marketing. As duas agências trabalharam

com apenas quatro gráficas e os auditores constataram sobrepreços nos serviços de

impressão. A agência de Duda Mendonça apresentou notas fiscais referentes a serviços não

executados. A Secom, por sua vez, não dispunha de arquivo com notas fiscais, documentos

de remessa de materiais e recibos de entrega do que teria sido produzido pelas duas agências.

Mesmo assim, autorizou os pagamentos.

22/10/2005 A direção do PT reúne-se em São Paulo e afasta Delúbio Soares do partido.

Alega “gestão temerária”. Delúbio diz ter cumprido uma tarefa:

- Não traí e não sou um delator. Todos aqui sabem quantas vezes fui procurado por

pessoas que me diziam que se não houvesse a contratação de shows com grandes artistas

não seria possível ganhar a eleição.

Delúbio fez sua defesa por meio de carta endereçada ao PT. Segundo ele, a responsabilidade

pelo caixa 2 deveria ser dividida com a direção do PT, pois, como tesoureiro, buscou

apenas soluções para problemas que tiveram origem em decisões coletivas. Da carta de

Delúbio:

“É óbvio, para aqueles que não querem adotar a hipocrisia como razão de viver, que recursos

destinados ao pagamento de despesas não-contabilizadas não poderiam ser registrados na

contabilidade do partido, independentemente da minha vontade”. Delúbio é irônico:

“Respeito a ingenuidade. Não sei, no entanto, de onde imaginavam que o dinheiro viria

– se do céu, num carro puxado por renas e conduzido por um senhor vestido de vermelho –

e menos ainda me recordo de que alguma preocupação com a origem desses recursos tenha

me sido transmitida.”

O tesoureiro afirma que o caixa 2 é “prática antiga e habitual no partido, pela qual jamais

se viu uma punição”, mas é firme ao proteger Lula. Argumenta que “todos os nossos companheiros

candidatos em 2002 e 2004, com exceção do presidente Lula, contaram com

recursos não-contabilizados em suas campanhas”. Não é o que vimos.

26/10/2005 A CPI dos Bingos promove acareação entre João Francisco Daniel e Bruno

Daniel, os dois irmãos de Celso Daniel, e Gilberto Carvalho (PT-SP), chefe de gabinete do

presidente Lula. Gilberto Carvalho foi secretário de Governo de Celso Daniel, na Prefeitura

de Santo André (SP). Os irmãos acusam-no de admitir, em três ocasiões diferentes, logo

após o assassinato do prefeito, que ele mesmo, Gilberto Carvalho, fora responsável pelo

transporte de dinheiro da propina de Santo André para o então presidente do PT, José Dirceu

(PT-SP). O chefe de gabinete de Lula nega. Diz João Francisco:

- Você se esqueceu que, naquele dia em casa, entre um pedaço de bolo de aipim e outro,

você não parava de falar? Disse que tinha medo de transportar tanto dinheiro para José

Dirceu num Corsa preto?

No início da acareação, João Francisco Daniel afirma ter se encontrado com Celso Daniel na

véspera do aniversário do prefeito, em 1º de novembro de 2001. O prefeito petista seria assassinado

dois meses depois. Naquela ocasião, lembra o irmão, Celso Daniel se disse preocupado:

- Ele estava muito triste, com problemas na Prefeitura de Santo André, e me disse: “Eu

só gostaria de dizer que estou fazendo um dossiê contra Klinger, Ronan e Sérgio”. Aquela

declaração dele me deixou preocupado.

João Francisco Daniel volta a acusar Gilberto Carvalho. Refere-se também a Ronan

Maria Pinto, empresário acusado de integrar o esquema de corrupção:

- Sinto que o senhor sofre, que sua alma está aprisionada. Em Santo André o senhor fazia

a ligação entre a quadrilha formada por Klinger Luiz de Oliveira, Ronan Maria Pinto e

Sérgio Gomes da Silva, com a cúpula do PT.

Agora, o áspero diálogo entre Bruno Daniel e Gilberto Carvalho, a começar com o irmão

de Celso Daniel:

- Celso considerava que operar um esquema para financiar campanha era um mal

necessário.

- Não posso aceitar que se fale que Celso praticava corrupção, porque ele não está aqui

para se defender.

- Há evidências fortes de que havia um esquema de arrecadação de recursos para

financiamento de campanhas do PT. Um exemplo disso é o depoimento da antiga empregada

de Celso, que relata a existência de recursos no apartamento dele.

- O que me espanta é a distância que vocês tinham do seu irmão. Pelo amor de Deus,

como acreditar no depoimento da empregada?

Durante a sessão da CPI dos Bingos, a leitura de trechos de 42 fitas com escutas telefônicas

gravadas após a morte de Celso Daniel. Num diálogo entre o ex-vereador Klinger

Luiz de Oliveira (PT) e Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”, o primeiro diz que Gilberto

Carvalho vai indicar um advogado criminalista para defender Sombra. Em outra conversa,

o chefe de gabinete de Lula diz a Klinger Luiz de Oliveira:

- Ontem, tive uma conversa com o Zé Dirceu… O partido vai entrar meio pesado.

Em seguida, Gilberto Carvalho faz relato a Sombra:

- Marcamos para as 6 horas na casa do Zé Dirceu. Teremos uma conversa. Conversaremos

sobre a nossa tática dessa semana. Vamos ter de ir para a contra-ofensiva.

O deputado Josias Quintal (PSB-RJ), relator do processo do deputado Romeu Queiroz

(PTB-MG), um dos acusados de envolvimento no escândalo do mensalão, recomenda a

cassação do parlamentar ao Conselho de Ética da Câmara. Assessores de Romeu Queiroz,

que é presidente do PTB de Minas Gerais, sacaram R$ 350 mil da agência SMPB de

Marcos Valério, quantia supostamente repassada a candidatos do PTB nas eleições municipais

de 2004. Outros R$ 102 mil teriam sido oriundos da siderúrgica Usiminas, mas

tampouco foram registrados como contribuição de campanha à Justiça Eleitoral. Trecho

do parecer de Josias Quintal:

“A participação do representado nas supramencionadas operações irregulares de repasse

de verbas eleitorais e partidárias, mesmo que não realizadas no âmbito do Congresso

Nacional, mostra-se suficiente para expor o Legislativo ao descrédito perante uma

população já profundamente indignada com a dimensão do escândalo que se desvela e

envolve diversos partidos políticos.”

27/10/2005 A CPI do Mensalão promove acareação entre distribuidores e sacadores de

dinheiro do caixa 2 do PT. O ex-tesoureiro Delúbio Soares mostra-se afinado com o

empresário Marcos Valério. Mas não há entendimento. Os números do valerioduto, de

R$ 55,8 milhões, não batem.

Delúbio diz ter autorizado R$ 12 milhões para o PL. Valério afirma que repassou R$ 10,8

milhões. Valdemar Costa Neto, o presidente do partido, garante que recebeu apenas R$ 6,5

milhões, e insiste: usou todo o dinheiro para pagar despesas de campanha do segundo turno da

eleição de Lula e José Alencar (PL-MG), em 2002. Mas não apresenta qualquer comprovante:

- Ainda não tenho os recibos.

Delúbio declara que autorizou R$ 8 milhões para o PP, sendo R$ 4,5 milhões para o

assessor João Cláudio Genu ou pessoas diretamente autorizadas pelo líder do partido, deputado

José Janene (PR). Outros R$ 3,5 milhões foram para o deputado Vadão Gomes (PPSP).

Marcos Valério afirma ter repassado R$ 4,1 milhões ao PP. Simone Vasconcelos, diretora

financeira da SMPB, fala na entrega de R$ 1,6 milhão a João Cláudio Genu. Ele, por

sua vez, diz que recebeu apenas R$ 700 mil.

Emerson Palmieri, o tesoureiro informal do PTB, reafirma que Marcos Valério entregou

R$ 4 milhões ao presidente do partido, Roberto Jefferson (RJ), em duas remessas. E dá os

detalhes de como separou o dinheiro em pacotes de R$ 150 mil e R$ 200 mil, mas não sabe

o destino do dinheiro, que ficou a cargo de Roberto Jefferson. Marcos Valério nega. Diz que

jamais entregou qualquer quantia a Roberto Jefferson. Emerson Palmieri ironiza:

- Valério não entregou, Delúbio não entregou, José Dirceu não entregou, José Genoino

não entregou. Roberto foi cassado por um crime que não existiu.

29/10/2005 A revista Veja denuncia um novo escândalo: o PT teria recebido dólares provenientes

de Cuba. O dinheiro norte-americano chegou acondicionado em caixas de bebida.

De acordo com o repórter Policarpo Junior, o comitê eleitoral de Lula pôs a mão, entre

agosto e setembro de 2002, em US$ 3 milhões. O dinheiro foi entregue pelo cubano Sérgio

Cervantes, conselheiro político da embaixada de Cuba no Brasil, e depois levado para Campinas

(SP) escondido em duas caixas de uísque e uma de rum cubano, num avião Seneca.

Vladimir Poleto, assessor do então prefeito Antonio Palocci (PT) em Ribeirão Preto (SP),

estava com o dinheiro no avião.

Os dólares foram apanhados no aeroporto por Ralf Barquete, outro auxiliar de Antonio

Palocci na Prefeitura de Ribeirão. De lá, a quantia foi transportada num automóvel Omega

blindado, conduzido pelo motorista Éder Eustáquio Macedo, para o comitê de Lula no bairro

de Vila Mariana, em São Paulo. Aos cuidados de Delúbio Soares. A revista obteve detalhes da

história com o advogado Rogério Buratti, ex-secretário Palocci em Ribeirão. O relato:

“Buratti não queria falar sobre o assunto, mas não se furtou a confirmar o que sabia. ‘Fui

consultado por Ralf Barquete, a pedido do Palocci, sobre como fazer para trazer US$ 3

milhões de Cuba’, disse Buratti.”

Ralf Barquete morreu em 2004, vítima de câncer. Da reportagem: “Buratti sugeriu internar

o dinheiro cubano pela via que lhe parecia mais fácil. ‘Disse que poderia ser através de

doleiros’. O advogado relata que, depois disso, não teve mais contato com o assunto, mas

dias depois foi informado de seu desfecho. ‘Sei que o dinheiro veio, mas não sei como’. As

declarações de Buratti foram gravadas com seu consentimento”. A revista Veja também

entrevistou o economista Vladimir Poleto:

“A conversa estendeu-se das 10 da noite até as 3 da madrugada. Poleto, apesar da longa

duração do contato, ficou assustado a maior parte do tempo. ‘Essa história pode derrubar o

governo’, disse ele mais de uma vez, sempre passando as mãos pela cabeça, em sinal de

nervosismo e preocupação. No decorrer da entrevista, no entanto, Poleto confessou que ele

mesmo transportou o dinheiro de Brasília a Campinas, voando como passageiro em um

aparelho Seneca em que estavam apenas o piloto e ele. Fez questão de ressalvar que, na

ocasião, não sabia que levava dinheiro. Achava que era bebida. ‘Eu peguei um avião de

Brasília com destino a São Paulo com três caixas de bebida’, disse. ‘Depois do acontecimento,

fiquei sabendo que tinha dinheiro dentro de uma das caixas’, completou, acrescentando:

‘Quem me disse isso foi o Ralf Barquete. O valor era US$ 1,4 milhão’.”

Vladimir Poleto contou que recebeu orientação para embarcar no aeroporto de Congonhas,

em São Paulo, no avião emprestado por José Roberto Colnaghi, empresário e amigo de

Palocci. Em Brasília, foi levado numa van até o apartamento em que recebeu do cubano as

três caixas de “bebida”, lacradas com fitas adesivas. A reportagem relata que ele deveria

voar de volta para Congonhas, mas o mau tempo obrigou o piloto a descer em Viracopos.

Ralf Barquete estava no Omega blindado dirigido por Éder Eustáquio Macedo, nomeado

depois funcionário do Ministério da Fazenda, no Rio de Janeiro. O motorista pôs as

caixas no porta-malas e levou-as a Delúbio. Ele confirmou ter feito o serviço, mas recusouse

a falar novamente com a revista.

O Omega blindado pertencia à locadora de Roberto Carlos Kurzweil, empresário de

Ribeirão Preto. O comitê eleitoral do PT o alugara. O motorista Eder Eustáquio Macedo

era funcionário de Roberto Carlos Kurzweil e fora cedido ao PT. O repórter informa

que o cubano Sérgio Cervantes é um velho conhecido de Lula e do ex-ministro José

Dirceu (PT-SP). Sérgio Cervantes sairia do Brasil sem problemas, dois dias depois de

publicada a reportagem.

O empresário Roberto Carlos Kurzweil é dono da empresa Rek. Fez parte de consórcio

que venceu em 1995 uma licitação suspeita de R$ 400 milhões, para implantar e operar,

durante 15 anos, serviço de tratamento de esgotos em Ribeirão Preto. O negócio ocorreu na

primeira administração do prefeito Antonio Palocci. Os prazos estabelecidos no contrato

não foram cumpridos.

Vladimir Poleto tentou negar a entrevista: “Ele despachou um e-mail à revista pedindo

para que não se fizesse ‘uso do conteúdo’ da conversa. Ali, sugere que não autorizou a

gravação do diálogo e dá a entender que, diante de ‘diversos copos de chope’, pode ter caído

involuntariamente no ‘exacerbamento de posicionamentos’. Veja respondeu o email, indagando

as razões que o teriam levado a uma mudança tão radical de postura, mas Poleto não

respondeu. Por essa razão, a revista mantém, no corpo desta reportagem, os termos do

acordo selado com o entrevistado, que autorizou a publicação do conteúdo da conversa e a

revelação de sua identidade. Houve, inclusive, uma gravação da entrevista, também devidamente

autorizada por Poleto. A gravação, com sete minutos de duração, resume, na voz

dele, os trechos mais importantes das revelações que fez em cinco horas de conversa no

Plaza Inn. A tentativa de recuo de Poleto é uma expressão do peso da verdade”.

A revista Isto É lista valores repassados pelo empresário Marcos Valério a pessoas

indicadas pelo tesoureiro Delúbio Soares. Um irmão do próprio Delúbio, identificado como

Carlos, aparece como beneficiário de R$ 260 mil. E o ex-presidente da Câmara, deputado

João Paulo Cunha (PT-SP), como recebedor de R$ 200 mil, e não apenas os R$ 50 mil

apontados anteriormente.

Como se sabe, João Paulo Cunha, num primeiro momento, negou o saque e justificou a

presença de sua mulher no Banco Rural do Brasília Shopping alegando que ela se deslocara

até a agência a fim de resolver um problema com a conta de sua TV a cabo. Depois, admitiu

uma retirada de R$ 50 mil, que foi feita por ela, mas apenas para pagar compromissos da

campanha eleitoral de 2004. Simone Vasconcelos, a diretora da SMPB, já havia feito referência

aos R$ 200 mil, ao mencionar dinheiro sacado por João Paulo Cunha. Agora, os R$

200 mil surgem novamente.

A CPI dos Correios identificou 129 telefonemas entre João Paulo Cunha e as empresas

de Marcos Valério, num período de menos de cinco meses, em 2003. Os dados mostram que

o telefone celular usado pela SMPB para contatar o tesoureiro do PL, Jacinto Lamas, nas

datas dos repasses de dinheiro àquele partido, é o mesmo aparelho usado 53 vezes em

ligações para o celular de João Paulo Cunha. O deputado não quis comentar.

1/11/2005 O Conselho de Ética da Câmara aprova por unanimidade o arquivamento da

acusação contra o líder do PL, deputado Sandro Mabel (GO). De acordo com os 14 deputados

que julgaram a ação, não há provas do envolvimento de Sandro Mabel no escândalo do

mensalão.

Ele foi denunciado por Roberto Jefferson por participar do esquema de pagamentos

ilegais de Delúbio Soares e Marcos Valério. Sandro Mabel também foi acusado de tentar

comprar o apoio da deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO) por R$ 30 mil mensais, e oferecer-

lhe mais um pagamento de R$ 1 milhão. Em troca, ela deveria integrar a base aliada do

governo Lula.

3/11/2005 A conexão Banco do Brasil e o caso Visanet. A CPI dos Correios anuncia ter desvendado

a origem de pelo menos R$ 10 milhões do dinheiro usado no valerioduto, que abasteceu

o caixa 2 do PT. É dinheiro público. Em entrevista, o relator da CPI, deputado Osmar

Serraglio (PMDB-PR), divulga documentos e desmonta a versão de que os supostos empréstimos

bancários foram fonte exclusiva dos repasses do PT a parlamentares da base aliada.

De acordo com as investigações, a origem do dinheiro vem do adiantamento do pagamento

de verbas de publicidade do Banco do Brasil para a divulgação da marca Visanet,

uma administradora de cartões de crédito. A Visanet é empresa de direito privado e reúne

vários bancos, inclusive o Banco do Brasil.

Em operações consideradas atípicas, o Banco do Brasil autorizou, em 2003 e 2004,

repasses antecipados à agência de publicidade DNA Propaganda, de Marcos Valério, antes

mesmo da aprovação das campanhas publicitárias. A DNA havia sido escolhida, sem

licitação, entre todas as agências que atendiam a conta do Banco do Brasil, para cuidar da

publicidade da Visanet.

Eis o caminho do dinheiro rastreado pela CPI: em 12 de março de 2004, R$ 35 milhões

do Banco do Brasil, que haviam sido transferidos para a Visanet, foram depositados em

conta bancária da DNA, no próprio Banco do Brasil. Em 15 de março, três dias depois, a

DNA aplicou R$ 34,9 milhões desse dinheiro num fundo do Banco do Brasil. Em 22 de

abril, após pouco mais de um mês, a DNA transferiu R$ 10 milhões do montante para o

BMG. Detalhe: o favorecido pelo depósito é o próprio BMG. Em 26 de abril, quatro dias

depois, o BMG empresta a mesma quantia, isto é, R$ 10 milhões, para a empresa Rogério

Lanza Tolentino Associados, que tem sociedade com Marcos Valério. O empréstimo, não

quitado, é um dos seis listados por Marcos Valério como sendo fonte dos recursos do

caixa 2 do PT.

A CPI suspeita de outra operação do gênero, ocorrida em 2003, que teria servido para os

mesmos fins. É a seguinte: em 19 de maio daquele ano foram repassados R$ 23,3 milhões

para conta bancária da DNA no Banco do Brasil. No dia seguinte, a DNA aplicou R$ 23,2

milhões num fundo de investimento do Banco do Brasil. Em 26 de maio, uma semana após

a primeira operação, a SMPB Comunicação, outra agência de publicidade de Valério, solicitou

R$ 19 milhões emprestados ao Banco Rural. E esses mesmos R$ 19 milhões

correspondem a um repasse de Valério ao tesoureiro Delúbio Soares.

As investigações da CPI dos Correios apontam que as operações tiveram o envolvimento

do ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato. Ele seria o responsável

pela criação do sistema de antecipação dos pagamentos de publicidade para a Visanet.

Henrique Pizzolato, militante do PT, foi afastado do Banco do Brasil depois de identificado

como beneficiário de um saque de R$ 326 mil das contas de Marcos Valério. Teria usado o

dinheiro para comprar um apartamento no Rio de Janeiro.

4/11/2005 O piloto Alécio Fongaro afirma ter sido o condutor do avião Seneca da operação

Cuba. Ele confirma ter transportado, em julho de 2002, Vladimir Poleto, assessor do então

prefeito de Ribeirão Preto (SP), Antonio Palocci (PT), e três caixas de “bebida”. Pilotava a

serviço do empresário José Roberto Colnaghi. Diz que, durante a viagem, só conversou

com Vladimir Poleto para informar-lhe que, devido ao mau tempo, não poderia aterrissar no

aeroporto de Congonhas, conforme o planejado, e teria de voar até Viracopos, em Campinas

(SP). Tudo conforme a reportagem da revista Veja.

Alécio Fongaro revela que, após o pouso, Vladimir Poleto desceu do avião sem as três

caixas, e voltou em alguns minutos para perguntar ao piloto se o Seneca poderia decolar

novamente e voar até o aeroporto vizinho de Amarais (SP), uma viagem de apenas sete

minutos. Assim foi feito. Ao contrário de Viracopos, Amarais não tem controle de segurança

e não é necessário declarar conteúdo de bagagem. Poleto retirou com tranquilidade a

preciosa carga e a colocou no Omega blindado que já o esperava. O piloto nunca mais o viu.

O empresário José Roberto Colnaghi informa por meio de nota ter cedido por empréstimo,

em 31 de julho de 2002, o avião Seneca de sua propriedade, citado na reportagem da

revista Veja. Ele se exime de qualquer responsabilidade. Afirma apenas ter autorizado o uso

da aeronave. Desconhece se o aparelho serviu para transportar dólares vindos de Cuba para

abastecer a campanha de Lula. José Roberto Colnaghi é amigo do ministro Antonio Palocci

(PT-SP), que usou várias vezes aviões do empresário, inclusive durante o primeiro mandato

de Lula. Na campanha eleitoral de 2002, Palocci usou um avião Citation, também pertencente

a José Roberto Colnaghi, para voar com o então presidente do PT, José Dirceu.

A Polícia Federal acusa o DRCI (Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação

Jurídica Internacional) de “criar dificuldades” para o acesso a documentos importantes relacionados

às investigações do escândalo do mensalão e às movimentações de dinheiro do

publicitário Duda Mendonça no exterior. O DRCI foi criado pelo ministro da Justiça, Márcio

Thomas Bastos, durante o governo Lula. Para a Polícia Federal, a ação do DRCI causa

atrasos e adiamentos nas apurações federais.

O relatório da Polícia Federal acusa Wanine Santana Lima, coordenadora do DRCI, de

criar restrições à entrega de documentos a policiais brasileiros em Nova York. Ela teria

instruído autoridades norte-americanas a não repassar os papéis para a Polícia Federal, com

o argumento de que informações sigilosas seriam propositadamente vazadas pelos policiais

no Brasil. Diz o relatório:

“Enquanto as equipes policiais trabalhavam nas investigações no Brasil e

operacionalizavam a ida a Nova York, a representante do DRCI encontrava-se no exterior

buscando influenciar autoridades americanas a não repassar informações solicitadas às autoridades

de investigação constituídas e legitimadas.”

O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados aprova parecer favorável à cassação

do mandato de José Dirceu (PT-SP) por envolvimento no escândalo do mensalão. Dos 14

votos, 13 são favoráveis ao relatório do deputado Júlio Delgado (PSB-MG), que recomenda

a perda do mandato de José Dirceu. Só a deputada Ângela Guadagnin (PT-SP)

vota contra o parecer.

A CGU (Controladoria-Geral da União) envia relatório à CPI dos Correios. Aponta

prejuízos de R$ 2,5 milhões em contratos de publicidade firmados pelos Correios. Para os

auditores, as agências de publicidade geraram despesas “adicionais e desnecessárias” à

estatal. A CGU responsabiliza a Secom, Secretaria de Comunicação da Presidência da

República, sob o comando do ministro Luiz Gushiken (PT-SP), por montar comissões de

licitação a fim de favorecer o empresário Marcos Valério. Contratos de R$ 72 milhões,

com as agências SMPB, Link Bagg Propaganda e Giovanni FCB, teriam sido

superfaturados. Provocaram perdas de R$ 567 mil.

6/11/2005 O jornal O Estado de S. Paulo denuncia que a empresa Soft Micro Tecnologia

da Informática, do empresário José Roberto Colnaghi, recebeu R$ 12 milhões do Banco

do Brasil por intermédio de contrato sem concorrência pública. O negócio permitiu que

José Roberto Colnaghi vendesse programas de computador para 139 prefeituras do

Estado de Tocantins.

De acordo com o repórter Chico Siqueira, o software da empresa de José Roberto Colnaghi

foi vendido a dezenas de outras prefeituras. Uma delas é a de Penápolis (SP), onde Colnaghi

mora. O negócio acabou na polícia. A administração municipal pagou R$ 1 milhão para

alugar computadores do empresário por dois anos. O TCE (Tribunal de Contas do Estado)

constatou que a metade do dinheiro seria suficiente para comprar (e não alugar) um número

ainda maior de computadores. O prefeito de Penápolis, José Luís dos Santos (PT), recusouse

a cancelar o contrato com Colnaghi.

O ex-presidente do PT, José Genoino, confirma ter viajado com o ministro Antonio Palocci

(PT-SP) no jatinho de José Roberto Colnaghi, num voo de Brasília a Ribeirão Preto. José

Genoino não comenta o uso do avião de propriedade de um empresário contratado pelo

Banco do Brasil, por um ministro de Estado:

- Fiz uma viagem a convite de Palocci. Não vou emitir opinião sobre isso. Só estou

confirmando que fiz a viagem a convite dele.

7/11/2005 Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, Lula nega que houve

pagamento de mensalões no Congresso. “Tenho certeza que não teve essa barbaridade”,

afirma o presidente. Em outro trecho da entrevista, Lula defende o deputado José Dirceu

(PT-SP), apontado como o grande operador do esquema de pagamento a parlamentares.

- Feliz o país que tem um político da magnitude do Zé Dirceu.

Lula diz que seria advogado de defesa de José Dirceu:

- Qual é a acusação que existe contra o Zé Dirceu?

Apesar de Duda Mendonça, marqueteiro da campanha política que elegeu Lula em 2002,

ter admitido o recebimento de recursos de caixa 2 no exterior, Lula rechaça o evidente crime

eleitoral. Para ele, a prática foi reconhecida apenas pelo “nosso Delúbio”, e tão somente nas

eleições municipais de 2004.

O presidente da República também defende o filho, Fábio Luís Lula da Silva, o

“Lulinha”, cuja empresa recebeu aporte de R$ 5 milhões da Telemar, uma concessionária

de serviços públicos:

- Todos os contratos são regulares, todos. Nenhum é irregular.

Lula não aceita que o ex-prefeito Celso Daniel foi vítima de crime político:

- Não acredito no envolvimento do PT no caso Celso Daniel.

Em depoimento sigiloso à CPI dos Bingos, testemunha mantida sob sigilo aponta o empresário

Roberto Carlos Kurzweil como o intermediário que, em nome do prefeito de Ribeirão

Preto (SP), Antonio Palocci (PT), conseguiu uma doação de R$ 1 milhão para a campanha

de Lula em 2002. O dinheiro teria sido entregue por dois empresários angolanos, donos

de casas de bingo em São Paulo. Roberto Carlos Kurzweil também seria o responsável pelo

aluguel de um Omega blindado. O automóvel teria sido usado para transportar dólares vindos

de Cuba que haviam sido doados ao PT.

O acerto com os dois empresários do jogo teria ocorrido durante um jantar promovido

por Roberto Carlos Kurzweil em Ribeirão Preto. Segundo a testemunha, Antonio Palocci,

coordenador da campanha de Lula, participou do encontro. O valor da doação é o mesmo

que já fora apontado pelo advogado Rogério Buratti. De acordo com a testemunha sigilosa,

Ralf Barquete, ex-secretário da Fazenda de Palocci em Ribeirão Preto, ficou encarregado de

receber a quantia e entregá-la ao tesoureiro Delúbio Soares.

A CPI dos Bingos dispõe de documentos que apontam a suposta drenagem de dinheiro

público da Prefeitura de Ribeirão Preto para o caixa 2 do PT. O esquema teria funcionado

durante a segunda gestão do prefeito Antonio Palocci, em 2002. A administração municipal

fazia medições de serviços de varrição e de coleta de lixo acima do efetivamente realizado,

e pagava a mais à empreiteira Leão Leão. O dinheiro voltava depois ao PT, “por fora”.

Um “mapa do pagamento de propinas” da Leão Leão, acusada por Rogério Buratti

de dar mesada de R$ 50 mil a Antonio Palocci, como veremos detalhadamente depois,

é apreendido pelo Ministério Público: os “acertos” em Ribeirão Preto chegavam a

R$ 226 mil mensais.

Uma das medições suspeitas é a da varrição diária de 48 quilômetros do Bosque Municipal

de Ribeirão. Um exagero. A coleta de lixo hospitalar apresentou despesas suspeitas. Em janeiro de 2002, o serviço custou R$ 43 mil. Em março do mesmo ano, pulou para mais

de R$ 200 mil.

O Ministério Público investiga a saída de recursos da contabilidade da Leão Leão para

três empresas que forneciam notas fiscais frias, simulando vendas à Leão Leão. A análise de

331 cheques, cujos valores foram sacados em dinheiro vivo na agência bancária que funciona

dentro da Leão Leão, mostrou retiradas de R$ 2,8 milhões feitas pelas três empresas. Os

promotores acreditam que o dinheiro era usado para pagar propinas. Eles apuraram que as

empresas ficavam com 2% do valor das notas frias. O grosso do dinheiro saiu da Leão Leão

em carro-forte.

Os números batem: os R$ 2,8 milhões supostamente desviados da Prefeitura de Ribeirão

Preto, por meio de vendas fictícias atestadas por notas fiscais frias, em todo o ano de 2002,

correspondem a 12 pagamentos mensais de R$ 226 mil, o suposto custo mensal da corrupção

na Prefeitura de Palocci.

Documentos em poder da CPI dos Correios mostram que a agência DNA Propaganda,

de Marcos Valério, usou contrato de publicidade com o Banco do Brasil como garantia para

obter empréstimos de R$ 29 milhões junto ao Banco Rural, em benefício das empresas

SMPB Comunicação e Graffiti. Depois, de acordo com Valério, o dinheiro foi usado para

fazer pagamentos a políticos da base aliada do governo Lula, dentro do esquema de caixa 2.

O Banco do Brasil informou desconhecer que a DNA concretizou as operações financeiras

dando como garantia contratos com a estatal. Já o Banco Rural alega que o Banco do

Brasil foi notificado pela DNA, inclusive para transferir ao Rural os pagamentos decorrentes

do contrato de publicidade.

A DNA recebeu R$ 150 milhões por meio de contrato com o Banco do Brasil. Seriam

referentes a serviços prestados. Mais: a DNA não teria repassado R$ 37,6 milhões ao Banco

do Brasil, ao deixar de prestar contas sobre a bonificação de volume, que é obtida com a

veiculação de campanhas publicitárias. Com o escândalo do mensalão, o contrato foi rompido.

O Banco Rural, por sua vez, alega que não recebeu os empréstimos concedidos.

Investigações da CPI dos Correios na Nucleos, o fundo de pensão dos funcionários das

estatais de energia nuclear, suspeito de desviar dinheiro para campanhas políticas. O fundo teria

tido perdas entre R$ 9,3 milhões e R$ 22,7 milhões, conforme auditoria nas operações feitas com

títulos públicos. Em 2004, a rentabilidade média dos fundos foi de 17%. A da Nucleos, de 5,7%.

9/11/2005 O senador Delcídio Amaral (PT-MS), presidente da CPI dos Correios, determina

o cancelamento do depoimento de Soraya Garcia, assessora financeira do PT de Londrina

(PR) durante a campanha de reeleição do prefeito Nedson Micheletti (PT) em 2004.

Soraya Garcia envolveu o ex-ministro José Dirceu (PT-SP), o ministro do Planejamento,

Paulo Bernardo (PT-PR), e o chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho (PTSP),

em operações com caixa 2. Todos teriam participado da movimentação “por fora” de

R$ 6,5 milhões na campanha de Nedson Micheletti. Em entrevista ao repórter Leonardo

Souza, da Folha de S.Paulo, Soraya Garcia é questionada sobre os R$ 300 mil que Dirceu

teria trazido para a campanha de Londrina. Ela faz menção a Augusto Ermetio Dias Júnior,

diretor-financeiro de Nedson Micheletti:

- Eu estava participando de um evento de confraternização do PT no dia 18 de setembro

de 2004, do qual José Dirceu participaria. De quinta para sexta-feira, o Augusto me disse:

“Soraya, temos de fazer um evento bem bonito, para agradar o prefeito e o José Dirceu, que

está trazendo dinheiro”.

- Augusto disse quanto Dirceu estaria trazendo?

- Não, ele não disse. Mas na segunda-feira, dia 20 de setembro, ele chegou com R$ 300

mil, em notas de R$ 100, com lacre do Banco do Brasil.

Em votação secreta, a Câmara dos Deputados absolve o deputado Sandro Mabel (PLGO),

acusado de envolvimento no escândalo do mensalão. Sandro Mabel obtém 340 votos

em sua defesa, contra 108 a favor da cassação do mandato. Há ainda 17 abstenções e 2 votos

nulos. Não foram encontradas provas de que Sandro Mabel participou da distribuição de

dinheiro do valerioduto, nem de que ofereceu suborno à deputada Raquel Teixeira (PSDBGO)

para tentar trazê-la à base aliada do governo Lula.

Em depoimento à CPI do Mensalão, Anderson Adauto (PL-MG), ex-ministro dos Transportes

do presidente Lula, admite o uso de dinheiro de caixa 2 em todas as campanhas

eleitorais das quais participou. Reconhece ter pedido dinheiro a Delúbio Soares a fim de

pagar o que alegou ser despesas da campanha de 2002, quando disputou vaga na Câmara

dos Deputados.

- Eu sabia que poderia muito bem ter resolvido os meus problemas de campanha com os

fornecedores do Ministério dos Transportes, mas eu preferi procurar o Delúbio. Sabia que

poderia, mas não fiz.

Disse mais à CPI:

- Nas 11 campanhas que disputei sempre foi assim. Nunca vi uma campanha se fechar da

forma que é declarada no Tribunal Superior Eleitoral.

A lista de Marcos Valério registra R$ 1 milhão a Anderson Adauto, mas o ex-ministro

afirma que recebeu apenas R$ 410 mil. O dinheiro, segundo ele, foi sacado no Banco Rural

pelo próprio irmão, Edson Pereira de Almeida, e por seu chefe de gabinete no Ministério

dos Transportes, José Luiz Alves. Anderson Adauto nega ter recebido o dinheiro dentro de

seu gabinete de ministro, como informou José Luiz Alves à CPI:

- Posso ter recebido na rua, mas não no meu gabinete.

Da jornalista Dora Kramer, no jornal O Estado de S. Paulo:

“Se Anderson Adauto como ministro ‘sabia’ que teria perfeitas condições de usar o posto

para desviar parte dos contratos de prestação de serviços em proveito próprio, estava, portanto,

informando à CPI que o crime é recorrente, faz parte dos usos e costumes, é praticamente

uma prerrogativa de um titular de pasta ministerial.”

A jornalista acrescenta:

“Ministrada a lição, mestre Adauto saiu dali ileso, posando de vestal por ter aberto mão

de tão líquido direito de desviar dinheiro público e ter procurado o tesoureiro de um outro

partido para cobrar dele recursos cuja origem, disse, pouco se lhe dava conferir. Fosse dinheiro

sujo ou limpo, não era problema dele.”

No gabinete do ex-ministro Anderson Adauto teria ocorrido, no segundo semestre de 2003,

uma reunião com a presença, além do próprio ministro, do deputado Roberto Jefferson (PTBRJ),

de outros dois deputados cujos nomes não foram revelados, e de Delúbio Soares, o onipresente

tesoureiro do PT, que levara uma mala de dinheiro para ser dividida entre os presentes.

Em outro depoimento à CPI do Mensalão, os deputados ouvem Marcelino Pies, o extesoureiro

do PT do Rio Grande do Sul citado na lista de Marcos Valério como beneficiário

de R$ 1,2 milhão. Ele admite ter sacado dinheiro do valerioduto, mas garante que o total não

passou de R$ 1,05 milhão.

Como quase todos, aliás, diz que pôs a mão em menos dinheiro do que lhe foi atribuído.

Fica a impressão de que a lógica de os agraciados refutarem os valores totais reservados a

eles, uma prática recorrente, deve-se ao fato de embolsarem percentual do bolo. Uma comissão.

Propina da propina.

No caso do senhor Pies, parte do dinheiro do caixa 2 serviu para pagar despesas do

Fórum Social Mundial, segundo ele. O resto segue a mesma ladainha, ou seja, a necessidade

de quitar dívidas de campanha. No caso, as dívidas do ex-ministro da Educação do presidente

Lula, Tarso Genro (PT-RS), que disputou e perdeu a eleição para governador do Rio

Grande do Sul, em 2002. Depois de passar pela presidência do PT, Tarso Genro iria ser

nomeado ministro da Justiça, no segundo governo Lula.

Depoimento ao Conselho de Ética da Câmara. O deputado Professor Luizinho (PT-SP),

acusado de envolvimento no escândalo do mensalão e sujeito a ter o mandato cassado, trata

de explicar por que o assessor José Nilson dos Santos recebeu R$ 20 mil do valerioduto em

2003. De Luizinho:

- Não tem um centavo dos R$ 20 mil no meu mandato, na minha campanha ou em

benefício pessoal. Não teve meu conhecimento, meu envolvimento, minha participação. E

não é caixa 2, porque foi para processo do PT.

Luizinho quer fazer crer que o repasse foi decorrente de acordo entre o assessor e Delúbio

Soares, e o dinheiro não poderia ter sido declarado:

- Não há como legalizar dinheiro de pré-campanha.

O petista admite ter errado ao não exonerar o assessor:

- Dei a ele um prazo para se defender e depois aviso prévio. Só o afastei no mês passado.

Eu errei, mas não tem como retroagir.

O Conselho de Ética da Câmara recomenda, por 12 votos a 2, a cassação do mandato do

deputado Romeu Queiroz (PTB-MG).

O caso Visanet. O relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR),

reage ao contra-ataque de Marcos Valério. Segundo o empresário, não procede a acusação

de que ele desviou dinheiro repassado pelo Banco do Brasil para campanhas publicitárias

da Visanet, a fim de entregá-lo ao PT. Conforme Valério, ele já dispunha anteriormente de

recursos aplicados na mesma conta bancária, com a finalidade de ajudar o PT.

De acordo com Serraglio, porém, não havia saldo na conta do Banco do Brasil da qual

saíram os R$ 10 milhões, ao contrário das alegações de Valério. O dinheiro, portanto, teria

vindo de uma transferência do Banco do Brasil, de R$ 34,9 milhões. Como se sabe, R$ 10

milhões daquela conta do Banco do Brasil foram para o BMG e, dali, houve um depósito no

mesmo valor para a Rogério Lanza Tolentino Associados, empresa de um sócio de Valério.

E, por fim, a mesma quantia entrou no cômputo dos supostos empréstimos para o PT.

Análise feita pela Receita Federal em lote de 2 mil notas fiscais emitidas pela DNA de Marcos

Valério chega à CPI dos Correios. As notas, parcialmente queimadas, foram apreendidas

pela Polícia Federal na periferia de Belo Horizonte. Entre elas identificou-se um documento

fiscal falso, no valor de R$ 6,4 milhões, emitido pela agência de publicidade para a Visanet.

A Receita Federal detectou vários problemas na contabilidade da DNA. Os livros com

registros de transações da empresa são de 16 de setembro de 2005, quatro meses depois da

eclosão do escândalo do mensalão. Não foram encontrados livros contábeis das empresas

de Valério, de 1998 a 2002. Desconfia-se que a documentação foi destruída.

Na dança dos números, Valério tenta convencer a CPI dos Correios que tem ainda a

receber R$ 3,8 milhões da cota do Banco do Brasil relativa ao fundo da Visanet. O Banco do

Brasil, ao contrário, alega que a DNA não comprovou gastos de R$ 9,1 milhões, do total de

R$ 73,8 milhões repassados antecipadamente para a agência, num período de oito meses.

As divergências soam manobra diversionista, para confundir a comissão de inquérito, as

autoridades competentes e, principalmente, a opinião pública.

O TCU (Tribunal de Contas da União) conclui que os Correios pagaram indevidamente

R$ 5,5 milhões ao consórcio contratado para prestar serviços de assistência técnica e fornecer

equipamentos de informática às agências da estatal federal. O consórcio é formado pelas

empresas Positivo Informática e Novadata. Mauro Dutra, o “Maurinho”, amigo de Lula, é o

dono da Novadata.

10/11/2005 Relatório parcial da CPI dos Correios solicita o indiciamento da dupla Delúbio

Soares e Marcos Valério. Os dois são apontados como operadores de um esquema “acima

de leis, Estado e Justiça”. Ambos sofrem a mesma acusação de se “dedicarem a subtrair dos

cofres públicos recursos que foram destinados a integrantes da base aliada”, e por cometer

diversos crimes, entre os quais falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, fraude em licitação,

crime eleitoral e improbidade administrativa. Delúbio Soares e Marcos Valério têm os

nomes citados por tráfico de influência, crime contra o sistema financeiro, crime contra a

ordem tributária, fraude contábil e processual.

O documento da CPI refuta os tais empréstimos de R$ 55,8 milhões, para pagamentos

determinados por Delúbio, o tesoureiro do PT, em benefício de parlamentares ligados ao

governo Lula. Dessa forma, as alegadas operações de crédito não teriam passado de simulações

para encobrir a origem do dinheiro. As fontes de verdade seriam contratos com o

Banco do Brasil, repasses dos bancos Rural e BMG em troca de vantagens na administração

federal, dinheiro guardado no exterior e internado no País e recursos de empresas privadas

que contrataram agências de publicidade ligadas ao esquema de corrupção.

Manobra de parlamentares governistas impede a votação do relatório da CPI. Para atrasar

os trabalhos, aliados do Palácio do Planalto pedem vista do documento e ganham prazo.

Alegam que o texto precisa ser analisado melhor.

Depoimento à CPI dos Bingos. É de Vladimir Poleto, que está protegido por habeascorpus

concedido pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Não pode ser preso, mesmo que

minta ou se recuse a responder perguntas. Nega ter transportado três caixas com dólares

vindos de Cuba para a campanha de Lula, em 2002, num voo entre Brasília e Amarais, no

interior de São Paulo.

Ex-assessor de Antonio Palocci (PT-SP) na Prefeitura de Ribeirão Preto (SP), Vladimir

Poleto acusa a revista Veja de publicar uma entrevista não autorizada. Diz que estava

alcoolizado quando relatou o episódio dos dólares cubanos ao repórter Policarpo Junior.

De Vladimir Poleto:

- Após tanto chope, sendo que eu havia começado a beber à tarde aquela cachacinha,

minha capacidade de discernimento estava comprometida. Não me recordo se fiz declaração.

Se eu fiz, foi mentirosa. O fato é que houve coação e constrangimento.

A estratégia de Vladimir Poleto se mostra desastrosa. A revista reproduz a entrevista

concedida por ele em seu site na internet. A gravação é ouvida durante a sessão da CPI. A

voz de Vladimir Poleto não caracteriza estado de embriaguez. Mostra-se serena e equilibrada.

Reação do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE):

- O senhor é um cara-de-pau incrível.

Eis os principais trechos da conversa entre Vladimir Poleto e o repórter de Veja, durante

a madrugada de 22 de outubro de 2005:

- A única coisa que eu sei é que peguei um avião de Brasília com destino a São Paulo

com três caixas de bebida.

- Depois que você fez esse transporte você… Foi informado do que efetivamente

tinha dentro destas caixas?

- Depois de todo o acontecimento, sim.

- E o que te disseram?

- Que tinha dinheiro numa das caixas. Só isso.

- Quanto tempo depois do episódio você ficou sabendo disso, que era dinheiro ao

invés de bebida?

- Depois que eu ganhei uma garrafinha de Havana Club, que me foi presenteado, me

falaram. Só isso.

- Segundo a informação que eu tenho, o valor transportado teria sido de

US$ 3 milhões.

- Não. O valor que me disseram era US$ 1,4 milhão.

Em outro depoimento à CPI dos Bingos, Rogério Buratti, ao contrário de Vladimir Poleto,

confirma o que dissera sobre a operação Cuba:

- Fui consultado, em 2002, pelo Ralf Barquete, dizendo ser a pedido do então prefeito

Palocci, se eu conhecia algum mecanismo, alguma forma de trazer recursos do exterior para

o Brasil. Esses recursos, pelo que me foi informado, seriam advindos de Cuba.

A consulta teria acontecido em maio ou junho de 2002. Em setembro, Ralf Barquete

informou Rogério Buratti que “aqueles recursos tinham chegado”:

- Entendi, pela informação que o Ralf me passou, que o desfecho teria sido o aporte dos

recursos no Brasil, na campanha do presidente Lula. Agora, de que forma teria sido e qual o

montante preciso, não tive essa informação.

12/11/2005 A revista Isto É Dinheiro publica detalhes do depoimento prestado cinco dias

antes ao Ministério Público pelo advogado Rogério Buratti, secretário de Governo do exprefeito

Antonio Palocci (PT) em Ribeirão Preto (SP). Ele contou detalhes de uma operação

que teria culminado com a doação de R$ 1 milhão para a campanha eleitoral de Lula. De

acordo com Rogério Buratti, a contribuição foi feita por dois empresários angolanos, donos

de casas de bingo. O episódio teria ocorrido entre outubro e novembro de 2002. Na época,

Antonio Palocci exercia o seu segundo mandato como prefeito de Ribeirão Preto e era

coordenador da campanha eleitoral de Lula.

Os angolanos são José Paulo Teixeira Figueiredo e Artur José Valente Caio. Quem

intermediou o encontro deles com Antonio Palocci foi o empresário Roberto Carlos Kurzweil.

Além de Palocci e dos empresários, participou do jantar, no hotel Sofitel, em São Paulo, o

então presidente da Loterj (Loteria do Estado do Rio de Janeiro), Waldomiro Diniz.

Durante a reunião, Antonio Palocci teria prometido legalizar a atividade dos bingos. De

fato, o programa de governo apresentado por Lula previa a regulamentação das atividades

das casas de bingo. Posteriormente, porém, houve recuo e a edição de Medida Provisória

que proibia o jogo. O governo decidiu voltar atrás após a divulgação da fita em que Waldomiro

Diniz pedia propina ao empresário de jogo Carlinhos Cachoeira.

Em seu depoimento, Rogério Buratti faz outra revelação: Jorge Yazigi, o “Bill”, exdiretor

da empreiteira Leão Leão, foi nomeado, por indicação de Antonio Palocci, vicepresidente

da Visanet. A empresa de cartões de crédito teria sido usada em esquema envolvendo

o Banco do Brasil para desviar R$ 10 milhões ao PT. Outra informação de Rogério

Buratti: o empresário José Roberto Colnaghi, dono do avião usado na operação Cuba, obteve

contratos com o governo de Angola, graças à influência do ministro Palocci.

Em outra reportagem, Isto É Dinheiro traz entrevista com Henrique Pizzolato, o petista

afastado da Diretoria de Marketing do Banco do Brasil, acusado de participar do esquema

do mensalão. Ele nega ter sido responsável por repasses antecipados de R$ 58,3 milhões de

verbas de publicidade para a Visanet. O dinheiro foi parar na DNA Propaganda, de Marcos

Valério. Segundo Pizzolato, a decisão de fazer a antecipação foi do ex-presidente do Banco

do Brasil, Cássio Casseb, e do ex-ministro da Secom, a Secretaria de Comunicação da

Presidência da República, Luiz Gushiken (PT-SP).

- Se existia algo montado para favorecer o PT, era em escalões superiores, muito acima

da Diretoria de Marketing.

Henrique Pizzolato diz ao repórter Leonardo Attuch que recebeu orientação de Luiz

Gushiken para autorizar os repasses antecipados:

- Ele mandou assinar.

- Não é estranho pagar antecipadamente?

- Eu nunca tinha visto isso. Eu dizia até que, ao colocar o dinheiro na frente, a gente

perdia o poder de barganha com a agência. Mas me disseram que tinha de ser feito assim.

A revista Época publica entrevista com Carlos Godinho, ex-superintendente do Banco

Rural. Ele afirma aos repórteres David Friedlander e Leandro Loyola que os empréstimos

bancários a Marcos Valério e ao PT eram uma farsa. De acordo com Carlos Godinho, as

operações de crédito foram renovadas mesmo sem a quitação das anteriores, porque o Banco

Rural procurava obter, em troca, vantagens do governo. Carlos Godinho faz menção a

Delúbio Soares e José Genoino, ex-presidente nacional do PT:

- Na conta da SMPB entrava dinheiro, mas o Marcos Valério não liquidava os empréstimos.

É suspeito. No caso do PT, é o aval de duas pessoas que não têm patrimônio para

garantir a operação.

- O senhor acha que esses empréstimos foram feitos para não ser pagos?

- Com certeza. São empréstimos para mascarar a entrada de recursos que vinham

de outras formas. Você justifica qualquer recurso que entrou via empréstimo. Não era

para pagar.

- Se era tudo tão esquisito, por que o senhor não avisou? Sua função era essa.

- Minha função era manter a instituição livre dos riscos operacionais, de imagem e legais.

A diretoria foi alertada. Mas, como a prática do Rural era manter um relacionamento

com os clientes, eles não deram importância. No caso da SMPB, alertamos também para a

movimentação dela, que estava fora dos padrões e tinha indícios de lavagem de dinheiro em

função dos constantes saques em espécie.

Carlos Godinho recebeu ordens para não documentar as operações consideradas suspeitas

da agência de Marcos Valério, e nem emitir boletins sobre os procedimentos com o PT:

- Mandaram não fazer nos casos da SMPB e do PT. Não deixaram colocar nos relatórios

as irregularidades de movimentações acima dos padrões, de risco de crédito em função de

constantes renovações. É que esses documentos ficam à disposição do Banco Central. Então

mandaram tirar para o Banco Central não ter acesso.

- Quando foi isso?

- De 2003 a 2005 não se colocou nada das irregularidades. Não podia colocar. A gente colocava,

mas na edição final eram deletadas. E a gente era obrigada a assinar o relatório modificado.

Tinha de assinar daquela forma, já vinha da diretoria uma versão final para ser assinada.

16/11/2005 Termina de forma melancólica a CPI do Mensalão. O relator da comissão, deputado

Abi-Ackel (PP-MG), ex-ministro da Justiça no governo militar do presidente João

Baptista Figueiredo (1979-1985) e integrante da base aliada do governo Lula, sequer havia

começado a elaborar o relatório final, 48 horas antes do prazo de encerramento. Pior: ao ser

questionado por jornalistas, mostrou-se surpreso, como se não soubesse da data limite. “Vai

acabar? Agora que estamos em várias frentes de investigação?”, ousou perguntar. “O relatório

está dentro de mim. É só ditar para alguém”, afirmou, impassível.

No dia seguinte, véspera do término dos trabalhos, Abi-Ackel saiu-se com a seguinte

explicação para o escândalo do mensalão:

- Não posso dizer se o repasse de dinheiro ocorreu de uma vez só ou em várias vezes.

Fica a suspeita de que pode ter havido as duas formas. O problema é que não tenho como

provar.

A CPI do Mensalão foi usada pela base governista para desviar atenção da CPI dos

Correios. Aliados do Palácio do Planalto pretendiam investigar supostas irregularidades

nos dois governos do presidente tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-1998 e

1999-2002), mas a comissão de inquérito nunca deixou de funcionar como um

apêndice da CPI dos Correios.

Em meio a muito bate-boca, a última sessão é encerrada sem a votação do tímido relatório

final, feito às pressas por Abi-Ackel. Ele próprio, aliás, foi acusado de se beneficiar de

dinheiro de Marcos Valério. Apesar de reconhecer a existência de repasses para o caixa 2 de

campanhas políticas, Abi-Ackel não pede o indiciamento de ninguém. Admite, porém:

- Chame-se a isso mensalão, mensalinho, semanão ou quinzenão, o fato é que

receberam.

Trecho do relatório final:

“Há múltiplos indícios de que houve distribuição de recursos a deputados da base. Isso

não caracteriza exatamente o que se denominou mensalão, pagamentos sistemáticos, mas

houve sem dúvida pagamentos de dinheiro em espécie, em alguns casos com uma só prestação,

em outros com prestações sucessivas.”

Em outro trecho, o relatório afirma que os recursos financeiros serviram para pagar

“despesas de campanha presidencial, de governadores de Estado, de deputados federal e

estadual, nas eleições de 2002, e de prefeito municipal em 2004”. Não cita culpados:

“Não é possível relacionar os parlamentares que perceberam vantagens financeiras ilícitas,

em virtude da ausência de provas concretas.”

O nome de Paulo Abi-Ackel, filho do deputado, aparece na lista de beneficiários do

caixa 2, com pagamento de R$ 50 mil. O deputado Abi-Ackel também teria recebido doação

de R$ 100 mil de Marcos Valério, na campanha eleitoral de 1998. A indicação de Abi-

Ackel para a relatoria da CPI teria sido acertada entre os deputados José Dirceu (PT-SP) e

José Janene (PP-PR).

O TCU (Tribunal de Contas da União) aprova relatórios de auditoria que apontam fraudes

e serviços não-executados em contratos de publicidade com o Banco do Brasil, Correios

e Ministério da Cultura. Prejuízo estimado: R$ 8,3 milhões. Os técnicos do TCU consideram

que documentos em poder do governo não atestam o cumprimento dos contratos.

Houve irregularidades em subcontratações de gráficas e produtoras de vídeo, feitas pelas

agências, além de propostas e assinaturas forjadas.

Os maiores prejuízos foram encontrados nos contratos da DNA com o Banco do Brasil, sob

responsabilidade de Henrique Pizzolato, o diretor de Marketing da estatal. O Banco do Brasil

teria sido omisso e negligente. A DNA ficou indevidamente com R$ 4,2 milhões, dinheiro de

bonificações que deveria ser repassado ao cliente, ou seja, voltar para o Banco do Brasil.

No Ministério da Cultura, os prejuízos do Governo Federal, da ordem de R$ 2 milhões,

tiveram origem no contrato com a agência McCann Erickson. Entre as irregularidades, o

TCU aponta que empresas participantes de licitações combinaram preços, antecipadamente.

Depoimento ao Conselho de Ética da Câmara. O deputado Wanderval Santos (PLSP)

acusa o ex-deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ) por saque de R$ 150 mil. A retirada

do dinheiro do valerioduto foi feita pelo motorista de Wanderval Santos, Célio Siqueira,

no Banco Rural. Carlos Rodrigues renunciou ao mandato, após a acusação de participar

do esquema.

De acordo com Wanderval Santos, parlamentares ligados à Igreja Universal do Reino de

Deus eram submissos a Carlos Rodrigues. Ele costumava se servir dos funcionários dos

deputados, como no caso do motorista Célio Siqueira. Ele teria recebido ordem para se

deslocar até a agência do Brasília Shopping, pegar um envelope e levá-lo à casa de Rodrigues.

Diz Wanderval:

- Eu não podia punir o Célio, porque ele cumpriu uma ordem. Ele era usado para fazer

compras, levar filho na faculdade, pegar pessoas no aeroporto, sem que precisasse da

minha autorização.

18/11/2005 Operações suspeitas indicam que a Caixa Econômica Federal favoreceu o BMG,

um dos bancos envolvidos no escândalo do mensalão. O BMG, suposto credor de R$ 29,2

milhões que teriam sido emprestados ao PT e usados no caixa 2 do partido, teve lucro de R$

210 milhões ao vender à Caixa Econômica Federal R$ 1,1 bilhão de sua carteira de empréstimos

a aposentados e pensionistas do INSS (Instituto Nacional de Seguro Social).

Se tivesse feito diretamente as operações de empréstimo, a Caixa poderia ter lucrado R$

696 milhões. Em decorrência das operações com o BMG, os lucros do banco público ficaram

restritos a R$ 346 milhões e, mesmo assim, dinheiro que entraria ao longo de três anos.

Do senador Álvaro Dias (PSDB-PR):

- Se a Caixa deixou de ganhar, alguém ganhou no lugar dela.

Dos R$ 210 milhões de lucro do BMG, R$ 159 milhões correspondem à remuneração

pela captação de clientes, um ágio integralmente quitado. Além disso, o banco privado

mineiro teve lucro extra de R$ 51 milhões, obtido graças à fórmula usada para calcular o

saldo devedor dos contratos. Declaração do senador Álvaro

Dias:

- Temos razões de sobra para supor que essas operações tenham sido instrumento para

calçar os tais empréstimos, que sempre reputamos fictícios, operações meramente contábeis.

De acordo com a repórter Marta Salomon, do jornal Folha de S.Paulo, o presidente da

Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, assinou resoluções com vantagens ao BMG. Escreve

a jornalista:

“A cronologia das negociações entre BMG e Caixa revela um negócio fechado às pressas.

Entre a proposta formal do banco mineiro e a resolução do Conselho Diretor da Caixa,

que autorizou a primeira compra de créditos referentes a empréstimos concedidos a aposentados

e pensionistas, passaram-se apenas 23 dias.”

Mais: “A cronologia das operações revela um detalhe estranho: a venda de parte da

carteira de empréstimos é concretizada apenas três meses depois de o BMG ser autorizado

por Medida Provisória a operar o crédito a aposentados e pensionistas do INSS com desconto

em folha, em setembro de 2004”.

21/11/2005 Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara, o deputado Roberto Brant

(PFL-MG) admite ter recebido R$ 102 mil da agência SMPB, de Marcos Valério. Afirma

que o dinheiro foi doação da empresa siderúrgica Usiminas. A quantia teria quitado despesas

do programa de televisão de sua campanha a prefeito de Belo Horizonte, em 2004.

193

22/11/2005 Em depoimento à CPI dos Bingos, Paulo Okamotto, presidente do Sebrae (Serviço

Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), responsabiliza o ex-tesoureiro

Delúbio Soares por tê-lo orientado a pagar em dinheiro vivo a dívida do presidente Lula

junto ao PT, de R$ 29.436,26.

Segundo Paulo Okamotto, o dinheiro foi usado por Marisa Letícia, mulher de Lula,

durante viagem à China. Também serviu para acertar gastos de Lula com viagens a Cuba e

a Europa, despesas médicas e um empréstimo de R$ 5 mil. O valor corresponde à remuneração

mensal de Paulo Okamotto, de “pouco mais de R$ 30 mil”, conforme declaração dele

à CPI. Além do salário do Sebrae, Paulo Okamotto recebe como integrante do conselho da

Brasil-Prev e é aposentado como metalúrgico. Diz Paulo Okamotto:

- Não sou um homem de posses.

Para o senador Jefferson Péres (PDT-AM), o episódio mostra promiscuidade entre

público e privado:

- Okamotto fez um favorzão ao presidente e recebe em troca um cargo dos mais cobiçados.

Indiciados pela Polícia Federal David Stival, ex-presidente do PT do Rio Grande do Sul,

Marcelino Pies, ex-tesoureiro do partido em Porto Alegre, e Marcos Trindade, militante

petista. Todos são acusados de transferir R$ 1,05 milhão de Marcos Valério para o PT, em

2003. O dinheiro do valerioduto não foi contabilizado pelo partido. No total, o PT gaúcho

sacou R$ 1,2 milhão da conta bancária da agência SMPB, sendo que R$ 150 mil teriam

acertado despesas gráficas do Diretório Nacional do PT.

Depoimentos ao Conselho de Ética da Câmara. O presidente do PP, deputado Pedro

Corrêa (PE), e o assessor da liderança do partido, José Cláudio Genu, admitem formalmente

o recebimento de R$ 700 mil do valerioduto. O dinheiro pagou honorários do advogado do

ex-deputado Ronivon Santiago (PP-AC). Eles negam que houve compra de deputados. Explicam

que a soma não foi contabilizada porque ficaram aguardando o PT formalizar os

“auxílios financeiros negociados com o Partido Progressista”.

23/11/2005 Em depoimento à CPI dos Bingos, Rosângela Gabrilli, proprietária da empresa

de ônibus Expresso Guarará, afirma que Lula recebeu informação, em 2003, sobre esquema

de extorsão montado pelo PT em Santo André (SP). As operações irregulares teriam continuado

após a morte do prefeito Celso Daniel (PT), em 2002. O relato da situação foi feito ao

presidente da República pela irmã de Rosângela, Mara Gabrilli, num encontro de 20 minutos

no apartamento de Lula, em São Bernardo do Campo (SP).

De acordo com Rosângela Gabrilli, donos de empresas de ônibus em Santo André eram

obrigados a contribuir para o caixa do PT desde 1997, no início da segunda gestão de Celso

Daniel. Cabia ao Expresso Guarará o repasse de R$ 40 mil mensais. O dinheiro tinha de ser

entregue em espécie, mas em determinado período ocorreram depósitos diretamente na

conta bancária de Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”, no Banespa.

Rosângela Gabrilli diz que Sérgio Gomes da Silva era o arrecadador do dinheiro, enquanto

o empresário Ronan Maria Pinto cumpria o papel de “interlocutor junto aos empresários”.

Ela também relaciona Klinger Luiz de Oliveira (PT), ex-vereador e ex-secretário de

Serviços Municipais de Celso Daniel, apontado como o líder do esquema.

- Os achaques eram feitos com intimidação e ameaça. Diziam que o Klinger tinha sempre

um revólver preso na canela. Isso constrangia muito. E ele lembrava a cada momento:

“Com o poder não se brinca, o poder tudo pode”.

Em entrevista à repórter Mariana Caetano, de O Estado de S. Paulo, Mara Gabrilli diz

que aguardou por 32 meses manifestação de Lula sobre as denúncias feitas por ela no encontro

com ele em São Bernardo do Campo. O Palácio do Planalto não se pronuncia sobre

o assunto. Mara Gabrilli conta que, na época, o presidente se comprometeu a “averiguar

e tomar providências”:

- Ninguém fez absolutamente nada. Nunca tive uma resposta.

Mara Gabrilli relata que pediu a Lula uma intervenção em Santo André:

- Contei como era o esquema, quem cobrava a propina, e como a Prefeitura tirou a

licença para a empresa da minha família operar algumas linhas, em represália ao fato de

meu pai não ter pagado propina em certo momento.

Na saída do encontro com Lula, Mara Gabrilli recebeu recomendação de um assessor do

presidente para não revelar o teor da conversa.

- Ele pediu que eu dissesse aos jornalistas que estavam de plantão na porta do prédio que

a conversa tinha sido sobre reabilitação. Contei a verdade.

24/11/2005 Depoimento ao Conselho de Ética da Câmara. O deputado João Paulo Cunha

(PT-SP) admite que a mulher, Márcia Milanésio Cunha, sacou R$ 50 mil em dinheiro do

Banco Rural, na agência do Brasília Shopping. João Paulo Cunha afirma que a retirada foi

feita por orientação do tesoureiro Delúbio Soares. Nega que soubesse a origem do dinheiro,

ou seja, a conta bancária da agência SMPB, de Marcos Valério. Diz João Paulo Cunha:

- Recurso você busca no tesouro do seu partido. Qual crime eu cometi? Eu peguei no

lugar que eu sabia, que era a tesouraria nacional do PT.

Ele reconhece que não declarou o valor à Receita Federal:

- Eu admito que tenha problema contábil. Gostaria que alguém pudesse me dizer como

posso corrigir.

As coisas são mais complicadas do que João Paulo Cunha quer fazer crer. Num primeiro

momento, ele disse que sua mulher foi ao Banco Rural para resolver um problema com a

conta da TV a cabo. Em seguida, outra versão do deputado: os R$ 50 mil foram providenciados

por Delúbio Soares em São Paulo, transferidos da conta de Valério do Banco Rural de

Belo Horizonte para a agência de Brasília, sacados em espécie por Márcia Milanésio Cunha

e levados, em dinheiro vivo, para São Paulo. Segundo o deputado, para pagar despesas com

pesquisas eleitorais em quatro cidades da Grande São Paulo.

Tem mais: apesar de negar que conhecia a origem do dinheiro, João Paulo Cunha manteve

relações estreitas com Valério. A agência DNA, de Valério, fez a campanha de João

Paulo Cunha para a presidência da Câmara. Algum tempo depois, eleito presidente, a SMPB,

outra agência de Valério, foi contratada pela Câmara por R$ 10,7 milhões, para fazer propaganda

da Casa. Como se não bastasse, Cunha recebeu Valério para tomar café da manhã em

3 de setembro de 2003, na residência oficial do presidente da Câmara. O saque de R$ 50 mil

foi feito no dia seguinte. Sobre o café da manhã:

- Marcos Valério só foi me cumprimentar pela minha atuação na votação da

Reforma Tributária.

Quanto aos R$ 50 mil, João Paulo Cunha apresentou três notas fiscais do Instituto de

Pesquisa DataVale, para justificar as despesas com as pesquisas eleitorais ao longo de quatro

meses. As notas, contudo, são sequenciais. Fica a suspeita de que foram providenciadas

às pressas, pois não há lógica de a empresa só ter prestado serviços a um cliente, no período

de quatro meses.

Por fim: João Paulo Cunha admite ao Conselho de Ética que recebeu de Valério uma

caneta Montblanc, de presente de aniversário, e passagens aéreas para uma assessora e a

filha dela. Valor do mimo: R$ 3.084,20. Cunha garante que doou o correspondente ao que

ganhou ao programa Fome Zero.

26/11/2005 A revista Época publica reportagem apontando suspeitas de fraude no contrato

de publicidade entre a SMPB e a Câmara dos Deputados, assinado e executado no período

em que a Casa foi presidida pelo deputado João Paulo Cunha (PT-SP). A matéria relata o

afastamento do advogado Aléxis de Paula Souza, secretário de Controle Interno da Câmara.

Ele pediu para sair alegando pressões, sanções e perda de atribuições, depois de ter examinado

o contrato de publicidade de R$ 10,7 milhões com a empresa de Marcos Valério.

Aléxis de Paula Souza identificou indícios de fraude na escolha da agência e na execução

do contrato. Auditores descobriram empresas e assinaturas fantasmas. Agências supostamente

concorrentes funcionavam no mesmo endereço e compartilhavam telefone e fax,

por ocasião da licitação. De acordo com a reportagem de Andrei Meireles e Ronald Freitas,

a simulação permitiu à SMPB subcontratar prestadoras de serviço de seu interesse. Segundo a denúncia, outras duas agências de publicidade, a Ogilvy e a Lowe, apresentaram

condições técnicas melhores que as da vencedora da licitação. Apesar disso, foram preteridas.

A revista Época descreve as irregularidades em 52 processos executados pela SMPB:

“Nesses casos, a agência de Marcos Valério tinha a obrigação de pedir orçamento a pelo

menos três empresas e subcontratar a que cobrasse o menor valor – a SMPB ficava com 5%

do valor pago à subcontratada. A praxe, porém, era a ‘empresa que deveria ser subcontratada’

apresentar uma proposta ‘séria e firme, devidamente detalhada à qual se juntavam outras

duas propostas de valor maior que o da primeira’. Em geral, essas propostas são fajutas,

apenas para fingir que houve disputa: não foram encontradas pelos auditores, não detalhavam

o serviço a ser prestado, não eram assinadas por um responsável nem sequer traziam

um telefone de contato.”

28/11/2005 A CPI dos Correios descobre seis transferências da corretora Bônus-Banval,

num total de R$ 154 mil, para Rosa Alice Valente, assessora do líder do PP na Câmara,

deputado José Janene (PR). A Bônus-Banval, como se sabe, é apontada como intermediária

de repasses de Marcos Valério para beneficiários do mensalão. Um dos diretores da corretora,

Enivaldo Quadrado, também transferiu R$ 11.628 para Rosa Alice Valente. Há ainda oito

operações de José Janene para Rosa Alice Valente, somando R$ 139 mil. Por fim, foi detectado

depósito de R$ 10 mil do publicitário Duda Mendonça para o então tesoureiro do PT,

Delúbio Soares. As 16 operações relacionadas ocorreram de 2003 a 2005, principalmente

em 2004, no auge do mensalão.

O jornal Folha de S.Paulo noticia suspeita de favorecimento do governo ao empresário José

Roberto Colnaghi. Ele é o dono do avião Citation usado pelo ministro Antonio Palocci (PT-SP)

em deslocamentos entre Brasília e Ribeirão Preto (SP). José Roberto Colnaghi é dono do avião

Seneca usado para transportar dólares que teriam vindo de Cuba à campanha do PT em 2002.

Já se sabe do negócio de José Roberto Colnaghi com o Banco do Brasil, mediante o qual

a empresa Soft Micro Informática fechou contrato milionário para instalar programas de

computador em Tocantins. Desta vez, o repórter Mario Cesar Carvalho relata nova operação

com o Banco do Brasil em favor de José Roberto Colnaghi, pela qual a Asperbrás,

também de propriedade de Colnaghi, foi beneficiada com financiamento de US$ 8,5 milhões,

para exportar equipamentos agrícolas a Angola. A taxa de juros do Proex (Programa

de Financiamento às Exportações, do Banco do Brasil) chega a ser cinco vezes menor que

operação similar em rede bancária comercial.

29/11/2005 Em depoimento repleto de evasivas à CPI dos Bingos, Ademirson Ariosvaldo

da Silva, secretário particular do ministro Antonio Palocci (PT-SP), nega irregularidades

no relacionamento de integrantes da chamada “república de Ribeirão Preto”, todos ligados

a Antonio Palocci. Ademirson Ariosvaldo da Silva convive com Palocci há 18 anos.

Nomes citados: Rogério Buratti, Vladimir Poleto, Juscelino Dourado e Ralf Barquete,

morto em 2004.

Ademirson Ariosvaldo da Silva desconversa ao ser inquirido sobre dezenas de conversas

telefônicas mantidas com Buratti e Barquete, durante o período da renovação do contrato

entre a Caixa Econômica Federal e a multinacional Gtech. Indagado a respeito de 1.411

telefonemas trocados com Vladimir Poleto em pouco mais de dois anos, resume tudo a

“assuntos de amigos”.

O secretário particular de Palocci admite ter ido nove vezes à “casa dos prazeres”, o

imóvel alugado por Vladimir Poleto no Lago Sul, em Brasília. Nega que o endereço serviu

para empresários fazerem lobby, a fim de obter negócios no governo Lula. Ademirson oculta

nomes de frequentadores do local. Tampouco diz o que fazia por lá. Registra-se: a “casa

dos prazeres” era o lugar em que a “república de Ribeirão Preto” se divertia com garotas de

programa. Antonio Palocci iria cair em consequência disso.

30/11/2005 Cassado o mandato do deputado José Dirceu (PT-SP), acusado de ser o mentor

do esquema do mensalão. Com a decisão do plenário da Câmara dos Deputados, por 293

votos a favor e 192 contra, o ex-ministro da Casa Civil, homem-forte do PT e do governo

Lula, fica inelegível até 2015. Comentário do jornalista Rogério Gentile, na Folha de S.Paulo:

“Imaginar que Dirceu articulou sozinho o caixa 2 e o esquema da compra de votos de

parlamentares e de partidos, sem o conhecimento do presidente, é pior do que acreditar que

o tesoureiro Delúbio Soares agiu por conta própria, sem o conhecimento de Dirceu.”

Sobre a relação Lula/José Dirceu:

“Os dois sempre foram parceiros, numa relação de amor e ódio. Dirceu é a mão-de-ferro

que Lula utilizou para controlar o PT, chegar ao poder e governar o País sem ter de comprometer

sua imagem de mito. E Lula é a liderança popular que Dirceu nunca conseguiu ser e

usou para se realizar como autoridade.”

“Os dois são cara e coroa, com o perdão do chavão. Se um é culpado, como tudo leva a

crer, outro também é. Ambos merecem a punição.”

Em editorial, o jornal argumenta que “o presidente Lula poderia não saber dos detalhes,

mas dificilmente desconheceria por inteiro as gravíssimas situações que foram reveladas à

sociedade brasileira”:

“A cassação do mandato do deputado José Dirceu é um item relevante da conta paga

pelo governo petista para defender o presidente da República de acusações que pudessem

desaguar na abertura de um processo de impeachment. Se coube ao ex-tesoureiro Delúbio

Soares assumir a responsabilidade operacional sobre os desvios cometidos, foi reservado a

Dirceu o papel de arcar com a responsabilidade política.”

1/12/2005 A Petrobras prorroga contrato com o publicitário Duda Mendonça. Quase quatro

meses após Duda Mendonça admitir que recebera R$ 10,5 milhões por meio do caixa 2 do

PT na offshore Dusseldorf, nas Bahamas, em pagamento por serviços prestados à campanha

eleitoral que elegeu Lula em 2002, a Petrobras anuncia a prorrogação de contratos de publicidade

no valor de R$ 212 milhões anuais. Os serviços continuarão a ser prestados pelo

mesmo pool de agências, o que inclui a Duda Mendonça Associados. Caberá ao marqueteiro

administrar R$ 63 milhões até o fim do primeiro governo Lula.

O Jornal Nacional, da TV Globo, noticia que o INC (Instituto Nacional de

Criminalística, da Polícia Federal) constatou que as agências de publicidade DNA Propaganda

e SMPB Comunicação, do empresário Marcos Valério, imprimiram 80 mil

notas fiscais falsas. O laudo do INC destaca três notas supostamente frias, emitidas

para a Visanet em 2003 e 2004. Trazem valores de R$ 35 milhões, R$ 23,3 milhões

e R$ 6,4 milhões. Do laudo:

“Várias dessas notas foram utilizadas para dar suporte a recebimento de recursos de

empresas como o Banco do Brasil, a Eletronorte e como o Ministério do Trabalho”. E mais:

“Manipularam, falsificaram e alteraram registros e documentos, de modo a modificar os

registros de ativos, de passivos e de resultados; omitiram milhares de transações nos registros

contábeis; realizaram registros de transações sem comprovação ou as simularam; e

aplicaram práticas contábeis indevidas”.

Um escândalo.

Outro fato grave: a DNA usou nota fiscal fria, de R$ 12 milhões, como se a tivesse sido

emitido à Eletronorte, para justificar a obtenção de empréstimo no mesmo valor junto ao

BMG. Para o relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), é difícil

prender Marcos Valério:

- Acho que ele tem absoluta confiança na impunidade desse País e espera o processo que,

com bons advogados, vai acabar nas calendas. É difícil falar que Marcos Valério, que tem

meios, recursos e força, responderá pelo que fez.

Em depoimento à CPI dos Bingos, o advogado Walter Santos Neto enfrenta dificuldades

para explicar como gastou R$ 5 milhões, dinheiro transferido pela multinacional Gtech à

MM Consultoria Jurídica. A empresa é suspeita de intermediar pagamento de propina a

grupos ligados ao governo, por ocasião da renovação do contrato de R$ 650 milhões entre a

Caixa Econômica Federal e a Gtech. Importante salientar o nome de outro advogado, sócio

de Walter Santos Neto na MM, na época do depósito de R$ 5 milhões: Marcelo Coelho de

Aguiar, ex-assessor da Secom, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República,

que foi comandada pelo ministro Luiz Gushiken (PT-SP).

Em seu depoimento, protegido por habeas-corpus para não ser preso, Walter Santos

Neto alega sofrer de distúrbio chamado de “compulsão ou disfunção do gasto”, para justificar

as despesas que fez com o dinheiro. Segundo ele, os R$ 5 milhões foram pagamento por

ação junto ao Superior Tribunal de Justiça:

- Posso dizer que a motivação que sempre tive em relação ao dinheiro vem de uma deformação

de minha personalidade, a necessidade de ver o dinheiro, de se sentir com o poder.

Em resumo: foi isso que, segundo ele mesmo, o levou a sacar em espécie uma das transferências

da Gtech, de R$ 650 mil, e levar o dinheiro para casa, dentro de carro-forte, “para

gastar depois”. E assim a dinheirama se foi, em restaurantes, vinhos, viagens, presentes e

em doações para amigos.

- Minhas despesas são chocantes, gasto com frivolidades. Sou uma pessoa doente e

comecei a fazer tratamento psiquiátrico.

Acredite se quiser.

Depoimento ao Conselho de Ética da Câmara. O deputado João Magno (PT-MG) afirma

possuir notas fiscais para justificar gastos relacionados aos R$ 426 mil que admite ter recebido

de Marcos Valério. O dinheiro foi empregado, assegura, no pagamento de despesas das

campanhas eleitorais de 2002 e 2004.

João Magno nega ter feito uso de caixa 2. E dá a seguinte explicação para o fato de só ter

incluído os R$ 426 mil na prestação de contas de campanhas eleitorais após a eclosão do

escândalo do mensalão:

- Reconheço que perfeito não sou. Alguma anomalia o processo teve, mas não admito ter

feito caixa 2.

João Magno trata de responsabilizar o ex-tesoureiro Delúbio Soares:

- Ele teve dificuldade de mostrar como arrecadou os recursos. Para mim, era um dinheiro

do partido.

4/12/2005 O caso Coteminas. O jornal Folha de S.Paulo informa que o Coaf (Conselho de

Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda) identificou depósito de

R$ 1 milhão, em dinheiro, em nome do PT, na conta bancária da Coteminas (Companhia de

Tecidos Norte de Minas), cujo dono é o vice-presidente da República, José Alencar (PLMG).

A operação não apareceu na quebra de sigilo bancário das 16 contas atribuídas ao PT,

em seis instituições financeiras. Suspeita-se de caixa 2. O PT contraíra dívida de R$ 12

milhões junto à Coteminas, em troca do fornecimento de 2,7 milhões de camisetas, distribuídas

como brinde de campanha nas eleições de 2004.

As repórteres Renata Lo Prete e Marta Salomon relatam que o PT ficara de pagar as

despesas em três parcelas, até janeiro de 2005, mas não honrou nenhuma. O primeiro pagamento,

o R$ 1 milhão detectado pelo Coaf, só foi feito em 17 de maio. E também foi só. O

jornal entrevista Josué Gomes da Silva, filho do vice-presidente José Alencar e presidente

da Coteminas. Ele afirma ter recebido o dinheiro em “cash”, trazido por uma senhora:

- Era dinheiro do PT. Eu não tinha por que pensar diferente.

O novo tesoureiro do PT, Paulo Ferreira, diz que a operação não foi contabilizada

pelo partido:

- Não há nada dessa natureza registrado. Nenhum pagamento de R$ 1 milhão à Coteminas.

5/12/2005 O vice-presidente da República, José Alencar (PL-MG), concede entrevista

para informar que Marice Corrêa de Lima, coordenadora administrativa do PT, foi a

senhora encarregada de levar o pacote com R$ 1 milhão, em dinheiro vivo, ao escritório

da Coteminas, em São Paulo. A soma foi depositada em conta bancária do Bradesco.

Declaração do vice de Lula:

- Como, normalmente, os partidos políticos recebem de doadores ou coisa que o valha, e

nós não temos nada com isso, recebemos em dinheiro e depositamos. Não existe nada na

legislação brasileira que impeça o cidadão de vender uma mercadoria e receber na moeda

do País. O caixa 2 não afetou em nada o procedimento da companhia. A Coteminas não tem

nada com isso.

Denunciados os envolvidos no escândalo da cueca. O Ministério Público Federal conclui

que eram propina os US$ 100 mil escondidos na cueca do assessor do PT do Ceará,

José Adalberto Vieira da Silva, e os R$ 200 mil transportados por ele numa maleta. Ele foi

preso ao tentar embarcar no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. O dinheiro seria um

acerto do contrato de R$ 300 milhões entre o BNB (Banco do Nordeste do Brasil) e o

consórcio Alusa/STN (Sistema de Transmissão do Nordeste) para construir uma linha de

transmissão de energia elétrica entre Teresina e Fortaleza.

José Adalberto Vieira da Silva trabalhava como assessor do deputado José Nobre Guimarães

(PT-CE), irmão do então presidente nacional do PT, José Genoino (SP). O deputado

cearense também vai responder ação judicial. Para o Ministério Público, o ex-assessor especial

da presidência do BNB, Kennedy Moura Ramos, do grupo do deputado José Nobre Guimarães,

foi o intermediário do negócio. Ele será acionado por improbidade administrativa.

O Conselho de Ética da Assembleia Legislativa do Ceará aprova o encaminhamento do

pedido de cassação do mandato de José Nobre Guimarães. Ele admitiu ter recebido

R$ 250 mil do valerioduto. A decisão não tem nada a ver com o caso da prisão do assessor

José Adalberto Vieira da Silva, um outro processo. De qualquer forma, Guimarães não

seria cassado.

A complicada rede em que trafega o dinheiro. Relatório do Coaf (Conselho de Controle

de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda) implica distribuidoras de títulos que

obtiveram lucros milionários negociando com fundos de pensão no escândalo do mensalão.

O esquema escancarado é o do Prece, o fundo de pensão da empresa de saneamento do Rio

de Janeiro. Operações supostamente lesivas teriam contado com a participação dos deputados

Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e Carlos Wilian (PTC-MG).

De acordo com auditoria da Secretaria de Previdência Complementar, do Ministério da

Previdência Social, a Laeta DTVM e a Euro DTVM teriam ganhado cerca de R$ 5 milhões

durante o governo Lula, em operações cujos prejuízos de igual valor sobraram para o Prece.

A Laeta e a Euro manteriam conexão com as empresas Bônus-Banval e Guaranhuns. Ambas

são investigadas por transações com dinheiro de caixa 2, repassado para políticos da base

aliada do Governo Federal.

Conforme documentação do Coaf, outra empresa, a Natimar, recebeu transferência de

R$ 525 mil da Euro. A Natimar depositou R$ 275 mil na RS Administração, uma offshore

localizada no Panamá. A mesma RS teria recebido R$ 3,1 milhões em operação que envolveu

a 2S Participações, de Marcos Valério, em triangulação que passou pela Bônus-Banval

e também teria envolvido a presidente do Banco Rural, Kátia Rabelo.

O intrincado caminho do dinheiro: o Coaf apurou que a Laeta e a Guaranhuns são ligadas

ao doleiro Lúcio Bolonha Funaro. Empresa tida como dele, a Royster Serviços, teria

transferido R$ 5,5 milhões para a offshore RS, no Panamá, em 2004. A Erst Banking Empreendimentos,

outra empresa de Funaro, movimentou R$ 25,5 milhões entre setembro de

2003 e março de 2004, em conta do extinto BCN, banco comprado depois pelo Bradesco.

6/12/2005 O caso Coteminas: Delúbio Soares vem a público assumir a responsabilidade

sobre tudo. Em nota divulgada por seu advogado, o ex-tesoureiro do PT afirma que o R$ 1

milhão entregue à Coteminas fazia parte da reserva de caixa 2 do partido, alimentado por

Marcos Valério. No dia em que o escândalo foi divulgado, Delúbio sugerira que o dinheiro

não tinha origem nos repasses de Valério. Diz a nota com a nova versão de Delúbio:

“Quando perguntado sobre esse pagamento, lembrei-me de sua ocorrência, mas me equivoquei,

achando que tinha sido feito com recursos contabilizados. Na verdade o pagamento

foi feito em espécie, com dinheiro que tinha origem nos empréstimos feitos por Marcos

Valério ao Partido dos Trabalhadores. Trata-se de parte do valor que, daqueles empréstimos,

foi reservado para despesas do Diretório Nacional do partido.”

Muito bem. Digamos que o R$ 1 milhão entregue à Coteminas era mesmo parte dos tais

R$ 55,8 milhões atribuídos ao caixa 2. O último dinheiro desse esquema, conforme a versão

do próprio Delúbio e de Valério, havia sido repassado ao PT em 1º de outubro de 2004.

Difícil acreditar que R$ 1 milhão estivesse guardado no cofre do PT, por mais de sete me210

ses, até o pagamento à Coteminas, em maio de 2005. E, se estivesse mesmo guardado e

disponível no cofre, não haveria explicação para o PT não ter quitado anteriormente parte

da mesma dívida junto à Coteminas, uma vez que os compromissos assumidos com a empresa

teriam vencido entre novembro de 2004 e janeiro de 2005.

Tampouco tem nexo afirmação de Delúbio, parte da mesma nota, segundo a qual “novas

dificuldades financeiras” teriam impedido que as parcelas fossem “honradas na forma acordada”.

Ora, se o dinheiro já estava em caixa, as parcelas poderiam ter sido honradas, sem

problemas. Gustavo Fruet (PSDB-PR), sub-relator da CPI dos Correios, irrita-se com Delúbio:

- Juridicamente, a nota pode evitar questionamentos, tiveram tempo para prepará-la.

Mas, politicamente, é um desastre. É uma ofensa à inteligência, mais uma história inverossímil

na sucessão de histórias inverossímeis.

Marcos Valério procura não se envolver com a versão de Delúbio Soares:

- Não posso falar que ele está mentindo ou falando a verdade. O dinheiro era do Delúbio,

não sei o que ele fez com ele.

O novo tesoureiro do PT, Paulo Ferreira, parece se esquecer que Marice Corrêa de Lima,

coordenadora administrativa do PT e responsável pela entrega do R$ 1 milhão, assinou

recibo emitido pela Coteminas. Ao ser entrevistado, Paulo Ferreira diz que ela “cumpriu

ordens, nem sabia o que estava levando”. Em seguida, corrige-se:

- Pode não ter sabido, entendeu?

O presidente da Coteminas, Josué Gomes da Silva, filho do vice-presidente José Alencar

(PL-MG), dá risada ao ser informado de que dirigentes do PT não reconheciam a transação:

- Claro que eles sabiam. Eles que pagaram.

Do jornalista Fernando de Barros e Silva, no jornal Folha de S.Paulo:

“Quantos milhões ‘não contabilizados’ ainda estarão escondidos sob as desculpas esfarrapadas

de Delúbio Soares? E quanto custam o silêncio e os contos de fada do ex-tesoureiro?

E quem paga por eles?”

“Delúbio se tornou uma espécie de lixo atômico para o governo e para o PT. É o culpado

por tudo, aquele que está sempre disposto a assumir tudo sozinho, mas ao mesmo tempo não

pode ser imolado, precisa ser preservado a qualquer custo. A situação é esquizofrênica, mas a

equação é simples: se ele explodir (ou falar a verdade), o governo implode, vem abaixo.”

O jornalista acrescenta:

“Em condições normais, o milhãozinho que saiu do PT e – ninguém sabe, ninguém viu –

foi parar na conta da Coteminas seria suficiente para fazer ruir qualquer governo. Paradoxalmente,

Lula e o PT se beneficiam da miríade de falcatruas, da profusão de denúncias, do

excesso de bandalheira revelada ao País. É como se cada nova história anulasse o efeito

corrosivo das anteriores, sucessivamente, numa espécie de jogo entorpecente de soma zero.”

A CPI dos Correios divulga relatório que aponta supostas perdas de R$ 784 milhões de

14 fundos de pensão, em operações realizadas junto à BM&F (Bolsa de Mercadorias &

Futuros) e com títulos públicos. O documento relaciona corretoras e pessoas físicas que

tiveram lucros milionários com os negócios. Do deputado Antonio Carlos Magalhães

Neto (PFL-BA):

- O que interessa à CPI são as recorrências, os resultados negativos sistemáticos e contínuos,

com os fundos perdendo e os mesmos beneficiários ganhando sempre.

As perdas ocorreram em operações de compra e venda de contratos futuros e títulos

públicos. Os fundos teriam comprado por preços acima dos praticados no mercado, e depois

vendido por menos. A comissão investiga se a diferença significou prejuízos, se foram intencionais

e desviados para fins políticos.

De acordo com o levantamento, entre os mais prejudicados aparecem o Prece, fundo de

pensão dos funcionários da empresa de saneamento do Rio. Acumulou perdas de R$ 309

milhões. A Sistel, fundo das empresas de telecomunicações, teria amargado saldo negativo

de R$ 154 milhões. A Petros, ligada à Petrobras, teve perdas de R$ 65 milhões. E a Funcef,

da Caixa Econômica Federal, outros R$ 50 milhões negativos.

Na outra ponta, os eventuais beneficiados. Suspeita-se que parte do dinheiro pode

ter sido remetida para o exterior. Entre as corretoras, as que mais ganharam, de acordo

com o relatório, são a Laeta, Novinvest e Cruzeiro do Sul, com, respectivamente, R$

55,3 milhões, R$ 30,7 milhões e R$ 26,4 milhões. A comissão quer identificar quem

lucrou de maneira ilegal.

Depoimento à CPI dos Bingos. Mara Gabrilli confirma a reunião com o presidente Lula,

na casa do presidente da República, em São Bernardo do Campo (SP), em março de 2003.

Na ocasião, ela relatou pressões contra a empresa de ônibus Expresso Guarará, de sua família,

por conta do esquema de corrupção montado na Prefeitura de Santo André (SP).

Mara Gabrilli conta aos senadores ter denunciado a Lula que a empresa era obrigada a

pagar propina para operar em Santo André, governada pelo PT. Ela apontou a Lula o nome

das pessoas que considerava responsáveis pelo esquema: o então secretário municipal Klinger

Luiz de Oliveira (PT), o empresário Ronan Maria Pinto e o ex-segurança do prefeito Celso

Daniel (PT), Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”.

De acordo com Mara Gabrilli, Lula se virou para os três assessores que o acompanhavam

no encontro e disse assim:

- Nossa, eu achei que o Sérgio Gomes já estava muito longe.

Afirmação de Mara Gabrilli:

- Eu falei ao presidente sobre o pagamento da caixinha que meu pai era obrigado a fazer

a cada dia 30. E falei da retaliação imposta à empresa desde que eu e minha irmã, Rosângela,

denunciamos o fato ao Ministério Público.

Lula prometeu tomar providência e dar uma resposta. Não foi o que ocorreu:

- Aconteceu justamente o contrário. Klinger soube, reclamou, e dias depois uma comissão

de sindicância da Prefeitura se instalou na nossa empresa.

Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara, o deputado Josias Gomes (PT-BA)

confessa ter recebido R$ 50 mil das mãos de Delúbio Soares e sacado outros R$ 50 mil no

Banco Rural, para quitar despesas eleitorais. O dinheiro, segundo ele, foi repassado para

três candidatos a deputado estadual na Bahia, todos derrotados nas eleições de 2002. Diz

Josias Gomes:

- Como poderia imaginar que ali estivesse sendo operado o esquema que saiu na imprensa?

Involuntariamente, fui envolvido em algo que não sabia. Jamais ouvira falar em Marcos Valério.

7/12/2005 Depoimento à CPI dos Correios. Henrique Pizzolato, ex-diretor de Marketing do

Banco do Brasil, responsabiliza o ex-ministro Luiz Gushiken (PT-SP) e o ex-presidente do

Banco do Brasil, Cássio Casseb, pelo adiantamento à agência DNA, de Marcos Valério, de

R$ 73,8 milhões de verbas de publicidade do Banco do Brasil destinadas à Visanet. Os

procedimentos ocorreram em 2003 e 2004. De acordo com investigação da comissão de

inquérito, R$ 10 milhões acabaram irrigando o caixa 2 do PT.

Henrique Pizzolato afirma ter sido procurado a primeira vez por um diretor e um gerente

do Banco do Brasil, com o pedido de autorização para uma nota técnica que assegurava

repasse adiantado de R$ 23,3 milhões para a DNA. O ex-diretor relata ter consultado Luiz

Gushiken a respeito:

- O Gushiken disse: “Assina que não há nenhum problema”. Entendi aquilo como uma

ordem. Eu não ia questionar o ministro.

Luiz Gushiken foi afastado da Secom, a Secretaria de Comunicação da Presidência da

República, durante o escândalo do mensalão. Recorde-se que o ex-ministro não se desligou

do governo. Lula nomeou-o chefe do Núcleo de Assuntos Estratégicos. Reação dele à afirmação

de Henrique Pizzolato:

- O Pizzolato é confuso por natureza. O fato é que eu nunca soube sobre antecipação de

pagamentos para a DNA.

8/12/2005 Em depoimento à CPI dos Bingos, Carlos Roberto Godinho, ex-superintendente

do Banco Rural, confirma informações prestadas à revista Época. Segundo ele, os empréstimos

do Banco Rural a Marcos Valério, em fevereiro e setembro de 2003, num total de R$

28,8 milhões, foram operações “de fachada”, ou negócios “feitos para não serem pagos”,

com a finalidade estratégica de “maquiar” outras fontes de recursos.

Carlos Godinho explica que as suspeitas sobre as operações de crédito vêm da renovação

desses empréstimos a cada 90 dias, sem que Marcos Valério pagasse os valores devidos.

Detalhe: havia dinheiro nas contas correntes de Marcos Valério no próprio Banco Rural,

que poderia ser usado para pagar os empréstimos. Já o Banco Rural, por sua vez, não fez

provisionamentos, ou seja, reservas de recursos para cobrir eventuais prejuízos, uma exigência

do Banco Central. Carlos Godinho também acusa o Banco Central de ter sido complacente

com as supostas irregularidades. Diz Carlos Godinho:

- O fato de quantias astronômicas de Valério passarem pelo banco e não serem pagos os

empréstimos mostra que eles foram feitos para não ser pagos.

Outro fator que levantou suspeitas: movimentações em contas da SMPB e da Grafitti,

ambas ligadas a Marcos Valério, eram pelo menos dez vezes superiores ao faturamento

declarado das empresas. Os saques efetuados por ambas, sempre em valores altos, eram

muitas vezes em dinheiro vivo.

Suspeito, ainda, o Banco Rural, cliente da agência SMPB, pagar regularmente as campanhas

publicitárias, apesar de supostamente a agência estar inadimplente com o banco. Em contrapartida,

segundo Carlos Godinho, o Banco Rural teria sido beneficiado por aplicações financeiras de

fundos de pensão, patrocinadas por empresas estatais. E isso compensaria a parceria.

Depoimento ao Conselho de Ética da Câmara. José Nilson dos Santos, ex-assessor do

deputado Professor Luizinho (PT-SP), procura inocentar o parlamentar de envolvimento

com um saque de R$ 20 mil do valerioduto. Segundo ele, a retirada foi de sua responsabilidade

e autorizada por Delúbio Soares, um velho conhecido. Ao defender-se, porém, Luizinho

admitira ter sondado Delúbio Soares sobre a possibilidade de receber R$ 20 mil, para o que

alegou ser a campanha de pré-candidatos a vereador, em 2003. Mesmo sem querer, José

Nilson Santos implica o deputado no saque:

- Havia consultado Luizinho sobre o dinheiro e ele disse que isso não era com ele, mas

com o PT. Então, por conta própria, procurei o Delúbio.

Luizinho sabia.

9/12/2005 Em depoimento à Polícia Federal, Delúbio Soares é questionado sobre o R$ 1

milhão usado para pagar parte de dívida do PT junto à Coteminas. Segundo o ex-tesoureiro,

o dinheiro estava guardado em cofre na sede nacional do partido, em São Paulo. Delúbio diz

que o dinheiro ficava no cofre porque não fazia parte da contabilidade oficial do PT. Do

relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR):

- Ninguém acredita que ele tenha guardado R$ 1 milhão em espécie durante quase um

ano, enquanto diuturnamente

era abordado por credores.

Em entrevista à revista Carta Capital, Lula acusa setores oposicionistas de estarem “tentando

fazer golpismo”. A Folha de S.Paulo publica o editorial “Fantasia Golpista”: “Hoje

seria preciso um grau de alheamento descomunal para não perceber que a crise foi gerada

pelo próprio governo, pelo PT e por aliados, que se enredaram em trama de corrupção cujas

características e dimensões poderiam perfeitamente estimular a oposição a se empenhar em

abrir processo de impeachment do presidente. Ressalte-se que o impeachment não é uma

aventura golpista, mas um instrumento previsto na Constituição”.

12/12/2005 A CPI dos Correios desvenda mais um tentáculo do caso Visanet. Recapitula-se

uma das operações do esquema: R$ 34,8 milhões saíram do Banco do Brasil em 12 de

março de 2004, sob pretexto de adiantamento de verbas de publicidade para a DNA. O

dinheiro foi depositado numa aplicação da agência de Marcos Valério no Banco do Brasil e,

de lá, saíram R$ 10 milhões para o BMG. Em seguida, os R$ 10 milhões foram usados

formalmente para empréstimo à empresa Tolentino Associados, ligada a Valério. Esse dinheiro

alimentou o caixa 2 do PT.

Aqui, entra a descoberta: uma transferência da Tolentino Associados pôs R$ 3,4 milhões

na corretora Bônus-Banval, enquanto a 2S Participações, outra empresa de Valério, transfe214

riu um total de R$ 3,2 milhões para a Bônus-Banval, cujo dinheiro era operado por outra

corretora, a Natimar, ligada ao doleiro Najun Turner. E a Natimar foi a responsável pela

transferência de R$ 578 mil para uma conta do Rural International Bank, da offshore

Discovery SPL, um braço do Banco Rural nas Bahamas.

A Secretaria de Previdência Complementar, do Ministério da Previdência Social, autua

Paulo Figueiredo, ligado ao PC do B e ex-presidente da Nucleos, o fundo de pensão das

empresas estatais de energia nuclear. Ele é acusado por irregularidades cometidas durante o

governo Lula. Figueiredo e dois ex-diretores da Nucleos haviam sido denunciados por causar

prejuízos ao fundo.

Numa das operações, houve perdas avaliadas em R$ 7,1 milhões em aplicações no Banco

Santos, que posteriormente sofreu intervenção do Banco Central. Teria havido imperícia e

imprudência dos dirigentes da Núcleos. Outro suposto prejuízo, também da ordem de R$ 7

milhões, foi decorrente de operação na BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros). Faltariam

análises prévias dos riscos envolvidos. As suspeitas vieram da baixa rentabilidade apresentada

pelo fundo. Auditoria externa apontou prejuízos de até R$ 22,7 milhões em operações

da Nucleos com títulos públicos, em 2004 e 2005.

13/12/2005 Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara, o deputado Wanderval Santos

(PL-SP), acusado de receber R$ 150 mil do valerioduto, responsabiliza o ex-deputado Carlos

Rodrigues (PL-RJ) pelo saque. Wanderval Santos admite ter sido sócio de Carlos Rodrigues

em empresas radiofônicas. Carlos Rodrigues renunciou ao mandato de deputado federal em

consequência do escândalo do mensalão. Segundo Wanderval, o saque foi efetuado por seu

motorista, a mando de Carlos Rodrigues, em dezembro de 2003. Wanderval reitera que

Rodrigues tinha ingerência sobre assuntos de deputados ligados à Igreja Universal do Reino

de Deus. Diz Wanderval:

- Ele não era somente nosso orientador político, mas nosso orientador espiritual. Nunca

pensamos que pudesse usar nossos funcionários para se locupletar pessoalmente.

14/12/2005 A Câmara dos Deputados absolve o primeiro mensaleiro, cuja cassação fora

recomendada pelo Conselho de Ética. Trata-se do deputado Romeu Queiroz (PTB-MG),

acusado de mandar um assessor sacar R$ 350 mil do esquema de Marcos Valério, e de ter

recebido outros R$ 102 mil, “não-contabilizados”, da empresa siderúrgica Usiminas, por

intermédio da SMPB, agência de publicidade de Marcos Valério.

Em votação secreta, Romeu Queiroz obtém vitória folgada, com 250 votos contra a

cassação. Outros 162 deputados votam pela perda A medida teria favorecido o BMG, líder nacional de empréstimos em

folha de pagamento.

Época informa que a história “esquisita” terminou com a interrupção da entrega das

cartas. De acordo com a reportagem de Thomas Traumann, abriu-se auditoria para apurar

irregularidades e destruíram-se 510 mil cartas, numa operação de prejuízos calculados em

R$ 9,5 milhões. A carta de Lula mencionando o serviço de crédito e o desconto em folha aos

aposentados teria servido como propaganda privada do BMG.

16/1/2005 Conclusão dos técnicos da CPI dos Correios: são R$ 23,9 bilhões os recursos

suspeitos não identificados. A soma é o total da movimentação bancária atribuída a pessoas

e empresas com suposto envolvimento no escândalo do mensalão. Integram o número

bilionário os valores eventualmente desviados em irregularidades ocorridas em órgãos públicos

da administração federal. Todos os R$ 23,9 bilhões dizem respeito a operações em

bancos, das quais não constam as identificações dos nomes dos favorecidos nem tampouco

dos responsáveis pelos depósitos.

Do que foi apurado, as seguintes instituições financeiras não prestaram as informações

solicitadas pela CPI: Safra (operações referentes a R$ 10,7 bilhões), Real – ABN

Amro (R$ 5,9 bilhões), Bradesco (R$ 3,7 bilhões), BankBoston (R$ 2,9 bilhões) e Citibank

(R$ 516 milhões).

17/1/2006 Depoimento à CPI dos Bingos. O economista Paulo de Tarso Venceslau, expulso

do PT em 1998, afirma que desde 1995 dirigentes do PT sabiam de esquema para a

arrecadação de recursos por meio de caixa 2. Naquele ano, o próprio Venceslau enviou

carta registrada em cartório ao então presidente do partido, Luiz Inácio Lula da Silva.

Denunciou que a empresa Cpem (Consultoria para Empresas e Municípios), ligada a

Roberto Teixeira, compadre de Lula, agia de forma irregular em prefeituras administradas

pelo PT. Ela era contratada sem licitação para fazer um trabalho baseado “em notas

falsas e rasuradas”, visando aumentar a arrecadação dos municípios com ICMS. Cobrava

comissão de 20% pelos serviços.

Na década de 80, Lula morou de graça em imóvel de propriedade de Roberto Teixeira,

em São Bernardo do Campo (SP).

Em seu depoimento, Venceslau afirma que a Cpem era apresentada como “empresa amiga

que poderia ajudar nosso partido”. Em 1993, Venceslau era secretário de Finanças da Prefeitura

de São José dos Campos (SP), administrada pela prefeita Ângela Guadagnin (PT226

SP). Venceslau relata que enviou cópias da carta encaminhada a Lula a várias lideranças do

PT, entre as quais os senadores Aloizio Mercadante (PT-SP) e Eduardo Suplicy (PT-SP):

- Levei a denúncia para o Aloizio. Ele ficou chocadíssimo e disse: “Isso é nitroglicerina

pura”. Mas não fez nada. Afirmava que tentava e não conseguia. O silêncio continuou.

Entre os conhecedores do esquema, Venceslau cita lideranças petistas, a saber: Gilberto

Carvalho, Paulo Frateschi, José Genoino, Arlindo Chinaglia, Luiz Eduardo Greenhalgh e

Paulo Okamotto, que ocupou a função de arrecadador de dinheiro para o partido. Venceslau

lembra-se do recado que diz ter recebido na época de Frei Betto, amigo de Lula:

- Para explicar a situação, Frei Betto falou: “Se o Lula souber que alguém está conversando

com você, ele jura que aquela pessoa vai ser decapitada do partido”. Ninguém teve

ousadia ou coragem para ficar do meu lado.

Venceslau acusa Paulo Okamotto:

- O Paulo, que não tinha função nenhuma no partido, me chamou de lado e me admoestou,

dizendo: “Olha, rapaz, você precisa ter cuidado com o que fala”. Ele era o bate-pau, o

pau mandado que executa qualquer tarefa, não quer saber se é lícito ou não. O mesmo

Paulo, que hoje é presidente do Sebrae, pedia nas prefeituras do PT a lista de empresários

fornecedores, que tinham dinheiro para receber, com objetivo de visitá-los.

Para Venceslau, o seu afastamento da Prefeitura de São José dos Campos, em 1993,

decorre do veto que impôs ao contrato com a Cpem. Entrevistada, a deputada Ângela

Guadagnin (PT-SP), ex-prefeita do município, afirma que Venceslau foi demitido devido a

“dificuldades de relacionamento”, mas reconhece que auditoria na época constatou fraude e

o contrato com a Cpem foi interrompido. Em relação a Paulo Okamotto, a ex-prefeita confirma

que ele a procurou, atrás da lista de empresas fornecedoras da Prefeitura:

- Okamotto não era um Marcos Valério, estava mais para Delúbio. O que fica desse

episódio é que se conhecia o esquema de arrecadação paralela há muito tempo, desde 1993.

Questionada se considerava normal o procedimento de Paulo Okamotto, Ângela

Guadagnin dá a seguinte resposta:

- Não estou dizendo se era dinheiro ou caixa 2, mas que ele poderia se apresentar a um

fornecedor, a qualquer empresa, e solicitar uma doação.

Técnicos da CPI dos Correios identificam 82 depósitos em dinheiro, sem registros dos

nomes dos depositantes, nas contas bancárias do BankBoston ligadas ao publicitário Duda

Mendonça e à sócia dele, Zilmar Fernandes da Silveira. Os depósitos somam R$ 2,2 milhões,

sendo que 46 deles foram feitos a partir de 2003. Zilmar Fernandes da Silveira recebeu

41 depósitos sem identificação. O maior deles, de R$ 255 mil, em 20 de dezembro de

2002, logo após a eleição de Lula. O depósito mais alto saiu em nome da Comunicação e

Estratégia Política, empresa de marketing de Duda Mendonça. Recebeu R$ 400 mil em 31

de agosto de 2004, ano de eleições municipais.

18/1/2006 A CPI dos Bingos apresenta relatório preliminar sobre o caso Caixa Econômica

Federal/Gtech, que investiga contrato de R$ 650 milhões assinado entre a estatal do

governo brasileiro e a multinacional norte-americana. O relator da CPI, senador Garibaldi

Alves (PMDB-RN), solicita o indiciamento de três empresas e 34 pessoas. Entre elas, o

presidente da Caixa, Jorge Mattoso, e o secretário particular do ministro Antonio Palocci

(PT-SP), Ademirson Ariosvaldo da Silva. Fazem parte da lista Waldomiro Diniz, assessor

do então ministro José Dirceu (PT-SP), e Rogério Buratti e Vladimir Poleto, do círculo

ligado a Antonio Palocci (PT-SP) na época em que o ministro da Fazenda era prefeito de

Ribeirão Preto (SP).

Para Garibaldi Alves, há indícios de que os grupos liderados pelos ministros Antonio

Palocci e José Dirceu disputaram a propina da Gtech. Ele denuncia os suspeitos de

envolvimento por formação de quadrilha, corrupção passiva, crime contra o procedimento

licitatório e improbidade administrativa. O relator acrescenta os crimes de falsidade ideológica

e tráfico de influência para Poleto, e os de lavagem de dinheiro e contra a ordem

tributária para Buratti.

Também existem pedidos de indiciamento para Marcelo Rovai e Antonio Carlos Lino da

Rocha, respectivamente ex-diretor e ex-presidente da Gtech. Segundo eles, Waldomiro Diniz

e Rogério Buratti tentaram extorquir R$ 6 milhões da multinacional, para permitir a renovação

do contrato. Rogério Buratti nega. Diz que a Gtech ofereceu até R$ 16 milhões em

propina por novo contrato de operações de loterias com a Caixa.

Mesmo com todo o rolo, o contrato foi assinado.

Garibaldi Alves também quer a punição das empresas MM Consultoria e S. Santos Assessoria,

de propriedade do advogado Walter Santos Neto. Ele recebeu R$ 5 milhões da

Gtech, dinheiro suspeito de ser propina repassada pela multinacional, em troca do contrato.

O advogado teria atuado como intermediário. Para o senador, Walter Santos Neto mentiu ao

justificar o uso do dinheiro investigado. Garibaldi Alves acusa Walter Santos Neto e funcionários

dele de sacarem R$ 2,4 milhões em dinheiro vivo:

- Alguns desses saques foram feitos com carro-forte e entregues a ele em sua casa ou

no escritório.

19/1/2006 Em depoimento à CPI dos Bingos, o motorista Éder Eustáquio de Macedo

confirma que dirigiu o Omega blindado no qual viajaram Ralf Barquete, secretário de

Finanças de Ribeirão Preto (SP), Vladimir Poleto, assessor do então prefeito Antonio

Palocci, e as três caixas de bebida que conteriam dólares de Cuba destinados à campanha

de Lula em 2002.

Nervoso e mostrando dificuldades para responder as perguntas, Éder Eustáquio de

Macedo dá respostas monossilábicas e fica em silêncio durante longos períodos. Admite

ter feito viagem do aeroporto de Amarais (SP) a São Paulo, mas garante não ter saído do

carro em nenhum momento. A única coisa que fez foi abrir o porta-malas, acionando

botão no painel do carro. Foram os passageiros que colocaram e retiraram a bagagem do

porta-malas. Éder Eustáquio de Macedo diz que a carga foi deixada numa churrascaria

em São Paulo, onde também ficou Vladimir Poleto. Ralf Barquete foi levado depois para

o aeroporto de Congonhas.

Antes de depor, Éder Eustáquio de Macedo foi assessorado pelo advogado Hélio Silveira,

defensor de Ademirson Ariosvaldo da Silva, secretário particular de Antonio Palocci. O

escritório do advogado também teria quitado as despesas de hospedagem do motorista em

Brasília. Éder Eustáquio de Macedo foi empregado como motorista do

Ministério da Fazenda, no Rio.

20/1/2006 O Conselho de Ética da Câmara aprova, por 10 votos a 3, a cassação do mandato

do deputado Wanderval Santos (PL-SP). Ele é apontado como beneficiário de R$

150 mil do valerioduto. O dinheiro foi sacado por seu motorista no Banco Rural. Wanderval

argumentou que não soube da operação bancária, e que os recursos foram retirados por

ordem do ex-deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ), que renunciou ao mandato para

escapar da cassação.

No parecer em que recomendou a cassação, o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) acusa

Wanderval Santos pela prática de “mandato terceirizado”, “submissão interessada” e “submissão

negociada” ao ex-deputado Carlos Rodrigues, ex-líder da Igreja Universal do Reino

de Deus. Wanderval Santos também teria se desligado da igreja.

O jornal Folha de S.Paulo publica levantamento segundo o qual o publicitário Duda

Mendonça fez transferências de R$ 4 milhões de conta do BankBoston nos dias que

antecederam o depoimento dele à CPI dos Correios, em agosto. Transferiu R$ 500

mil a Marcelo Mascarenhas Kertész, seu genro, R$ 2,5 milhões à Nov Patrimonial,

empresa que pertence aos cinco filhos do publicitário, e R$ 1 milhão para a agência

Duda Mendonça Associados.

As duas primeiras transferências ocorreram em 5 de agosto, um dia após o policial

David Rodrigues Alves prestar depoimento à CPI e afirmar que sacava dinheiro do

valerioduto para entregar a Zilmar Fernandes da Silveira, sócia de Duda. A terceira transferência

foi em 10 de agosto, um dia depois do jornal Correio Braziliense noticiar a existência

da offshore Dusseldorf, por meio da qual Duda teria recebido recursos de caixa 2

pelos serviços de marketing prestados por ele durante a campanha eleitoral de 2002.

O caso Cuba. O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Nelson Jobim,

impede a CPI dos Bingos de usar informações obtidas por meio da quebra dos sigilos bancário,

fiscal e telefônico de Roberto Carlos Kurzweil. O empresário é dono da locadora de

automóveis que cedeu o Omega para transportar as três caixas de bebida nas quais teriam

sido acondicionados dólares trazidos de Cuba para a campanha de Lula em 2002.

21/1/2006 Mais uma denúncia contra Duda Mendonça. De acordo com reportagem da revista

Veja, o publicitário, familiares dele e a sócia Zilmar Fernandes da Silveira receberam

ao menos US$ 15 milhões em cinco contas bancárias de agência do Bank of América, em

Miami. “Tudo dinheiro de caixa 2”, escreve o repórter Marcio Aith. Uma das contas é ligada

à offshore Dusseldorf, pela qual Duda Mendonça admitiu que pôs as mãos em R$ 10,5

milhões, transferidos pelo valerioduto, para pagar os serviços prestados à campanha eleitoral

de 2002. A bolada equivaleu a US$ 3 milhões.

A segunda conta é anterior, de 1993. Está em nome de uma outra empresa no paraíso

fiscal das Bahamas, mas o beneficiário é Duda Mendonça. Ficava originalmente no

BankBoston, fundido em 2003 ao Bank of América. Por essa conta, o publicitário teria

recebido US$ 8 milhões, “das mais suspeitas e remotas origens”. Da reportagem:

“Como nunca declarou ao fisco, pode-se dizer que sua incursão no mundo do caixa 2 não

nasceu com o petismo, como jura às lágrimas. Já dura pelo menos 13 anos. As outras três

contas do ‘dudaduto’ no Bank of América não são propriamente do publicitário. São (ou

foram) de empresas nas Bahamas que têm ou tiveram as seguintes pessoas como beneficiárias:

sua filha Eduarda Mendonça; alguém identificado como sendo ‘sua mulher’; e sua sócia

Zilmar Fernandes Silveira.”

Veja também publica entrevista com o relator da CPI dos Correios, deputado Osmar

Serraglio (PMDB-PR). Ele afirma ao repórter Alexandre Oltramari que a comissão de inquérito

vai investigar se o dinheiro movimentado por Duda Mendonça tem ligação com o

financiamento de campanhas políticas do PT:

- Marcos Valério, que sempre foi apontado como o grande responsável pela operação do

caixa 2 do PT, agora parece apenas um apêndice do esquema que tinha Duda Mendonça

como personagem central.

- Duda Mendonça era frequentador assíduo do Palácio do Planalto. Dá para acreditar

que o presidente também não sabia de nada a respeito das maracutaias do

publicitário?

- Que o presidente Lula tinha ciência, ele tinha. Só não posso dizer quanto ele sabia. O

suposto empréstimo ao PT, por exemplo, está hoje em R$ 100 milhões. À Coteminas, empresa

do vice José Alencar, o PT deve R$ 11 milhões. Duda Mendonça disse que fez as

campanhas do partido do presidente por R$ 25 milhões mas recebeu apenas R$ 10,5 milhões.

Duda, portanto, ainda tem R$ 14,5 milhões para receber. O PT ia construir uma sede

em São Paulo com R$ 15 milhões. É difícil acreditar que Lula não viu um caixa paralelo de

mais de R$ 140 milhões.

- O presidente disse na televisão que não acredita na existência do mensalão.

- O presidente está errado ao dizer que não existem provas do mensalão. É um absurdo.

Eu sou advogado. O tesoureiro do PT confessa ter distribuído dinheiro a deputados, líderes

e presidentes de partidos da base aliada. Há extratos bancários demonstrando isso. Há a

confissão e a renúncia de líderes e presidentes de partidos. Há coincidências de repasse de

dinheiro com a mudança de parlamentares de partido e com votações de interesse do governo.

Só o PL, que deu o vice a Lula, recebeu 24 transferências em menos de seis meses de

2003. São pagamentos semanais, contínuos, em valores muito semelhantes. Como é que

não existem provas do mensalão?

Para Osmar Serraglio, Lula pode ser responsabilizado por negligência:

- O presidente não conseguiu reconhecer indícios de corrupção no partido dele. Não

conseguiu perceber como seu partido foi eleito com uma minoria e formou uma maioria.

Ele foi negligente no governo. Escolheu José Dirceu como seu braço-direito. Ele tinha de

ter sido mais vigilante, tinha de ter se dado conta das coisas que estavam acontecendo. É

responsabilidade dele.

Negligência é motivo para impeachment. Diz Osmar Serraglio:

- Alguém pode ser cassado sem sequer saber o que aconteceu, apenas porque o que

aconteceu estava sob seu comando. Ele pode ser cassado porque nomeou, porque é o comandante.

No julgamento político não é necessária a comprovação da culpa, mas apenas o

convencimento da culpa pelos pares que vão participar do julgamento.

26/1/2006 Em depoimento à CPI dos Bingos, o ministro Antonio Palocci (PT-SP) nega

irregularidades em serviços de varrição de rua em Ribeirão Preto (SP). Nega a existência de

contratos ilegais na época em que foi prefeito da cidade. Nega ter havido caixa 2 nas eleições

de 2002, quando coordenou a campanha de Lula. Nega a doação de dólares de Cuba

para ajudar a eleição do presidente do PT. Nega o recebimento de dinheiro de casas de bingo

para a campanha eleitoral. Como ministro da Fazenda de Lula, nega irregularidades no

contrato entre a Caixa Econômica Federal e a multinacional Gtech.

Com fala mansa e pausada, jeito tranquilo, Antonio Palocci, de forma serena, diz ser

“fantasiosa” as informações de seu ex-secretário de Governo em Ribeirão Preto, Rogério

Buratti, que admitiu ter ouvido menções à operação Cuba. O ministro da Fazenda também

é questionado sobre a propina de R$ 50 mil que, segundo o mesmo Rogério Buratti, era

repassada a ele, Palocci, mensalmente, na Prefeitura de Ribeirão Preto. Diz o ministro:

- Não é verdade.

- Então ele é mentiroso?

- Não quero me pronunciar dessa forma.

Lula comenta o depoimento:

- O Palocci é um monumento de sinceridade, é um monumento de inteligência. Eu acho

que, quem assistiu, saiu convencido de que o espetáculo que a CPI queria dar não aconteceu,

porque o Palocci foi muito sincero, muito honesto e muito digno.

O Conselho de Ética da Câmara aprova pareceres recomendando a cassação dos mandatos

dos deputados Professor Luizinho (PT-SP) e Roberto Brant (PFL-MG). A votação de

Roberto Brant termina empatada em 7 votos a 7, e é desempatada pelo deputado Ricardo

Izar (PTB-SP), presidente do Conselho de Ética. Roberto Brant recebeu R$ 102 mil do

valerioduto, mas alegou que era doação da Usiminas para a sua campanha a prefeito de Belo

Horizonte.

Já a cassação de Luizinho é aprovada no Conselho de Ética por 9 votos a 5. O petista

apareceu na lista de Marcos Valério como beneficiário de R$ 20 mil. O dinheiro foi sacado

no Banco Rural pelo assessor José Nilson dos Santos. Luizinho foi acusado de ter

intermediado a conversa entre o assessor e o tesoureiro do PT, Delúbio Soares. O deputado

garantiu desconhecer a origem dos recursos, e disse que não ficou com o dinheiro. Não

convenceu.

28/1/2006 A revista Época publica levantamento sobre operações supostamente fraudulentas

que envolvem o Banco do Brasil. Transações com a BM&F (Bolsa de Mercadorias &

Futuros) teriam provocado prejuízos de R$ 30,9 milhões ao banco federal. Os dados estão

com a CPI dos Correios. As operações teriam as digitais de Lúcio Funaro, doleiro bem

relacionado no meio político. Ele mantém ligações com a corretora Guaranhuns, intermediária

na transferência de R$ 6,5 milhões do caixa 2 do PT para o PL.

As investigações da comissão sobre as perdas do Banco do Brasil, ocorridas entre janeiro

e novembro de 2003, abrangem 12 operações com um procedimento financeiro chamado

swap. Trata-se de empréstimos recíprocos entre bancos, em moedas diferentes com taxas de

câmbio iguais. Costuma ser utilizado para antecipar recebimentos em divisas estrangeiras.

O diabo é que as transações do Banco do Brasil com Lúcio Funaro terminavam sempre

dando menos do que poderiam à estatal. Em seguida rendiam dinheiro ao doleiro, que obtinha

melhores cotações no mercado.

A reportagem de Leandro Loyola informa que “todo mundo enxergava as melhores

taxas, menos a turma do Banco do Brasil”. Em Brasília, de acordo com Época, “suspeitase

que Funaro seja um intermediário especializado em desviar dinheiro público pelo mercado

financeiro”. A revista entrevista o sócio de uma grande corretora de São Paulo, que

define Lúcio Funaro:

- Ele monta operações de cartas marcadas, transforma reais em dólares, lava o dinheiro

e o envia para o exterior se o cliente quiser.

29/1/2006 O jornal Folha de S.Paulo traz relação de providências importantes que a CPI dos

Correios deixou de tomar, após sete meses de apuração do escândalo do mensalão. A reportagem

de Rubens Valente e Fernanda Krakovics mostra que não foram quebrados os sigilos

de todas as movimentações do Banco Rural e do BMG, para se ter acesso completo a operações

conduzidas por ambas instituições.

O procedimento possibilitaria saber se o Banco Rural e o BMG fizeram transações com

bancos estatais, corroborando ou não a tese de que havia recursos públicos por trás dos

empréstimos ao PT. A quebra dos sigilos traria dados sobre eventuais internações de capital

por meio de empresas offshore ou outros bancos do exterior, próximos das datas dos R$

55,8 milhões movimentados pelo valerioduto. Da reportagem:

“A confirmação desse tipo de transação levantaria a hipótese de que os recursos pudessem

ser do próprio PT, mantidos em alguma conta não declarada no exterior.”

Decisão grave da CPI foi a de não solicitar a quebra dos sigilos bancários, telefônicos e

fiscais de todos os deputados acusados de receber o mensalão. Teve amparo no “acordo”

segundo o qual a medida seria tomada em âmbito da CPI do Mensalão, o que não ocorreu.

A CPI dos Correios jamais solicitou as listas completas dos assessores de deputados e senadores

no Congresso Nacional, para cruzar com os nomes dos beneficiados por movimentações

financeiras das empresas de Marcos Valério nos bancos suspeitos.

30/1/2006 Depoimento confuso à Polícia Federal. O presidente do PL, ex-deputado Valdemar

Costa Neto (SP), afirma que, em 2002, numa transação intermediada por assessores dele,

emprestou R$ 3 milhões do doleiro Lúcio Funaro, para efetuar despesas da campanha de

Lula. Para a CPI do Mensalão, ele havia dito que não manteve qualquer relacionamento

com a Guaranhuns.

Antes do depoimento à comissão, porém, Valdemar Costa Neto dissera que, por conta da

aliança eleitoral com o PT, recebera cheque nominal da corretora, posteriormente convertido

em dinheiro. Interessante recordar o que Valério havia dito. Segundo ele, a Guaranhuns

recebeu R$ 6,5 milhões do caixa 2 do PT destinados ao PL. Valério também negou a história

do cheque nominal.

De volta ao depoimento à Polícia Federal: ao argumentar que não conhecia Lúcio

Funaro, Valdemar Costa Neto explicou que o empréstimo de R$ 3 milhões fora tomado

junto a um “agiota”, a quem desconhecia na época. O ex-deputado garantiu que todo o

empréstimo foi integralmente destinado ao pagamento de dívidas de campanha, mas não

apresentou os comprovantes.

31/1/2006 Depoimento à Polícia Federal: José Genoino (SP), ex-presidente nacional do

PT, procura se eximir de responsabilidade por ter assinado, como avalista, empréstimos

que o partido tomou junto ao Banco Rural e ao BMG. Afirma que seguiu “decisão conjunta

do Diretório Nacional”, e que “os detalhes não foram tratados por mim”. Culpa o

tesoureiro do PT:

- A negociação e a escolha das instituições financeiras ficaram a cargo do Delúbio Soares.

Eu simplesmente assinei como avalista.

Apesar de presidente do PT na época, José Genoino sustenta que deixou os pedidos de

empréstimos nas mãos de Delúbio Soares, “em confiança”.

- Minhas funções eram eminentemente políticas na presidência. As funções administrativas,

gerenciais e financeiras eram de competência do Delúbio.

1/2/2006 Em depoimento à Polícia Federal, Roberto Jefferson (PTB-RJ) admite ter recebido

doação ilegal de R$ 75 mil para a campanha eleitoral de 2002. Veio de esquema operado

por Dimas Toledo, ex-diretor de Engenharia de Furnas Centrais Elétricas. De acordo com

Roberto Jefferson, Dimas Toledo levou a quantia pessoalmente a seu escritório político, em

dinheiro vivo. O diretor de Engenharia da estatal federal só deixou o cargo em 2005, depois

que Roberto Jefferson denunciou seu envolvimento no escândalo do mensalão.

A Polícia Federal investiga a autenticidade de um dossiê conhecido como “Lista de

Furnas”. Apura eventual envolvimento de Dimas Toledo com o “documento”. Ele nega. A

relação traz os nomes de 156 políticos, a grande maioria de oposição ao governo Lula. Eles

teriam recebido R$ 40 milhões do caixa 2 de Furnas Centrais Elétricas, durante a campanha

eleitoral de 2002.

A relação de nomes está em papel timbrado de Furnas, mas o carimbo de um cartório de

Belo Horizonte poderia ter sido falsificado. A suposta fraude serviria como manobra

diversionista. Desviaria a atenção do escândalo do mensalão. Surte efeito. Trava os trabalhos

da CPI dos Correios.

O repórter Fernando Rodrigues, da Folha de S.Paulo, informa que a difusão da “Lista de

Furnas” pela internet foi feita por um militante do PT de Belo Horizonte. Ele teria recebido

fotocópia da relação do deputado Rogério Correia (PT-MG). Rogério Correia diz que a

obteve do lobista Nilton Monteiro. E Nilton Monteiro, por sua vez, afirma ter entregado o

“documento” a um advogado, já morto. E assim o original não existiria mais.

Em entrevista ao repórter Maurício Dias, da revista Carta Capital, Roberto Jefferson fala

sobre Dimas Toledo, “Lista de Furnas” e do envolvimento de Lula com o caso. Segundo Jefferson,

“Dimas é um homem de tamanho prestígio, de tamanha força, que metade das pessoas incluídas

na lista me ligou quando o presidente Lula pediu um nome para substituí-lo em Furnas”.

- O senhor já tinha falado desse caixa 2 em Furnas, não?

- Sim, numa entrevista para a Folha de S.Paulo. Falei de um encontro com o Zé Dirceu.

Ele me explicou como funcionava e pediu para que o Dimas permanecesse fazendo o caixa

do PT e do PTB. Mas o presidente Lula não queria a permanência do Dimas, que ele considerava

extremamente tucano. Mas o Dirceu queria que ele permanecesse. Nessa época, o

Dimas já transferia dinheiro para o PT. Entregava dinheiro ao Delúbio.

- O que aconteceu?

- Lula reagiu. “Por que recuou?”, perguntou o presidente. “Muita pressão”, respondi. “E

você não sabe resistir à pressão?”, insistiu Lula. Eu disse, “então está fechado. Vamos trocar”.

O Dirceu protestou e disse que se eu tivesse insistido o Dimas ficaria.

- E por que não insistiu?

- Eu disse que era ruim manter o cara. Aí foi a origem de todo o meu problema com

Dirceu. Por ter tentado remover o doutor Dimas dessa posição poderosíssima de apoio aos

partidos políticos. Ele era tão poderoso que governadores me ligaram para que eu não o

tirasse, que não insistisse na troca.

De acordo com Roberto Jefferson, ele havia feito um trato com o ex-ministro José Dirceu,

para que os R$ 4 milhões de caixa 2 gerados por Furnas Centrais Elétricas fossem

divididos, meio a meio, entre PT e PTB. Isso sem contar “a celebração de novos contratos

em volumes vultosíssimos”:

- Essa posição de Furnas só não era maior do que a posição da Petrobras. É uma das mais

poderosas posições políticas do Brasil. É disputada em luta de carnificina pelos partidos.

Exatamente em razão do financiamento eleitoral.

O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados aprova, por 11 votos a 3, pedido de

cassação do mandato do presidente do PP, deputado Pedro Corrêa (PE). Ele é acusado de ter

recebido R$ 4,1 milhão de Marcos Valério, mas só admite o recebimento de R$ 700 mil. O

dinheiro do caixa 2 do PT teria sido usado para pagar serviços de advocacia em defesa do

ex-deputado Ronivon Santiago (PP-AC). A versão de Pedro Corrêa, contudo, foi rechaçada

pelo relator do caso, deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP). Do parecer que traz o pedido de

cassação do presidente do PP:

“Corrêa exigiu, como parte da negociação que culminaria com o ingresso do PP na base

aliada, que o PT efetuasse repasses de recursos a seu partido.”

2/2/2006 A Polícia Federal indicia o publicitário Duda Mendonça e a sócia dele, Zilmar

Fernandes da Silveira. Ambos vão responder por evasão de divisas, lavagem de dinheiro e

operações realizadas em paraísos fiscais. Duda Mendonça não declarou à Receita Federal

os R$ 10,5 milhões que admitiu ter recebido do PT no exterior, por serviços prestados na

campanha eleitoral de 2002. Tampouco informou que era o dono da offshore Dusseldorf,

aberta nas Bahamas para lavar dinheiro. Apesar do indiciamento, Duda Mendonça mantém

o contrato para a prestação de serviços publicitários à Petrobras.

5/2/2006 O ministro Antonio Palocci (PT-SP) apresentou versão falsa em depoimento à CPI

dos Bingos. Disse que o PT pagou as despesas do aluguel do jatinho particular usado por

ele, em 23 de julho de 2003. Naquele dia, Palocci fez viagem de ida e volta de Brasília a

Ribeirão Preto (SP). Os repórteres Mario Cesar Carvalho e Leonardo Souza, da Folha de

S.Paulo, procuraram notas fiscais e recibos que comprovassem o aluguel do avião em

diretórios do PT. Nada acharam. O dono da aeronave, empresário José Roberto Colnaghi,

reconheceu: não houve pagamento. Da reportagem:

“A história é uma farsa. Não houve pagamento pelo jatinho.”

Em seu depoimento à CPI, Antonio Palocci dissera:

- O PT disponibilizou um avião particular, alugou um avião para fazer a viagem.

José Roberto Colnaghi também é dono do avião que teria transportado dólares de Cuba

para o PT. Palocci nega a doação do governo cubano, como negou a veracidade da notícia

publicada nos jornais de que viajara no avião de José Roberto Colnaghi. Na CPI dos Bingos,

porém, o empresário confirmou tudo. Aí veio Palocci, com a história do aluguel do avião.

Agora, novamente, o ministro foi desmentido. Do Código de Conduta da Alta Administração

Federal, em vigor desde o ano 2000, em seu artigo 7°:

“A autoridade pública não poderá receber salário ou qualquer outra remuneração de

fonte privada em desacordo com a lei nem receber transporte, hospedagem ou quaisquer

favores de particulares de forma a permitir situação que possa gerar dúvida sobre a sua

probidade ou honorabilidade.”

Em carta enviada à CPI dos Bingos, José Roberto Colnaghi complica a situação de Antonio

Palocci. Reafirma que não alugou o avião ao PT:

“Declaro, enfaticamente, que a referida aeronave, que é utilizada para minhas atividades

industriais, pecuárias e de lazer, jamais foi locada a terceiros, nem cobrado qualquer reembolso

por todos quantos nela já viajaram.”

8/2/2006 Soraya Garcia, assessora financeira do PT de Londrina (PR) nas eleições de 2004,

presta depoimento à CPI dos Bingos. Afirma que a empresa Itaipu Binacional doou R$ 400

mil de caixa 2 para a campanha de reeleição do prefeito Nedson Micheletti (PT). Acusa a

multinacional norte-americana Gtech de ter quitado aluguéis de veículos usados na campanha.

Reitera que o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo (PT-PR), participou do esquema.

E confirma que o ex-ministro José Dirceu (PT-SP) levou R$ 300 mil em dinheiro vivo

para irrigar o caixa do PT de Londrina nas eleições daquele ano.

Soraya Garcia diz que a campanha recebeu 20 mil camisetas fabricadas pela

Coteminas, do vice-presidente José Alencar (PL-MG), todas transportadas em caixas

da agência de publicidade DNA, de Marcos Valério. A ex-assessora conta que, pressionada

pela Justiça Eleitoral para explicar a origem das camisetas, conseguiu nota fiscal

fria, da própria Coteminas, depois de muito insistir. O documento foi providenciado

pelo tesoureiro Delúbio Soares.

9/2/2006 O Conselho de Ética da Câmara rejeita, por 9 votos a 5, parecer que recomendava

a cassação do ex-líder do PP, deputado Pedro Henry (MT). É o primeiro caso em que o

Conselho de Ética derruba o voto do relator. Pedro Henry foi acusado por Roberto Jefferson

de distribuir recursos do caixa 2 do PT para a bancada do PP, e de pressionar o líder do PTB,

deputado José Múcio (PE), para que os petebistas também participassem do mensalão.

De acordo com o relator do caso Pedro Henry, deputado Orlando Fantazzini (PSOLSP),

houve uma “união espúria entre PP e PT”, resultado de reuniões das quais participaram,

pelo PP, Pedro Henry, José Janene (PR) e Pedro Corrêa (PE). Teriam repassado R$

4,1 milhões do valerioduto ao PP. Trecho da entrevista de Jefferson à Folha de S.Paulo,

em 6 de junho de 2005:

- Me lembro de uma ocasião em que o Pedro Henry tentou cooptar dois deputados do

PTB oferecendo a eles mensalão, que ele recebia de repasse do doutor Delúbio. E eu

pedi ao deputado Íris Simões que dissesse a ele: se fizer, eu vou para a tribuna e denuncio.

Morreu o assunto.

Em entrevista ao blog Nos Bastidores do Poder, do jornalista Josias de Souza, Roberto

Jefferson afirma que o ex-ministro José Dirceu lhe propôs a partilha da “sobra” mensal do

esquema montado em Furnas Centrais Elétricas. O presidente do PTB cita o diretor de

Engenharia da estatal, Dimas Toledo:

- Dava R$ 4 milhões. R$ 1 milhão ficaria para despesas de diretoria que o Dimas teria,

R$ 1,5 milhão iria para o PTB e R$ 1,5 milhão para o PT.

- O senhor chegou a conversar sobre isso com o próprio Dimas?

- Sim. Ele esteve em minha casa, em abril do ano passado, a pedido do Zé Dirceu.

- Ele queria o quê?

- Formalizar o acordo. Me disse que ficaria para o PTB R$ 1,5 milhão por mês e para o

PT R$ 1,5 milhão. Reforçou a conversa que o Zé Dirceu já havia acertado. Eu voltei ao Zé,

contei os termos e perguntei: “Está fechado?” Ele disse: “Fechado”. Foi quando Lula deu

para trás. Disse: “Não, esse cara é um traidor. Ele é tucano. Botamos R$ 1,5 milhão na

Cemig, para fazer o programa Luz para Todos nas favelas, e ele só botou placa do governo

do Aécio”.

- A proposta da partilha foi feita para que o senhor concordasse com a manutenção

do Dimas?

- Exato. Quem ficava com tudo naquela época era o Delúbio. Tinha também um “grupo

dos 12” do PSDB, que ficava com R$ 600 mil por mês. E três eu sei com certeza: Piauhylino,

Osmânio Pereira e Salvador Zimbaldi.

O jornalista Janio de Freitas, da Folha de S.Paulo, comenta o trecho da entrevista no qual

Roberto Jefferson disse que “Lula deu para trás”, e aquele no qual o presidente da República

afirmou que Dimas Toledo “é um traidor”, porque teria beneficiado o governador de

Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB):

“O que está implícito na descrição feita por Jefferson é o conhecimento do esquema

ilegal por Lula, na condição de palavra final e decisiva. A descrição faz depreender também

que, não fosse a omissão em uma placa, o acordo seria aprovado. Lula não ‘daria para trás’

se, em outra afirmação de Jefferson, a verba mensal já existia e até então ficava para o PT e

um grupo seleto de deputados de outros partidos.”

Na entrevista de 6 de junho de 2005 à Folha de S.Paulo, Jefferson fornecera outros

números do caixa 2 de Furnas Centrais Elétricas. Falou em R$ 3 milhões, divididos da

seguinte forma: R$ 1 milhão para o PT nacional, R$ 1 milhão para o PT de Minas Gerais,

R$ 500 mil para a diretoria de Furnas e R$ 500 mil para um grupo de deputados. Em entrevista

ao jornal O Estado de S. Paulo, dá números uma vez mais diferentes:

- Dimas esteve na minha casa para tratar da partilha. No total eram R$ 4 milhões. R$ 1,5

milhão para o PT e R$ 1,5 milhão para o PTB, mensais, além de R$ 400 mil para as despesas

de diretoria que o Dimas teria. Outros R$ 600 mil eram para o grupo dos 12 do PSDB.

Jefferson relata à repórter Ana Paula Scinocca que, diante da recusa de Lula em manter

Dimas Toledo em Furnas, tentou substituí-lo por Francisco Spirandel, indicação do PTB.

Estava tudo acertado. Aí a revista Veja publicou a reportagem em que Maurício Marinho,

funcionário dos Correios, aparecia em gravação pegando propina. Eclodiu o escândalo do

mensalão e suspenderam a posse de Francisco Spirandel. Diz Jefferson:

- É por isso que eu sempre disse que tinha o dedo da Abin. Isso aconteceu em razão de o

PT querer caixa único.

O jornal O Estado de S. Paulo também informa que Furnas, anualmente, faz investimentos

da ordem de R$ 1 bilhão. A estatal federal é responsável pela segunda maior parcela de

geração de energia no Brasil, só perdendo para a Itaipu Binacional. A repórter Irany Tereza

relaciona os supostos bens de Dimas Toledo, funcionário de Furnas por 30 anos: apartamento

na Barra da Tijuca (RJ), casa em Lorena (SP), três casas, apartamento e terreno em

Resende (RJ), 15 alqueires de terra em Bocaina (MG) e três automóveis. E isso sem contar

os imóveis transferidos para os filhos.

15/2/2006 Em depoimento à CPI dos Correios, Dimas Toledo, ex-diretor de Engenharia

de Furnas Centrais Elétricas, reconhece ter sido o único alto funcionário da estatal a

permanecer no cargo, após as eleições de 2002. Ele nega dispor de padrinho político.

Diz que a decisão de mantê-lo em Furnas foi da então ministra de Minas e Energia,

Dilma Rousseff (PT-RS).

Dimas Toledo admite encontro com o ex-tesoureiro Delúbio Soares, no fim de 2002.

Segundo ele, Delúbio Soares visitou a estatal “para conhecer o que era Furnas, como funcionava”.

Dimas Toledo também recebeu a visita de Silvio Pereira, secretário-geral do PT na

época. Foi em 2003. Durante a reunião, “Silvinho” pediu o organograma de Furnas.

Opinião de Dimas Toledo sobre o encontro com Delúbio Soares:

- Conheci o Delúbio Soares no final de 2002. A eleição já tinha acabado. Ele queria saber

o que Furnas fazia. Tivemos uma boa conversa.

Agora, sobre Silvinho:

- Nunca conversei com Silvio sobre contratos ou serviços de empreiteiras para Furnas. A

última vez que falei com ele foi no início de 2005.

A Polícia Federal apura o envolvimento dos três filhos de Dimas Toledo em esquema de

cobrança de propina de construtoras e prestadoras de serviços contratadas por Furnas. Suspeita-

se que empresas eram induzidas a contratar consultorias de fachada, indicadas por

Dimas, para viabilizar os acertos.

16/2/2006 A Polícia Civil de Goiás indicia Delúbio Soares por peculato. O ex-tesoureiro é

acusado de apropriação indevida de dinheiro público. Ele recebeu salários mensais que

variaram de R$ 1.240 a R$ 1.400, em 2001 e 2002, como se estivesse prestando serviços ao

Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás. Na época Delúbio trabalhava em São

Paulo, para o PT. As presidentes da entidade sindical naquele período, Noeme Diná, já

indiciada, e Neyde Aparecida (PT-GO), eleita deputada, assinaram comprovantes falsos de

que Delúbio cumpria jornadas de trabalho de 40 horas semanais em Goiânia.

O Conselho de Ética da Câmara aprova, por 10 votos a 3, a cassação do deputado João

Magno (PT-MG). Acusado de envolvimento no escândalo do mensalão, ele admitiu ter recebido

R$ 426 mil das contas de Marcos Valério. Garantiu, porém, que usou o dinheiro para

pagar despesas da campanha política de 2002, quando se elegeu deputado, e das eleições de

2004, quando disputou e perdeu a Prefeitura de Ipatinga (MG). João Magno não registrou

os recursos na Justiça Eleitoral. Diz que aguardava documentos do PT sobre a origem da

contribuição. Depois que o escândalo do mensalão veio à tona, aí, sim, decidiu prestar

contas ao Tribunal Regional Eleitoral. 19/2/2006 Mais indícios de caixa 2 na relação Duda Mendonça/PT. A CPI dos Correios fez

levantamento sobre R$ 9,3 milhões oficialmente destinados ao publicitário por comitês

eleitorais do PT, para pagar serviços prestados a seis candidaturas do partido nas eleições

municipais de 2004. Os técnicos não encontraram registros de que o dinheiro tenha sido

depositado nas contas da Cep (Comunicação e Estratégia Política), a empresa de Duda

Mendonça responsável pelos trabalhos. Tampouco há depósitos em outras contas bancárias

ligadas dele. É como se Duda não tivesse recebido pelos serviços.

O repórter Diego Escosteguy, de O Estado de S. Paulo, ouviu as desculpas costumeiras.

Do advogado de Duda Mendonça, Tales Castelo Branco:

- Quem tem que explicar como se deram os pagamentos é o PT. Duda recebeu pelos

serviços prestados e já explicou tudo à Receita Federal.

Para o tesoureiro do PT, Paulo Ferreira, a responsabilidade não é do partido, mas dos

comitês eleitorais:

- Não participamos dos contratos dos comitês municipais.

A lógica: o dinheiro foi repassado para Duda Mendonça em paraísos fiscais no exterior.

Ou, para quem quiser acreditar: os recursos de caixa 2, recebidos em espécie, pagaram

fornecedores durante a campanha. Não sobrou nada.

Detalhe: um dos “empregados” da Cep de Duda é Luiz Favre, marido da ex-prefeita

Marta Suplicy (PT-SP), derrotada em uma das seis campanhas tocadas pelo publicitário.

Salário de Luiz Favre, R$ 14 mil mensais. Depois da campanha, Luiz Favre teria recebido

uma bolada de R$ 148 mil do “patrão”.

21/2/2006 Relatório preliminar da CPI dos Correios indica que nove fundos de pensão

elevaram de R$ 48,8 milhões para R$ 533 milhões os investimentos no Banco Rural e no

BMG, de 2003 a 2004. O aumento de mais de 10 vezes ocorreu em aplicações em CDBs

(Certificados de Depósitos Bancário) e FIFs (Fundos de Investimento Financeiros) e levou

em conta as reaplicações.

A CPI suspeita que os investimentos funcionaram como mecanismo de compensação,

um tipo de premiação pelos “empréstimos” concedidos pelos dois bancos ao esquema

PT/Marcos Valério. Como exemplo, apresenta os casos dos fundos Funcef (Caixa

Econômica Federal), Nucleos (estatais nucleares), Portus (portuários) e Previ

(Banco do Brasil). Nenhum deles tinha aplicações nos bancos Rural e BMG. Investiram

R$ 84,7 milhões em 2004.

A Polícia Federal faz a identificação de duas empresas de fachada localizadas no paraíso

fiscal das Bahamas. Elas receberam recursos da Dusseldorf, offshore do publicitário Duda

Mendonça. A Dusseldorf recebeu dinheiro do caixa 2 do PT. As empresas são a Raspberry e

a Strongbox. Os depósitos vieram da Dusseldorf e somam US$ 632 mil. As duas offshores

têm o mesmo endereço em Nassau, capital das Bahamas.

A transferência de dinheiro entre offshores é um método clássico para despistar a origem

e o destino de recursos ilegais. Os nomes da Raspberry e da Strongbox estavam nos arquivos

do MTB Bank, de Nova York, fechado sob a acusação de movimentar altas somas

operadas por doleiros. Funcionaria como uma lavanderia de dinheiro. As duas offshores

mantiveram contas no BankBoston de Miami. Fizeram depósitos em conta do MTB Bank

em nome da empresa Maximus, com sede no Uruguai.

As investigações também detectam que a Dusseldorf fez remessa de US$ 730 mil para o

banco Crédit Suisse, em Zurique, em 19 de setembro de 2003. A remessa seguiu depois para

conta do banco suíço no BankBoston e, de lá, a beneficiário não-identificado. A Dusseldorf

teria repassado US$ 473 mil para a conta do Bankhaus Carl, em 19 de dezembro de 2003.

Suspeita-se de duas coisas: o Bankhaus poderia ser instituição financeira com sede em

Bremen, na Alemanha, ou operadora de conta no banco Chase Manhattan, em Miami.

Outra empresa, a Prudential Securities, sobre a qual não há informações, recebeu US$

100 mil da Dusseldorf, em 16 de dezembro de 2003. O dinheiro foi creditado em conta do

Chase Manhattan, em Nova York. Em 1998, Duda Mendonça recebeu recursos por meio de

outra empresa, a Eleven, que tinha conta no Citibank de Nova York. Suspeita-se que essa

conta recebeu US$ 5 milhões de dinheiro supostamente desviado da Prefeitura de São Paulo

de 1993 a 1996, na gestão de Paulo Maluf (PP-SP), para quem Duda trabalhou.

22/2/2006 A Polícia Federal indicia Jacinto Lamas, ex-tesoureiro do PL. Ele é acusado de

lavagem de dinheiro e crime contra a administração pública. Teria recebido R$ 1,6 milhão

do empresário Marcos Valério. O dinheiro chegou ao PL por conta do acerto com o PT.

Jacinto Lamas confessou ser o autor de retiradas, “em pacotes lacrados”. Não deu informações

sobre o destino do dinheiro. Alegou que fez os saques por determinação do presidente

do PL, ex-deputado Valdemar Costa Neto (SP), e garantiu ter entregado toda a quantia a

Valdemar, sem nem conferir as somas que transportou.

Os repasses do valerioduto ao PL seriam de R$ 10,8 milhões. O dinheiro também teria chegado

ao partido por meio de operações financeiras intermediadas por corretoras. Valdemar Costa

Neto renunciou ao mandato. Disse que os repasses fizeram parte de acordo eleitoral com o PT, e

assegurou ter usado o dinheiro para pagar despesas da campanha eleitoral de 2002.

1/3/2006 Os Estados Unidos divulgam relatório mundial sobre o combate ao crime organizado.

O Brasil e o escândalo do mensalão ocupam espaço de destaque. O documento cita as

investigações desencadeadas por autoridades brasileiras contra “figuras públicas corruptas,

incluindo inspetores de alfândega, autoridades federais tributárias e altas figuras políticas, e

o uso de empresas offshore para lavagem de dinheiro”.

Ao abordar o caso brasileiro, o relatório do governo norte-americano fala num “leque de

atividades corruptas de escopo espetacular”, e salienta que investigações realizadas por

CPIs “revelaram um escândalo de corrupção de várias camadas, envolvendo a alegada compra

de votos pelo Partido dos Trabalhadores do presidente, e financiada por propinas em

contratos”. O documento menciona pagamentos efetuados em contas no exterior e faz alusões

aos bancos Rural e BMG, que “serviriam de conduto para pagamentos ilícitos, por

meio de contas bancárias de uma firma de publicidade”.

4/3/2006 Marcos Valério fez chantagem em conversas por telefone com o ex-deputado José

Borba (PR), ex-líder do PMDB na Câmara dos Deputados, acusado de receber R$ 2,1 milhões

do caixa 2 do PT. José Borba renunciou com medo de ser cassado. A reportagem de

Alexandre Oltramari e Otávio Cabral, da revista Veja, informa que Valério teria exigido

proteção da CPI dos Correios. Senão, acusaria repasse de dinheiro a Borba, que pretendia

comprar apoio da ala oposicionista do PMDB e se manter no cargo de líder do partido.

Valério estaria pronto a denunciar o recebimento de mensalões por parte de deputados

do PMDB, e a dizer que entregou dinheiro para José Borba pagar o apresentador de televisão

Carlos Massa, o “Ratinho”, em 2004. Em troca, ele usaria seu programa no SBT como

palanque para Lula e a então candidata à reeleição em São Paulo, a ex-prefeita Marta Suplicy

(PT). De fato, Ratinho fez uma entrevista com o presidente durante um churrasco na Granja

do Torto, e repetiu alguns trechos da gravação várias vezes em seu programa de televisão.

A revista relata as “relações estreitas” entre José Borba e Marcos Valério. Descreve

quatro reuniões entre os dois, de setembro de 2004 a março de 2005, no hotel Sofitel, em

São Paulo. Participaram Delúbio Soares e o advogado Roberto Bertholdo, assessor de José

Borba. Bertholdo havia sido nomeado pelo governo Lula para o Conselho de Administração

da Itaipu Binacional.

De acordo com a reportagem, Borba seguia para Brasília depois das reuniões e, numa

sala da Câmara dos Deputados, recebia filas de deputados do PMDB:

“Mas havia uma logística curiosa: os deputados entravam na saleta um a um, nunca em

grupo. O entra-e-sai ocorria quase sempre à noite.”

Os repórteres entrevistaram um ex-aliado de Bertholdo, não identificado pela revista. Ele

afirma que 55 deputados do PMDB, pertencentes à base de apoio do governo Lula, recebiam

mensalões. Variavam de R$ 15 mil a R$ 200 mil, conforme o cacife do agraciado. O entrevistado

da revista conta que certa vez Bertholdo lhe mostrou, dentro de um jatinho particular,

uma caixa de papelão com R$ 8 milhões em dinheiro vivo. Bertholdo não tinha medo:

- Que perigo, o quê? Eu tô operando para o governo.

O advogado Sérgio Renato Costa Filho gravou conversas que manteve com Roberto

Bertholdo, seu ex-sócio. Uma delas remete ao caso do pagamento ao apresentador Ratinho.

De acordo com o grampo, Bertholdo diz assim:

- Na segunda-feira eu vou, eu e o Ratinho e o Borba, no avião do Ratinho, pra pegar o

Delúbio, que é o tesoureiro. Pra fazer um acerto de uns cinco paus.

“Cinco paus” seriam R$ 5 milhões. Em outra gravação, Bertholdo menciona o diretorgeral

da Itaipu Binacional, o petista Jorge Samek. Ele teria cobrado US$ 6 milhões de

propina da empresa Voith Siemens, para perdoar uma dívida. Do diálogo dos advogados,

após Bertholdo falar dos US$ 6 milhões:

- 6 paus em dólar?

- É, temos que pegar pelo menos três.

- Sim.

- (…) Se quiserem me tirar do Conselho, não me tiram por causa do PMDB. É minha

função lá dentro.

- Sim, claro.

- (…) O Samek não põe a gente pra dentro do jogo. Vai tomar no c…

- Eu também acho. Podia ter chamado…

- Não. Podiam falar: “Ó, tamo fazendo…”

- Então…

- E aí pegar como doação de campanha, mesmo…

- Hum-hum.

- Com gosto.

- Hum-hum.

A reportagem esclarece que Jorge Samek integra o seleto grupo de amigos de Lula.

Costuma participar de churrascos e festas na Granja do Torto. Samek já foi próximo de

Bertholdo. Pegou carona em viagens para Brasília no jatinho do advogado, na época em que

Bertholdo fazia parte do Conselho de Administração de Itaipu. Agora, Bertholdo está preso

em Curitiba. É acusado de vários crimes, entre os quais grampear um juiz federal, vender

sentenças judiciais, lavar dinheiro, fazer tráfico de influência e o de torturar o ex-sócio

Sérgio Renato Costa Filho, para se apoderar das fitas gravadas por ele.

5/3/2006 O jornal Correio Braziliense reproduz trechos de uma conversa gravada. Nela, o

ex-motorista do senador Romero Jucá (PMDB-RR), Roberto Jefferson Marques, admite ter

feito saque de R$ 50 mil na agência do Banco Rural do Brasília Shopping. Na fita, Marques

comenta sua ida ao banco:

- Eu só cheguei lá e disse: “Meu nome é Roberto Jefferson Marques”. Aí, o cara falou:

“Ah, tudo bem”. Só isso. E me entregou um envelope amarelo, grampeado em cima. Não

abri, não fiz nada.

De acordo com a gravação, o motorista, conhecido como “Xuxa”, recebeu determinação

do senador, que foi ministro da Previdência Social do governo Lula, para fazer a retirada no

Banco Rural. O dinheiro deveria ser entregue a um certo homem, identificado como Magela.

Assim Marques procedeu.

A reportagem, de Luciene Soares, Rodrigo Lopes e Marcelo Rocha, conta que Marques

ficou assustado com a eclosão do escândalo do mensalão. Romero Jucá tratou de

desligá-lo do gabinete em Brasília, e tirá-lo da capital federal. Ele foi para Belém, onde

passou mais de um mês. Sem trabalho, voltou a procurar o senador. Sem sucesso. O

Correio Braziliense relata:

“A fita cassete em que Roberto Marques faz as revelações foi gravada no final de outubro

de 2005, durante uma conversa no interior de um veículo. O interlocutor de Marques,

que fez a gravação, prefere não se identificar. Marques estava desempregado. Depois que

tomou conhecimento do que dizia seu ex-motorista, o senador voltou a empregá-lo. Hoje,

ele trabalha na Prefeitura de Boa Vista, cuja titular é Tereza Jucá, mulher de Romero Jucá.

Agora, Marques nega ter feito saques a pedido do senador. Afirma desconhecer qualquer

coisa relacionada ao assunto.”

8/3/2006 Mais um escândalo. Em depoimento à CPI dos Bingos, Francisco Chagas da Costa,

motorista que trabalhou entre março de 2003 e fevereiro de 2004 para a “república de

Ribeirão Preto”. Ele prestou serviços a assessores e outras pessoas ligadas ao ministro Antonio

Palocci (PT-SP) em Brasília. São eles: Ademirson Ariosvaldo da Silva, Rogério Buratti,

Vladimir Poleto e Ralf Barquete. Afirma ter visto o ministro “três vezes, mais ou menos”,

na chamada “casa dos prazeres”, alugada no Lago Sul. Diz o motorista:

- Foi lá, ia lá. Mas não em festa. Durante o dia, mas sem festa. Não sei o que ia fazer. Foi

poucas vezes. (…) Umas três vezes, mais ou menos. Eu o vi entrando na casa.

Recorda-se que, em janeiro, Antonio Palocci foi questionado pelo senador Garibaldi

Alves (PMDB-RN), relator da CPI dos Bingos, sobre a casa alugada por Poleto, que pagou

R$ 60 mil em dinheiro pela locação, um adiantamento equivalente a seis aluguéis. No depoimento

de Palocci, o relator perguntou:

- Vossa excelência não esteve nenhuma vez na casa que ele alugou no Lago Sul?

- Aqui em Brasília?

- Sim.

- Não, nenhuma vez.

- A casa que era utilizada para reunir empresários.

- Não estive nenhuma vez.

Francisco Chagas da Costa afirma que Antonio Palocci foi à “casa dos prazeres” sem

carro oficial. Usava o automóvel Peugeot de Ralf Barquete, assessor da presidência da

Caixa Econômica Federal, nomeado para o cargo por influência de Palocci. Ralf Barquete

foi um auxiliar importante de Palocci na Prefeitura de Ribeirão Preto (SP). Outra declaração

espinhosa do motorista:

- Eles faziam festa e levavam as meninas para a casa. Eu levei as meninas, sim. Várias

vezes. Deixava lá.

As “meninas” são garotas de programa, agenciadas por Jeany Mary Corner. Perguntado

se a conhecia, o motorista afirma:

- Essa era a mulher que arrumava as meninas para a casa. Fazia festas e levava para a

casa. Cheguei a vê-la duas vezes.

Francisco Chagas refere-se a Ademirson Ariosvaldo da Silva. Descreve como o secretário

particular de Antonio Palocci se referia ao ministro:

- Eu ouvia falar: “Tenho uma reunião com o chefão”. “Temos de falar com o chefão tal

hora”. Podia ser ele, eles não falavam ministro Palocci, não. Falavam chefão. Quando queriam

falar com o chefão, pediam para ir ao Ministério da Fazenda.

O motorista relata que transportou duas vezes para a “casa dos prazeres” o empresário

Roberto Carlos Kurzweil, dono do automóvel no qual teriam sido transportados

dólares de Cuba para o PT. Uma terceira vez levou-o do hotel em que estava hospedado

ao Ministério da Fazenda, para onde também se dirigiram dois empresários de jogo

angolanos. Seriam José Paulo Teixeira Figueiredo e Artur José Valente Caio. Segundo

Rogério Buratti, eles fizeram uma doação de R$ 1 milhão em caixa 2 para a campanha

de Lula em 2002.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Rogério Buratti volta a confirmar o jantar do qual participaram

Antonio Palocci e os dois empresários angolanos, em 2002. Foi em São Paulo na casa

de Roberto Carlos Kurzweil, que conhecia o ministro desde 1991. Uma das empresas dele, a

Rek, cuidava da coleta de lixo em Ribeirão Preto, quando Palocci era vereador do PT. Eleito

prefeito, Palocci aumentou o número de serviços prestados pela Rek. Diz Rogério Buratti:

- Soube desse jantar por causa das relações que tinha com o Palocci. Eu não vi o dinheiro

para a campanha ser entregue, mas essas coisas ninguém vê. Mas tenho certeza absoluta de

que a contribuição aconteceu. Não tenho dúvidas.

Em votação secreta, a Câmara dos Deputados absolve dois parlamentares acusados de

envolvimento no escândalo do mensalão. Roberto Brant (PFL-MG) recebeu R$ 102 mil do

esquema de Marcos Valério. O dinheiro foi sacado por um assessor, Nestor Francisco de

Oliveira. O outro deputado absolvido é o Professor Luizinho (PT-SP), cujo assessor José

Nilson dos Santos fez retirada de R$ 20 mil do valerioduto. Roberto Brant recebe 283 votos

a favor da absolvição. Outros 156 deputados pedem a cassação do mandato. Necessita-se de

pelo menos 257 votos para efetivar a cassação. Luizinho teve 253 votos pela absolvição e

183 pela perda do mandato.

Outros dois deputados já haviam sido absolvidos pelo plenário da Câmara: Sandro Mabel

(PL-GO) e Romeu Queiroz (PTB-MG). E quatro renunciaram para fugir da cassação:

Valdemar Costa Neto (PL-SP), Carlos Rodrigues (PL-RJ), José Borba (PMDB-PR) e Paulo

Rocha (PT-PA). Apenas dois foram cassados: Roberto Jefferson (PTB-RJ) e José Dirceu

(PT-SP).

Depois da absolvição, festa para Luizinho. Amigos reúnem-se no apartamento do deputado

Devanir Ribeiro (PT-SP). Estão lá o líder do PT na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia

(PT-SP), e os deputados João Paulo Cunha (PT-SP) e Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP).

Também participam da confraria o ministro do Trabalho, Luiz Marinho (PT-SP), o prefeito

de Santo André (SP), João Avamileno (PT), e a assessora especial da Presidência da República,

Miriam Belchior. O evento é fechado à imprensa. Diz Luizinho:

- Não vou querer ficar fazendo festa com algo que não se pode festejar. Seria uma falta

de sensibilidade.

Depoimento à CPI dos Correios. Lúcio Funaro, apontado como antigo dono da corretora

Guaranhuns, afirma ter ouvido comentários no mercado financeiro, segundo os quais João

Vaccari Neto, integrante da direção da CUT (Central Única dos Trabalhadores, ligada ao

PT), é o responsável por operações mantidas pelos fundos de pensão Petros (dos funcionários

da Petrobras), Previ (Banco do Brasil) e Funcef (Caixa Econômica Federal). Lúcio Funaro

é investigado por ter provocado prejuízos de R$ 100 milhões aos fundos de pensão. Declaração

de Lúcio Funaro:

- O que ouço no mercado é que o João Vaccari, que foi presidente do Sindicato dos

Bancários e é ligado ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e ao governo do PT, seria o

responsável pela operação desses fundos. O Marcelo Sereno seria o responsável pela operação

dos fundos menores.

A Polícia Federal encaminha ao STF (Supremo Tribunal Federal) inquérito que apurou o

escândalo do mensalão. Traz 226 depoimentos em 4.500 páginas. Há 40 pessoas relacionadas

para indiciamento, entre políticos, empresários, operadores do mercado financeiro,

lobistas e servidores públicos. Cinco pessoas são citadas: Duda Mendonça, Marcos Valério,

José Genoino, Delúbio Soares e Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil.

10/3/2006 Em entrevista à Folha de S.Paulo, o advogado Roberto Bertholdo, ex-assessor

parlamentar do PMDB e ex-conselheiro da Itaipu Binacional, afirma ao repórter José Maschio

que o deputado José Janene (PP-PR) e o doleiro Alberto Youssef têm esquema para retirar

dinheiro de estatais e destiná-lo ao pagamento de mensalões.

Roberto Bertholdo, que trabalhou no gabinete do ex-líder do PMDB na Câmara, exdeputado

José Borba (PR), diz que José Janene e Alberto Youssef são donos da corretora

Bônus-Banval, envolvida no escândalo do mensalão. Segundo Bertholdo, 80% dos recursos

adquiridos via corrupção eram transformados em dinheiro vivo, por meio da corretora. Ele

aponta para o deputado Eunício Oliveira (PMDB-CE), que foi ministro do presidente Lula:

- Quando o Eunício Oliveira assumiu o Ministério das Comunicações, o Janene e o

Youssef me apareceram com o currículo do diretor da Bônus-Banval, Breno Fischberg, e

outro corretor da Bônus, para que o PMDB indicasse um deles à presidência do Postalis.

Eles queriam armar um amplo esquema no governo. Nós não aceitamos.

Bertholdo afirma ter visto Alberto Youssef levando sacolas com dinheiro ao apartamento

do deputado José Janene, em Brasília:

- Por pelo menos três vezes. Uma vez, ele abriu uma sacola para mostrar algo ao

Janene e vi que eram reais. Uma outra vez, as sacolas eram tão pesadas que a Cleide, a

cozinheira do Janene, teve que ajudar o Youssef a levar as sacolas para um aposento

interno do apartamento.

Segundo Roberto Bertholdo, o dinheiro era para pagar parlamentares da base aliada do

governo Lula:

- Quem ele pagava e os nomes que ele me passou, eu só falo ao procurador-geral da

República. Mas ele e o Youssef operavam muito dinheiro.

11/3/2006 A revista Veja revela a identidade do ex-aliado do advogado Roberto Bertholdo,

entrevistado na semana anterior. Trata-se de Antonio Celso Garcia, o “Tony Garcia”. Ele

conta ao repórter Alexandre Oltramari que foi candidato a senador e tinha Roberto Bertholdo

como suplente em sua chapa. Não se elegeu e acabou preso, acusado de cometer fraude em

consórcio. Em troca da liberdade, passou a colaborar com a Justiça. Atraía Bertholdo para

conversas gravadas pela polícia. A entrevista de Tony Garcia:

- Como o senhor soube que Bertholdo pagava o mensalão do PMDB?

- Ele me falava que tinha encontros semanais em São Paulo com pessoas que operavam

essas coisas com o PMDB.

- Com quem eram os encontros?

- Com Delúbio Soares, Silvio Pereira e Marcelo Sereno. Ele me dizia que falava mais

com o Silvio Pereira e o Delúbio.

- O Marcos Valério não aparecia?

- Bertholdo nunca falou dele. O Valério não era fonte dele. Ele dizia que a fonte dele era

mesmo a direção do PT.

- Onde eram os encontros?

- Em escritórios ou hotéis. O Meliá era um deles. O escritório era o do Silvio Pereira. Ele

tinha um escritório fora da sede do PT. Bertholdo tinha reuniões quase que religiosamente

às segundas-feiras.

- O que acontecia nos encontros?

- Bertholdo dizia que tratava de indicações políticas do PMDB para o governo e também

pegava recursos para fazer acertos dentro do PMDB. Ele dizia que apanhava o dinheiro, em

espécie, em São Paulo, e depois o transportava a Brasília em jatos particulares ou alugados.

Voava pessoalmente com dinheiro vivo. Muitas vezes estava acompanhado do assessor,

Guilherme Wolf. O Bertholdo nunca andava com menos de R$ 50 mil, R$ 100 mil em

dinheiro. Ele falava que era para fazer coisas eventuais, atender um ou outro.

- O senhor sabe quantos deputados do PMDB recebiam dinheiro de Bertholdo?

- Ele deixava claro que eram mais de 50 deputados do PMDB. Mas nunca falou em

nomes e eu nunca perguntei porque não era do meu interesse. Os dirigentes maiores do

partido, como Michel Temer, eu sei que não participavam, até porque estavam se afastando

do governo. Ele só dizia que cada deputado tinha um preço. Havia uns que custavam R$ 10

mil, outros que custavam R$ 15 mil, outros R$ 20 mil, outros R$ 100 mil, outros R$ 200

mil. Que dependia do grau de importância do deputado e das matérias votadas.

- Onde o dinheiro era entregue aos deputados?

- Numa sala ao lado da liderança do PMDB na Câmara, quase sempre à noite. Ou então

numa casa que ele alugou no Lago Sul e onde fazia festas para membros do PMDB, PT,

ministros… Ele dizia que houve festa até com a presença do presidente da República.

- Mas nunca citou os deputados do mensalão?

- É fácil saber. Basta ver quem eram os deputados do PMDB que votavam com o governo.

Quanto mais polêmicas eram as matérias em votação, e quanto mais o PT deixava de

cumprir os compromissos acertados, mais as coisas se complicavam. Bertholdo me dizia

que a única maneira de resolver era com dinheiro vivo.

- Então era dinheiro em troca de voto favorável aos projetos de interesse do governo?

- Não só projetos. Ele me disse que levantou R$ 8 milhões junto ao PT para fazer do

José Borba líder do PMDB, por exemplo. E tempos depois, quando a turma do Anthony

Garotinho destituiu o Borba, ele me disse que gastou outros R$ 6 milhões pagando a

deputados do partido para o Borba voltar a ser líder. O caso do “Ratinho” também não é

projeto. Bertholdo me contou uma vez que, junto com o Delúbio, estava negociando o

apoio do Ratinho ao governo. Depois de um tempo, numa conversa por telefone, ele me

disse o seguinte: “Lembra do negócio do Ratinho? Já deu certo. Está fechado. Teu amigo

é f… Prestei o maior serviço ao presidente. Inclusive o Ratinho vai ajudar o PT em outras

coisas no programa dele”.

- Bertholdo chegou a dizer se pagou R$ 5 milhões ao Ratinho?

- Nesse caso, ele nunca falou em pagamento. Só falou que tinha ido ao Ratinho, aproveitando

a amizade que o Ratinho tem com o Borba, porque queria trabalhar isso para o PT.

- O dinheiro que Bertholdo manipulava vinha todo dos contatos dele com a cúpula

do PT em São Paulo?

- Não, Bertholdo me falou várias vezes que também tinha dinheiro que vinha de Itaipu.

O dinheiro para as campanhas no Paraná ele me falava que vinha de empreiteiros com

contratos com Itaipu. Depois que ele assumiu o cargo de conselheiro de Itaipu, em 2003,

várias vezes narrou para mim e para o seu então sócio, o Sérgio Costa, como ele tentava

influenciar e cobrar dívidas antigas para credores de Itaipu.

- Como era?

- Ele dizia que o Samek era ligação forte dele. Mas que o Samek tentava fazer negócios

sozinho ou com o Paulo Bernardo e que às vezes deixava ele fora da coisa. Mas que andava

se enfronhando no esquema, estreitando relacionamento com o Samek. Tempos depois, o

Samek passou a viajar com o Bertholdo nos jatos que ele locava para se deslocar de Foz do

Iguaçu a Curitiba e Brasília.

- O senhor viu os dois juntos?

- Nunca, mas era isso o que Bertholdo propagava. Ele também tinha um relacionamento

muito estreito com o José Dirceu. Eu mesmo ouvi duas conversas do Bertholdo com o José

Dirceu. Uma delas ocorreu num aparelho de rádio Nextel. O relacionamento dele com José

Dirceu era tão próximo que, uns 20 dias depois que o Waldomiro Diniz deixou o governo, o

Bertholdo me disse que tinha sido convidado para assumir o lugar do Waldomiro Diniz… Eu

ainda falei: “Vai sair um cara para entrar outro e ser queimado e jogado aos leões”. Uma

semana depois, ele voltou de Brasília e disse: “Vou operar isso por fora. Tenho muito mais

liberdade assim”. Ele efetivamente tinha um relacionamento estreito com a cúpula do PT e

com a base do governo. Ele me disse que até operava contas do PT no exterior.

- Onde?

- Ele me disse que operava contas do PT, com doleiros, em Luxemburgo. Em 2003 e

2004, por exemplo, ele foi duas ou três vezes a Luxemburgo. O passaporte dele foi aprendido

pela Polícia Federal. O registro deve estar lá. Ele me disse que um dos doleiros do PT era

o Toninho Barcelona. Ele me falou isso numa conversa por telefone, no ano passado. Tenho

certeza de que está gravado e está com a Polícia Federal.

Tony Garcia também concede entrevista à Folha de S.Paulo. Ele envolve o deputado

José Mentor (PT-SP) no esquema PT/PMDB/Itaipu Binacional. Afirma que o advogado

Roberto Bertholdo costumava comentar a influência que detinha sobre a CPI do Banestado,

decorrente da relação com o relator da comissão, o petista José Mentor. De acordo com

Tony Garcia, Bertholdo ajudou José Mentor e o tesoureiro Delúbio Soares a operar um

esquema em Luxemburgo, do qual participou também o doleiro “Toninho Barcelona”.

Bertholdo teria prestado “assessoria” à CPI do Banestado. Incluiria pessoas para serem

ouvidas, como o dono de casa de bingo Luiz Antonio Scarpin, de Curitiba. O objetivo era

fazer chantagem. Diz Tony Garcia:

- O Bertholdo conseguiu que o Mentor convocasse o Scarpin para depor em Brasília.

Depois, exigiu dele R$ 300 mil para aliviar sua barra na comissão. Acontece que o Scarpin

gravou as chantagens do Bertholdo e tiveram que fazer um acordo. No acordo, o Scarpin

escapou da convocação. Mas a força-tarefa do Banestado tem fita mostrando que o Mentor

recebeu para retirar o nome do Scarpin.

Outra afirmação Bertholdo, segundo Tony Garcia ao repórter José Maschio:

- Ele me dizia, e está gravado pela Polícia Federal, que Itaipu era o braço do governo

para arrecadação. Ele disse que estava operando com a Itaipu para levar recursos, em

dinheiro vivo, para as campanhas petistas de Maringá, Londrina, Ponta Grossa e Cruzeiro

do Oeste, onde o candidato vitorioso foi “Zeca Dirceu”, filho do então chefe da Casa

Civil, José Dirceu.

Tony Garcia cita o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo (PT-PR), e o presidente da

Itaipu Binacional, Jorge Samek:

- A bronca do Bertholdo era que ele não participava do esquema de captação junto aos

empreiteiros, e se queixava de que o Paulo Bernardo e o Jorge Samek controlavam isso. Ele

disse que queria entrar no esquema porque precisava de dinheiro para seu esquema no PMDB.

Disse que iria falar com o Samek em uma viagem ao Rio de Janeiro para resolver o caso.

Em outra reportagem, Veja descreve um achaque da empresária Jeany Mary Corner, a

agenciadora de garotas de programa em Brasília. Os repórteres Fábio Portela e Juliana Linhares

contam que Jeany Mary Corner e suas “recepcionistas” teriam testemunhado e colaborado em

atos de corrupção. Em vez de denunciá-los, ela resolveu cobrar pelo silêncio.

Emissários ligados a ela procuraram Ademirson Ariosvaldo da Silva, secretário particular

do ministro Antonio Palocci (PT-SP), o ex-chefe de gabinete de Palocci, Juscelino

Dourado, e outro integrante da “república de Ribeirão Preto”, Rogério Buratti. Pressionaram.

Jeany Mary Corner iria conceder entrevistas bombásticas e seria melhor tirá-la de

circulação até 2008.

São os seguintes os fatos que, segundo a revista, viriam a público nas entrevistas de

Jeany Mary Corner: além de fornecer garotas de programa para festas na “casa dos prazeres”,

alugada no Lago Sul, ela pagou mensalões de R$ 50 mil a oito deputados, por solicitação

de Rogério Buratti.

Jeany Mary Corner teria apresentado os doleiros Fayed Antoine Traboulsi e Chico

Gordo a Rogério Buratti, e permitido que a casa dela fosse usada para divisões de dinheiro.

As “meninas” participaram da repartição, seguindo instruções de Rogério Buratti deixadas

por escrito. Depois de contado, o dinheiro era posto dentro de revistas colocadas

em envelopes de papel.

Algumas garotas de Jeany Mary Corner rodaram Brasília para entregar os envelopes

recheados de dinheiro. Quem guiava o carro era Francisco Chagas da Costa, motorista

de Buratti. Em 2003 houve cinco operações sdo gênero. Jeany Mary Corner teria recebido

R$ 50 mil para ficar quieta, dinheiro entregue por Feres Sabino, ex-secretário de

Negócios Jurídicos da Prefeitura de Ribeirão Preto (SP). Em entrevista ao jornal O

Globo, ela declarou:

- Fiquei no anonimato esse tempo todo. Fui muito digna. Diferentemente de outros que

abriram a boca. Por isso, pedi ajuda. Isso é chantagem?

12/3/2006 Alguns dos principais expoentes do escândalo do mensalão continuam a controlar

cargos federais dos mais cobiçados, mesmo após terem sido acusados de envolvimento

no esquema de corrupção. Reportagem de Diego Escosteguy, do jornal O Estado de S.

Paulo, mostra que, com o aval do presidente Lula, os ex-deputados José Dirceu (PT-SP) e

Valdemar Costa Neto (PL-SP) e o deputado José Janene (PP-PR) mantêm nomeações estratégicas

para alguns dos 20 postos mais importantes do Governo Federal.

Conforme o levantamento, Dirceu é responsável por indicações para os cargos de diretor

de Finanças de Itaipu, presidente da BR Distribuidora, diretor de Exploração e Petróleo e

diretor de Serviços da Petrobras. Além disso, divide com o senador Carlos Wilson (PT-PE)

a vaga de diretor de Engenharia da Infraero e, com José Janene, o cargo de diretor de Abastecimento

da Petrobras. José Janene também seria autor da indicação do presidente do

Denatran (Departamento Nacional de Trânsito).

Valdemar Costa Neto, por sua vez, nomeou o diretor de Infraestrutura e o presidente do

Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes). O PT indicou cinco dos 20

cargos mais importantes: diretor de Finanças da Petrobras, diretor de Mercado Consumidor

da BR Distribuidora, diretora do Fundo da Marinha Mercante e, finalmente, os diretores

Comercial e de Tecnologia da ECT (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos).

Fazem parte da lista, ainda, as indicações do ministro Antonio Palocci (PT-SP) para a

presidência do Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados), do senador Delcídio

Amaral (PT-MS) para a Diretoria Internacional da Petrobras, do senador Renan Calheiros

(PMDB-AL) para a presidência da Transpetro e do PMDB para as superintendências da

Receita Federal do porto de Santos (SP) e do aeroporto de Guarulhos (SP).

Os 20 cargos são visados pelo volume de recursos dos contratos gerenciados. A Petrobras,

por exemplo, faz investimentos de R$ 23 bilhões por ano. É curioso o caso do ex-deputado

Valdemar Costa Neto, que renunciou para evitar a possível cassação do mandato. Ele aumentou

seu poder junto a Lula durante a crise política. Em troca da mobilização que fez

para eleger Aldo Rebelo (PC do B-SP) à presidência da Câmara dos Deputados e de outros

serviços que prestou ao presidente, passou a controlar todo o Dnit.

14/3/2006 Uma história que mistura pacotes de dinheiro e prostitutas. Francenildo Santos

Costa, o caseiro da “casa dos prazeres”, a mansão alugada em Brasília por próceres da

chamada “república de Ribeirão Preto”, concede entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

Ele complica a situação do ministro Antonio Palocci (PT-SP). Na “casa dos prazeres” houve

festas animadas por garotas de programa, “meninas” agenciadas por Jeany Mary Corner.

A mansão de 700 metros no Lago Sul, com quatro suítes, salão de jogos, churrasqueira,

piscina, quadra de tênis e sistema de segurança com câmeras de vídeo e sensores de luz,

teve uso intenso durante oito meses. Só foi devolvida depois que o escândalo Waldomiro

Diniz ganhou as páginas dos jornais, no início de 2004. A entrevista do caseiro Francenildo

à repórter Rosa Costa:

- O que chamou mais a sua atenção nos meses em que conviveu com os inquilinos de

Ribeirão Preto?

- A forma de pagamento. Era muito bom.

- O pagamento era em cheque?

- Nunca saiu cheque, não. Só em dinheiro.

- Quem morava na casa?

- Ninguém morava lá. Passavam só a noite.

- Quem eram as pessoas?

- Vladimir Poleto, doutor Ralf Barquete, doutor Rui, Ademirson e o chefe.

- Quem é o chefe?

- A gente não chamava de Palocci lá na frente deles. Eles achavam ruim. Tinha que

chamar de chefe.

- E eles chamavam Palocci de chefe ou só os empregados?

- Não, era todo mundo: “Olha, o chefe vem hoje. Vamos sair fora e deixar a casa para

o chefe”. Isso quando ele ia durante a semana, porque geralmente ele ia no sábado

e no domingo.

- O senhor conheceu o ministro pessoalmente?

- Eu via de longe, porque a casa tem sensor de luz que se acendia quando ele aparecia.

Via a cara dele de terno e tudo. Num sábado à tarde, cheguei a ver ele com o doutor Rogério

e doutor Rui Barquete.

- Onde havia sensores de luz?

- Dentro da casa, para clarear o terreno. Ele pediu para desligar os sensores em volta da

casa, mas não teve como desligar. Era para ninguém vê-lo. No jardim tem luzes. Ele falava

que não era para ligar a luz do jardim, que queria a casa escura do lado de fora.

- Ele chegava sozinho?

- Chegava sozinho, vinha num Peugeot prata, de vidro escuro, dirigindo sozinho.

- De quem era o carro?

- Era de uso do doutor Ralf.

- O senhor morava na casa?

- Sim. A casa fica do lado da garagem. Quem está lá dentro dá pra ver quem está lá fora.

- O senhor via o ministro chegando?

- É, a gente via.

- Mas ele disse que nunca foi à casa.

- Do lado dele, eu não sou nada, mas ele está mentindo.

- Quantas vezes ele foi à casa?

- Se for contar, que eu me lembre, umas dez ou 20 vezes. Não foram três como

Francisco falou.

- Ele jogava tênis?

- Teve um sábado em que estava jogando tênis com o doutor Rogério e Rui, à tarde.

- Buratti frequentava a casa?

- Umas três vezes o chefe foi para conversar com o doutor Rogério, lá numa sala que

tinha televisão. Eles sempre ficavam lá. O doutor Rogério ficava lá com a mulher dele,

Carla. Quando iam para São Paulo, Carla vinha no final de semana.

- O senhor via dinheiro na casa?

- Via, via notas, pacotes de R$ 100 e R$ 50 na mala de Vladimir. Ele trazia muito dinheiro.

Eu sabia que tinha muito dinheiro porque ele saía do quarto e fechava a porta do quarto.

- Quem pagava as contas?

- Era Vladimir. Vinha uma verba lá de São Paulo.

- De onde vinha o dinheiro?

- Vinha da empresa do doutor Rogério. Era ele quem pagava as despesas, os empregados.

Ele passava o dinheiro para Vladimir.

- O senhor participou alguma vez da entrega de dinheiro?

- Um dia o Francisco me chamou para ir ao Ministério. Disse: “Vamos ali mais eu, que

você está à toa mesmo”. Chegamos lá, Francisco parou o carro no estacionamento, ligou

para o doutor Ademirson. Esperamos uns 20, 30 minutos. Aí ele desceu e Francisco entregou

o envelope. Eu vi Francisco pegando o dinheiro. Dava para ver que era muito dinheiro,

não era pouco. Acho que R$ 5 mil, R$ 6 mil, R$ 7 mil.

- O pagamento dos empregados da casa também era feito com dinheiro enviado por

Buratti?

- Era. Ele passava o dinheiro ao Vladimir, que pagava a gente.

- O dinheiro vinha de São Paulo?

- O dinheiro vinha lá da empresa de São Paulo, eles chamavam de verba.

- Como era o pagamento de vocês?

- Eles pagavam no dia 1º. Falavam que era até dia 5, mas pagavam antes. Davam R$ 750,

R$ 770, mais um pouquinho. Vladimir era ótimo patrão.

- Onde ele pegava o dinheiro?

- Tinha vez que ele vinha com o dinheiro na mala, vinha do aeroporto, vinha de fora.

Sempre pagavam na terça ou na quinta-feira.

- O senhor levou dinheiro outras vezes para Ademirson?

- Francisco deve ter levado muitas vezes. Pelo que eu conversei com ele, ele levou

dinheiro para cada um deles. Levava para os apartamentos, para um e outro, doutor Rogério,

doutor Ralf. Se precisava de dinheiro trocado, aí Vladimir fazia um pacote numa mesa

que tinha lá, separava e mandava Francisco distribuir. Francisco me falou isso.

- O dinheiro que o motorista Francisco levava era para Ademirson ou para o chefe?

- Não posso informar, não. Não sei o que eles faziam com esse dinheiro, não.

- Alguma vez alguém falou do presidente Luiz Inácio Lula da Silva?

- Ele era bem falado lá, mas quando falavam no nome de Lula iam lá para dentro. Falava

nos eventos, nas viagens que ele ia fazer.

- A casa era mobiliada?

- Não, Vladimir comprou tudinho. As camas vieram assim que ele fez o contrato. As

camas novas, tudo camona boa, bonita.

- Eles guardavam roupa dentro daquela casa?

- O Vladimir, o doutor Rogério, o doutor Ralf, sim.

- Por que o senhor decidiu contar tudo isso agora?

- É porque o Francisco depôs na CPI e citou a mim e minha mulher. Fiquei meio com

medo e resolvi falar logo.

A entrevista de Francenildo Santos Costa repercute. Ao tomar conhecimento do teor das

declarações do caseiro, antes mesmo da publicação da entrevista, Antonio Palocci apressase

a informar, por meio de sua assessoria, que reiterava o que dissera à CPI dos Bingos:

“Nunca foi à casa do Lago Sul e, portanto, não tem qualquer relação com as atividades

realizadas na mesma”.

Publicada a entrevista, Antonio Palocci aproveita a participação numa teleconferência

para tratar de desmentir o caseiro. Diz o ministro:

- Quero até ressaltar que eu não guio aqui em Brasília. Uso carro oficial ou ando com a

minha esposa.

Em mais uma nota, a assessoria do ministro da Fazenda volta à carga:

“O ministro Antonio Palocci continua afirmando o que disse à CPI dos Bingos. Ele não

foi àquela casa no Lago Sul e não tem conhecimento de qualquer atividade que acontecia na

casa. E mais: o ministro não sabe dirigir em Brasília.”

O Conselho de Ética da Câmara aprova, por 9 votos a 5, pedido de cassação do expresidente

da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (PT-SP). Em seu parecer, o relator

do caso, deputado Cezar Schirmer (PMDB-RS), acusa Cunha de mentir sobre o saque de R$

50 mil feito por sua mulher. Cunha disse que ela foi ao banco tratar do pagamento de uma

conta de TV a cabo, mas a mulher sacou dinheiro do caixa 2 do PT. Entre as denúncias,

Cunha é acusado de favorecer Marcos Valério ao conduzir licitação irregular para contratar

a agência SMPB, de Valério, para administrar conta de publicidade da Câmara.

Para o relator, a contratação da SMPB tem “conflito de interesse”, pois Cunha já contratara

Valério anteriormente, para a campanha à presidência da Câmara. Além disso, Cunha

admitiu que Valério lhe dera uma caneta Mont Blanc. O empresário pagou passagens aéreas

para uma assessora de Cunha.

Cezar Schirmer vincula a conquista da conta de publicidade da Câmara ao saque de

R$ 50 mil efetuado na agência do Banco Rural do Brasília Shopping, apenas um dia

após Cunha receber Valério para café da manhã na residência oficial. O relator também

viu irregularidades em notas fiscais com números sequenciais. Elas foram apresentadas

por Cunha, para tentar justificar os R$ 50 mil sacados pela mulher. O dinheiro pagaria

pesquisas eleitorais.

Novas informações sobre as contas bancárias do publicitário Duda Mendonça no exterior.

Documentos enviados por autoridades norte-americanas à CPI dos Correios revelam

a existência de mais seis contas secretas. De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo,

foi identificada a Stuttgart Company, empresa de Duda Mendonça fora do Brasil. No

total, são dez as contas no exterior. Das seis novas, a metade foi aberta no BankBoston da

Flórida, em nome da Stuttgart Company, de Rita de Cássia Santos Moraes, ex-mulher de

Duda Mendonça, e de Eduardo de Matos Freiha, sócio do publicitário. As outras três pertencem

à Dusseldorf. Uma delas, no BAC Florida Bank, recebeu US$ 1,1 milhão. Doleiros

teriam depositado o dinheiro.

15/3/2006 Francenildo Santos Costa concede entrevista coletiva. Diz que o ministro Antonio

Palocci (PT-SP) esteve várias vezes na “casa dos prazeres”, entre 2003 e 2004. Segundo

o caseiro, Antonio Palocci costumava ir à mansão “quinta-feira sim, quinta-feira não”, além

de alguns sábados e domingos.

Francenildo Santos Costa conta que havia sempre uma mulher nas noites de quinta em

que Antonio Palocci esteve na “casa dos prazeres”. Normalmente Vladimir Poleto ou

Ademirson Ariosvaldo da Silva, secretário particular do ministro, a traziam. Ademirson

Ariosvaldo da Silva vinha com um carro Santana preto, com placas de Ribeirão Preto (SP).

O caseiro relata que Palocci chegava às 18 ou 19 horas, sempre guiando o Peugeot de

Ralf Barquete, e ia embora às 20h30, outras vezes às 22 horas, “não tinha hora certa”. Ele

afirma, contudo, que Palocci não participava de festas promovidas pelo grupo de pessoas de

Ribeirão Preto, sempre com três ou quatro garotas, às terças-feiras. Deputados do PT, uns

“cinco ou seis” de acordo com o caseiro, também estiveram nas festas. Palavras do caseiro:

- Entrei numa barca furada. Pensava que eram pessoas honestas, e não eram. No final era

essa sujeira que está aí. Pessoas que fazem esse tipo de coisa não deveriam estar num cargo

lá em cima.

Francenildo Santos Costa recorda que algumas garotas, certa vez, teriam consumido drogas,

o que revoltou Vladimir Poleto. Ele telefonou para alguém e disse que não queria mais aquelas

mulheres na casa. O caseiro fala sobre a noite em que conversou com Palocci pelo interfone:

- Eu estava fechando a casa quando tocou o telefone. Ele disse: “Estou perdido aqui e tô

querendo sair”. Abri o portão dos fundos e ele foi embora.

A Câmara dos Deputados cassa o mandato do presidente do PP, deputado Pedro Corrêa

(PE), por 261 votos contra 166. Apenas quatro votos a mais do que o mínimo de 257 necessários

para a perda do cargo. Em compensação, os votos secretos absolvem o ex-líder do PP,

deputado Pedro Henry (MT). Ambos foram acusados de envolvimento no escândalo do

mensalão. Votam pela absolvição 255 deputados, contra 176 que pedem a condenação.

A principal acusação contra Pedro Henry veio de Roberto Jefferson (PTB-RJ). Ele disse

que o pepista tentou cooptar dois deputados do PTB, oferecendo-lhes as vantagens do

mensalão. O PP foi contemplado com R$ 4,1 milhões do caixa 2 do PT, conforme informações

de Marcos Valério, mas só admitiu ter posto as mãos em R$ 700 mil. Trecho do relatório

do deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), que apreciou o caso de Pedro Corrêa:

“O PP disse que o dinheiro foi utilizado para pagar o advogado para Ronivon Santiago.

Era dinheiro repassado pelo PT. No Acre, o PT movia ações contra Ronivon, mas aqui, no

plano federal, o PT fornecia recursos para defender Ronivon; lá, o PT apontava fraudes

contra Ronivon, mas aqui oferecia subsídios para o deputado.”

O TCU (Tribunal de Contas da União) decide investigar contrato de publicidade da

Petrobras com a agência Duda Mendonça Associados. O contrato inicial, de dezembro de

2003, previa pagamentos no total de R$ 63 milhões por serviços prestados pelo publicitário.

Num primeiro aditivo, o valor subiu em R$ 21,5 milhões. Até dezembro de 2005, o contrato

sofreu mais seis alterações, e alcançou um teto de R$ 213,9 milhões.

Em depoimento à CPI dos Correios, Duda Mendonça silencia. Munido de habeas-corpus

para não ser preso, o publicitário recusa-se a responder até perguntas simples, como os

nomes dos filhos e da mulher. “Não vou responder”, repete, várias vezes, Duda Mendonça.

16/3/2006 Depoimento do caseiro Francenildo Santos Costa à CPI dos Bingos é interrompido

por determinação do STF (Supremo Tribunal Federal). Autor do pedido de suspensão, o

senador Tião Viana (PT-AC). Teria atendido solicitação de Lula. No recurso, o senador

petista alega que eventuais informações prestadas por Francenildo Santos Costa não teriam

relação com o objeto das investigações da comissão de inquérito. O ministro Cezar Peluzo,

do STF, concordou com a alegação. Trecho do seu despacho:

“Eventual partilha de dinheiro, em certo local, não tem por si presunção alguma de que

estaria ligada a uso de casas de bingo para a prática de crimes de ‘lavagem’ ou ocultação de

bens, direitos e valores.”

Antes de ser interrompida a sessão da CPI, Francenildo Santos Costa já falara aos senadores

por quase uma hora. Ele reafirmou que o ministro Antonio Palocci (PT-SP) frequentava

a “casa dos prazeres”.

- Confirmo até morrer.

Ele lembra quando levou “bebida energética” ao ministro:

- Foi um dia na quadra de tênis. Levei vinho e Redbul. Foi entre as 3 e meia e 4 da tarde.

Sobre a primeira vez que viu Antonio Palocci:

- Na primeira vez, o Ademirson levou ele. Quando o carro chegou, vi ele saindo. No

outro dia, comentei com o Francisco: “O chefe é o Palocci, né?”

Francenildo Santos Costa relata que soube pelo motorista Francisco Chagas da Costa de

um desentendimento entre Rogério Buratti e Antonio Palocci:

- Ouvi do motorista que eles tinham brigado. Foi por causa de mulher.

Ele confirma que Rogério Buratti trazia dinheiro à mansão:

- Vi na mala do Vladimir quando ele fazia o pagamento. Era dinheiro que forrava o

fundo da mala.

Rogério Buratti admite que a empreiteira Leão Leão contribuiu com recursos para pagar

as despesas da “casa dos prazeres”, da mesma forma que a Rek, do empresário Roberto

Carlos Kurzweil, e a Asperbras e a Soft Micro, estas duas do empresário José Roberto

Colnaghi. Sobre a Leão Leão, diz ao repórter Mario Cesar Carvalho, da Folha de S.Paulo,

que a empreiteira fornecia dinheiro para custear atividades como viagens e gastos com

transporte, e foi assim que ajudou a pagar as despesas da mansão. Buratti afirma que não

cabe a ele dizer se Palocci frequentava a “casa dos prazeres”:

- Não quero dizer se encontrei o ministro ou não na casa porque isso não cabe a mim,

cabe ao ministro. Não nego que me encontrei com o ministro em Brasília umas cinco,

seis ou sete vezes, seja no Ministério ou na casa dele. Para mim, isso não é crime. Por

isso, não nego.

E mais:

- O que interessa saber é se ocorreram atividades ilegais ou ilícitas naquela casa. Eu

posso dizer que nunca presenciei atividades ilegais lá.

O Ministério Público encaminha à Procuradoria-Geral da República lista com os nomes

de 52 deputados do PMDB. A relação contém nomes de parlamentares de 21 Estados e do

Distrito Federal. A lista englobaria todos aqueles que supostamente teriam rateado R$ 6

milhões para impedir a saída do ex-deputado José Borba (PMDB-PR) da liderança do partido,

em fevereiro de 2005. Na época, o ex-governador Anthony Garotinho (PMDB-RJ)

teria articulado um movimento dentro do partido para derrubá-lo do cargo.

17/3/2006 O site da revista Época na internet divulga extratos bancários do caseiro Francenildo

Santos Costa. Pertencem a uma conta da Caixa Econômica Federal. A agência fica no Lago

Sul, em Brasília. Os documentos bancários, sigilosos, foram emitidos às 20h58 da noite anterior.

Mostram depósitos de R$ 25 mil na conta do caseiro da “casa dos prazeres”.

A revista Época também publica que Francenildo Santos Costa reconhece a autenticidade

dos extratos bancários, e afirma que o dinheiro veio de seu pai biológico, Eurípedes

Soares da Silva, dono de pequena empresa de ônibus em Teresina. Ele havia mandado o

dinheiro em segredo, pois nunca reconhecera Francenildo como filho. Escondera o relacionamento

que tivera com a mãe do caseiro. Eurípedes Soares da Silva confirma aos repórteres

Andrei Meireles e Gustavo Krieger ser o autor dos depósitos.

Os extratos publicados por Época caem como uma bomba em Brasília. Da senadora

Heloísa Helena (PSOL-AL):

- Esse governo consegue liminar para proteger os direitos sexuais do Palocci e seus

esquemas de corrupção, e invade os direitos individuais de um rapaz.

Do senador Pedro Simon (PMDB-RS):

- A CPI até agora não conseguiu quebrar o sigilo de Paulo Okamotto, mas o caseiro teve

a conta devassada um dia depois de o STF nos proibir de ouvi-lo.

Em entrevista, Francenildo Santos Costa manifesta indignação:

- Mexeram nas minhas contas. O que posso esperar mais? Por que fizeram isso comigo?

Por que não fizeram com o chefe?

Em Santa Catarina, Lula é enfático:

- Eu devo muito, mas muito de tudo o que nós fizemos, a um homem chamado

Antonio Palocci.

O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, descarta a abertura de investigação contra

o ministro da Fazenda:

- A Polícia Federal, nesses três anos, nunca se prestou a esse tipo de exploração política, e não

será agora que vai fazê-lo. Palocci está fazendo um grande trabalho pelo País, é merecedor de

toda a confiança do presidente Lula, do governo e da sociedade, e não será afastado do cargo.

A mãe de Francenildo Santos Costa, a lavadeira desempregada Benta Maria dos Santos

Costa, confirma que Eurípedes Soares da Silva é o pai do rapaz. Ela explica ao repórter

Expedito Filho, do jornal O Estado de S. Paulo, que o empresário fez um acordo com o

caseiro, para evitar que o assunto fosse parar na Justiça. A família de Eurípedes Soares da

Silva não sabia que Francenildo é filho dele. Diz Benta Maria dos Santos Costa:

- O Eurípedes começou a enviar o dinheiro porque ficou com medo de “Nildo” entrar na

Justiça e obter registro com o nome do pai.

Benta Maria concedeu entrevista em Nazária (PI), onde vive:

- Meu filho é um simples caseiro, sim, mas criei ele sozinha para ser um homem honesto

e falar toda a verdade. O que adianta ser filho de papai e mamãe e não falar a verdade?

O repórter também ouve o pai do caseiro. Diz Eurípedes Soares da Silva:

- Para me amedrontar, ele disse que falaria para minha família. Aí, me derrubou todinho.

Mandei o dinheiro para evitar um escândalo para minha mulher e minhas duas filhas.

O motorista Francisco Chagas da Costa reafirma declarações do caseiro Francenildo

Santos Costa, o “Nildo”. De fato, ambos levaram envelope com dinheiro, a pedido de Vladimir

Poleto, ao estacionamento do Ministério da Fazenda. Ali, a encomenda foi entregue a

Ademirson Ariosvaldo da Silva, secretário particular do ministro Antonio Palocci. O repórter

Leonardo Souza, da Folha de S.Paulo, entrevista Francisco Chagas da Costa. O jornalista

pergunta sobre a relação de Antonio Palocci com o advogado Rogério Buratti:

- Sempre que o Buratti vinha a Brasília ele se encontrava com Palocci?

- Quando não se encontravam, se falavam no telefone.

- O senhor presenciou encontros de Palocci com Buratti?

- Às vezes em que se encontravam era na casa.

- Quantas vezes eles se encontraram na casa?

- Não sei, muitas vezes. Se eu falar dez vezes, quatro vezes, estou mentindo, né?

Muitas vezes.

- O senhor viu Palocci na casa?

- Eu vi ele entrando na casa. Ele ia de carro.

- Em que carro?

- Um Pegeout prata, de propriedade de Ralf Barquete.

19/3/2006 Mais evidências do relacionamento estreito entre o ministro Antonio Palocci

(PT-SP) e a empreiteira Leão Leão. O corretor de imóveis Carlos Magalhães intermediou o

aluguel de uma casa no setor de mansões Dom Bosco, bairro nobre de Brasília, a integrantes

da “república de Ribeirão Preto”. O imóvel foi alugado pelo grupo em 2003, antes da “casa

dos prazeres”. A locação, de R$ 9 mil, foi feita por Rogério Buratti e Ralf Barquete, em

nome de um tal Osvaldo. Ele seria ligado à Cinco Telecom, empresa da qual Rogério Buratti

também é sócio, informa a Folha de S.Paulo.

Os inquilinos teriam dado R$ 22 mil, por meio da Leão Leão, para pagar a primeira

parcela da construção de uma quadra de tênis na casa. Não deram a segunda. O

dinheiro não foi devolvido. Vladimir Poleto também participou do negócio. A casa

foi visitada por Antonio Palocci antes de ser alugada, de acordo com a reportagem de

Andréa Michel e Leonardo Souza. O ministro aprovou o imóvel. A “república de

Ribeirão Preto” ocupou a residência por seis meses. Teve problemas com o caseiro.

Diz o corretor Carlos Magalhães:

- Ele foi mandado embora e eles trouxeram um de São Paulo. Eles não quiseram o

menino lá mais porque ele estava fofocando, falando que Palocci estava indo lá, que eles

levavam mulheres. Aí, no dia em que chegou mudança de São Paulo, com uns quadros,

obras de arte, num domingo, o irmão da dona da casa barrou porque não aguentava mais a

farra que estavam fazendo.

20/3/2006 O delegado Wilson Damázio, da Polícia Federal, admite que foi informado pelo

próprio caseiro Francenildo Santos Costa sobre os depósitos em sua conta na Caixa Econômica

Federal. Ocorreu na noite de quinta-feira, 16 de março, quando Francenildo pediu

proteção policial. Naquela noite, os extratos bancários do caseiro saíram da Caixa. No dia

seguinte estavam no site da revista Época. Entre os documentos apresentados por Francenildo

à Polícia Federal, o cartão da conta poupança na qual recebera os R$ 25 mil depositados

pelo pai. A Polícia Federal é subordinada ao Ministério da Justiça.

A Caixa reconhece que o formulário usado para a extração dos dados da movimentação

bancária de Francenildo é exclusivo do sistema interno do banco. Clientes não têm

acesso. A quebra do sigilo deu-se dentro da estatal. O presidente do STF (Supremo Tribunal

Federal), Nelson Jobim, decide manter liminar que suspendeu o depoimento de

Francenildo à CPI dos Bingos.

Relatório de auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União) sobre contrato firmado

entre a Petrobras e a empresa GDK apontam favorecimento em licitação e superfaturamento

de US$ 23 milhões. O TCU pede a suspensão de pagamentos ainda não efetuados. Os auditores

que analisaram o caso recomendam aplicação de multa a Sérgio Gabrielli, presidente

da Petrobras, acusando-o de criar dificuldades aos trabalhos de investigação conduzidos

pelo TCU, informa reportagem do jornal O Estado de S. Paulo.

O contrato para reformar a plataforma petrolífera P-34, no valor de US$ 89 milhões, foi

firmado entre uma subsidiária da Petrobras, a Petrobras Netherlands B.V. (PNBV), e a GDK.

O repórter Diego Escosteguy revela que o contrato estava sob responsabilidade de Renato

Duque, diretor de Serviços da Petrobras. A nomeação dele para o cargo teria passado pelo

crivo do então secretário-geral do PT, Silvio Pereira. Para obter a celebração do negócio, a

GDK teria conseguido informações antecipadas e privilegiadas. Em troca, “Silvinho”

ganharia o famoso jipe Land Rover.

21/3/2006 Não se fala em outra coisa em Brasília: a violação do sigilo bancário do caseiro

Francenildo Santos Costa passou pela presidência da Caixa Econômica Federal. Os dados

extraídos do sistema da Caixa, com a senha de um alto funcionário, teriam seguido para o

assessor de imprensa do ministro Antonio Palocci (PT-SP), jornalista Marcelo Netto, responsável

por encaminhar as informações para serem publicadas pela revista Época.

O presidente da Caixa, Jorge Mattoso, subordinado ao ministro Palocci, recusa-se a conceder

entrevista. Faz uma semana que Palocci não despacha no Ministério da Fazenda.

Desde que o jornal O Estado de S. Paulo publicou entrevista com o caseiro, Palocci refugiou-

se em sala no terceiro andar do Palácio do Planalto, ao lado do gabinete de Lula. Usa

entradas e elevadores privativos. Evita contatos com a imprensa. Entra e sai pela garagem

do subsolo. Não deixa a sede do Governo Federal nem para almoçar. Seus assessores têm de

se deslocar do Ministério da Fazenda até o Palácio do Planalto, para onde também são

transferidas ligações telefônicas ao ministro.

22/3/2006 A Câmara dos Deputados absolve o deputado João Magno (PT-MG), acusado de

se beneficiar do esquema do mensalão. 201 parlamentares votam pela cassação do mandato,

mas outros 207 decidem livrá-lo. A votação é secreta. O parlamentar petista alegou que

os R$ 426 mil recebidos do valerioduto foram usados integralmente em despesas de

campanhas eleitorais.

Câmeras de televisão filmam a deputada Ângela Guadagnin (PT-SP) dançando entre as

poltronas da Câmara, para comemorar a absolvição do colega. A deputada agita os braços e

rebola. Arrisca passos de samba no meio do plenário. Ri o tempo todo. Dá um beijo em João

Magno. Está feliz da vida.

A cena é reprisada várias vezes nos telejornais. Causa indignação. Fica conhecida como

a “dança da impunidade”. Ângela Guadagnin é afastada do Conselho de Ética da Câmara. O

jornalista Marcos Augusto Gonçalves, da Folha de S.Paulo, escreve:

“A indecência celebratória da ‘caminhada mais saltitante’ (como a parlamentar definiu a

coisa) ficará como um símbolo do ruidoso naufrágio de um partido que se apresentava à

sociedade como guardião dos bons costumes e reformador da ‘política tradicional’.”

Ângela Guadagnin não seria reeleita em 2006.

A Câmara também absolve o deputado Wanderval Santos (PL-SP), acusado de envolvimento

no esquema do mensalão. A favor da cassação votam 242 parlamentares, 15 a menos que o

número necessário. E 179 decidem absolvê-lo. Ele foi acusado de “terceirizar” o mandato

para a Igreja Universal do Reino de Deus, da qual foi bispo até o início do escândalo. Um

assessor do deputado sacou R$ 150 mil do valerioduto, em agência do Banco Rural.

A princípio, Wanderval Santos negou a retirada. Depois, negou ter dado ordem para o

saque. Responsabilizou o ex-deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ), coordenador político da

igreja. Carlos Rodrigues renunciou ao mandato para evitar cassação. De Wanderval Santos:

- A verdade é que eu não sabia, não autorizei, não recebi e nem permiti que se recebesse

qualquer valor do senhor Marcos Valério.

23/3/2006 O governo Lula decide envidar esforços para salvar Antonio Palocci (PT-SP).

Em vez de apurar as acusações de Francenildo Santos Costa contra o ministro, a Polícia

Federal anuncia a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico do caseiro. Ele é o escolhido

para ser investigado pelos federais, sob comando do ministro Márcio Thomaz Bastos. O

Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda) também

abre inquérito contra o rapaz. Os estrategistas do PT tentam descobrir motivação política

para encobrir o que Francenildo viu na “casa dos prazeres”.

Chamado a depor na Polícia Federal, o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge

Mattoso, não aparece. Alega razões pessoais e manda dois advogados no lugar. A assessoria

da Caixa divulga nota sobre o caso. Em vez de tratar o assunto como “crime de quebra de

sigilo bancário”, usa o eufemismo “divulgação indevida” de extratos bancários. Lula afasta

rumores sobre a queda de Jorge Mattoso. Palavras do presidente da República:

- Não faz sentido, não faz sentido! Mesmo porque sou eu que tenho que tomar a decisão.

O presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Roberto Busato, fala em

“sindicato do crime”:

- Não é possível que persista essa retaliação à pessoa que teve a coragem de testemunhar

contra a segunda figura mais importante da República.

25/3/2006 A imprensa reúne informações sobre os bastidores da crise. A revista Época noticia

que quinta-feira à tarde, dia 23, os ministros Antonio Palocci (PT-SP), Márcio Thomaz

Bastos e o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, mantiveram encontro

sigiloso, no Palácio do Planalto. Palocci também teria se reunido com Lula. A reportagem

de Gustavo Krieger relata que Mattoso disse ser impossível negar que o acesso aos extratos

de Francenildo fora executado em computador dentro das dependências da Caixa.

Palocci pressionou Mattoso. Queria que ele assumisse a responsabilidade pela violação,

e depois pedisse demissão. O presidente da Caixa não aceitou. O jornal O Estado de S.

Paulo publica declaração de Jaques Wagner (PT-BA). O ministro das Relações Institucionais

garante que o Palácio do Planalto não deu ordem para a quebra do sigilo bancário. Ora, se

não foi Mattoso nem o Planalto, quem foi? A revista Veja dá uma pista: a CPI dos Bingos

trabalha com a informação de que o jornalista Marcelo Netto, assessor de Palocci, foi mesmo

o responsável por fazer chegar à revista Época os extratos bancários.

26/3/2006 A Folha de S.Paulo publica na primeira página o editorial “Abuso de poder”: “A

desfaçatez, o uso sistemático da mentira, o empenho em desqualificar qualquer denúncia,

nada disso constitui novidade no comportamento do governo Lula. Chegou-se nos últimos

dias, entretanto, a níveis inéditos de degradação ética, de violência institucional e de afronta

às normas da convivência democrática”. O jornal acrescenta:

“Na tentativa inútil de salvar a credibilidade em farrapos de um ministro, viola-se o

sigilo bancário de um cidadão comum, o caseiro Francenildo Costa – enquanto toda sorte de

malabarismos jurídicos e parlamentares protege as contas de Paulo Okamotto, celebrizado

pelos nebulosos favores que prestou ao presidente. Fato ainda mais grave, o caseiro se torna

alvo de investigação por parte da Polícia Federal, num ato indisfarçável de ameaça e abuso

de poder. A iniciativa – tomada em tempo recorde – não tem paralelo na história recente do

País, infelizmente pródiga em situações nas quais representantes do poder público se viram

às voltas com denúncias sérias de corrupção.”

27/3/2006 Caem o ministro da Fazenda, Antonio Palocci (PT-SP), e o presidente da Caixa

Econômica Federal, Jorge Mattoso. O destino do superministro é selado durante depoimento

de Mattoso à Polícia Federal. O presidente da Caixa confessa que entregara pessoalmente

a Palocci os extratos bancários de Francenildo. Mattoso é indiciado por violação

ilegal de sigilo.

O presidente da Caixa admite que levou os documentos bancários do caseiro à casa de

Palocci, na noite de 16 de março. Mattoso determinara ao assessor Ricardo Farhat Schumann

que levantasse os dados de Francenildo. Ricardo Farhat Schumann, assim como Mattoso, é

egresso da administração da ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT). O assessor de

Mattoso também atuou na administração do prefeito Celso Daniel (PT) em Santo André.

Lá, Ricardo Farhat Schumann foi denunciado por envolvimento em contratos firmados em

caráter de emergência, sem licitação, que teriam causado prejuízos de R$ 9,6 milhões. Também

perde o emprego o assessor de imprensa de Antonio Palocci, jornalista Marcelo Netto.

Comentário do caseiro Francenildo Costa:

- Está ficando provado que o lado mais fraco não é o do simples caseiro. É o da mentira.

28/3/2006 A imprensa reconstrói os momentos críticos da violação do sigilo bancário de

Francenildo Santos Costa. Em reunião no Palácio do Planalto, na manhã de 16 de março,

Lula e os ministros Antonio Palocci e Márcio Thomaz Bastos decidiram entrar com medida

no STF (Supremo Tribunal Federal) para impedir o depoimento do caseiro à CPI dos Bingos.

Obtiveram sucesso.

Durante aquela tarde, Palocci e Jorge Mattoso, presidente da Caixa Econômica Federal,

voltaram a se reunir no Palácio do Planalto, na sala ocupada pelo ministro, vizinha ao

gabinete de Lula. Foi quando Palocci teria pedido a violação do sigilo bancário. Mattoso

cumpriria a determinação.

As suspeitas sobre Francenildo Santos Costa vinham de informações de um jardineiro.

Ele contara à jornalista Helena Chagas, de O Globo, que o caseiro dispunha de dinheiro

para comprar um terreno ou uma casa.

Naquela mesma noite, o presidente da Caixa telefonou para Palocci e informou que

havia movimentações consideradas atípicas na conta bancária do caseiro. Ambos julgaram

que Francenildo Santos Costa havia sido subornado pela oposição para atacar Palocci.

Jorge Mattoso se dirigiu em seguida à casa do ministro. Chegou lá às 23 horas. Entregou-

lhe os extratos bancários e saiu em cinco minutos. Já estavam na residência Daniel

Goldberg, secretário de Direito Econômico do Governo Federal, um auxiliar do ministro

Márcio Thomaz Bastos. Também aguardava a documentação o jornalista Marcelo Netto,

assessor de Palocci.

Coube a Marcelo Netto a tarefa de divulgar os extratos para a revista Época, onde trabalhava

seu filho, o repórter Matheus Leitão. Registre-se que já havia passado pela casa do

ministro Palocci o chefe de gabinete do ministro Márcio Thomaz Bastos, Cláudio Alencar.

Daniel Goldberg e Cláudio Alencar, aliás, estiveram duas vezes na casa de Palocci, naquele

fatídico 16 de março.

A revista Veja relata que no auge da crise, no dia 23, Mattoso voltou à casa de Palocci,

onde encontrou o advogado Arnaldo Malheiros, amigo de Márcio Thomaz Bastos. Durante

a conversa, teria surgido a proposta de oferecer R$ 1 milhão para algum funcionário da

Caixa assumir a autoria da quebra do sigilo. Informação adicional: Arnaldo Malheiros

foi advogado dos ex-dirigentes do PT Delúbio Soares e Silvio Pereira, com honorários

pagos pelo PT.

Veja revela que Mattoso contou toda a história da violação do sigilo bancário de

Francenildo Santos Costa ao presidente Lula, em 24 de março. Ou seja, confessou o crime

que teria sido executado a mando de Palocci, 72 horas antes do afastamento do ministro.

Ainda assim, Lula tentou segurá-lo.

Outro dado importante, noticiado pela Folha de S.Paulo: Márcio Thomaz Bastos foi

informado por seus assessores da reunião da noite do dia 16 na casa de Palocci, logo no dia

seguinte, 17 de março. Foi o dia em que a revista Época divulgou os extratos. Mesmo de

posse da informação, o ministro da Justiça só teria contado a Lula o acontecido no dia 20.

Estranho. Márcio Thomaz Bastos continuaria a elogiar Palocci, em todas as oportunidades.

De qualquer forma, Lula tinha informações comprometedoras contra o ministro da

Fazenda ao menos uma semana antes da demissão ser consumada. Fez que não sabia?

Ora, Palocci ocupava sala ao lado do gabinete do presidente. Tinha acesso livre às dependências

de Lula. Como imaginar que o presidente desconhecesse a conspiração urdida

contra o caseiro?

29/3/2006 A CPI dos Correios divulga o relatório final das investigações. A comissão de

inquérito rejeita a tese defendida pelo PT e o Palácio do Planalto, segundo a qual os

pagamentos efetuados a deputados da base aliada do Governo Federal faziam parte apenas

de um esquema de caixa 2, com vistas a quitar despesas de campanhas eleitorais. O

mensalão existiu. O documento é assinado pelo deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR),

relator dos trabalhos:

“Em verdade, é reduzir-se em demasia a inteligência dos brasileiros imaginar que será

bastante dizer que os milhões não foram distribuídos a parlamentares, mas sim

corresponderiam a caixa 2 de campanhas.”

O relatório afirma:

“Sem argumento para explicar o inexplicável, a defesa dos beneficiários foi a admissão de

um crime, para evitar a confissão de outros praticados: a não-contabilização das despesas de

campanha, conhecida na sociedade como caixa 2, e não a prática de corrupção. Aliás, a tese do

caixa 2 só apareceu meses depois do início do escândalo, e já então de forma orquestrada.”

A conclusão da CPI dos Correios ocupa 1.839 páginas. Serraglio solicita o indiciamento

de 118 pessoas, entre ex-ministros, parlamentares, dirigentes e assessores de partidos políticos,

a cúpula do PT em 2003 e 2004, funcionários públicos, empresários, publicitários,

representantes de fundos de pensão, dirigentes dos bancos Rural, BMG, Santos e do Brasil,

além de operadores do mercado financeiro. Dos 118 pedidos de indiciamento, 38 são ligados

a irregularidades ocorridas em fundos de pensão, 35 relativos a esquemas identificados

nos Correios, 25 por envolvimento com as operações conduzidas pelo empresário Marcos

Valério e 17 são deputados ou ex-deputados.

O relator cede a pressões, porém, e poupa altos funcionários da administração federal,

lideranças do partido do governo e o presidente da República. O ex-ministro José Dirceu

(PT-SP), por exemplo, seria denunciado por crimes de corrupção ativa, peculato e formação

de quadrilha. Foi citado só por corrupção ativa. O documento do relator acusa José Dirceu

de ser “o grande idealizador desse esquema de corrupção, destinado a garantir uma base de

apoio ao governo na Câmara dos Deputados”. E mais:

“Várias pessoas confirmaram que o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu sabia

dos empréstimos e do esquema do mensalão. O ministro estava a par de todos os acontecimentos

e coordenava as decisões, junto com a diretoria do PT”.

O ex-ministro Luiz Gushiken (PT-SP) foi acusado preliminarmente de peculato, tráfico

de influência, corrupção ativa e formação de quadrilha. Acabou responsabilizado por tráfico

de influência e corrupção ativa. O relator Osmar Serraglio também protege o grande

beneficiário do escândalo do mensalão, o maior interessado em garantir maioria parlamentar

no Congresso Nacional, a fim de assegurar cobertura política e votos necessários em

apoio a projetos de seu governo: Lula, o presidente da República. Ao se referir a Lula,

Serraglio usa os termos “cúspide”, que significa “a ponta”, e “lobrigar”, para dizer “entender”.

O documento afirma:

“Como é de sabença, não incide, aqui, responsabilidade objetiva do chefe maior da nação,

simplesmente por ocupar a cúspide da estrutura do poder executivo, o que significaria ser responsabilizado

independentemente de ciência ou não. Em sede de responsabilidade subjetiva,

não parece que havia dificuldade para que pudesse lobrigar a anormalidade com que a maioria

parlamentar se forjava. Contudo não se tem qualquer fato que evidencie haver se omitido.”

Alterações feitas nas últimas horas, antes da apresentação do relatório, também retiram

do documento o nome de Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”, filho do presidente. Ele

seria citado por causa das relações de sua empresa, a Gamecorp, com a Telemar, uma concessionária

de serviços públicos. O relatório afirma, porém, que “sem dúvida, cabe ao Ministério

Público angariar novas informações e esclarecer a nação sobre esta questão delicada,

que desacata a cidadania e fere a credibilidade política do País”.

Ao abordar a compra de ações da Gamecorp pela Telemar, o relatório faz referências ao

fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, que é acionista da Telemar. Aponta que a

Petros “não demonstrou interesse em esclarecer, da atribulada compra, por aquela empresa

de telefonia, das debêntures conversíveis da firma Gamecorp, de propriedade de um dos

filhos do presidente da República”. O documento acrescenta: “Neste caso, não deve haver a

presunção de ilícito, mas não se pode descartar o delicado aspecto político e ético, por

envolver investidores cujos interesses dependem de regulação oficial”.

O empresário Marcos Valério é acusado por falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, tráfico

de influência, corrupção ativa, supressão de documento, fraude processual, crimes contra a

ordem tributária, peculato e atos de improbidade administrativa. Já o publicitário Duda Mendonça,

marqueteiro de Lula, é acusado por crimes contra o sistema financeiro, sonegação fiscal e

lavagem de dinheiro. Segundo o relatório, Duda Mendonça organizou “uma operação internacional

destinada a ocultar ou dissimular valores, o que caracterizaria lavagem de dinheiro”.

O ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), que denunciou o escândalo do mensalão, é

acusado de crime eleitoral, crime contra a ordem tributária e por corrupção passiva. De

acordo com o relatório final da CPI, Jefferson trabalhou para engendrar “uma rede de influência

na administração dos Correios, baseada, sobretudo, na indicação política para a ocupação

de cargos com vistas à captação de recursos para fins de financiamento eleitoral”.

Para a CPI dos Correios, os empréstimos do Banco Rural e do BMG ao valerioduto são

uma fraude que procurou esconder as verdadeiras fontes do mensalão. Os créditos, apesar

de concedidos, não seriam pagos. Os bancos receberiam compensações na forma de contratos

com o governo do PT. O relatório pede o indiciamento da presidente do Banco Rural,

Katia Rabelo, e do presidente do BMG, Ricardo Guimarães.

José Genoino (SP), ex-presidente do PT, é acusado por falsidade ideológica, lavagem de

dinheiro, corrupção ativa e crime eleitoral. E Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do partido,

pelos mesmos crimes, mais o de peculato. Ambos foram poupados, na última hora, da acusação

de formação de quadrilha. O ex-secretário-geral do PT, Silvio Pereira, é denunciado

por tráfico de influência.

O relatório considera o fundo Visanet, gerido pelo Banco do Brasil, a principal origem

do dinheiro do valerioduto. O documento afirma que o Banco do Brasil adiantava repasses

à agência de publicidade DNA, de Marcos Valério, o que permitia a obtenção de vantagens

financeiras. Os ganhos irregulares com as operações teriam somado R$ 23,9 milhões, e

provocaram pedidos de indiciamento para o ex-ministro Luiz Gushiken (PT-SP) e o diretor

de Marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato. O relator conclui que também contribuíram

com recursos para o esquema de repasse de dinheiro a parlamentares da base aliada

as siderúrgicas Usiminas e Cosipa e a companhia telefônica Brasil Telecom.

Durante os trabalhos de apuração, a CPI dos Correios não requereu a quebra de sigilo

bancário de nenhum dos parlamentares investigados. Da mesma forma, nenhum novo

nome surgiu, apesar de a comissão ter obtido uma relação com cerca de 60 assessores

parlamentares que estiveram no Banco Rural, em datas nas quais foram efetuados saques

para pagar o mensalão.

30/3/2006 O Conselho de Ética da Câmara aprova, por 9 votos a 4, o pedido de cassação do

mandato do deputado José Mentor (PT-SP), acusado de envolvimento no escândalo do

mensalão. Ele recebeu R$ 120 mil de Rogério Tolentino, sócio de Valério, cujo indiciamento

também foi solicitado pela CPI dos Correios, sob a acusação de falsidade ideológica e lavagem

de dinheiro.

José Mentor procurou se defender dizendo que o dinheiro foi pagamento por serviços de

consultoria jurídica prestados a Rogério Tolentino. A tese não foi aceita. O deputado Nelson

Trad (PMDB-MS), autor do parecer que pede a cassação do deputado, comenta os tais

serviços de consultoria usados como justificativa por José Mentor:

- São estudos genéricos, mais parecidos com trabalhos escolares do que com algo que vá

servir a alguém, aparentemente sem utilidade prática.

2/4/2006 Novas histórias envolvendo próceres da “república de Ribeirão Preto”. O empresário

Roberto Carlos Kurzweil pagou as despesas do voo de helicóptero que levou o então

prefeito de Ribeirão Preto (SP), Antonio Palocci (PT), a Angra dos Reis (RJ). A viagem

ocorreu em novembro de 2002, logo após a eleição de Lula, conforme relata reportagem da

Folha de S.Paulo. Como se sabe, Palocci foi coordenador da campanha vitoriosa do PT.

Em Angra, Palocci ficou numa casa com seis suítes, cuja diária é estimada em R$ 2 mil.

Segundo o repórter Mario Cesar Carvalho, Palocci voltou à mesma casa um ano depois, já

ministro da Fazenda. Novamente a convite do empresário Kurzweil, que possui residência

no mesmo condomínio.

Kurzweil foi frequentador da “casa dos prazeres”, o estopim da queda de Palocci. Em

1995, durante a primeira gestão de Palocci na Prefeitura de Ribeirão, a municipalidade

firmou contrato com a empresa Rek, de Kurzweil, para tratamento de esgoto. O negócio

renderia R$ 400 milhões até 2010.

O helicóptero que transportou Palocci a Angra é avaliado em US$ 1,5 milhão. Pertenceria

aos angolanos Artur José Valente Caio e José Paulo Teixeira Figueiredo. Os dois teriam

ligações com casas de bingo e seriam responsáveis por doação de R$ 1 milhão para a campanha

de Lula em 2002. Palavras do advogado Rogério Buratti. O mesmo Rogério Buratti,

aliás, seria sócio dos angolanos, na empresa de telecomunicações Cinco Telecom. Da mesma

forma que Kurzweil. Os dois angolanos também seriam citados como envolvidos no

caso da morte do prefeito de Campinas (SP), “Toninho do PT”.

A primeira viagem a Angra, para comemorar a vitória de Lula, reuniu, na bela cidade do

litoral fluminense, Palocci, a mulher e a filha, Ademirson Ariosvaldo da Silva, que seria

nomeado secretário particular do ministro da Fazenda, e Donizete Rosa, outro fiel assessor

do prefeito de Ribeirão Preto. Ele também seria dono de cargo importante no governo Lula.

Donizete Rosa estava acompanhado da mulher, Isabel Bordini, acusada de envolvimento

com planilhas fraudulentas que teriam servido para desviar dinheiro dos contratos de limpeza

pública de Ribeirão. Esteve na celebração, ainda, Ralf Barquete, o poderoso secretário de

Finanças de Palocci, na mesma Ribeirão Preto.

Na segunda viagem, em 2003, Palocci, já ministro, foi mais reservado. Acompanharamno

apenas a mulher e a filha, além da família de um amigo muito especial, que levou a

mulher e os três filhos: Rogério Buratti. Trata-se do mesmo Rogério Buratti com quem

Palocci negou manter relacionamento, desde o seu afastamento da Secretaria de Governo

de Ribeirão Preto, ainda no primeiro mandato do prefeito Palocci (1993-1996), após um

rumoroso caso de corrupção. O empresário Kurzweil e a família também estavam em Angra.

4/4/2006 Antonio Palocci (PT-SP) presta depoimento à Polícia Federal e é indiciado por

crime de quebra de sigilo bancário e por violação de sigilo funcional. Ele afirma aos federais

que o ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, esteve em sua casa

em 16 de março, mas não para entregar extratos bancários do caseiro Francenildo Santos

Costa. Foi lá para tratar da abertura de escritórios da Caixa no Japão e nos Estados Unidos.

Palocci tenta encobrir que Mattoso chegou à sua casa às 23 horas, tarde da noite, e ficou

por apenas cinco minutos. Esteve lá para entregar os documentos bancários obtidos mediante

a violação do sigilo. O ex-ministro confessa, no entanto, que recebeu dados dos extratos

bancários. E o que fez? Obviamente, nenhuma ilicitude. Tratou de triturar toda a documentação,

no dia seguinte.

O Conselho de Ética da Câmara aprova, por 10 votos a 1, processo de cassação do

mandato do deputado Josias Gomes (PT-BA). Ele é acusado de sacar pessoalmente R$ 100

mil das contas de Marcos Valério. Chegou a deixar cópia da própria carteira de parlamentar

na agência do Banco Rural no Brasília Shopping. Defesa do deputado Josias Gomes:

- Eu conhecia o Delúbio havia 25 anos. Nunca imaginei que ele me deixaria nessa situação.

O dinheiro, claro, foi usado para pagar dívidas de campanha eleitoral.

No lançamento de uma campanha de combate à corrupção eleitoral, Cesar Asfor Rocha,

corregedor-geral do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), afirma que a origem do caixa 2 está

sempre ligada a recursos públicos. Combatê-lo significa atacar a criminalidade, pois assim

se evita sonegação, fraudes, falsificações e o abuso do poder econômico. Diz o corregedor:

- O que é o caixa 2? No mínimo é sonegação. Se uma pessoa não pode revelar de onde

vem toda a despesa que efetua é porque não tem lastro, não tem recursos com origem legítima,

legal ou comprovada, que possa ser mostrada ou que possa compatibilizar com aquela

receita. É, efetivamente, coisa de bandido, porque é fruto de sonegação.

5/4/2006 A Câmara dos Deputados absolve, por 256 votos a 209, o deputado João Paulo

Cunha (PT-SP), acusado de envolvimento no escândalo do mensalão. Ele é o oitavo deputado

que recebeu dinheiro do caixa 2 do PT a se livrar da cassação. Foi mais um beneficiado

pelo expediente do voto secreto.

João Paulo Cunha mandou a mulher, Márcia Milanésio Cunha, buscar R$ 50 mil na agência

do Banco Rural do Brasília Shopping. Foi em setembro de 2004. Na época, ele exercia o

cargo de presidente da Câmara dos Deputados. No início, negou o saque. Depois, disse que o

dinheiro foi usado para pagar pesquisas eleitorais. João Paulo Cunha defendeu-se:

- Eu estava convicto de que o dinheiro vinha dos cofres do PT. Não peguei dinheiro

escuso, de origem indeterminada, peguei na tesouraria do PT.

Errado. Pegou, ou melhor, mandou a mulher pegar, fora do horário bancário, para não

ser vista, na agência do Banco Rural. E só admitiu o recebimento porque não convenceu

ninguém com a história de que Márcia Milanésio Cunha foi à agência resolver problema

com a fatura da TV a cabo. Foi essa a explicação que ele deu a princípio, para justificar a

presença da mulher nas dependências do Banco Rural. Após ser desmascarado, saiu-se com

a justificativa de que o dinheiro do valerioduto foi usado em campanha eleitoral.

Declaração do deputado Cezar Schirmer (PMDB-RS), o relator que pediu a cassação de

João Paulo Cunha no Conselho de Ética da Câmara:

- O padrão ético da maioria do plenário está bem abaixo das expectativas. Ele pegou o

dinheiro do Marcos Valério, mentiu e fez um contrato lesivo ao patrimônio da Câmara, com

o mesmo Valério.

6/4/2006 A absolvição do deputado João Paulo Cunha (PT-SP) provoca rebelião no Conselho

de Ética. Seis deputados desligam-se do órgão. Em virtude do escândalo do mensalão, o

Conselho recomendara 11 cassações e duas absolvições. O plenário da Câmara, em votações

secretas, acatou as duas absolvições, mas reverteu seis pedidos de perda de mandato.

Salvou os denunciados. Falta ainda apreciar dois casos, mas ninguém mais seria cassado.

Abandonam o Conselho de Ética os deputados Orlando Fantazzini (PSOL-SP), Chico

Alencar (PSOL-RJ), Júlio Delgado (PSB-MG), Carlos Sampaio (PSDB-SP), Benedito de

Lira (PP-AL) e Cezar Schirmer (PMDB-RS).

Alheios à crise, mensaleiros comemoram a decisão favorável a João Paulo Cunha. Os

deputados Professor Luizinho (PT-SP) e José Mentor (PT-SP) bebem vinho e se divertem

em restaurante, ao lado do ex-deputado Paulo Rocha (PT-PA), que renunciou com medo de

ser cassado. Na época, Paulo Rocha achou que a crise não acabaria em pizza.

8/4/2006 A revista Veja traz informações sobre o encontro de 23 de março na casa de Antonio

Palocci (PT-SP). Reuniram-se com o ex-ministro, naquela tarde, o ministro da Justiça,

Márcio Thomaz Bastos, o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, e o advogado

criminalista Arnaldo Malheiros Filho, trazido por Márcio Thomaz Bastos. A revista

Veja classifica o encontro como uma conspiração para encobrir o crime de violação do

sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos Costa.

O ponto nevrálgico da discussão na residência de Palocci, segundo a reconstituição

dos acontecimentos feita pelos repórteres Marcelo Carneiro, Giuliano Guandalini, Thaís

Oyama e Victor Martinho: arrumar quem, por R$ 1 milhão, assumisse a responsabilidade

pela quebra do sigilo.

Segundo a reportagem, a tarefa de arregimentar candidatos à bolada foi atribuída a Carlos

Augusto Borges, vice-presidente da Caixa. Ele é sindicalista histórico, homem de confiança

de Lula. Foi nomeado para o cargo, aliás, por decisão do presidente. Grave. A revista também

afirma que outra vice-presidente da Caixa, Clarice Coppetti, teria aceitado a missão, ou

melhor, o suborno. Mas foi identificado um problema: ela é casada com Cesar Alvarez, um

assessor especial da Presidência da República. Novamente, tudo muito próximo de Lula. A

lambança não prosperou.

Trechos de depoimento da então prefeita de São José dos Campos (SP), Ângela Guadagnin

(PT), são publicados pelo jornal O Estado de S. Paulo. Ela desmentiu, nove anos atrás, a

versão de que Paulo Okamotto jamais assediou administrações municipais petistas, para obter

dinheiro e engordar o caixa 2 do PT. Ângela Guadagnin foi ouvida por uma comissão do PT,

após a acusação de Paulo de Tarso Venceslau. Ex-secretário de Finanças do governo de Ângela

Guadagnin em São José dos Campos, Venceslau disse que a Cpem (Consultoria para Empresas

e Municípios), empresa ligada ao advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula, vendia

serviços a prefeituras petistas e, em troca, recheava os cofres do PT com dinheiro de caixa 2.

Em 7 de junho de 1997, Ângela Gadagnin admitiu que Paulo Okamotto solicitou uma

lista de fornecedores da cidade, com vistas a arrumar contribuições para o PT. O testemunho

dela, porém, por decisão do presidente do partido na época, ex-deputado José Dirceu

(SP), não provocou maiores consequências. Trecho gravado:

- Ângela, deixa eu perguntar uma coisa. Falando do Paulo Okamotto, ele em algum

momento procurou você, falando de fornecedores, querendo saber de fornecedores da

Prefeitura para fins de captação de recursos para o partido?

- Procurou.

- E ele queria saber o quê?

- Exatamente quais ele poderia procurar para ver se podiam estar ajudando, coisa assim.

- Ele perguntou a relação de fornecedores da Prefeitura para que ele procurasse,

para ajudar financeiramente o partido, é isso?

- Sim.

- Ele procurou?

- Sim.

Agora, trecho do depoimento de Paulo Okamotto à comissão. Ele mesmo descreve como

fazia as abordagens:

- Você está contente com essa política, quer que essa política continue, ganhe, está a fim

de contribuir para isso? Então nós vamos pedir para o nosso cara de finanças procurá-lo,

tudo bem?

10/4/2006 O advogado Rogério Buratti concede entrevistas aos jornais Folha de S.Paulo e

O Estado de S. Paulo. Reconhece que se reuniu “três vezes no máximo” com o ex-ministro

Antonio Palocci (PT-SP), na “casa dos prazeres”. Buratti vinha negando isso. Agora, fala

abertamente: a mansão do Lago Sul era “ponto de apoio pessoal”, principalmente para empresários

de Ribeirão Preto (SP) que estavam em Brasília. Dá como exemplo ele mesmo,

que representava a empresa Leão Leão, e nomeia Roberto Carkos Kurzweil, da Rek, Ruy

Barquete, da Procomp, e José Roberto Colnaghi.

Para Buratti, a casa foi um erro. “O objetivo não foi atendido, só deu problema”. Ele fala

ao repórter Mario Cesar Carvalho, da Folha:

- As pessoas que frequentavam a casa à noite, como amigos, levavam acompanhantes

boa parte das vezes. Isso não significa que havia festas e que as festas tinham objetivos

comerciais. Essa foi uma das grandes dificuldades para admitir a existência da casa. Acabou

parecendo que era a casa dos prazeres. Cada pessoa que tem atividades em Brasília e quer

receber uma acompanhante não precisa ter uma casa. Essa atividade que o Francenildo

disse haver certamente deve ter havido. Duas, três ou quatro pessoas que levaram umas

meninas para a casa… Atividades que não são comerciais, são particulares.

- Isso não tinha a ver com lobby? Quem pagava as garotas?

- Cada pessoa que frequentava a casa e resolvia levar uma garota de programa ou não para

dentro da casa se responsabilizava pelo pagamento da garota. Na verdade, está sendo revelada

por meio da casa uma atividade cotidiana em Brasília. As meninas que frequentavam aquela

casa, hoje continuam frequentando outros lugares em Brasília e fazendo a mesma coisa.

Buratti diz acreditar que “as empresas” que usaram a casa “devem ter contribuído” com

as despesas de manutenção do local. Cita a Rek, a Procomp e as empresas de Colnaghi.

- Por que o ministro não reconhece que frequentou a casa?

- Porque a casa ganhou contornos morais. As negativas dele devem ter a ver com esse

aspecto moral. Eu sempre neguei na CPI que tivesse visto o ministro na casa porque isso

criou um constrangimento muito importante na minha vida. Até hoje as pessoas falam

que minha atual namorada é uma menina que frequentava a casa em Brasília, e não é

verdade. Essa questão, como me incomoda até hoje, por invadir a privacidade, deve ter

incomodado o ministro.

- Por que só agora o senhor decidiu revelar que viu Palocci na casa?

- O ex-ministro Palocci é uma pessoa por quem tenho profundo respeito. A questão

fundamental: há ou não há ilicitude na casa? Se desde o começo a gente tivesse tratado isso

com tranquilidade… “Olha, eu frequentei aquele imóvel, amigos meus de Ribeirão buscavam

fazer negócios a partir dele, mas não há atividade ilícita que eu tenha feito ali…” Resolvi

falar porque não vejo mais isso como um problema. Admitir isso deve tranquilizar as

pessoas. O que deve ser focado é se houve negócios ilícitos a partir da casa que devam ser

investigados? Se as pessoas encontravam mulheres, é um problema particular delas, não um

problema público.

Buratti conta ao repórter Ricardo Brandt, do Estadão, que conversou com Palocci dentro

da “casa dos prazeres” sobre o caso do contrato entre a Caixa Econômica Federal e a

multinacional Gtech. Fala de Ralf Barquete, importante auxiliar de Palocci em Ribeirão,

levado no início do governo Lula para a Caixa. Ele também cita Marcos Andrade, ex-executivo

da Gtech. O repórter indaga sobre pedido de interferência no contrato. Buratti responde:

- Quem foi procurado pela Gtech foi o Ralf, dentro da Caixa. Até porque o Ralf já estava

na casa. Ele tinha informações limitadas a respeito desse processo, pois ele estava lá havia

um mês. Eles buscavam um contato com alguém vinculado ao Palocci, porque eles estavam

buscando relações com o governo. E quando eles me procuraram em São Paulo, o Marcos

Andrade simultaneamente, eles buscam um contato dentro da Caixa com alguém vinculado

ao ministro Palocci. E aí são indicados a falar com o Ralf.

- Você estava atuando como lobista nisso, então?

- Eu atuava como executivo da Leão Leão…

- Mas eles não te procuram como executivo da Leão…

- O Marcos Andrade me procura como um eventual lobista para eles dentro da Caixa, em

função da notícia de que eu teria relacionamentos. Essa notícia de que eu teria relacionamentos

eles me informaram que tiveram em São Paulo. Na cidade de São Paulo, através de

pessoas do PT. Tanto que o primeiro contato foi em São Paulo. Essa foi a primeira abordagem

diferente que eu recebi. Eles também estabeleceram um segundo caminho através da

própria Caixa, que o Ralf me relatou depois. Ele disse que o Jorge Mattoso, num jantar com

ele no Blue Tree, disse que a Gtech havia procurado alguém vinculado ao ministro e ele

teria dito que o Ralf era esse contato. O Mattoso havia comunicado a ele num jantar no Blue

Tree, pois os dois moravam lá na época. O Ralf não quis fazer o contato e falou isso para o

Palocci, porque ele estava entrando na Caixa com o objetivo de ser técnico, e não ser representante

do Palocci, até porque ele queria outro cargo. Aí ele me pediu para eu ter a conversa

com a Gtech. Que eu fosse o porta-voz do que a empresa queria.

- O que a empresa queria?

- A empresa relatou que eles mantinham contato, tinham dificuldade e queriam abrir as

portas, pois queriam se relacionar diretamente com o governo e com o PT. E falavam inclusive

que estavam sendo procurados por outros grupos do PT, mas que não eram grupos

dominantes do ponto de vista do nível de governo.

- Falaram em quem? Em Waldomiro Diniz?

- Não, nunca. Nunca falaram de Waldomiro para mim. Mas falaram de outro grupo e que

eles se sentiam incomodados e queriam saber qual era o canal e achavam que o Palocci

naquele momento era uma pessoa que pudesse dar uma definição para eles.

- Qual era o acordo?

- A proposta é que fosse renovado o contrato, pois eles iam renovar, mas tinham problemas

técnicos a resolver, principalmente vinculados a correspondentes bancários. Eles faziam

propostas de que eles poderiam colaborar com o PT.

- Com quanto?

- Aí a proposta variava de fato de R$ 5 milhões a R$ 16 milhões. Não era mais nenhuma

sondagem profissional. Eu ouvi essa conversa, relatei para o Ralf e levamos essa

proposta. Eu participei dessa conversa. Eu e o Ralf fomos juntos conversar com o Palocci,

na casa dele.

- Quando e onde?

- Na casa dele, no final de março, início de abril. Nessa época não existia a mansão,

ainda. Era a casa dele. O Ralf frequentava a casa dele. Fomos recebidos por ele e eu relatei

a conversa.

Burattti garante que o “negócio” não prosperou.

O presidente da CPI dos Correios, senador Delcídio Amaral (PT-MS), e o relator da

comissão, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), entregam o relatório final dos trabalhos

de investigação ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Na última hora,

foram incluídos os pedidos de indiciamento do banqueiro Daniel Dantas, do grupo

Opportunity, e da ex-presidente da Brasil Telecom, Carla Cicco. Ambos são acusados por

crimes de sonegação fiscal, tráfico de influência e corrupção ativa.

De acordo com Osmar Serraglio, a Brasil Telecom, na época sob controle do Opportunity,

injetou R$ 823 mil em empresas de Marcos Valério, por serviços de publicidade que não

seriam prestados. Além disso, outros R$ 3 milhões teriam ingressado em contas bancárias

de empresas de Marcos Valério, quantia que posteriormente iria ser remetida a empresas no

exterior. Existe muito mais dinheiro na jogada, contudo: a Telemig Celular e a Amazônia

Celular, pertencentes à holding da Brasil Telecom, repassariam R$ 158 milhões para as

agências de Marcos Valério, em cinco anos, por supostos serviços de publicidade. Para o

relator, o dinheiro alimentou o valerioduto e serviu para “aparar arestas” entre Daniel Dantas,

o PT e o governo Lula.

11/4/2006 O procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, divulga a conclusão

do inquérito conduzido por ele sobre o escândalo do mensalão. 40 pessoas são denunciadas

ao STF (Supremo Tribunal Federal) em decorrência das investigações. O procuradorgeral

endossa acusações da CPI dos Correios, mas seu relatório proporciona impacto maior.

Afinal, ele não poderia ser acusado de agir por ambições políticas, partidárias ou eleitorais.

Logo na introdução da denúncia, os acusados. Entre os nomes, 20 “estrelas”. A relação:

José Dirceu, Luiz Gushiken, José Genoino, Delúbio Soares, Silvio Pereira, Marcos Valério,

João Paulo Cunha, Pedro Corrêa, José Janene, Valdemar Costa Neto, Professor Luizinho,

João Magno, Anderson Adauto, Duda Mendonça, José Borba, Carlos Rodrigues, Zilmar

Fernandes da Silveira, Simone Vasconcelos, Henrique Pizzolato e Roberto Jefferson.

Antonio Fernando de Souza ressalva que “todas as imputações feitas pelo ex-deputado

Roberto Jefferson ficaram comprovadas”. Investigações “evidenciaram o loteamento

político dos cargos públicos em troca de apoio às propostas do governo, prática que

representa um dos principais fatores do desvio e má aplicação de recursos públicos,

com o objetivo de financiar campanhas milionárias nas eleições, além de proporcionar

o enriquecimento ilícito de agentes públicos e políticos, empresários e lobistas que

atuam nessa perniciosa engrenagem”.

Capítulo à parte, em seguida, trata exclusivamente do relatório do procurador-geral

da Repúlica.

13/4/2006 O editorial “Um libelo arrasador”, de O Estado de S. Paulo, comenta a denúncia

do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. Para o jornal, Lula é o

“beneficiário por excelência da corrupção em escala inédita promovida pelo PT”. O editorial

responsabiliza o presidente da República, por ser “impossível imaginar que não

tivesse conhecimento”:

“O que torna absolutamente críveis as conclusões do trabalho, além da manifesta isenção

do seu autor, é a consistência da análise da engrenagem por trás dos crimes perpetrados,

com o entrelaçamento dos ramos político-partidário, publicitário e financeiro da quadri270

lha. Mas a denúncia convence acima de tudo por sua irrepreensível objetividade. É o que a

distingue do relatório final da CPI dos Correios. Este, embora também tenha comprovado a

prática do mensalão, foi uma conta de chegar, como costumam ser os resultados das investigações

parlamentares, produto ao mesmo tempo de fatos apurados e pressões, ou negociações,

políticas.”

“Nada remotamente parecido com isso influenciou o inquérito dirigido pelo procuradorgeral.

A independência e a seriedade com que agiu transparecem na simplicidade do seu

texto, desprovido dos contorcionismos verbais ou do estilo barroco presentes no documento

da CPI. Com sujeitos, verbos e predicados em ordem direta, Antonio Fernando de Souza

dispensa eufemismos e chama as coisas pelos nomes – a começar do mais arrasador deles,

‘quadrilha’. Está lá: ‘compra (pelo PT) de suporte político de outros partidos’ e ‘financiamento

irregular de campanhas’.”

15/4/2006 A revista Veja comenta a denúncia do procurador-geral da República, Antonio

Fernando de Souza: “Ali estão escritos em detalhes e com precisão jurídica os

mecanismos de funcionamento do que talvez seja – com exceção da nomenklatura

soviética – a maior quadrilha jamais montada com o objetivo de garantir a continuidade

no poder de um mesmo grupo político, o PT de Lula. A hierarquia da quadrilha

descrita pelo promotor tem como chefe José Dirceu, deputado cassado por corrupção

que foi ministro-chefe da Casa Civil de Lula. Abaixo dele estão quase todos os ‘companheiros

de luta’ de Lula, gente com quem ele conviveu intimamente por quase três

décadas. O procurador-geral deixou vago no organograma da quadrilha o posto logo

acima de José Dirceu. Mas o quebra-cabeça não é de difícil solução. Basta montar as

peças e aparece o mais provável ocupante daquele posto. É isso que aponta o bom

senso. Basta tentar montar com as peças do quebra-cabeça uma outra imagem que

não a de Lula. Não encaixa”.

Para Veja, é evidente que o presidente era o beneficiário do esquema que tinha

como objetivo sustentar o projeto de poder do PT: “O novo quadro desmonta a principal

defesa de Lula, que sempre disse desconhecer todas as ações ilegais e clandestinas

em torno do mensalão”. A revista afirma: “Afinal, se estava alheio a tudo, podese

inferir sem exagero que Lula desconhecia como se construía o apoio a seu governo

e ignorava o que faziam seus principais auxiliares. Um presidente pode ser enganado

por autores da corrupção que ocorre num ministério de importância média comandado

por um aliado recém-chegado – mas é inverossímil que não seja informado sobre o

que se faz no coração de seu governo, uma instituição como a Casa Civil, comandada

por um homem como José Dirceu, a quem ele mesmo chamou de ‘capitão do time’.

Por não atender aos mínimos requisitos lógicos, o dilema de saber ou não saber tornou-

se questão ultrapassada. O que se precisa investigar agora é como Lula se articulava

com o bando dos 40. Que relações financeiras tinha com o ‘chefe da quadrilha’,

o deputado cassado José Dirceu?”

16/4/2006 O editorial “Lula com a palavra” comenta, na Folha de S.Paulo, a denúncia do

procurador-geral Antonio Fernando de Souza. Para o jornal, o presidente deve explicações

à sociedade. “Desde o início da crise, refugia-se num silêncio calculado, de vez em

quando interrompido por esparsas evasivas, contradições flagrantes e vagos desabafos

sentimentais”.

“Formação de quadrilha. Corrupção ativa e passiva. Lavagem de dinheiro e peculato.

No âmago do governo Lula, formou-se uma organização criminosa com vistas a manterse

no poder.”

“Não são frases de algum oposicionista enraivecido, e sim do relatório elaborado pelo

procurador-geral da República, formalizando denúncia contra os responsáveis pelo mensalão.

Entre eles, o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, o das Comunicações, Luiz

Gushiken, os três principais dirigentes do Partido dos Trabalhadores, o então presidente da

Câmara dos Deputados e um ex-diretor do Banco do Brasil.”

“Só uma quadrilha? Ou mais de uma? Também o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci

e o grupo capitaneado por ele enredam-se numa outra coleção de acusações policiais.”

O editorial centra em Lula: “Fui traído, disse ele mais de uma vez. Mas por quem? Lula

foi prudente em não citar nome nenhum: muitos ainda não eram do conhecimento público

quando a frase foi pronunciada pela primeira vez; a lista, até hoje em aberto, poderia sem

dúvida oferecer diversos novos candidatos ao indiciamento criminal”.

“O presidente não sabia de nada? ‘O importante’, afirmou numa famosa entrevista em

julho de 2005, ‘não é se você sabia ou não, porque, se eu tivesse condição de saber, não teria

acontecido’. (…) Naquela ocasião, Lula recorria apenas ao truque vocabular de referir-se a

hipotéticos ‘erros’ cometidos por seu partido: ‘o PT, se cometeu erros, tem que explicar para

a sociedade brasileira que erros cometeu’.”

“Mais do que erros, entretanto, é o que Lula tem de explicar agora. ‘Já faz tempo que eu

deixei de ser presidente do PT’, prosseguia ele naquela entrevista, sintomaticamente gravada

nos jardins de um certo ‘Museu do Ar’, em Paris. ‘Depois que eu virei presidente da

República, eu não pude mais participar da reunião do diretório do PT’.”

“Mas participou, ao que tudo consta, de reuniões com ministros perto dos quais as figuras

de um Delúbio Soares e de um Silvio Pereira assumem o papel de aprendizes, de coadjuvantes,

de bodes expiatórios numa farsa monumental.”

“Farsa de um governo eleito com a bandeira da ‘ética na política’ e que tem, como

principal recurso para provar sua inocência, o argumento de que todo o episódio do mensalão

se resumiu a um caso de caixa 2 – ‘o que é feito no Brasil sistematicamente’, disse Lula,

para corrigir-se meses depois. Trata-se ‘de prática condenada pela sociedade brasileira’,

afirmou finalmente, com tardia convicção. É a mesma convicção com que garantiu, em

dezembro passado, que ‘a CPI vai terminar e eles não vão provar o mensalão’.”

“Foram essas as certezas, foram essas as considerações do presidente da República ao

longo da crise – extraídas a custo dos raros momentos em que se alçou ao dever civil de

prestar contas pelo descalabro de seu governo. Nada mais se ouviu do presidente. Exceto

o espetáculo da auto-congratulação balofa, da banalidade conceitual e da defesa da pró272

pria ignorância – que não se resume ao tema de sua falta de instrução formal, mas àquele,

muito mais grave, que diz respeito às façanhas de delinquência organizadas em seu círculo

mais próximo.”

O ex-governador do Rio, Anthony Garotinho (PMDB), relata ter sido procurado por José

Dirceu (PT-SP) na véspera da votação do processo de cassação do ex-ministro. José Dirceu

precisava de apoio para ser absolvido na Câmara dos Deputados. Buscava suporte do exgovernador.

Anthony Garotinho falou aos repórteres Plínio Fraga e Sérgio Costa, da Folha

de S.Paulo. Palavras de Garotinho sobre o encontro com José Dirceu:

- Ele falou que eu devia ter muita mágoa dele: “Mas saiba que tudo o que eu fiz, tudo, fiz

porque o Lula mandou. Você acha que ia mandar bloquear o dinheiro do Rio e o Palocci iria

obedecer? Todo político tem alguém que faz o lado mau. Estou pagando agora por ter feito

o lado mau”.

Comentário de José Dirceu sobre a entrevista de Garotinho:

- Não vou bater boca com ele.

O relator da CPI, Osmar Serraglio (PMDB-PR), entrega à Procuradoria-Geral da República

lista com nomes de assessores de parlamentares que estiveram na agência do Banco Rural

no Brasília Shopping, usada para efetuar pagamentos do mensalão. A relação traz funcionários

do ex-ministro das Comunicações, Eunício Oliveira (PMDB-CE), e dos deputados José

Militão (PTB-MG), Moacir Micheletto (PMDB-PR) e Benedito de Lira (PP-AL).

Todos alegam que os funcionários foram resolver problemas pessoais no Rural. Claudia

Luiza de Morais, assessora de Eunício Oliveira, esteve 22 vezes na agência bancária, inclusive

em 17 de dezembro de 2003. Eunício ainda era líder do PMDB naquele dia. Foram

efetuados três saques suspeitos.

18/4/2006 Em depoimento à Polícia Federal, a jornalista Helena Chagas, diretora da sucursal

do jornal O Globo em Brasília, desmente Antonio Palocci (PT-SP). Ela nega ter afirmado

ao ex-ministro da Fazenda que o caseiro Francenildo Santos Costa recebera quantia

significativa em dinheiro.

Helena Chagas recebeu telefonema de Antonio Palocci na tarde de 15 de março, véspera

da violação do sigilo bancário. Segundo ela, Palocci informara que o senador Tião Viana

(PT-AC) lhe dissera sobre o suposto dinheiro do caseiro. Em depoimento à Polícia Federal,

Palocci havia dito que Helena Chagas comentara com ele que Francenildo “tinha um bom

dinheiro”.

A jornalista mora ao lado da “casa dos prazeres”. Ouviu de seu jardineiro, Leonardo

Moura, que Francenildo recebera dinheiro. Ela comentou o assunto com Tião Viana. Em

depoimento à Polícia Federal, Leonardo Moura confirma a história. Conta que o caseiro

voltou de férias em janeiro dizendo que o pai havia lhe dado uma quantia, com a qual

pretendia comprar um terreno nos arredores de Brasília. Ao ver a fotografia de Francenildo

nos jornais, Leonardo Moura relatou a Helena Chagas o que ouvira do caseiro.

Fica a impressão de que Tião Viana e Antonio Palocci se fixaram no “dinheiro” de

Francenildo Santos Costa, com a suposição de que o caseiro fora subornado pela oposição.

Em consequência, houve a quebra do sigilo bancário do rapaz. Acharam que, ao

desqualificar o caseiro, quaisquer denúncias sobre a “casa dos prazeres” não teriam

mais credibilidade.

19/4/2006 A Polícia Federal conclui inquérito sobre a quebra do sigilo bancário de Francenildo

Costa. Antonio Palocci é apontado como mandante do crime. Jorge Mattoso, ex-presidente

da Caixa Econômica Federal, e o jornalista Marcelo Netto, ex-assessor de Palocci,

aparecem como co-autores.

Palocci e Mattoso são acusados de violação do sigilo funcional e quebra de sigilo bancário,

crimes cujas penas podem chegar a dez anos de prisão. O ex-ministro é indiciado por prevaricação,

por não ter tomado providências legais ao receber os extratos das mãos de Mattoso.

Palocci também fez denúncia caluniosa ao tentar provocar uma investigação contra o caseiro,

com base em acusação falsa. Marcelo Netto é indiciado por repassar os extratos à imprensa.

A reconstituição da Polícia Federal: em 16 de março, Palocci reuniu-se com Mattoso no

Palácio do Planalto, das 17h às 20h. Depois do encontro, no caminho para a Caixa, Mattoso

tentou sem sucesso localizar Clarice Copetti, vice-presidente da Caixa. Já na estatal, Mattoso

chamou o consultor Ricardo Schumann, a quem entregou o nome completo e o CPF do

caseiro, e pediu as informações sigilosas sobre a conta bancária.

Os extratos foram entregues a Mattoso num restaurante. O presidente da Caixa telefonou

a Palocci. Descreveu a existência de depósitos “atípicos” e levou os extratos à casa do exministro.

Palocci estava “contente” e “entusiasmado” com os rumores de que o caseiro

recebera dinheiro de políticos da oposição. Pôs as mãos nos extratos depois das 23h. Horas

depois, os documentos já estavam com jornalistas da revista Época.

A Polícia Civil de São Paulo indicia Palocci por formação de quadrilha, lavagem de

dinheiro, peculato e falsidade ideológica. Os crimes estão vinculados a denúncias de fraudes

em contratos de limpeza pública em Ribeirão Preto (SP), na época em que Palocci foi

prefeito da cidade.

Durante depoimento prestado em Brasília, o ex-ministro afirma que, se houve irregularidades,

a responsabilidade é do Daerp (Departamento de Água e Esgoto de Ribeirão Preto).

O Ministério Público não aceita. Declaração do promotor Daniel de Angelis:

- Uma organização que dá um prejuízo de R$ 30 milhões em quatro anos não passaria

despercebida pelo prefeito.

A Câmara dos Deputados absolve o deputado José Mentor (PT-SP), acusado de

envolvimento no escândalo do mensalão. Votam pela cassação 241 deputados, 16 a menos

que o necessário. Outros 175 votam pela absolvição. Há oito abstenções, seis cédulas em

branco e dois votos nulos. José Mentor é o último deputado ligado ao ex-ministro José

Dirceu (PT-SP) a ser julgado. Já se livraram da cassação João Paulo Cunha (PT-SP), Professor

Luizinho (PT-SP) e Paulo Rocha (PT-PA), que renunciou para não perder o mandato.

José Mentor recebeu R$ 120 mil de empresa de Marcos Valério. Alegou que prestou

serviço de consultoria a Rogério Tolentino, sócio de Valério. A justificativa não foi aceita

pelo relator do caso no Conselho de Ética, Nelson Trad (PMDB-MS). Para ele, Mentor

recebeu pagamento para não aprofundar investigações contra o Banco Rural na CPI do

Banestado, a pedido de Valério.

Enquanto os deputados decidiam em votação secreta a sorte de Mentor, uma representação

encaminhada pelo procurador-geral de São Paulo, Rodrigo Rebello Pinho, era protocolada

na presidência da Câmara. O presidente da Casa, deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), não

a divulgou. A denúncia só viria a público cinco dias depois, ao chegar à Corregedoria.

A denúncia: o doleiro Richard Andrew de Mol Van Otterloo afirmou ao Ministério Público

que pagou R$ 300 mil a José Mentor para ser excluído do relatório final da CPI do

Banestado. Mais: Flávio Maluf, filho do ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf (PP-SP), foi

quem orientou o pagamento da propina, pois temia que o “efeito cascata” de eventual depoimento

de Otterloo implicasse Paulo Maluf. É que Richard Andrew Otterloo tinha negócios

com o doleiro Vivaldo Alves, o “Birigui”, apontado como operador do ex-prefeito.

Uma investigação sobre o doleiro poderia levar à descoberta da conta Jazz e, a partir

dela, se chegaria à conta Chanani, atribuída a Paulo Maluf. Otterloo disse ao Ministério

Público que ele e o sócio Raul Henrique Srour procuraram um intermediário de José Mentor,

sob orientação de Flávio Maluf, e entregaram o dinheiro num flat em São Paulo. Otterloo

também teria executado operações ilegais para internar US$ 30 milhões em nome de Maluf.

De acordo com o relato de Otterloo, José Mentor cumpriu sua parte no trato ao entregarlhe,

antecipadamente, em disquete, o relatório final da CPI, sem o seu nome. Otterloo

tampouco foi intimado a depor.

Do termo de declaração de Otterloo: “Esclarece ainda que teve notícia de que outros

doleiros também foram procurados para pagar propina a José Mentor, não sabendo se houve

efetivo pagamento”.

Explicação da assessoria de José Mentor: o deputado afirma ter determinado a quebra

dos sigilos bancário e fiscal de vários doleiros durante a investigação, mas não se lembra se

Otterloo estava entre eles. O nome do doleiro não apareceu no relatório final.

Aldo Rebelo foi providencial para garantir a absolvição de José Mentor.

O Ministério Público abre inquérito para investigar a participação do ex-ministro José

Dirceu (PT-SP) e do chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho (PT-SP), no

esquema de desvio de dinheiro em Santo André (SP), durante a gestão do prefeito Celso

Daniel (PT). Os dois são acusados pelos crimes de formação de quadrilha, receptação e

lavagem de dinheiro. Conforme os irmãos de Daniel, João Francisco e Bruno, Gilberto

Carvalho, secretário de Governo de Santo André, levou propina a José Dirceu.

Em 2002, o Ministério Público chegou a pedir a abertura de investigação contra Dirceu.

Foi barrado por Nelson Jobim, presidente do STF (Supremo Tribunal Federal). Na época,

Dirceu, ainda deputado, tinha foro privilegiado.

Sempre Nelson Jobim.

20/4/2006 A Justiça Federal do Ceará bloqueia os bens do deputado José Nobre Guimarães

(PT-CE), irmão do ex-presidente do PT, José Genoino. Ele é investigado no caso em que seu

assessor, José Adalberto Vieira da Silva, foi preso com US$ 100 mil escondidos na cueca e

outros R$ 200 mil acondicionados numa maleta, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

O inquérito quebrou os sigilos telefônicos de dois celulares do irmão de José Genoino e

as informações bancárias de três empresas. O Ministério Público concluiu que houve

favorecimento ao consórcio STN (Sistema de Transmissão do Nordeste), num empréstimo

de R$ 300 milhões concedido pelo BNB (Banco do Nordeste do Brasil). Em troca de facilidades

para a obtenção do crédito, o STN teria concordado em pagar propina. O dinheiro em

poder do assessor de José Nobre Guimarães teria sido parte do suborno.

21/4/2006 Apesar de cassado, o ex-ministro José Dirceu continua atuando no cenário político.

Mantém conversas com o presidente Lula e integrantes do primeiro escalão do Governo

Federal, como o ministro Tarso Genro (PT-RS). De reportagem de Malu Delgado e Catia

Seabra, na Folha de S.Paulo:

“Relatos de petistas, de ministros e de parlamentares dão conta de que, nos bastidores,

Dirceu executa ações políticas nos Estados para favorecer o projeto de reeleição do presidente

Luiz Inácio Lula da Silva, conversa com parlamentares, orienta petistas, traça estratégias sobre

a ofensiva petista nas CPIs, participa de almoços e jantares com políticos e empresários.”

Se José Dirceu mantém relacionamento com Lula depois de tudo o que aconteceu – e

continuaria a mantê-lo durante o segundo mandato do presidente do PT – o mínimo a se

dizer é que Lula não foi traído como alegou algumas vezes. Nem poderia. José Dirceu teve

apenas a responsabilidade de operar o mensalão. Lula, ao que tudo indica, foi, desde o

princípio, o chefe.

Do deputado Júlio Delgado (PSB-MG), autor do processo que recomendou ao Conselho

de Ética a cassação de Dirceu, ao comentar a notícia de que o ex-ministro se deslocou de

São Paulo a Juiz de Fora (MG), em jatinho particular, para se reunir com o ex-presidente da

República Itamar Franco (PMDB-MG):

- É no mínimo estranho que uma pessoa que saiu logo após o processo afirmando que iria

escrever para se sustentar porque estava quebrado e, mesmo sem o livro, o que se viu foi uma

sequência de viagens e um estilo de vida que não se sabe de onde vem a sustentação para fazê-lo.

30/4/2006 Levantamento do governo dos Estados Unidos sobre movimentações financeiras

do publicitário Duda Mendonça. Os dados foram encaminhados para investigações no Brasil.

As operações ocorreram em junho e julho de 2003, no início do governo Lula. Somam

US$ 1,6 milhão, de acordo com reportagem da Folha de S.Paulo.

O dinheiro saiu da empresa offshore Dusseldorf, a mesma que foi usada por Duda Mendonça

para receber dinheiro de caixa 2 por serviços prestados na campanha eleitoral de

2002. Numa das movimentações, US$ 875 mil seguiram para a Pirulito Company, ligada a

Eduardo de Matos Freiha, sócio de Duda Mendonça. A empresa fica em Nassau, capital do

paraíso fiscal das Bahamas, onde está localizada a Dusseldorf. A conta bancária foi aberta

15 dias antes da remessa, no BankBoston de Miami.

A Dusseldorf fez operações no mesmo BankBoston de Miami. De lá saíram US$ 500 mil

para a conta da Stuttgart Company, aberta dois meses antes, e US$ 218 mil para a Raspberry

Company. O dinheiro circulou. A maior parte foi para as offshores Ágata e Maximus, cujo

controle é atribuído a doleiros responsáveis por movimentações de milhões de dólares por

meio de um banco suspeito de lavar dinheiro, o MTB de Nova York.

3/5/2006 O garçom Anderson Ângelo Gonçalves, o “Jack”, presta depoimento à CPI dos

Bingos. Ele menciona o empresário angolano José Paulo Teixeira Figueiredo no caso do

assassinato de Antonio da Costa Santos, o “Toninho do PT”, ex-prefeito de Campinas (SP).

Toninho do PT foi morto a tiros em 10 de setembro de 2001. José Paulo Teixeira Figueiredo,

empresário do jogo apontado como dono de casas de bingo, é investigado por ligações com

Antonio Palocci (PT-SP). Ele teria doado US$ 1 milhão para a campanha de Lula em 2002,

conforme informações de Rogério Buratti.

Em depoimento fechado, Jack cita o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Segundo

o garçom, Bastos tentou convencê-lo a não testemunhar sobre o caso. Na época, o escritório

de advocacia de Bastos prestava serviços à família de Toninho do PT. Estranho. Jack

relata que ouviu conversas entre José Paulo Teixeira Figueiredo e integrantes do PT no

bingo Taquaral, em Campinas. O garçom trabalhava lá. Foram encontros nas madrugadas

dos dias 3 e 6 de setembro de 2001. O prefeito foi assassinado quatro dias depois.

De acordo com Jack, o prefeito de Campinas foi morto porque contrariou interesses de

empresários do jogo. Ele ouviu José Paulo Teixeira Figueiredo tramar vingança contra

Toninho do PT. Estava inconformado por não obter licença de funcionamento para casas de

bingo. O garçom diz que o PT montou operação para evitar o esclarecimento do crime.

Afirma que Lauro Câmara Marcondes, militante do partido, participou dos encontros nas

madrugadas. Ele se tornou secretário municipal em Campinas, após o assassinato do prefeito.

Também esteve nos encontros alguém identificado como “Andrezinho”, apontado como

o traficante incumbido de matar Toninho do PT.

Sobre o envolvimento do ministro da Justiça, Jack conta que manteve encontro com

Bastos em meados de 2002. Diz ter recebido oferta de R$ 200 mil para não depor nem

prestar esclarecimentos sobre o crime. E denuncia: sofreu ameaças após se reunir com Bastos.

A Câmara dos Deputados absolve, em votação secreta, o deputado Josias Gomes (PTBA),

mais um que se livra da acusação de envolvimento no escândalo do mensalão. Votam

pela cassação 228 deputados, 29 a menos que os 257 votos necessários. Outros 190 votam

pela absolvição do petista. Há ainda 19 abstenções, cinco votos em branco e um anulado.

Acusado de receber R$ 100 mil de Marcos Valério, Josias Gomes negou no primeiro

momento ter posto as mãos no dinheiro. Contou que foi ao Banco Rural apenas para obter

informações sobre um empréstimo que desejava fazer. Depois confessou o saque. Esteve

pessoalmente na agência e apresentou documento antes de fazer a retirada. Disse que não

sabia a origem do dinheiro, cujo repasse fora autorizado por Delúbio Soares. Alega que

usou a soma para quitar despesas da campanha eleitoral na Bahia. Para o deputado, o mensalão

nunca existiu. Foi criado pela imprensa. Do discurso de Josias Gomes:

- Refuto as acusações que são impostas. Não sou corrupto. Jamais o serei.

Do relator do caso, deputado Mendes Thames (PSDB-SP), para quem Josias Gomes

deveria ser cassado porque, entre outras coisas, efetuou saque em 2003, ano em que não

havia eleições:

- É fato. Recebeu valores provenientes do valerioduto.

Com nova formação, o Conselho de Ética absolve, por 8 votos a 5, o deputado Vadão

Gomes (PP-SP). Ele foi acusado de receber R$ 3,7 milhões do valerioduto. Antes das mudanças

no Conselho de Ética, o PT tinha apenas um voto no órgão. Agora, tem três. Os

deputados Eduardo Valverde (PT-RO), Anselmo (PT-RO) e Neyde Aparecida (PT-GO) votam

a favor de Vadão.

4/5/2006 Toma posse o novo presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministro Marco

Aurélio Mello. Ele critica o que chama de “projeto de alcançar o poder de forma ilimitada e

duradoura”. Marco Aurélio Mello discursa:

- Perplexos, percebemos, na simples comparação entre o discurso oficial e as notícias

jornalísticas, que o Brasil se tornou o país do faz-de-conta. Faz de conta que não se produziu

o maior dos escândalos nacionais, que os culpados nada sabiam, o que lhes daria carta de

alforria prévia para continuar agindo como se nada de mal tivessem feito. Faz de conta que

não foram usadas as mais descaradas falcatruas para desviar milhões de reais, num prejuízo

irreversível em País de tantos miseráveis. Faz de conta que tais tipos de abuso não continuam

se reproduzindo à plena luz, num desafio cínico à supremacia da lei, cuja observação é

tão necessária em momentos conturbados.

Para Marco Aurélio Mello, o indiciamento de autoridades se tornou banal:

- São tantas e tão deslavadas as mentiras, tão grosseiras as justificativas, tão grande

a falta de escrúpulos que já não se pode cogitar somente de uma crise de valores, senão

de um fosso moral e ético que parece dividir o País em dois segmentos estanques: o da

corrupção, seduzido pelo projeto de alcançar o poder de uma forma ilimitada e duradoura,

e o da grande massa comandada que, apesar do mau exemplo, se esforça para

sobreviver e progredir.

Mais um escândalo da era Lula. A Polícia Federal deflagra a Operação Sanguessuga.

Prende 46 políticos, empresários e assessores acusados de se beneficiar de esquema fraudulento

de venda de ambulâncias para prefeituras. A fraude movimentaria R$ 110 milhões. A

metade do dinheiro teria sido desviada. Entre os presos, os ex-deputados Ronivon Santiago

(PP-AC), Carlos Rodrigues (PL-RJ) e um assessor do senador Ney Suassuna (PMDB-PB).

O esquema funcionava a partir do Ministério da Saúde. Era ali que despachava a funcionária

Maria da Penha Lino, nomeada como assessora em 2005. Na época, o ministro

era o atual deputado Saraiva Felipe (PMDB-MG). Ele deixou o cargo, mas a funcionária,

apontada como líder das operações, foi mantida no posto pelo novo ministro, Agenor

Álvares da Silva.

Outros dois funcionários do Ministério da Saúde também foram acusados de facilitar os

negócios fraudulentos das ambulâncias. As suspeitas sobre as atividades da quadrilha foram

oficialmente informadas ao primeiro ministro da Saúde da era Lula, Humberto Costa (PTPE),

em 2004. Ele não nega:

- Recebi, sim, essa informação. Montei um grupo de trabalho para averiguar a denúncia,

mas não se chegou a nenhum resultado.

O ex-ministro Humberto Costa, nomeado depois secretário de Comunicação do PT, não

suspendeu a liberação das emendas para a compra de ambulâncias. As transações continuaram.

Dezenas de parlamentares que apresentaram emendas ao Orçamento podem estar envolvidos.

O esquema era controlado pela empresa Planam, com sede em Mato Grosso,

responsável pela venda das ambulâncias superfaturadas. Maria da Penha Lino prestaria

serviços para a Planam. A propina era dividida entre os envolvidos.

A Polícia Federal desvendou a operação: representantes da Planam procuravam prefeituras

e ofereciam um pacote para a aquisição das ambulâncias. Já vinha com a promessa de

que parlamentares iriam apresentar emendas ao Orçamento prevendo recursos para as compras.

Com o dinheiro garantido, as prefeituras encaminhavam projetos ao Governo Federal.

Solicitavam as ambulâncias. A aprovação dos contratos era acelerada dentro do Ministério

da Saúde. Para assegurar que os veículos realmente seriam adquiridos do esquema da Planan,

empresas fantasmas participavam das licitações, a fim de garantir as melhores condições e

ofertas por parte da empresa de Mato Grosso. Mais de mil ambulâncias foram negociadas.

Circulam listas com suspeitos. Uma traz os nomes de 62 parlamentares. Outra, de 70

prefeitos. Depois surgiria menção a 107 deputados e senadores. Logo os números oscilariam

até 170 parlamentares. Um escândalo. Maria da Penha Lino, presa, entrega 81 nomes. O

advogado dela, Eduardo Mahon, comenta o depoimento de Maria da Penha Lino à Polícia

Federal. O advogado menciona o trecho em que a funcionária pública se referiu ao motorista

Fernando Freitas, que levava os donos da Planam à garagem do Congresso:

- Na garagem, pegavam as malas e colocavam o dinheiro no paletó, nas meias e nas

cuecas. Passavam pelo detector de metal da chapelaria. Não dava nada. Subiam à Câmara.

Iam de gabinete em gabinete, fazendo os acertos. Acabava o dinheiro, voltavam para o carro

e pegavam mais. Na cara dura, na cueca, na meia.

O motorista Fernando Freitas confirma à Polícia Federal que transportou ao Congresso

Nacional, em Brasília, os empresários Darci Vedoin, Luiz Antonio Trevisan e Ronildo

Medeiros, todos de Cuiabá. Eles levavam “grandes quantidades de dinheiro” no porta-malas

do Toyota Corolla, em “maletas tipo executivo”. O dinheiro era posto nos bolsos e nas

meias dos empresários, e eles entravam no prédio do Congresso. O motorista admite ter

efetuado retiradas bancárias para a Planam com outros funcionários da empresa.

A Câmara anuncia a abertura de investigação sobre o envolvimento de 16 acusados.

São os seguintes deputados: Almir Moura (PFL-RJ), Fernando Gonçalves (PTB-RJ), Isaías

Silvestre (PSB-MG), João Batista (PP-SP), João Correia (PMDB-AC), Marcos Abramo

(PP-SP), Maurício Rabelo (PL-TO), Neuton Lima (PTB-SP), Paulo Baltazar (PSB-RJ),

Professor Irapuan Teixeira (PP-SP), Reinaldo Gripp (PL-RJ), Ricarte de Freitas (PTBMT),

Vieira Reis (PRB-RJ), Wellington Fagundes (PL-MT), Zelinda Novaes (PFL-BA) e

Reginaldo Germano (PP-BA).

7/5/2006 O jornal O Globo publica entrevista-bomba com Silvio Pereira, o “Silvinho”, que

ocupava o cargo de secretário-geral do PT quando estourou o escândalo do mensalão. Ficou

famoso por ganhar um jipe importado Land Rover, de um executivo da GDK, empresa contratada

pela Petrobras. Agora, Silvinho denuncia um plano para faturar R$ 1 bilhão. Afirma, sem

titubear: quem mandava no PT “eram Lula, Genoino, Mercadante e Zé Dirceu”.

Silvinho recebeu a repórter Soraya Aggege em seu apartamento em São Paulo. Concedeu

oito horas de entrevista. Depois, arrependido do que disse, pediu para as declarações

não serem publicadas. Poderiam provocar nova crise política. A repórter argumentou que a

entrevista era importante, e ele mesmo tinha concordado com a publicação da matéria.

Nervoso, Silvinho teria ameaçado se matar. Passou a se bater e a destruir o apartamento.

“Vão me matar. Eles vão me matar. Não faça isso comigo. Tem muita gente importante

envolvida nisso”. Soraya Aggege deixou o local. Documentos repassados à repórter e um

caderno de anotações ficaram retidos pelo ex-secretário-geral do PT. As declarações dele à

repórter de O Globo sobre as quais se arrependera:

- Marcos Valério é um homem muito, muito inteligente. Ele atuou na campanha do Lula

na normalidade. Depois foi crescendo. Ele tinha quatro pontos de interesse com o governo.

Não se esqueça que ele vem do Banco Central, foi funcionário de lá. Por que você acha que

acharam ele 17 vezes acionando o BC? Não tem essa história de propaganda, isso é bobagem.

O plano era faturar R$ 1 bilhão. Em quatro áreas: Banco Econômico, Banco Mercantil

de Pernambuco e Opportunity. Tinha ações dele lá que renderiam dinheiro. Mas nenhum

dos quatro esquemas rolava. Valério trabalhou com o Daniel Dantas, mas o governo era

dividido com essa história. (…) O quarto ponto eu não sei bem, mas eram uns passivos na

área de agropecuária.

Em outro trecho da entrevista, a fonte do dinheiro do esquema. Diz Silvinho:

- Empresas. Muitas. Não vou falar nomes. As empresas entre si fraudam as coisas. Às

vezes o governo não persegue, e é só isso. Elas se associam em consórcios, combinam como

vencer. O Delúbio começou a usar o Marcos Valério para pagar as contas. Agora, da lista do

Banco Rural, o Delúbio não sabia, não. O que aconteceu é que Delúbio perdeu o controle.

Ele só sabia de três ou quatro deputados do PT. O resto, que recebeu no Banco Rural, não

era esquema do Delúbio. Tudo o que foi sacado não tinha a ver com o Delúbio. Quem mais

sacou? Há muita hipocrisia.

Silvinho omite quem, no comando do PT e do governo Lula, fazia a interface com Marcos

Valério, indicando-lhe como proceder e encaminhar questões de interesse do esquema.

Mas o entrevistado diz, em última análise, que Marcos Valério engoliu o PT:

- O PT virou refém do Marcos Valério, não tinha mais jeito. O Marcos Valério estabeleceu

canais próprios com petistas e não-petistas. Tem muita gente, muitos partidos. Só

que tudo caiu na nossa conta. Não tinha jeito de ser diferente. Quando estourou, nos

encontramos com ele. Marcos Valério disse três coisas: “Olha, tenho três opções: entregar

todo mundo e derrubar a República, ficar quieto e acabar como o PC Farias, ou o meio

termo”. Foi isso.

Como se sabe, PC Farias, acusado de ser o principal operador do esquema de desvio de

dinheiro perpetrado no governo do presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992), foi

assassinado. Marcos Valério, portanto, optou pelo meio termo. Um ponto curioso: Silvinho

diz que “meu papel era convencer os ministros do PT a liberarem cargos para os aliados”.

Mas havia outras coisas, obviamente, como ele mesmo diz:

- Ganhei uma dimensão que não tinha, trânsito com todo mundo. Essa gente não é fácil,

tentou tudo. Mas eu não ia a festas com eles.

Ou seja, quem “ia a festas”, esses sim, pertenciam ao primeiro time e seriam os grandes

responsáveis pelo esquema. Em outro ponto da entrevista, Silvinho aponta os mandantes:

- Sempre fui da organização partidária. Quem mandava? Eram Lula, Genoino, Mercadante

e Zé Dirceu. Eu não estava à altura desse time.

Ele acrescenta:

- Para cargos foi criada uma comissão: Genoino, Delúbio e eu. Só não mexi com os

fundos de pensão. Os fundos ficaram por conta do Sereno e do Delúbio. Os maiores ficaram

com o Gushiken. Mas não houve nada de errado com os fundos.

Não é o que apontam as investigações.

Diz Silvinho:

- Com os cargos, eu tentava cumprir os acordos do partido. Mas o governo não cumpria,

não funcionava. Mesmo com o Roberto Jefferson. Eu ia sempre lá para tentar fazer os

ajustes. Tinha um descontentamento muito grande do PTB. Os ministros bloqueavam.

De acordo com Silvinho, “o PT deu muito dinheiro ao PTB”. Ele revela um número

desconhecido sobre a dívida do PT:

- No fim do ano de 2003, a dívida era de R$ 120 milhões. Aí veio a campanha de 2004.

E como eu soube da conta? Marcos Valério entra na minha sala e mostra a conta. Ele não

conseguia chegar no Zé. Ele então me mostrou a dívida. E todos imaginavam que a conta

era de R$ 50 milhões.

Claríssima a importância de Valério no esquema. Era ele o tesoureiro de fato do PT, o

grande operador de dinheiro dentro do partido. Agora, uma declaração enigmática, mas das

mais importantes da entrevista de Silvinho:

- A verdade do PT não tem como ser digerida pela mídia. Como o Delúbio consegue,

com uma assinatura dele mesmo, R$ 50 milhões? Olha, eu acho que o Delúbio não parou e

olhou a coisa como um todo. Ele não é corrupto. Não é. Quem decidia tudo isso? Não havia

uma decisão, não é como vocês pensam. Atrás do Marcos Valério deve haver 100 Marcos

Valério. É um mecanismo, e que agora continua no País.

Informações sobre uma conta bancária no paraíso fiscal da ilha de Cayman, no Caribe,

agitam o Congresso. Ela registrou depósitos de R$ 11,1 milhões e foi operada por aparelho

de fax instalado na sala da liderança do PMDB no Senado. Documentos obtidos pelo repór281

ter Rubens Valente, da Folha de S.Paulo, mostram que o dinheiro foi transferido em 2003

para outra conta, que chegou a ter R$ 15,5 milhões no ano seguinte.

As operações teriam sido conduzidas por um assessor de nome Francisco Sampaio de

Carvalho. Ele foi levado à liderança do PMDB pelo presidente do Senado, Renan Calheiros

(PMDB-AL). Na época, Renan Calheiros era o líder do partido. Em 2005, por indicação de

Renan Calheiros, o assessor passou a atuar como consultor do presidente do Senado. Documentos

sobre as movimentações financeiras também foram recebidos pelo fax da presidência

do Senado. Em meio aos trabalhos de apuração da reportagem, Francisco Sampaio de

Carvalho se afastou do cargo.

8/5/2006 A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) decide encaminhar à Procuradoria-

Geral da República notícia-crime contra Lula. Quer uma investigação do presidente por

envolvimento no escândalo do mensalão. Para a OAB, há indícios de participação de Lula

em crimes de corrupção.

Durante reunião do conselho da OAB, fica decidido que não será formalizado pedido de

abertura de processo de impeachment. A decisão traz alívio ao PT. A maior parte dos integrantes

do conselho entende que o pedido de impeachment é politicamente inoportuno,

devido à proximidade das eleições e à falta de legitimidade do Congresso para julgar o

presidente da República por crime de responsabilidade.

Para o relator do caso, Sérgio Ferraz, que votou pela abertura do processo, existem mais

indícios contra Lula do que havia contra o ex-presidente Collor. Em 1992, a OAB pediu o

impeachment de Collor. Diz o relator:

- Estamos imersos em grave crise institucional. O que temos em mãos não são meros

artifícios oposicionistas, em busca de rendimentos e lucros eleitorais.

Da advogada Elenice Carille, autora da proposta de abertura de processo por crime de

responsabilidade contra Lula:

- A ignorância criminosa dos fatos, que invoca o presidente da República, importa em

crime por omissão, em crime que não deixa impressão digital e que não deixa qualquer

prova material, mas nem por isso deixa de ser crime.

10/5/2006 A CPI dos Bingos analisa documento em poder da Justiça dos Estados Unidos.

Consta que o PT tentou extorquir “dezenas de milhões de dólares” do grupo Opportunity. O

ofício foi enviado ao juiz Lewis A. Kaplan, de Nova York, pelo escritório de advocacia

Bóies, Schiller Flexner, contratado para defender nos Estados Unidos o banqueiro Daniel

Dantas, controlador do grupo Opportunity. O documento, de 13 de abril de 2005, é assinado

pelo advogado Philip C. Korologos: “O ódio e a perseguição relacionados ao Opportunity

começaram com a recusa do banco, em 2002 e 2003, de aceitar a sugestão do Partido dos

Trabalhadores de pagar dezenas de milhões de dólares ao partido, para evitar pressões governamentais

sobre o Opportunity”.

Segue trecho de declaração do mesmo advogado Philip C. Korologos, durante conversa

ocorrida em 26 de abril, menos de duas semanas depois, com advogados do Citibank e o

juiz de Nova York: “Há pressão do governo, há pressão dos fundos de pensão, há desejos de

fazer negócios com a Telemar. Há interesses comerciais, conforme explicados por Gustavo

Marin, presidente do Citibank no Brasil, da Brasil Telecom, e reportados do seu encontro

com o presidente do Brasil”.

A Brasil Telecom é uma das mais importantes operadoras de telefonia fixa do País.

Informações apuradas pela Folha de S.Paulo dão conta de que mais de um emissário do PT

mandou recados a executivos do Opportunity, manifestando interesse por doações. Segundo

a repórter Janaína Leite, “a insinuação era que uma contribuição de R$ 90 a R$ 110

milhões poderia aplacar o clima de guerra do governo contra o banqueiro”.

O Opportunity sustenta a versão de que a abordagem de integrantes do PT foi informada

ao Citibank, associado à época ao banco brasileiro. Os dois sócios teriam se negado a dar o

dinheiro. Daniel Dantas é desafeto do grupo do PT ligado ao movimento sindical bancário

e aos fundos de pensão, um setor sob influência do ex-ministro Luiz Gushiken (PT-SP).

O Opportunity tentava recuperar o controle da Brasil Telecom. A Justiça norte-americana

afastou o grupo da gestão da empresa e favoreceu o Citibank na disputa societária. Daniel

Dantas travava guerra judicial com o Citibank e os fundos de pensão ligados ao Banco do

Brasil, Caixa Econômica Federal e Petrobras. O problema vinha desde 1998, com a privatização

da Brasil Telecom. A empresa foi comprada por consórcio formado pelo Opportunity, gestor

de recursos do Citibank, pela Telecom Itália e os fundos de pensão do Banco do Brasil, Caixa

Econômica Federal e Petrobras. Em 2005, o Opportunity perdeu disputa com a Telecom Itália

e foi abandonado pelo Citibank, que decidiu se associar aos fundos de pensão.

Daniel Dantas prestou depoimento às CPIs dos Correios e do Mensalão para explicar

contratos que manteve com as agências de publicidade de Marcos Valério. Os contratos

foram suspensos após a eclosão do escândalo do mensalão, mas mesmo assim a Brasil

Telecom chegou a transferir R$ 3,9 milhões para a SMPB e R$ 823 mil para a DNA. O

banqueiro admitiu ter se reunido duas vezes com o ex-ministro José Dirceu em 2003, mas

negou que fez doações em dinheiro ao partido do presidente da República.

O Conselho de Ética aprova parecer, por 9 votos a 1, em favor da absolvição do deputado

Vadão Gomes (PP-SP). Ele é acusado de envolvimento no escândalo do mensalão. O parecer

em defesa de Vadão Gomes foi preparado pelo deputado Eduardo Valverde (PT-RO).

11/5/2006 Em depoimento ao Ministério Público Federal, Silvio Pereira, o “Silvinho”, afirma

que o apetite por cargos do ex-ministro José Dirceu (PT-SP) foi o responsável pela

desagregação da base aliada do Governo Federal. De acordo com o ex-secretário-geral do

PT, o comportamento de José Dirceu provocou insatisfação nos partidos que apoiavam o

presidente Lula.

Segundo Silvinho, parlamentares aliados, contrariados, passaram a votar contra o governo.

Para o Ministério Público, o impasse produziu uma relação de chantagem. Com o obje283

tivo de aliviar a tensão, o Governo Federal teria decidido cooptar os aliados por meio do

esquema do mensalão.

O ex-secretário-geral do PT informou que gerenciava um sistema que fazia a triagem

das indicações para cargos de confiança na administração federal. O banco de dados reunia

os nomes de pessoas indicadas por sete partidos que apoiavam o governo, a saber: PL, PP,

PTB, PMDB, PSB, PPS e PC do B.

As nomeações eram encaminhadas ao Ministério da Casa Civil e cabiam a instâncias

superiores. Na hora da partilha, prevaleceu em muitos casos a hegemonia do PT. Manifestava-

se a força do ex-ministro José Dirceu, o que gerava conflitos com os aliados.

O PT, por sua vez, informa que vai negociar dívida de R$ 300 mil com o escritório do

advogado Arnaldo Malheiros Filho, contratado para defender Silvinho. Apesar de Silvinho

ter sido formalmente desligado do PT em julho de 2005, o partido continuou patrocinando

a defesa do ex-secretário-geral. O mesmo Arnaldo Malheiros Filho foi contratado pelo PT

para fazer a defesa do ex-tesoureiro do partido, Delúbio Soares.

12/5/2006 Um ano depois do início da crise política, a ECT (Empresa Brasileira de Correios

e Telégrafos), estopim do escândalo do mensalão, “comemora” a prorrogação dos contratos

das empresas Skymaster Airlines e Beta (Brazilian Express Transportes Aéreos). As duas

foram acusadas de montar esquema fraudulento que teria provocado rombo de R$ 86 milhões.

Mesmo assim, houve a renovação dos contratos para operar as linhas da rede postal

aérea noturna. Eles preveem gastos de R$ 90 milhões.

Os Correios prorrogaram os contratos com a alegação de que não realizaram nova licitação

para os serviços. O presidente da estatal, Jânio Cezar Luiz Pohren, emite nota para

justificar a renovação. Afirma que os contratos serão mantidos até a conclusão de estudos

para uma nova moldagem da rede postal noturna. Não estabelece prazos.

13/5/2006 Ocorreram encontros entre o banqueiro Daniel Dantas, do grupo Opportunity, e o

ex-presidente do Banco Popular, Ivan Guimarães, um petista que, segundo matéria publicada

na revista Veja, operou na clandestinidade em 2003 e 2004, “achacando empresas e empresários”.

A revista Veja, porém, vai muito além. Trecho da reportagem:

“Dantas alega estar apenas defendendo-se de pressões e achaques dos petistas que queriam

tirá-lo do comando da Brasil Telecom. Ainda que existam fortes evidências nesse

sentido, o banqueiro não cabe na fantasia de vítima. Principalmente quando se sabe que

usou dinheiro para acercar-se de pessoas próximas do presidente Lula e de José Dirceu.

Dantas tentou seduzir Fábio Luís Lula da Silva, o ‘Lulinha’, e seus sócios da Gamecorp.

Antes de o grupo ser vendido à Telemar, o banqueiro pagava a Lulinha e sua trupe R$ 100

mil mensais, para que fornecessem conteúdo ao portal de internet da Brasil Telecom. Por

último, ofereceu uma bolada para tornar-se sócio da Gemecorp. No fim, game over para

Dantas: Lulinha preferiu os agrados da rival Telemar. Dantas deu também R$ 1 milhão ao

advogado Roberto Teixeira, padrinho de um dos filhos de Lula. Até hoje, ninguém explicou

o que o compadre fez para merecer tanto dinheiro. Teixeira se limita a dizer que foi em troca

de um serviço ‘sigiloso’. O advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o ‘Kakay’, também

mereceu atenção especial. Amicíssimo do deputado cassado por corrupção José Dirceu,

ele foi contratado por Dantas a peso de ouro. Levou R$ 8 milhões para ‘assessorar’ o

banqueiro. Com isso, Dirceu, que foi ministro-chefe da Casa Civil de Lula, tornou-se mais

sensível aos pleitos do Opportunity. Tem mais. Dantas deu a Marcos Valério as contas publicitárias

da Telemig e da Amazônia Celular, num total de R$ 130 milhões. Além de fazer

anúncios para Dantas, o carequinha levava ao banqueiro as propostas não republicanas de

Delúbio Soares. Em 2004, o banqueiro colocou na sua folha de pagamentos a agência Matisse,

de propriedade de Paulo de Tarso Santos, petista histórico e marqueteiro das campanhas de

Lula em 1989 e 1994. A Matisse foi contratada para ‘reposicionar’ a marca da Brasil Telecom.

Mas o que fez mesmo foi ajudar a ‘reposicionar’ Dantas frente ao governo petista.”

Entrevista de Dantas concedida ao colunista Diogo Mainardi também faz parte da edição

de Veja. O banqueiro afirma que o ex-tesoureiro Delúbio Soares pediu entre US$ 40

milhões e US$ 50 milhões para “resolver as dificuldades” do Opportunity com o governo

do PT. Dantas informa que o “pedido” foi feito a seu ex-cunhado Carlos Rodenburg, diretor

do Opportunity na época, em um encontro intermediado por Marcos Valério. Diz Dantas:

- O que houve foi uma sugestão de que, se déssemos uma quantia expressiva ao partido,

eles poderiam nos ajudar a resolver as dificuldades que estávamos tendo com o governo.

Dantas teria levado o pedido ao Citibank, seu parceiro norte-americano naquele momento,

com a opinião de que o repasse de quantia “muito grande” ao PT poderia estancar as

dificuldades do grupo com o governo Lula. Mary Linn, diretora do Citibank, teria

desaconselhado e o pagamento não ocorreria.

O ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro (PT-RS), anuncia que o governo

brasileiro vai processar Daniel Dantas. Horas mais tarde, cauteloso, Tarso Genro prefere

direcionar seu ataque à revista Veja:

- O presidente Lula informou que vai tomar todas as medidas legais e legítimas contra

uma matéria que é caluniosa, difamatória e construída de forma arbitrária pela revista para

atacar, sem nenhum fundamento, a honra do presidente da República.

Como se vê, Daniel Dantas foi poupado.

O senador Amir Lando (PMDB-RO), ex-ministro da Previdência Social, revela que toda

a negociação para abrir as portas do chamado crédito consignado ao BMG ocorreu dentro

do Palácio do Planalto, e foi capitaneada pelo ex-ministro José Dirceu (PT-SP). As operações

elevaram os lucros do BMG de R$ 90,2 milhões, em 2003, para R$ 275,3 milhões,

apenas um ano depois. E envolveram Lula, segundo a revista Isto É: o presidente da República

assinou o decreto que permitiu a bancos privados oferecer créditos consignados aos

segurados do INSS (Instituto Nacional de Seguro Social). Abriu um filão de mais de 18

milhões de aposentados e pensionistas ao BMG.

De acordo com Amir Lando, “a coisa” não passava pelo Ministério da Previdência

Social. “Era articulada na Casa Civil e operada diretamente no INSS”, cujo presidente na

época era Carlos Bezerra (PMDB-MT). Amir Lando falou aos repórteres Rudolfo Lago e

Rodrigo Rangel:

- Tudo era acertado na Casa Civil.

Diz Amir Lando:

- Numa reunião fechada da CPI do Mensalão, o próprio Valério disse que o BMG era um

banco ligado ao PT.

Conforme o senador peemedebista, o BMG tinha experiências anteriores com crédito

consignado em prefeituras do PT e associações sindicais. O ex-ministro afirma ter relatado

ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, que ouviu mais de uma vez

rumores de que existiam “cobranças de vantagens” para permitir a habilitação dos bancos.

Inquérito instalado pelo Ministério Público investiga contrato de aluguel de computadores

para o INSS, no valor de R$ 260 milhões. A suspeita é decorrente de decisão posterior

do próprio INSS. O órgão federal comprou computadores para equipar as agências

por R$ 30 milhões.

Além de responsabilizar Carlos Bezerra pelo ato supostamente lesivo aos cofres

públicos, a ação do Ministério Público aponta o envolvimento do ex-presidente da

Dataprev (Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social), José Jairo

Ferreira Cabral. Tido como amigo do presidente Lula e indicado para o cargo pelo PT,

José Jairo Ferreira Cabral foi casado com Sandra Cabral, uma das principais assessoras

de José Dirceu naquele período.

16/5/2006 Lenha na fogueira. Carlos Rodenburg, ex-diretor do grupo Opportunity, afirma à

repórter Sonia Racy, de O Estado de S. Paulo, que sentiu “uma pressão para ajudar o partido”,

durante encontro mantido com o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares. Sem usar a

expressão “extorsão”, Carlos Rodenburg descreve que Delúbio Soares, em nome de um

suposto esforço para melhorar a relação entre o grupo Opportunity e o governo Lula, explicou

as dificuldades do PT e mencionou um “furo” de US$ 40 milhões a US$ 50 milhões nas

finanças do partido.

Carlos Rodenburg e Delúbio Soares encontraram-se duas vezes no primeiro semestre de

2003, no hotel Blue Tree, em Brasília, e num apart-hotel, em São Paulo. Carlos Rodenburg

garante: o dinheiro não foi pago. O grupo Opportunity queria o apoio do Governo Federal

para manter o controle da Brasil Telecom. O primeiro encontro com Delúbio foi decorrente

de um pedido do próprio diretor do Opportunity, agendado por Marcos Valério. A segunda

reunião foi solicitada por Delúbio, por sugestão de Valério.

As palavras de Delúbio, segundo Carlos Rodenburg:

- Ele disse o seguinte: “Olha, Carlos, estamos com dificuldades financeiras muito

grandes, com um furo de caixa de US$ 40 a US$ 50 milhões. O PT está com esse furo e

tem que se ajustar”.

Sobre a segunda reunião:

- No segundo encontro, desta vez pedido por ele, eu disse que não era possível ajudar.

Acho que não agradei.

- E aí?

- Aí, os fatos falam por si só.

- O senhor considerou essa conversa com Delúbio uma extorsão?

- Não, senti como uma pressão para ajudar o partido.

- Foram essas as únicas vezes que vocês tiveram contato com a campanha do PT?

- Teve uma terceira vez. Um dia, no escritório do Opportunity, em São Paulo, fui informado

de que um tal de Ivan Guimarães queria falar comigo. Não tinha marcado encontro,

não foi indicado por ninguém. Me trouxe o que, vim a saber depois, era um kit de contribuição

do PT, com uma fita do Lula, um broche e uma caneta dentro de uma caixa. Achei

estranho, disse que concessionária de governo não pode contribuir.

18/5/2006 A Polícia Federal apreende computadores e documentos no escritório do deputado

José Janene (PP-PR), acusado de envolvimento no escândalo do mensalão. Suspeita-se

que pessoas ligadas a José Janene tenham sido beneficiárias de R$ 5,3 milhões do valerioduto.

Meheidin Hussein Jenani, primo e assessor do deputado, movimentou R$ 295 mil em agência

da Caixa Econômica Federal de Londrina (PR). O salário dele é de apenas R$ 1.834. A

maior parte dos depósitos nas contas de pessoas ligadas a José Janene ocorreu entre 2003 e

2005, período áureo dos repasses do caixa 2 do PT.

A mulher do deputado, Stael Fernanda, apareceu como compradora de fazendas em Londrina

e Faxinal (PR), e de dois terrenos em condomínio de luxo em Londrina. Num deles,

estava sendo erguida residência de 2 mil metros quadrados de área construída, avaliada em

R$ 2 milhões.

20/5/2006 O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, reuniu-se em segredo com o banqueiro

Daniel Dantas. O grave é que Dantas acusou Bastos de ter dinheiro guardado no

exterior, não declarado, conforme apontou a revista Veja. Segundo o repórter Marcio Aith,

“Bastos deveria esforçar-se para prender o banqueiro, e não se sentar à mesa com ele para

tratar de negócios”.

Os dois teriam celebrado pacto segundo o qual o governo ficou de não pôr a Polícia

Federal atrás de Dantas, enquanto o banqueiro se prontificou a não fornecer dados que

comprometessem autoridades brasileiras na CPI.

Bastos teria procurado neutralizar um suposto dossiê de 41 páginas, com documentos

sobre 27 contas bancárias em paraísos fiscais, todas recheadas com dinheiro ilegal

de próceres da República, inclusive de Lula. A revista sustenta que Dantas entregou o

dossiê à reportagem. Ele nega. O material foi encaminhado por Veja ao procuradorgeral

Antonio Fernando de Souza.

De acordo com a revista, Dantas pagou US$ 838 mil pelo dossiê a Frank Holder, exdiretor

da agência de investigações Kroll. Pretendia usá-lo para fazer chantagem. Veja refere-

se a uma ata com o resumo de uma conferência telefônica realizada em 10 de fevereiro de

2005, entre Dantas, assessores e diretores da Kroll. No documento, o banqueiro relata que o

ex-ministro José Dirceu e integrantes do governo Lula não iriam prejudicar os interesses do

Opportunity, desde que ficassem livres de investigações da Kroll.

Veja também recorre a matéria publicada pela revista Carta Capital. A publicação lembra

que o senador Heráclito Fortes (PFL-PI), aliado de Dantas, fez alusões a contas bancárias

no exterior, durante depoimento de Luiz Gushiken (PT-SP) à CPI dos Correios, em setembro

de 2005. Heráclito Fortes discorreu sobre a Kroll para Luiz Gushiken:

- Não era uma característica da Kroll, no mundo inteiro, fazer gravações telefônicas,

como se queria provar e mostrar. Mas, sim, fazer o rastreamento de contas e outras

atividades.

O senador pontuou o que, no entender dele, estaria por trás do receio às atividades da

agência de investigações:

- O medo da Kroll tem outro fundamento, senhor Gushiken, e a verdade vai chegar. É só

questão de esperar, é só questão de tempo. Na verdade, o pavor que o governo tem da Kroll

tem outro fundamento, e vamos chegar à verdade.

Parece claro que o senador Heráclito Fortes fez referência a somas de dinheiro de figurões,

aplicadas ilegalmente no exterior.

23/5/2006 Delúbio Soares depõe à CPI dos Bingos. Recusa-se a assinar termo comprometendo-

se a dizer a verdade, mas admite a participação em reunião com o banqueiro Daniel

Dantas e o diretor do Opportunity, Carlos Rodenburg. Estava acompanhado de Marcos

Valério. Foi em 22 de julho de 2003, no hotel Blue Tree, em Brasília. O encontro foi a

pedido Valério. O ex-tesoureiro negou que a reunião serviu para exigir dinheiro. Delúbio

teria insinuado durante o encontro que o PT queria US$ 40 milhões de Dantas. Diz Delúbio:

- Conversei com muitos empresários. Não tem ninguém que diga que eu pedi dinheiro.

Sobre o objetivo da reunião, então:

- O conteúdo foi que o Partido dos Trabalhadores não gostava do Opportunity. Eu não

disse que gostava, nem que não gostava. O PT não tinha nenhuma restrição.

A campanha do PT em 2002 recebeu R$ 1 milhão de empresários de bingo?

- Nunca tive relacionamento com pessoas ligadas a jogos. Nunca entrei em casa de bingo.

Nem em quermesse eu jogava bingo. Nunca recebi recursos de bingos. Não conheço o

assunto, não conheço ninguém. Me declaro incompetente.

Mais direto, impossível.

Num dos momentos mais acalorados do depoimento, Delúbio diz que não pode ser

responsabilizado por decidir, sozinho, sobre operações financeiras que alimentaram o

caixa 2 do PT. O diálogo é com o presidente da CPI, o senador Efraim Morais (PFL-PB).

Diz Delúbio:

- Eu tinha uma procuração política da direção do partido.

- De quem? Do presidente Lula, de Dirceu?

- Eu tinha uma autorização política.

Mais uma vez, Delúbio Soares mata no peito.

Manobra do governo na CPI evita a convocação de Daniel Dantas. Também fica de fora

Jorge Mattoso, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, e Daniel Goldberg, o assessor

de Márcio Thomaz Bastos. E isso sem falar em Marcos Valério que, da mesma forma, foi

desobrigado de prestar depoimento.

24/5/2006 A Câmara dos Deputados absolve o 11º acusado de envolvimento no escândalo

do mensalão. Livra-se da cassação o deputado Vadão Gomes (PP-SP). Em votação secreta,

Vadão recebe 243 votos em sua defesa, contra 161 a favor da perda do mandato. Há 16

abstenções, quatro votos em branco e um nulo. Vadão foi acusado de receber R$ 3,7 milhões

do caixa 2 do PT. O Conselho de Ética da Câmara aprovou parecer, inocentando-o. O

autor foi o deputado Eduardo Valverde (PT-RO). Diz o petista:

- Seria fácil seguir o consenso de grande parte dos meios de comunicação, me aproveitar

disso e crucificar mais um. Mas assumi a responsabilidade de remar contra a maré. Sei que

amanhã parte da imprensa estampará que foi absolvido mais um mensaleiro.

Vadão teria recebido os R$ 3,7 milhões de Valério em dois pagamentos, feitos em hotéis

de São Paulo. Delúbio confirmou a história. Há registro de telefonemas entre Vadão, Valério

e Delúbio, alguns dias antes dos repasses. Do deputado João Fontes (PDT-SE):

- Não podíamos ter a esperança de cassação de Vadão Gomes numa Câmara contaminada

por mensaleiros e sanguessugas.

O Congresso desiste de investigar a “máfia dos sanguessugas”. Transfere a responsabilidade

para a Procuradoria-Geral da República. Fica sem efeito sindicância aberta na Câmara

para apurar suposta participação de 16 deputados no esquema de venda de ambulâncias

superfaturadas, compradas por prefeituras de todo o País. Os presidentes do Senado, Renan

Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B-SP), decidem desautorizar

investigações sobre o envolvimento de parlamentares. O procurador-geral solicita ao STF

(Supremo Tribunal Federal) a abertura de inquéritos criminais contra 15 parlamentares. Os

nomes dos investigados não são divulgados. No fim, ninguém seria punido. Mais uma vez.

29/5/2006 A Justiça Federal determina o sequestro de bens e o bloqueio de ativos financeiros

da mulher do deputado José Janene (PP-PR), acusado de envolvimento no escândalo

do mensalão. Stael Fernanda tem salário declarado de R$ 5.000, como assessora

do marido, mas desde 2003 teria adquirido patrimônio superior a R$ 2 milhões. A ação

também atinge Mehedin Hussein Jenani e a mulher dele, Rosa Alice Valente, ambos

assessores de José Janene.

5/6/2006 A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) formaliza notícia-crime contra Lula. A

denúncia é entregue pelo presidente da entidade, Roberto Busato, ao procurador-geral da

República, Antonio Fernando de Souza. Traz três justificativas para investigar Lula. A primeira

é o aporte de R$ 10 milhões da Telemar à Gamecorp, empresa pertencente a Fábio

Luís Lula da Silva, o “Lulinha”. Da notícia-crime: “A Gamecorp, comandada por Fábio

Luís da Silva, filho do presidente da República, associou-se com a Telemar, em operação

milionária, sequer comunicada à Comissão de Valores Mobiliários.”

O segundo ponto citado é um decreto presidencial, de agosto de 2004, que permitiu ao

banco BMG entrar no setor de crédito a aposentados e pensionistas, apesar de não ser instituição

autorizada a fazer pagamentos de benefícios da Previdência Social. Menos de duas

semanas após o decreto, o BMG assinou convênio com o INSS (Instituto Nacional de Seguro

Social). Obteve acesso a um mercado milionário, no qual atuou sozinho com a Caixa

Econômica Federal, por quase dois meses. Da notícia-crime:

“O decreto presidencial facultou ao banco BMG atuar no crédito a funcionários federais,

ressarcido mediante consignação em folhas de pagamento de vencimentos, sem que a referida

instituição integre a rede de pagamentos do sistema previdenciário.”

Na terceira investigação, a OAB propõe apurar as razões do silêncio de Lula em relação

ao mensalão. Quer os detalhes sobre a compra de votos, caixa 2 e supostos atos de

improbidade. A notícia-crime justifica a denúncia:

“A indesculpável e inexplicável omissão do presidente, nos episódios do mensalão, na

formação de caixa 2 para o financiamento das campanhas do PT e na prevenção/repressão a

atos de improbidade cometidos pelos mais chegados auxiliares do chefe do executivo.”

6/6/2006 O editorial “Um ano depois”, da Folha de S.Paulo, menciona o período transcorrido

desde a entrevista em que Roberto Jefferson denunciou o esquema do mensalão. O jornal

alerta para “impedir que o mensalão se torne apenas um episódio no rol de escândalos

esquecidos da política nacional”:

“A ruína ética e o desmoronamento das cúpulas do PT e do governo Lula são itens de

destaque no balanço da crise. A despeito disso, o lulismo agora patrocina uma campanha

cujo objetivo é apagar, nos eleitores, a memória do que foi o escândalo de corrupção. A

estratégia oportunista se vale dos altos índices de popularidade presidencial – ancorados em

dinheiro transferido a famílias pobres e melhoras discretas no emprego – e aposta no desgaste

que o tempo decorrido desde as primeiras denúncias emprestou ao tema.”

7/6/2006 O banqueiro Daniel Dantas presta depoimento à CCJ (Comissão de Constituição e

Justiça, do Senado). Ele confirma que o ex-sócio Carlos Rodenburg foi procurado por Delúbio

Soares e o petista Ivan Guimarães. Os dois queriam que o Opportunity contribuísse com o

PT. Conforme Dantas, os integrantes do PT ficaram contrariados por Rodenburg ter negado

o pedido. Dantas afirma que Delúbio procurou Rodenburg para explicar as dificuldades

financeiras do PT. Reitera a menção à quantia de US$ 40 milhões a US$ 50 milhões, mas

garante não ter dado dinheiro:

- Somos administradores de fundos, não seria possível atender a esse pleito.

Em outra parte da audiência na CCJ, Dantas diz que foi chamado pelo ex-ministro José

Dirceu (PT-SP) para uma reunião no Palácio do Planalto. Dirceu afirmou que o governo

desejava resolver a disputa entre o Opportunity e os fundos de pensão pelo controle da

Brasil Telecom. E que o ex-presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb, iria tratar do

assunto em nome do governo. No encontro, Cássio Casseb teria dito ao banqueiro para abrir

mão do controle da Brasil Telecom. Declaração de Daniel Dantas:

- Perguntei o que receberia em troca. Ele disse: “Nada”. O tom do Delúbio não era de

intimidação, ao contrário do Casseb, nitidamente intimidatório.

Apesar da crise, a agência Duda Mendonça Propaganda cresceu mais de 100% entre

2004 e 2005. Passou da 22ª para a 16ª posição no ranking das maiores do País. O faturamento

passou de R$ 75,8 milhões para R$ 158,4 milhões. Os dados são do jornal Meio&Mensagem,

com base em pesquisa Ibope/Monitor. Só de janeiro a abril de 2006, o faturamento da agência

atingiu R$ 74,6 milhões, graças às despesas de propaganda efetuadas pela Petrobras.

12/6/2006 A Secretaria de Previdência Complementar, do Ministério da Previdência Social,

autua três ex-dirigentes do Nucleos, o fundo de pensão dos funcionários das estatais nucleares.

Paulo Figueiredo, Gildásio Amado Filho e Abel de Almeida foram acusados de irregularidades

na gestão de recursos. As multas variam de R$ 60 mil a R$ 100 mil. Os dois primeiros

teriam tido as nomeações no fundo de pensão chanceladas pelo petista Marcelo Sereno.

O próprio fundo apresentou denúncia-crime contra os três. Contabilizou R$ 40 milhões

de prejuízos, em aplicações suspeitas de venda e compra de títulos. Os resultados sempre

redundavam em perdas para o fundo, e em lucro para terceiros. Do relatório da Secretaria de

Previdência Complementar:

“A contumácia de compras efetuadas pelo preço máximo, representando um acréscimo

que oscila entre 3% e 28% sobre o preço mínimo praticado no dia, além de vendas efetuadas

pelo preço mínimo, ou mesmo abaixo deste, mostra que os negócios foram conduzidos com

o intuito de prejudicar o Nucleos.”

13/6/2006 O Conselho de Ética da Câmara aprova, por 12 votos a favor e uma abstenção,

a cassação do deputado José Janene (PP-PR). Ex-líder do PP, Janene foi apontado

como beneficiário de R$ 4,1 milhões do valerioduto. Ele admitiu ter intermediado repasse

de R$ 700 mil para pagar honorários do advogado do ex-deputado Ronivon Santiago

(PP-AC). Só. Segundo Janene, o dinheiro não foi declarado porque o PT jamais

apresentou documentos atestando a origem dos recursos. Do relator do caso,

Jairo Carneiro (PFL-BA):

- O recebimento dos R$ 700 mil é suficiente para a cassação, como ocorreu com Pedro

Corrêa, mas o recebimento de outros valores está comprovado.

Desde o início da crise política, 18 deputados federais foram acusados de envolvimento

no escândalo do mensalão. Quatro renunciaram logo, para evitar a abertura de processos.

Foram absolvidos 10. Houve três cassados: José Dirceu (PT-SP), Roberto Jefferson (PTBRJ)

e Pedro Corrêa (PP-PE).

Falta só a votação secreta do caso de José Janene. Ele seria absolvido em 6 de dezembro,

ainda durante o primeiro mandato de Lula. Apenas 210 deputados votariam pela cassação,

47 a menos do que o mínimo necessário. Outros 128 decidiriam pela absolvição. Haveria

ainda 23 abstenções e cinco votos em branco. Apenas 366 dos 513 deputados compareceriam

à sessão. Desabafo de Nelson Trad (PMDB-RS), então:

- Eu creio que esta legislatura está definitivamente marcada com o sinete de imoral, dos

anos tristes em que vivemos.

16/6/2006 O STF (Supremo Tribunal Federal) abre inquérito para investigar o deputado

José Mentor (PT-SP). Ele é acusado de ter recebido R$ 300 mil para excluir do relatório

da CPI do Banestado o nome do doleiro Richard Andrew de Mol Van Otterloo. Os trabalhos

da CPI, em 2003 e 2004, tinham o objetivo de investigar esquema de remessa ilegal

de dinheiro para o exterior.

A denúncia contra José Mentor tem como base depoimento do próprio Richard Andrew

Otterloo. Ele afirmou ao Ministério Público que entregou o dinheiro em São Paulo e recebeu

um disquete com o conteúdo do relatório, para se certificar de que não fora incluído em

qualquer denúncia. Do termo de declaração:

“Tal valor foi efetivamente pago em espécie em um flat localizado no bairro do Itaim

Bibi, nesta capital, ao intermediário indicado por José Mentor.”

Mentor não comenta. No escândalo do mensalão, ele foi acusado de receber R$ 120 mil

de caixa 2. Acabou absolvido. Ficou a suspeita de que o dinheiro era propina para livrar o

Banco Rural das garras da CPI do Banestado.

19/6/2006 A equipe técnica que trabalhou na CPI dos Correios descobre indícios de que o

deputado João Paulo Cunha (PT-SP) recebeu outros R$ 30 mil do valerioduto. Ele foi

inocentado de pôr as mãos em R$ 50 mil. Desta vez, num cruzamento de dados, apurouse

que Silvana Paz Japiassu, assessora de João Paulo Cunha, esteve duas vezes no Banco

Rural do Brasília Shopping.

Numa das idas à agência, em 16 de abril de 2004, passou por lá Eliane Alves Lopes,

funcionária da SMPB, e sacou R$ 30 mil. Naquele dia, Silvana Japiassu também recebeu

duas ligações da SMPB. Eliane Alves Lopes era responsável por retiradas da conta corrente

da agência de Marcos Valério no Brasília Shopping, e supostamente fez repasses de valores

a assessores de deputados. Cerca de 50 desses assessores passaram pela agência do Banco

Rural. Foram realizados cruzamentos de ligações telefônicas entre assessores, gabinetes de

parlamentares e a agência de Valério.

No início da crise relacionaram-se retiradas de R$ 200 mil a João Paulo Cunha. Ele

admitiu apenas os R$ 50 mil. Silvana Japiassu trocou 187 telefonemas com empresas de

Valério. Ela ganhou passagens aéreas do empresário, no valor de R$ 3.600. João Paulo

Cunha não comenta.

20/6/2006 A CPI dos Bingos conclui os trabalhos. O relatório do senador Garibaldi Alves

(PMDB-RN) é aprovado por 12 votos a dois. Os votos contra são dos senadores Tião Viana

(PT-AC) e Ana Júlia Carepa (PT-PA). O documento tem 1.400 páginas. Pede o indiciamento

de 79 pessoas e quatro empresas. Entre os denunciados, Antonio Palocci, Paulo Okamotto,

Jorge Mattoso, Waldomiro Diniz, Sérgio Gomes da Silva, Rogério Buratti, Vladimir Poleto,

Ademirson Ariosvaldo da Silva, Donizete Rosa, Carlinhos Cachoeira, Klinger Luiz de Oliveira

e Ronan Maria Pinto. O ex-ministro José Dirceu e o chefe de gabinete do presidente

Lula, Gilberto Carvalho, são poupados.

Apesar de não indiciado, Gilberto Carvalho teve o nome citado 50 vezes nas 78

páginas do capítulo que trata da corrupção em Santo André (SP) e da morte do prefeito

Celso Daniel (PT), crime qualificado como “de mando”. Gilberto Carvalho teria

sido um dos principais estrategistas de operação para impedir a investigação do assassinato.

O relator menciona conversas entre Gilberto Carvalho e Sérgio Gomes da

Silva, o “Sombra”, nas quais se procurou configurar a morte de Celso Daniel como

crime comum. Do relatório:

“O caso Santo André envolve o chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da

Silva, flagrado em gravações telefônicas combinando estratégias e reuniões para reforçar a

defesa de Sérgio Gomes da Silva, além de ter sido apontado como responsável pela coleta

de arrecadação ilegal para o então presidente do PT, José Dirceu.”

O relatório da CPI menciona Lula em dois episódios. Um deles, a suposta doação irregular

de dinheiro de empresários do bingo para a campanha eleitoral de 2002. O outro, a

acusação de envolvimento de assessores do presidente em esquemas de cobrança de propina

em prefeituras do PT.

O documento aborda vários casos investigados pela CPI. Entre eles, a renovação do

contrato entre a Caixa Econômica Federal e a multinacional norte-americana Gtech, celebrada,

segundo o que foi apurado, mediante o pagamento de propina. Os contratos supostamente

fraudulentos de limpeza pública em Ribeirão Preto (SP) também foram objeto dos

trabalhos. O relatório pede o indiciamento do ex-prefeito Gilberto Maggioni (PT) e de altos

funcionários da Prefeitura de Ribeirão. Sobre a operação para trazer dólares de Cuba à

campanha eleitoral do PT em 2002, o relatório conclui ser preciso aprofundar as investigações.

De qualquer forma, a versão de que houve apenas o transporte de caixas de bebida é

considerada inverossímil.

Antonio Palocci teve o indiciamento solicitado por formação de quadrilha, peculato,

falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e improbidade administrativa. Paulo Okamotto, o

amigo de Lula, foi citado por lavagem de dinheiro e crime contra a ordem tributária. Ele

teria ligações com o suposto esquema de extorsão em prefeituras do PT, e fez o pagamento

de dívida de Lula junto ao partido, com recursos não esclarecidos. Do relatório:

“Tais pagamentos nunca foram devidamente comprovados, dando margem à suspeita

que, na verdade, o dinheiro seja oriundo do esquema de caixa 2 que abastecia a

tesouraria petista.”

Em relação aos bingos, a denúncia mais grave é fundamentada em informações de Rogério

Buratti, ex-secretário de Governo de Antonio Palocci em Ribeirão Preto. Ele mencionou

contribuição ilegal de R$ 2 milhões para a campanha de Lula. Metade do dinheiro teria

sido repassada pelos empresários de jogo Artur José Valente Caio e José Paulo Teixeira

Figueiredo. O relatório solicita o indiciamento dos dois.

O relatório da CPI dos Bingos marcou o fim do escândalo do mensalão, apesar dos

inquéritos que continuariam em andamento, das investigações que ficariam em curso, das

novas descobertas que certamente viriam e dos futuros desdobramentos do maior esquema

de corrupção governamental que se tem notícias no Brasil, em todos os tempos.

VII

Na denúncia do procurador-geral da República,

mensalão foi ação de ‘organização criminosa’

“Os denunciados operacionalizaram desvio de recursos públicos, concessões de benefícios

indevidos a particulares em troca de dinheiro e compra de apoio político, condutas que

caracterizam os crimes de quadrilha, peculato, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta,

corrupção e evasão de divisas.”

A acusação acima, do procurador-geral da República, Antonio Fernando Barros e Silva

de Souza, faz parte do inquérito sobre o escândalo do mensalão. Ele denunciou, em 11 de

abril de 2006, 40 pessoas ao STF (Supremo Tribunal Federal). A denúncia endossou os

resultados da CPI dos Correios, e foi além.

Logo na introdução do documento, os 20 dos acusados com participação notória no

esquema: José Dirceu, Luiz Gushiken, José Genoino, Delúbio Soares, Silvio Pereira, Marcos

Valério, João Paulo Cunha, Pedro Corrêa, José Janene, Valdemar Costa Neto, Professor

Luizinho, João Magno, Anderson Adauto, Duda Mendonça, José Borba, Carlos Rodrigues,

Zilmar Fernandes da Silveira, Simone Vasconcelos, Henrique Pizzolato e Roberto Jefferson.

Para o procurador, “todas as imputações feitas pelo ex-deputado Roberto Jefferson ficaram

comprovadas”. As apurações “evidenciaram o loteamento político dos cargos públicos

em troca de apoio às propostas do governo, prática que representa um dos principais fatores

do desvio e má aplicação de recursos públicos, com o objetivo de financiar campanhas

milionárias nas eleições, além de proporcionar o enriquecimento ilícito de agentes públicos

e políticos, empresários e lobistas que atuam nessa perniciosa engrenagem”.

Ao abordar a movimentação financeira dos investigados, Antonio Fernando de Souza apontou:

os denunciados “mantinham um intenso mecanismo de lavagem de dinheiro com a omissão

dos órgãos de controle, uma vez que possuíam o apoio político, administrativo e operacional

de José Dirceu, que integrava o governo e a cúpula do Partido dos Trabalhadores”.

Sobre José Dirceu: “É certo que José Dirceu, então ocupante da importante chefia da Casa

Civil, em razão da força política e administrativa de que era detentor, competindo-lhe a decisão

final sobre a indicação de cargos e funções estratégicas na administração pública federal,

foi o principal articulador dessa engrenagem, garantindo-lhe a habitualidade e o sucesso”.

O procurador-geral admitiu dificuldade para identificar a origem do dinheiro do esquema,

“em razão de expedientes adotados pelos próprios investigados, que se utilizaram de

uma elaborada engenharia financeira, facilitada pelos bancos envolvidos, notadamente o

Banco Rural, onde o dinheiro público mistura-se com o privado, perpassa por inúmeras

contas para fins de pulverização até o seu destino final, incluindo muitas vezes saques em

favor do próprio emitente e outras intrincadas operações com offshores e empresas titulares

de contas no exterior, tendo como destino final paraísos fiscais”.

O relatório traz capítulo com o sugestivo nome de “Quadrilha”. Refere-se à “existência

de uma sofisticada organização criminosa, dividida em setores de atuação, que se estruturou

profissionalmente para a prática de crimes como peculato, lavagem de dinheiro, corrupção

ativa, gestão fraudulenta, além das mais diversas formas de fraude”. A denúncia:

“Pelo que já foi apurado até o momento, o núcleo principal da quadrilha era composto

pelo ex-ministro José Dirceu, o ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, Delúbio Soares,

o ex-secretário-geral do Partido dos Trabalhadores, Silvio Pereira, e o ex-presidente do

Partido dos Trabalhadores, José Genoino.”

“Como dirigentes máximos, tanto do ponto de vista formal quanto material, do Partido

dos Trabalhadores, os denunciados, em conluio com outros integrantes do partido, estabeleceram

um engenhoso esquema de desvio de recursos de órgãos públicos e de empresas

estatais e também de concessões de benefícios diretos ou indiretos a particulares em troca

de ajuda financeira.”

“O objetivo desse núcleo principal era negociar apoio político, pagar dívidas pretéritas do

partido e também custear gastos de campanha e outras despesas do PT e dos seus aliados.”

“Com efeito, todos os graves delitos que serão imputados aos denunciados ao longo da

presente peça têm início com a vitória eleitoral de 2002 do Partido dos Trabalhadores no

plano nacional e tiveram por objetivo principal, no que concerne ao núcleo integrado por

José Dirceu, Delúbio Soares, Silvio Pereira e José Genoino, garantir a continuidade do

projeto de poder do Partido dos Trabalhadores, mediante a compra de suporte político de

outros partidos políticos e do financiamento futuro e pretérito (pagamento de dívidas) das

suas próprias campanhas eleitorais.”

O procurador-geral da República citou os nomes de sócios e funcionários do empresário

Marcos Valério, todos denunciados no inquérito:

“Nesse ponto, e com objetivo unicamente patrimonial, o até então obscuro empresário

Marcos Valério aproxima-se do núcleo central da organização criminosa (José Dirceu,

Delúbio Soares, Silvio Pereira e José Genoino) para oferecer os préstimos da sua própria

quadrilha (Ramon Hollerbach, Cristiano de Mello Paz, Rogério Tolentino, Simone Vasconcelos

e Geyza Dias dos Santos) em troca de vantagens patrimoniais no Governo Federal.”

Em conjunto com dirigentes do Banco Rural, “Marcos Valério desenvolveu um esquema

de utilização de suas empresas para transferência de recursos financeiros para campanhas

políticas, cuja origem, simulada como empréstimo do Banco Rural, não é efetivamente

declarada, mas as apurações demonstraram tratar-se de uma forma de pulverização de dinheiro

público desviado através dos contratos de publicidade”.

Antonio Fernando de Souza afirma que Marcos Valério e os sócios “utilizavam suas

empresas e contratos de publicidade com empresas privadas para operacionalizar esquema

de repasse de dinheiro não-contabilizado a candidatos a cargos eletivos, diante da possibilidade

de contabilização desses recursos como gasto de publicidade, mediante o desconto de

um percentual sobre o valor transferido. Para esse fim valiam-se do mesmo esquema de

transferência de dinheiro em espécie operado junto ao Banco Rural”.

A “complexa organização criminosa”, conforme o procurador-geral da República, contava

com apoio da alta direção do Banco Rural, a saber: Kátia Rabello, presidente, e os vicepresidentes

José Roberto Salgado, Ayanna Tenório Torres de Jesus e Vinícius Samarane.

A denúncia segue: não há dúvida de que a cúpula do PT se associou, “de forma estável e

permanente” aos núcleos publicitário, de Marcos Valério, e financeiro, junto ao Banco Rural:

“Conspurca-se a manifestação popular, base do sistema democrático, instituindo-se sistema

de enorme movimentação financeira à margem da legalidade, com o objetivo espúrio

de obter a compra de votos de parlamentares à custa do desvio de recursos públicos”.

O procurador-geral descreveu que a “associação criminosa” entre integrantes do PT,

empresas de Valério e o Banco Rural tinha a finalidade de transferir, periodicamente, vultosas

quantias para parlamentares ou pessoas indicadas por eles. Sempre com autorização de

Delúbio Soares, “sem qualquer contabilização por parte dos responsáveis pelo repasse ou

pelos beneficiários”.

A apuração concluiu: “no mínimo, R$ 55 milhões, repassados pelos Bancos Rural e

BMG, foram entregues à administração do grupo de Marcos Valério, sob o fundamento de

pseudos empréstimos ao publicitário, empresas e sócios, e foram efetivamente utilizados

nessa engrenagem de pagamento de dívidas de partido, compra de apoio político e enriquecimento

de agentes públicos”.

A denúncia continua: “Também foram repassados diretamente pelos Bancos Rural e

BMG vultosas quantias ao Partido dos Trabalhadores, comandado formal e materialmente

pelo núcleo central da quadrilha, sob o falso manto de empréstimos bancários”.

“Desse modo, o núcleo do Banco Rural, em troca de vantagens indevidas, ingressou na

engrenagem criminosa com o aporte de recursos milionários, mediante empréstimos simulados,

além de montar uma sofisticada estrutura de lavagem de capitais para o repasse dos

valores pagos aos destinatários finais.”

O procurador-geral acusou os dirigentes do BMG de “injetarem recursos milionários na

empreitada delituosa, mediante empréstimos simulados”. Segundo a denúncia, “ficou comprovado

que o banco BMG foi flagrantemente beneficiado por ações do núcleo políticopartidário,

que lhe garantiram lucros bilionários na operacionalização de empréstimos consignados

de servidores públicos, pensionistas e aposentados do INSS, a partir de 2003”.

O relatório explica: “O banco BMG, que sequer é um banco pagador de benefícios

previdenciários e que possui uma insignificante capilaridade de agências, solicitou autorização

ao INSS para efetuar os chamados empréstimos consignados aos aposentados e pensionistas

e, apesar de pareceres contrários da área jurídica e do fato de que a regulamentação

vigente, naquela ocasião, permitia que somente bancos pagadores de benefícios pudessem

habilitar-se para a concessão desses créditos, o então presidente do INSS, Carlos Gomes

Bezerra, adotou diversas providências para permitir a atuação do BMG nesse mercado”.

“Todos os fatos que se desenrolaram desde então demonstram que as ações desenvolvidas

pelo núcleo político-partidário foram pautadas exclusivamente para beneficiar o banco

BMG, que, não por acaso, foi a primeira instituição financeira não pagadora de benefícios

previdenciários habilitada à concessão dos créditos consignados, o que lhe rendeu vultosa

lucratividade, decorrente, principalmente, dos mecanismos utilizados em seu benefício, que

lhe permitiram sair na frente de todo o mercado de bancos pequenos; negociar esses empréstimos

com os aposentados inclusive por telefone e, posteriormente, ceder essa carteira,

em uma operação extremamente suspeita, à Caixa Econômica Federal.”

Em outro trecho, o relatório traz justificativa para a troca de apoio político por cargos.

Conforme o ex-deputado Roberto Jefferson, grafa o documento, “as diretorias e outros cargos

relevantes na administração pública, resultantes da composição político-partidária, têm

a função de arrecadar dinheiro do próprio órgão público, pela sistemática do desvio e

superfaturamento, e também de pressionar empresas privadas que se relacionam com esses

órgãos a fazer ‘doações’”.

O relatório refere-se uma vez mais a Jefferson. Afirma que o presidente nacional do PTB

salientou que indicações para cargos, mudanças de partidos e compra de apoio político

eram “tratadas diretamente com o ex-ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu. Tratavam,

inclusive, do ‘mensalão’, matéria que foi objeto de conversa entre ambos em

cinco ou seis oportunidades”.

A denúncia: “José Dirceu comandava a indicação para o preenchimento de cargos na

administração federal, contando com o assessoramento de Silvio Pereira, como representante

do PT, Marcelo Sereno e de Sandra Cabral, ambos assessores especiais da Casa Civil

que tinham a função de acompanhar essas nomeações”.

Mais: “Delúbio Soares, José Genoino e Silvio Pereira, dirigentes do Partido dos Trabalhadores,

atuavam no esquema como se fossem representantes do governo. Silvio Pereira,

em diversos depoimentos, foi apontado como um dos responsáveis pelas indicações para o

preenchimento de cargos e funções públicas no Governo Federal, fato pelo mesmo confirmado.

Ou seja, não obstante tratar-se apenas de um integrante da cúpula do Partido dos

Trabalhadores, secretário do partido, atuava nos bastidores do governo, negociando as indicações

políticas espúrias que, em última análise, proporcionavam o desvio de recursos em

prol de parlamentares, partidos políticos e particulares”. (…)

“Com a base probatória colhida, pode-se afirmar que José Genoino, até pelo cargo partidário

ocupado, era o interlocutor político visível da organização criminosa, contando com o

auxílio direto de Silvio Pereira, cuja função primordial na quadrilha era tratar de cargos a

serem ocupados no Governo Federal. Delúbio Soares, por sua vez, era o principal elo com

as demais ramificações da quadrilha (Marcos Valério e Rural), repassando as decisões

adotadas pelo núcleo central. Tudo sob as ordens do denunciado José Dirceu, que tinha o

domínio funcional de todos os crimes perpetrados, caracterizando-se, em arremate, como o

chefe do organograma delituoso.”

De acordo com o procurador-geral, eram frequentes “as reuniões no Diretório do PT, em

Brasília, entre Marcos Valério, Delúbio Soares e Silvio Pereira, além de encontros no hall

do hotel Blue Tree, também em Brasília, onde Marcos Valério passou a se hospedar para

facilitar os contatos”. E mais:

“Marcos Valério também confirmou que se valeu da sua influência junto aos bancos

Rural e BMG para solucionar problema enfrentado pela ex-esposa do então ministro José

Dirceu, que pretendia vender o seu imóvel, obter um empréstimo e arrumar um emprego.

Marcos Valério e Rogério Tolentino resolveram todas as três pendências acima, o que evidencia

a troca de favores no esquema.”

O relatório cita que Dirceu “era a segunda pessoa mais poderosa do Estado brasileiro,

estando abaixo apenas do presidente da República”. E acrescenta:

“Assim, a atuação voluntária e consciente do ex-ministro José Dirceu no esquema garantiu

às instituições financeiras, empresas privadas e terceiros envolvidos que nada lhes aconteceria,

como de fato não aconteceu até a eclosão do escândalo, e também que seriam beneficiados

pelo Governo Federal em assuntos de seu interesse econômico, como de fato ocorreu.”

“Se por um lado integrantes da cúpula do Governo Federal e do PT dispuseram-se a

estruturar uma forma de financiamento do próprio partido e dos seus aliados, formando-se,

à custa do dinheiro público, uma sólida base governista capaz de garantir a continuidade no

poder desse grupo, por outro, nos termos confessados pelo próprio Marcos Valério, este e os

seus sócios aproximaram-se dos dirigentes do PT, notadamente Delúbio Soares, com a finalidade

de oferecer as suas empresas como mecanismo operacional desse esquema, já contando

com o apoio dos bancos Rural e BMG também interessados em se beneficiar em

deliberações governamentais, os quais mantinham, principalmente o Rural, atividades financeiras

suspeitas com o grupo de Marcos Valério.”

“O início desse relacionamento, que se transformou, segundo informado por Marcos

Valério, em uma sólida amizade, e que teve, por parte de Marcos Valério, a intenção de

apresentar o seu modus operandi de desvio de recursos públicos e utilização de instituições

financeiras para lavagem de dinheiro, gerou excelentes resultados para esse publicitário

que, logo de início, promoveu a campanha publicitária do deputado João Paulo Cunha à

presidência da Câmara dos Deputados, o qual, uma vez eleito, contratou justamente a empresa

SMPB para as campanhas institucionais da Câmara, situação eivada de ilegalidades

que será descrita no tópico seguinte.”

Em seguida, o relatório faz nova menção ao ex-deputado Roberto Jefferson. Desta vez,

trata dos R$ 20 milhões que seriam transferidos ao PT e ao PTB, numa transação para a

aquisição da Telemig pela Brasil Telecom, “operação acompanhada diretamente pelo exministro

José Dirceu”.

Aqui, o inquérito classifica Marcos Valério como “experiente no ramo da criminalidade”,

dono de “rede própria de servidores corrompidos para facilitar suas atividades ilícitas”. Por

isso o empresário teria assumido “o papel de principal organizador dos crimes perpetrados

pelo núcleo central da quadrilha”, formado por Dirceu, Genoino, Delúbio e Silvio Pereira.

O procurador-geral relatou que Valério intermediou reuniões de Carlos Rodenburg,

acionista do grupo Opportunity, com a finalidade de solucionar problemas daquela

instituição com o Governo Federal. Intermediou também visita de Delúbio e Genoino à

siderúrgica Usiminas:

“Ou seja, Delúbio Soares, além de atuar como representante do PT, também se relacionava

com empresários e terceiros na qualidade de integrante do Governo Federal, com

legitimidade para discutir a questão do relacionamento com grupos econômicos extremamente

influentes, como é o caso do Opportunity. Uma instituição privada desse porte, em

hipótese alguma, solicitaria o auxílio de Marcos Valério para uma reunião com Delúbio

Soares se não vislumbrasse nesse encontro uma possibilidade de atendimento a seus pleitos

legítimos ou ilegítimos.”

Sobre a agência de Valério: “A empresa SMPB era o comitê central das atividades criminosas

do núcleo Marcos Valério, fornecendo a estrutura logística e humana para a consecu299

ção dos objetivos da organização criminosa, empregando como mão-de-obra as denunciadas

Simone Vasconcelos e Geyza Dias, ambas responsáveis pela parte financeira da

referida empresa.”

Agora, sobre Geyza Dias dos Santos: “Ela encaminhava, principalmente via correio

eletrônico, a qualificação dos beneficiários dos polpudos valores ilícitos que eram originados,

lavados e, por fim, entregues pela organização criminosa. Além disso, recebia alguns

beneficiários na sede da SMPB e organizava pessoalmente os repasses de valores em algumas

situações, como no caso envolvendo parte dos pagamentos ilícitos, inclusive no exterior,

aos publicitários Duda Mendonça e Zilmar Fernandes”.

Simone Vasconcelos, diretora da agência de Valério, por sua vez, “era peça fundamental

na engrenagem criminosa, pois tinha como ofício repassar o dinheiro para os beneficiários

finais da engenharia criminosa montada”:

“Essas entregas, ordinariamente efetuadas na sede da agência bancária, também ocorriam

em hotéis. Ela também tinha a função de telefonar para os destinatários dos valores,

informando que já estavam disponíveis e orientando o local e a forma de recebimento.”

Trecho do relatório: “Quanto à sistemática e frequência dos saques de valores vultosos,

em espécie, principalmente na agência do Banco Rural em Brasília, são relevantes as informações

prestadas pelo então tesoureiro dessa agência, senhor José Francisco de Almeida

Rego, o qual informou que a partir de 2003 os saques em espécie tornaram-se polpudos,

frequentes e operacionalizados por fax, telefonemas ou correios eletrônicos encaminhados

pela agência de Belo Horizonte, indicando o valor e a qualificação do sacador do dinheiro

em espécie no banco”.

Sobre Rogério Tolentino, sócio de Valério: “Seu envolvimento pode ser visualizado em

atuações específicas da quadrilha, como a entrega de dinheiro ao deputado federal José

Mentor sob a justificativa de uma consultoria jurídica, buscando excluir o Banco Rural das

investigações parlamentares, sua ida junto com Marcos Valério e Emerson Palmieri para

Portugal para fechar uma das operações do bando, e sua participação no episódio envolvendo

o procurador da Fazenda Nacional Glênio Guedes”.

Mais um capítulo da denúncia, chamado de “Desvio de recursos públicos”. Descreve

que as empresas de Valério administravam verbas de publicidade do Banco do Brasil,

Ministério do Trabalho, Eletronorte, Ministério dos Esportes, Correios e Câmara

dos Deputados, mas, no entanto, “eram contumazes sonegadoras fiscais, mantinham

contabilidade paralela e emitiam notas fiscais falsas para justificar custos na prestação

de serviços publicitários”.

A emissão de notas fiscais falsas servia “para justificar pagamentos de serviços sem a

devida contraprestação, além de outras práticas ilícitas destinadas a justificar o recebimento

de vultosas quantias, posteriormente repassadas ao esquema operacionalizado pelo núcleo

Marcos Valério”.

Várias páginas do relatório são dedicadas à promíscua relação entre Valério e o expresidente

da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (PT-SP). Aqui, destaca-se o “desvio”

de R$ 252 mil do contrato entre a SMPB Comunicação e a Câmara, “em proveito

próprio” de Cunha. O montante foi usado para pagar uma subcontratada, a IFT (Ideias,

Fatos e Texto), do jornalista Luis Costa Pinto, assessor do deputado. Em troca, a empresa se

comprometeu a elaborar boletins mensais, mas jamais teria entregado nada. A denúncia:

“Na verdade, a subcontratação foi uma armação para que o Luis Costa Pinto fosse bem

remunerado (R$ 20 mil por mês) para prestar assessoria direta a João Paulo Cunha.”

Para Antonio Fernando de Souza, a SMPB foi remunerada, sem prestar serviços, à medida

que subcontratou “99,9%” do objeto licitado com a Câmara dos Deputados, contrato

cujo valor alcançava R$ 10,7 milhões.

“A SMPB, do núcleo Marcos Valério, participou do contrato apenas para intermediar

subcontratações, recebendo honorários de 5% por isso. Referida situação caracteriza grave

lesão ao erário, além do crime de peculato.”

Para o procurador, a prática das subcontratações permitiu que Cunha desviasse R$ 536

mil do contrato mantido entre a Câmara e a SMPB. Tudo “em proveito do núcleo Marcos

Valério da organização criminosa”.

O inquérito analisou contrato da DNA Propaganda, de Valério, com o Banco do Brasil.

Acusa “o desvio de recursos públicos em benefício de terceiros, bem como o pagamento

indevido de serviços que não foram prestados pela agência de publicidade contratada, entre

diversas outras ilicitudes”.

Cita auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União) na DNA. A agência de Valério

“desviou em proveito próprio, no mínimo, R$ 4,2 milhões”. Destes, R$ 2,9 milhões referem-

se a pagamentos de bonificações por fornecedores na gestão de Henrique Pizzolato na

Diretoria de Marketing do Banco do Brasil:

“O desvio desses recursos efetivou-se porque os dirigentes do Banco do Brasil responsáveis

pelo acompanhamento e fiscalização do contrato, em conluio com o grupo de Marcos

Valério, permitiram que a agência de publicidade cobrasse do fornecedor subcontratado a

comissão denominada ‘bônus de volume’ que, no caso de ambos os contratos firmados com

o Banco do Brasil, deveria ser integralmente devolvida ou mesmo descontada da fatura

emitida pelo fornecedor contra o banco.”

Para o procurador-geral, desvios relacionados ao bônus de volume do Banco do Brasil

podem chegar à cifra de R$ 37,6 milhões. O inquérito descreve a “profunda ligação” entre

Pizzolato e o PT. Por isso, Pizzolato “participou do crime de peculato ora narrado. Sua

indicação para um cargo estratégico dentro das pretensões da organização criminosa foi

fruto dessa vinculação”.

Da denúncia de Antonio Fernando de Souza: “O ex-ministro da Secretaria de Comunicação

e Gestão Estratégica da Presidência da República, Luiz Gushiken, e o ex-diretor de

Marketing e Comunicação do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, em atuação orquestrada,

desviaram, no período de 2003 e 2004, em benefício do grupo liderado por Marcos

Valério e do Partido dos Trabalhadores, vultosas quantias do fundo de investimento Visanet,

constituído com recursos do Banco do Brasil”.

O Banco do Brasil liberou para a DNA, a título de antecipação de recursos dos serviços

de publicidade da Visanet, R$ 73,8 milhões. A denúncia: “Com efeito, uma vez sob disposição

do núcleo Marcos Valério, o montante foi empregado para pagar propina e dívidas de

campanhas eleitorais por ordem de José Dirceu, José Genoino, Silvio Pereira e Delúbio

301

Soares. Além disso, como já relatado, uma das antecipações serviu para abater um dos

empréstimos do BMG que suportaram a engenharia ora denunciada”.

O relatório esmiúça irregularidades descobertas no contrato de R$ 12,8 milhões entre a

SMPB e o Ministério dos Esportes, e no contrato da DNA com a Eletronorte, no total de R$

42,2 milhões. Entre os expedientes suspeitos, recebimento de comissões sem a correspondente

prestação de serviços, sobrepreços na aquisição de bens, simulação de cotação nos

preços de serviços subcontratados, pagamento por serviços não-realizados e apresentação

de propostas fraudulentas, para justificar a subcontratação de serviços.

O próximo capítulo tem o título de “Lavagem de dinheiro”. O procurador-geral da República

acusa a existência de um “sofisticado mecanismo de branqueamento de capitais”,

implementado pelo núcleo de Valério:

“A sistemática criada pelos dirigentes do Banco Rural, aprimorada a partir do início de

2003, possibilitou a transferência, em espécie, de grandes somas em dinheiro com a ocultação

e dissimulação da natureza, origem, movimentação e destino final.”

Cabia a Delúbio dizer a Valério quem receberia e qual valor a ser entregue:

“A estrutura articulada pelos dirigentes do Banco Rural possibilitou que o grupo de

Marcos Valério, notadamente Simone Vasconcelos e Geyza Dias, comunicasse ao gerente

da conta da SMPB ou DNA no Banco Rural de Belo Horizonte, agência Assembléia, a

operação que seria desencadeada, ou seja, pagamento de determinada quantia, nas praças de

Belo Horizonte, Brasília, São Paulo ou Rio de Janeiro, qualificando a pessoa que efetuaria

o recebimento e transporte, em malas ou sacolas, dos recursos financeiros.”

O procurador-geral anotou o comportamento do funcionário do Banco Rural: “Nos dois

anos dos intensos saques, o tesoureiro José Francisco destacou que nenhum recebedor fazia

conferência do numerário, limitando-se a acondicionar os vultosos recursos em uma mala,

bolsa ou sacola que levavam para tal finalidade ou lhes eram entregues pela própria Simone

Vasconcelos. Por seu turno, Simone Vasconcelos, conforme declarado na fase inquisitorial,

limitava-se a entregar o numerário à pessoa identificada para o seu recebimento, sem conferir

sequer a identidade”.

Do inquérito: “O Banco Rural, embora tivesse conhecimento dos verdadeiros sacadores/

beneficiários dos recursos sacados na ‘boca do caixa’, registrou no Sistema do Banco Central

(Sisbacen – opção PCAF 500, que registra operações e situações com indícios de crime

de lavagem de dinheiro) que os saques foram efetuados pela SMPB Comunicação e que se

destinavam a pagamento de fornecedores”.

A denúncia apresentou “situações de pagamentos, pelo esquema de lavagem”, envolvendo

João Cláudio Genu, assessor do PP, o deputado Josias Gomes (PT-BA) e ainda Jacinto

Lamas, ex-tesoureiro do PL, e José Luiz Alves, assessor do ex-ministro dos Transportes,

Anderson Adauto (PL-MG).

De acordo com o procurador-geral, as agremiações políticas corrompidas, pagas com

vultosas quantias, “chegaram a estruturar quadrilhas autônomas para viabilizar o cometimento

dos crimes de corrupção passiva e lavagem de capitais, consistentes no recebimento

direto ou disfarçado dos pagamentos de propina em troca de integrarem a base de apoio do

Governo Federal”.

O inquérito prossegue: “Além dos pagamentos que foram comprovados pelos documentos

obtidos em razão do cumprimento de medida de busca e apreensão no Banco Rural, é

preciso registrar que vários repasses foram efetuados diretamente por Marcos Valério e

Simone Vasconcelos sem qualquer registro formal, ainda que rudimentar”.

Em relação ao PP, a acusação relaciona os deputados José Janene (PR), Pedro Corrêa

(PE), Pedro Henry (MT) e o assessor João Cláudio Genu. Todos denunciados pelo “recebimento

de vantagem indevida” de R$ 4,1 milhões, num acordo que implicava apoio do partido

ao Governo Federal. A denúncia:

“Após formalizado o acordo criminoso com o PT (José Dirceu, Delúbio Soares, José

Genoino e Silvio Pereira), os pagamentos começaram a ser efetuados pelo núcleo publicitário-

financeiro. Os recebimentos, por sua vez, eram concretizados com o emprego de operações

de lavagem de dinheiro para dissimular os reais destinatários dos valores que serviram

como pagamento de propina.”

No primeiro momento, os denunciados decidiram receber por meio de um intermediário, o

assessor João Cláudio Genu. Os saques eram efetuados por Simone Vasconcelos no Banco

Rural e repassados a Genu, em malas ou sacolas, dentro da agência do Brasília Shopping, em

quarto do hotel Grand Bittar, em Brasília, ou na própria sede da SMPB na capital federal.

Depois, com a finalidade de “sofisticar as manobras de encobrimento da origem e natureza

dos expressivos montantes auferidos pela quadrilha”, foram utilizadas as empresas Bônus-

Banval, de Enivaldo Quadrado e Breno Fischberg, e Natimar, de Carlos Alberto Quaglia.

No PL, os denunciados são o ex-deputado Valdemar Costa Neto (SP), os irmãos Jacinto

e Antonio Lamas, Lúcio Funaro e José Carlos Batista. Os três primeiros receberam, em

2003 e 2004, cerca de R$ 10,8 milhões em propina.

A denúncia: “O acordo criminoso com os denunciados José Dirceu, Delúbio Soares,

José Genoino e Silvio Pereira foi acertado na época da campanha eleitoral para a Presidência

da República em 2002, quando o PL participou da chapa vencedora”.

Para dissimular os destinatários, operações de lavagem de dinheiro: “De fato, consciente

de que os montantes eram oriundos de organização criminosa voltada para o cometimento de

crimes contra a administração pública e contra o sistema financeiro nacional, os denunciados

articularam mecanismo para dissimular a origem, natureza e destino dos valores auferidos”.

Os repasses foram intermediados pela Guaranhuns Empreendimentos, de Lúcio

Funaro e José Carlos Batista. Não obstante, “a obtenção dos recursos em espécie também

era empreendida por Valdemar Costa Neto, que costumava receber altas quantias

em sua própria residência”.

O procurador-geral acrescentou: “Logo após, junho de 2003, iniciou-se a sistemática de

repasse de dinheiro pelo mecanismo de lavagem disponibilizado pelo Banco Rural, através

do recebimento, em espécie, por Jacinto ou Antonio Lamas, na agência do Banco Rural em

Brasília; no hotel Kubitschek, em Brasília; no hotel Mercure, em Brasília; e na filial da

empresa SMPB, também localizada em Brasília”.

Em âmbito do PTB, a propina em troca de apoio político foi recebida pelo ex-presidente

José Carlos Martinez, falecido, Roberto Jefferson e o deputado Romeu Queiroz (MG), com

a ajuda de Emerson Palmieri. A acusação:

“Os denunciados, cientes de que os montantes recebidos tinham como origem organização

criminosa dedicada ao cometimento dos crimes contra a administração pública e contra

o sistema financeiro nacional, engendraram mecanismo para dissimular a origem, natureza

e destino dos valores auferidos.” (…)

“Em dezembro de 2003, Roberto Jefferson manteve contato com Romeu Queiroz, secretário

do PTB, para que este retomasse os mecanismos estruturados durante a gestão de José

Carlos Martinez para a obtenção de recursos financeiros. Romeu Queiroz procurou o então

ministro Anderson Adauto, o qual manteve entendimentos com Delúbio Soares, que se

prontificou a retomar as transferências através da empresa SMPB, o que de fato ocorreu,

nos termos abaixo narrados.” (…)

“Assim, em janeiro de 2004, José Hertz, coordenador do PTB em Belo Horizonte, recebeu

um telefonema de Emerson Palmieri que o orientou a buscar um envelope a ser entregue

por Simone Vasconcelos. Primeiramente, José Hertz pegou um envelope com dinheiro

na agência do Banco do Brasil em Belo Horizonte e, depois, recebeu outro envelope contendo

dinheiro na agência do Banco Rural em Belo Horizonte.”

“José Hertz deslocou-se até Brasília e entregou ambos os envelopes contendo dinheiro a

Emerson Palmieri na data de 5/1/2004, ocasião em que Emerson Palmieri ligou para Roberto

Jefferson informando o seguinte: ‘assunto resolvido’.”

Outro enrosco: o “núcleo central da quadrilha” acertou um repasse de R$ 20 milhões ao

PTB, mas só teria providenciado a entrega de R$ 4 milhões, em duas parcelas. O caso já foi

relatado em detalhes.

Sobre o PMDB: o ex-deputado José Borba (PR), líder do partido na Câmara, “integrou o

esquema de corrupção em troca de apoio político”. E recebeu, segundo admitiu Valério, R$

2,1 milhões. A denúncia:

“Ciente da origem ilícita dos recursos (organização criminosa voltada para a prática de

crimes contra a administração pública e contra o sistema financeiro nacional), bem como

dos mecanismos de lavagem empregados para a transferência dos valores, José Borba atuou

para não receber diretamente o dinheiro, de forma a não deixar qualquer rastro de sua participação

no esquema”. O relatório ressalva:

“No entanto, ficou comprovado o pagamento de uma das parcelas disponibilizadas pelo

grupo de Marcos Valério, no valor de R$ 200 mil ao ex-deputado federal José Borba, que

recebeu esse dinheiro das mãos de Simone Vasconcelos. Nessa ocasião, o próprio José

Borba compareceu na agência do Banco Rural em Brasília e procurou o então tesoureiro do

Banco Rural em Brasília João Francisco de Almeida para a entrega do dinheiro, o que foi

confirmado por Simone Vasconcelos.”

“Todavia, José Borba recusou-se a assinar qualquer documento que comprovasse o recebimento

da importância acima, fazendo com que Simone Vasconcelos se deslocasse até

essa agência, retirasse, mediante a sua própria assinatura, a quantia acima informada, e

efetuasse a entrega desse numerário ao então parlamentar.”

O relatório dedica capítulo à “Lavagem de dinheiro (Partido dos Trabalhadores e o exministro

dos Transportes)”. A denúncia:

“Objetivando não se envolverem nas operações de apropriação dos montantes, pois tinham

conhecimento que os recursos vinham de organização criminosa destinada à prática

de crimes contra a administração pública e contra o sistema financeiro nacional, Paulo Rocha,

João Magno, Luiz Carlos da Silva (vulgo ‘Professor Luizinho’) e Anderson Adauto

empregaram mecanismos fraudulentos para mascarar a origem, natureza e, principalmente,

destinatários finais das quantias.”

O procurador-geral explicou: “Nas retiradas em espécie, buscando não deixar qualquer

sinal da sua participação, os beneficiários reais apresentavam um terceiro, indicando o seu

nome e qualificação para o recebimento dos valores”. Dessa forma, o ex-deputado Paulo

Rocha (PT-PA) recebeu R$ 920 mil, dos quais ao menos R$ 600 mil por meio da assessora

Anita Leocádia Pereira Costa, que pegou dinheiro em agências bancárias e quarto de hotel:

“Anita Leocádia agia profissionalmente como intermediária de Paulo Rocha, tendo ciência

que estava viabilizando criminosamente o recebimento de valores em espécie. Diferente

de outros casos, não foram saques pontuais. Pelo contrário, sua atuação foi habitual e

constante como auxiliar de Paulo Rocha na prática dos crimes.”

O deputado João Magno (PT-MG) pôs as mãos em R$ 350 mil: “João Magno tinha pleno

conhecimento da atuação da quadrilha ora denunciada, tanto é que, para se preservar, utilizou-

se de interpostas pessoas para o recebimento dos valores disponibilizados pelo núcleo

político-partidário por intermédio do núcleo publicitário-financeiro, valendo-se da estrutura

disponibilizada pelo núcleo financeiro (Banco Rural)”.

Já o deputado Professor Luizinho (PT-SP), ex-líder do governo Lula na Câmara dos

Deputados, “também com pleno conhecimento da atuação dos núcleos político-partidário e

financeiro-publicitário na prática dos crimes narrados nesta petição recebeu, de forma dissimulada,

através de interposta pessoa, a importância de R$ 20 mil”. Agora, o ministro de

Lula filiado ao PL:

“Anderson Adauto, ex-ministro dos Transportes, e o seu chefe de gabinete, José Luiz

Alves, também com pleno conhecimento dos crimes praticados pelos integrantes da quadrilha

descritos nesta petição, receberam diretamente do núcleo publicitário-financeiro da quadrilha

a importância de R$ 1 milhão.”

O último capítulo do relatório, “Evasão de divisas e lavagem de dinheiro – Duda Mendonça

e Zilmar Fernandes”. A denúncia:

“Em razão de um débito milionário junto ao núcleo político-partidário da organização

criminosa decorrente da campanha eleitoral de 2002, Delúbio Soares apresenta Marcos

Valério a Duda Mendonça e Zilmar Fernandes para viabilizar o adimplemento. Aliás, ficou

evidente no curso da investigação que Zilmar Fernandes é o braço operacional financeiro de

Duda Mendonça.”

Do procurador-geral: “Com efeito, em fevereiro de 2003, a denunciada Zilmar Fernandes

sacou três parcelas de R$ 300 mil em espécie na agência do Banco Rural em São Paulo.

Posteriormente (abril de 2003) e adotando idêntico procedimento, recebeu em espécie duas

parcelas de R$ 250 mil”.

“Entretanto, buscando sofisticar a forma de pagamento para evitar qualquer registro

formal, ainda que rudimentar, das operações, os denunciados Zilmar Fernandes e Duda

Mendonça informaram ao núcleo publicitário-financeiro que o restante dos repasses deveria

ser efetuado no exterior na conta titularizada pela offshore Dusseldorf Company Ltd.”

A offshore, registrada nas Bahamas, recebeu recursos da ordem de R$ 10,8 milhões:

“Deste modo, conscientes de que os recursos recebidos tinham como origem organização

criminosa voltada para a prática de crimes contra a administração pública e contra o sistema

financeiro nacional, os denunciados deliberadamente articularam esquema para dissimular

a natureza, origem, localização, movimentação e a propriedade dos valores”.

O procurador-geral da República concluiu: “O contexto criminoso acabou evidente

na medida em que, mesmo após receber parte do saldo da campanha de 2002 pela sistemática

descrita nesta petição, Duda Mendonça e Zilmar Fernandes ainda fecharam dois

outros ‘pacotes’ de serviços com o Partido dos Trabalhadores, o primeiro no montante

de R$ 7 milhões e o segundo no montante de R$ 24 milhões, objetivando as campanhas

do ano de 2004”.

Em 7 de março de 2006, mais de um mês antes de apresentar a denúncia do escândalo

do mensalão ao STF (Supremo Tribunal Federal), o procurador-geral Antonio Fernando

de Souza solicitou a prisão preventiva de 14 dos 40 denunciados. O ministro Joaquim

Barbosa, do STF, negou o pedido. Antonio Fernando de Souza voltou a solicitar as

prisões preventivas dois meses depois, mas, da mesma forma, o pedido não foi aceito.

Eis a lista dos 14 denunciados que tiveram as prisões preventivas solicitadas: José Dirceu,

José Genoino, Delúbio Soares, Silvio Pereira, Marcos Valério, Ramon Hollerbach

Cardoso, Cristiano de Mello Paz, Rogério Lanza Tolentino, Simone Reis Lobo de Vasconcelos,

Geiza Dias dos Santos, Kátia Rabello, José Roberto Salgado, Vinícius

Samarane e Ayanna Tenório Torres de Jesus.

VIII

O assassinato do prefeito Celso Daniel,

coordenador da eleição de Lula em 2002

Em março de 2003, logo após assumir a Presidência da República, Lula recebeu em sua

casa, em São Bernardo do Campo (SP), Mara Gabrilli. Durante 20 minutos, o presidente

ouviu um relato que misturava chantagem e extorsão contra os donos da empresa de ônibus

Expresso Guarará, pertencente à família de Mara Gabrilli. Para prestar serviços em Santo

André (SP), cidade vizinha de São Bernardo do Campo, os proprietários da Expresso Guarará

eram obrigados a pagar propina à Prefeitura do PT. Palavras de Mara Gabrilli:

- Contei como era o esquema, quem cobrava a propina, e como a Prefeitura tirou a

licença para a empresa da minha família operar algumas linhas, em represália ao fato de

meu pai não ter dado propina a partir de certo momento.

Mara Gabrilli não deixou dúvidas. Indicou para Lula os responsáveis pelo esquema de

corrupção: o secretário de Serviços Municipais, Klinger Luiz de Oliveira (PT), o empresário

Ronan Maria Pinto e o ex-segurança do prefeito Celso Daniel (PT), Sérgio Gomes da

Silva, o “Sombra”.

- Eu falei ao presidente sobre o pagamento da caixinha que meu pai era obrigado a fazer

a cada dia 30. E falei da retaliação imposta à empresa desde que eu e minha irmã, Rosângela,

denunciamos o fato ao Ministério Público.

Ao denunciar a corrupção em Santo André à CPI dos Bingos, em 2005, Rosângela

Gabrilli afirmou que os donos de empresas de ônibus na cidade eram pressionados a

contribuir para o caixa 2 do PT desde 1997, durante a segunda gestão do prefeito Celso

Daniel. Cabia ao Expresso Guarará o repasse de R$ 40 mil mensais, em dinheiro vivo. Do

depoimento de Rosângela:

- Os achaques eram feitos com intimidação e ameaça. Diziam que o Klinger tinha sempre

um revólver preso na canela. Isso constrangia muito. E ele lembrava a cada momento:

“Com o poder não se brinca, o poder tudo pode”.

Antes de sair do apartamento de Lula, Mara Gabrilli ouviu o presidente dizer que tomaria

providências e lhe daria uma resposta. Não foi o que aconteceu:

- Ocorreu justamente o contrário. Klinger soube, reclamou, e dias depois uma comissão

de sindicância da Prefeitura se instalou na nossa empresa.

Celso Daniel foi sequestrado em 18 de janeiro de 2002, no início do ano que terminaria

com a eleição do presidente da República. Celso Daniel era coordenador de campanha de

Lula. O corpo do então prefeito foi achado dois dias depois. Os assassinos o torturaram antes

de matá-lo, provavelmente para obter os números das senhas das contas secretas em paraísos

fiscais no exterior onde, possivelmente, ele guardava dinheiro para a campanha do PT.

O médico João Francisco Daniel, irmão do prefeito morto, contou sobre a conversa que

teve com Gilberto Carvalho (PT-SP), secretário de Governo de Celso Daniel, após a missa

de sétimo dia, em 26 de janeiro de 2002. Importante ressaltar que, um ano depois, ao assu307

mir o cargo de mais alto mandatário da nação, Lula nomeou Carvalho para o posto estratégico

de chefe de gabinete do presidente. Lula levou-o de Santo André para Brasília.

Depois da missa de sétimo dia, Gilberto Carvalho esteve na casa de João Francisco

Daniel e, emocionado, fez uma confissão que pediu para ser mantida em sigilo. Admitiu

que, durante a administração Celso Daniel, entregou dinheiro repassado por empresas que

mantinham contratos com a Prefeitura, diretamente para o presidente nacional do PT, deputado

José Dirceu (SP). Declaração do médico João Francisco Daniel:

- Achei estranho Carvalho me contar isso, mas ele contou. Contou três vezes. Falou que,

com muito medo, pegava seu Corsa preto e ia até São Paulo entregar o dinheiro para o então

deputado José Dirceu.

Cerca de dez dias depois, Gilberto Carvalho voltou ao assunto com João Francisco Daniel,

quando se queixou de Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”, o ex-segurança de Celso Daniel

acusado de ser o mandante da morte:

- O Gilberto disse que o Sérgio era muito violento, que constrangia os empresários colocando

revólver na mesa quando ia conversar com eles.

Na terceira conversa, Gilberto Carvalho admitiu ter levado, de uma só vez, R$ 1,2 milhão a

José Dirceu. Para João Francisco Daniel, Celso Daniel autorizara o esquema de corrupção, mas

com a finalidade de dar dinheiro ao PT. E resolvera rompê-lo ao descobrir que parte substancial

da propina acabava nas mãos de Sombra, Klinger Luiz de Oliveira e Ronan Maria Pinto.

- Quando ele ficou sabendo que esse grupo estava enriquecendo de maneira estratosférica,

ele realmente tentou brecar aquele tipo de coisa.

Uma das funções de Celso Daniel, como coordenador da campanha de Lula, era arrecadar

fundos para as despesas com a eleição. O “grupo” de Santo André, porém, teria decidido

pôr as mãos no dinheiro. Por isso o prefeito teria sido torturado. Queriam informações sobre

o paradeiro do caixa 2. Em seguida o eliminaram. João Francisco Daniel expôs o irmão ao

Ministério Público:

- Não tive saída. Infelizmente, ele montou um caixa 2 em Santo André, para as

campanhas do PT.

De fato, duas testemunhas revelaram ao Ministério Público as evidências de que Celso

Daniel participava do esquema. Uma empregada doméstica que trabalhou para o então prefeito

viu, oito meses antes do assassinato, três sacolas plásticas de supermercado, num canto

da lavanderia do apartamento. As sacolas estavam abarrotadas de maços de dinheiro,

preso por elásticos, em notas de R$ 10, R$ 50 e R$ 100, tudo sob um lençol branco.

O outro depoimento é de um garçom do restaurante Baby Beef, de Santo André, frequentado

por Celso Daniel, Sombra, Klinger Luiz de Oliveira e Ronan Maria Pinto. Os quatro

tinham o costume de sentar em volta da mesma mesa. O garçom viu Ronan, empresário do

setor de transportes e de coleta de lixo, tirar da bolsa um maço de dinheiro e entregá-lo a

Klinger. Vereador e secretário de Celso Daniel, Klinger Luiz de Oliveira tratou de esconder

a soma sob o guardanapo, para que ninguém visse o que era. Em outra ocasião, o mesmo

garçom reparou uma mulher chegar ao restaurante para entregar uma sacola cheia de

dinheiro a Ronan Maria Pinto.

Declaração do promotor Roberto Wider Filho:

- Esses depoimentos mostram que Celso Daniel tinha envolvimento com o esquema de

corrupção. A presença de notas de R$ 10 é um indicativo de que os recursos podem ter

origem no esquema de caixinha de ônibus.

Para o Ministério Público, o esquema começou a implodir quando Celso Daniel descobriu

que a propina não vinha irrigando os cofres do PT, como o prefeito desejava, mas

morria nas mãos de Sombra, Klinger e Ronan.

Do promotor Roberto Wider Filho:

- Ele foi eliminado porque se opôs ao esquema ao verificar que o dinheiro estava

sendo direcionado para os integrantes da quadrilha, e não mais para as campanhas eleitorais

de seu partido.

Outro irmão do prefeito morto, Bruno Daniel, depôs à CPI dos Bingos:

- Há evidências de que existia na Prefeitura de Santo André um esquema de arrecadação

para o PT. Suponho que Celso enveredou naquilo como um mal necessário para viabilizar

as atividades do partido, e lamentavelmente deu no que deu. O que possivelmente aconteceu

é que parcelas desses recursos começaram a ser destinadas para outras finalidades,

razão pela qual Celso resolveu alterar a situação e esta pode ter sido a motivação do crime.

Bruno Daniel criticou o ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), designado pelo

PT, com aval de Lula, para acompanhar o caso. Luiz Eduardo Greenhalgh defendia a tese de

que o assassinato havia sido crime comum, sem vinculação com a política. O irmão Bruno

Daniel não concordava:

- O povo de nossa cidade não aceita as explicações dadas até o momento, porque são

superficiais e contraditórias para um crime que desde o início se revelou complexo. Falamos

com outros membros do PT esperando trazer elementos para elucidar o caso. E o que

posso afirmar é que poucas pessoas dentro do partido contribuíram para isso.

Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”, ocupou papel central no caso Celso Daniel. Era pessoa

de inteira confiança do prefeito. Exerceu a função de motorista e segurança particular de

Celso Daniel. Ocupou cargo em comissão no gabinete do prefeito. Quando Celso Daniel foi

deputado, nomeou Sombra como seu assessor parlamentar. Sombra era muito próximo.

O ex-motorista enriqueceu. Na noite do sequestro, Celso Daniel jantara com Sombra no

sofisticado restaurante Rubayat, na zona sul de São Paulo. Os dois foram para lá no luxuoso

automóvel Pajero de propriedade de Sombra. O carro foi abordado de forma suspeita na

volta a Santo André, tarde da noite.

Apesar da experiência como segurança particular e de estar no comando de um veículo

blindado, Sombra alegou problemas mecânicos que o levaram a diminuir a velocidade e a

parar. Não ficou claro tampouco por que a trava da porta ao lado de Celso Daniel abriu,

expondo o prefeito aos criminosos.

Os promotores suspeitam de que Sombra conhecia um dos acusados de atacar o prefeito.

Falou-se até de um suposto pagamento de US$ 40 mil. Teria sido feito ali mesmo, na cena

do crime, aos homens supostamente contratados para fazer o sequestro.

Um morador testemunha da ação dos criminosos, que agiram na região dos “três tom309

bos”, na zona sul de São Paulo, relatou que arrancaram Celso Daniel “como um animal”

da Pajero. Enquanto isso, Sombra teria mantido atitude passiva e demonstrado “aparente

cumplicidade”.

Uma mulher passava pelo local na hora do sequestro. Celso Daniel ainda estava dentro

do veículo, com a cabeça encostada no vidro. Ela viu Sombra fora da Pajero, com ar de

tranquilidade, falando ao telefone.

Se já não houvesse a intenção de matar o prefeito, é possível que Celso Daniel tenha

percebido, durante a ação dos criminosos, o envolvimento do “amigo” com os sequestradores.

A solução seria eliminá-lo.

Antes de ser morto o prefeito foi barbaramente torturado. Num crime comum de sequestro,

a vítima geralmente é poupada. A sua boa integridade física é condição para o

pagamento do resgate. Celso Daniel foi torturado para que fornecesse informações aos

criminosos. Declaração do perito criminal Carlos Delmonte Printes, que examinou o

corpo de Celso Daniel:

- É absolutamente excepcional a ocorrência de morte em casos de sequestro-relâmpago.

Com relação ao sequestro convencional, nunca examinei um caso em que houvesse ritual

de tortura, crueldade e desproporcionalidade que verifiquei no exame do corpo do prefeito.

Como evidências da tortura, o perito criminal apontou a expressão de terror na face,

queimaduras nas costas e lesões no corpo, provocadas por estilhaços de balas disparadas

perto da vítima, com a finalidade de amedrontá-la. Para matá-lo, alvejaram-no oito vezes,

diretamente no rosto, tórax, pernas e mãos.

O médico legista Paulo Vasques também viu o corpo de Celso Daniel. Confirmou a

prática de tortura antes do assassinato. Referiu-se a marcas de coronhadas na cabeça e à

rigidez muscular decorrente da tensão nervosa. Informou que o prefeito vestia outra calça

quando o corpo foi encontrado, pois o traje não apresentava as marcas de tiro existentes

no corpo dele.

Sérgio Sombra chegou a ficar oito meses na prisão, acusado de ser o mandante do crime.

O STF (Supremo Tribunal Federal), por decisão do ministro Nelson Jobim, determinou a

sua libertação. O mesmo Nelson Jobim impediu investigações sobre o envolvimento de

José Dirceu com a corrupção em Santo André. Em seu segundo mandato como presidente

da República, Lula nomeou Nelson Jobim (PMDB-RS) ministro da Defesa.

Na hora de dar explicações à CPI dos Bingos, Sérgio Sombra irritou os senadores. Insistia

não saber por que a porta do carro blindado se abriu:

- A porta abriu de repente, do lado do Celso, não sei como.

Ao ser questionado sobre quatro depósitos bancários descobertos em sua conta, num

total de R$ 40 mil, todos feitos por Luiz Alberto Gabrilli, proprietário da Expresso Guarará,

Sombra saiu-se assim:

- Acho que ele se enganou, pode ter feito pagamento cruzado, por engano.

De acordo com o Ministério Público, empresários que mantinham contratos com a administração

de Santo André eram forçados a entregar dinheiro vivo ao esquema, todos os

meses. Durante uma época, por algum desarranjo na organização criminosa, a propina foi

depositada diretamente na conta bancária de Sérgio Sombra. Ficou o rastro. Ainda na CPI,

Sombra tentou explicar uma transferência bancária de Luiz Alberto Gabrilli, feita em 1997:

- Tinha vários depósitos para receber por serviços de segurança que prestei. Esse dinheiro,

só fiquei sabendo agora que havia sido depositado por ele na minha conta. Não sei como

foi parar na minha conta.

A Polícia Civil de São Paulo não responsabilizou nenhum dos atores políticos suspeitos

de envolvimento no assassinato de Celso Daniel. O caso intrigou também pelas mortes

violentas de seis pessoas que testemunharam ou estiveram, por algum momento, nas

cenas do crime.

Entre os mortos, o garçom Antonio Palácio de Oliveira, que serviu Celso Daniel e Sérgio

Sombra no restaurante Rubayat, pouco antes do sequestro. Ele chegou a receber um depósito

bancário misterioso, no valor de R$ 60 mil, antes de morrer. Mas dois homens o perseguiram

em sua motocicleta. Durante a fuga perdeu o controle, bateu num poste e perdeu a vida.

O homem que presenciou a morte do garçom e contou à polícia o que viu, também foi

morto. Paulo Henrique Brito levou um tiro nas costas.

Investigações chegaram a apontar ligações de amizade entre Sombra e Dionísio de Aquino

Severo, que teria namorado a ex-mulher de Sombra. Dionísio Severo, acusado de envolvimento

no sequestro, foi resgatado de helicóptero de um presídio, de forma espetacular, dois dias antes

do sequestro. Depois do crime, recapturado, o mataram numa cadeia em Guarulhos (SP).

Intrigante também a morte do investigador de polícia Otávio Mercier, que conversou

com Dionísio Severo um dia antes da fuga do presídio. Foi alvejado por homens que tentavam

entrar em sua casa.

Manoel Sérgio Estevam, o “Sérgio Orelha”, abrigou Dionísio Severo em seu apartamento,

logo após a morte do prefeito. Foi assassinado com vários tiros.

Por fim, morreu o homem que chamou a polícia ao achar o corpo de Celso Daniel,

jogado em uma estrada de terra em Juquitiba (SP). Assassinaram Iran Moraes Redua

com dois tiros.

Quatro anos depois da morte de Celso Daniel, a família do economista Bruno Daniel,

irmão do prefeito assassinado, foi obrigada a deixar o País. Partiu às escondidas para Paris,

onde o governo da França a recebeu como perseguida política no Brasil. Bruno Daniel, a

mulher e os três filhos do casal, moradores de Santo André, não suportaram as ameaças de

morte que se seguiram ao depoimento de Bruno, no qual ele acusou José Dirceu e Gilberto

Carvalho de envolvimento no esquema montado por Celso Daniel.

Em abril de 2006, o Ministério Público abriu inquérito para investigar o ex-ministro e

ex-deputado José Dirceu, acusado de se beneficiar do dinheiro desviado em Santo André.

Gilberto Carvalho também foi objeto de investigação. Apesar disso, Lula o manteve na

posição estratégica de chefe de gabinete do presidente da República.

José Dirceu e Gilberto Carvalho foram citados por crimes de formação de quadrilha,

receptação e lavagem de dinheiro. O Ministério Público também anunciou investigação

sobre a origem de R$ 500 mil supostamente repassados pelo PT ao advogado Aristides

Junqueira, que foi contratado para defender o PT no caso Celso Daniel.

O Ministério Público acabou denunciando Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”, Klinger

Luiz de Oliveira, Ronan Maria Pinto e Maurício Mindrisz, que ocupou o cargo de superintendente

da Semasa (Serviço Municipal de Saneamento Ambiental) em Santo André. Todos

foram acusados por crimes de formação de quadrilha, fraude e dispensa ilegal de licitação.

Conforme a denúncia, os quatro, em parceria, atuavam com o prefeito Celso Daniel para

desviar recursos públicos. Formavam “quadrilha organizada estável”, com o objetivo de

“cumprir como meta estabelecida um mega-esquema de corrupção”.

Para os promotores, Sombra, mesmo sem ocupar cargo na Prefeitura, exercia grande influência

na administração municipal. O esquema favorecia Ronan Maria Pinto, dono de empresas

de transporte e de coleta de lixo, que mantinham contratos com o governo municipal.

Uma dessas empresas, a Rotedali, foi contratada 12 vezes para executar serviços de limpeza,

varrição e manutenção de aterro sanitário, em transações que envolveram cerca de R$ 50

milhões. Parte do dinheiro teria alimentado o caixa 2 do PT. Dos 12 contratos, dez foram

celebrados sem licitação. A Justiça e o Tribunal de Contas do Estado contestaram cinco deles.

Sombra foi sócio de Ronan em negócios com empresas de ônibus em Fortaleza e Cuiabá.

Trecho da denúncia dos promotores Roberto Wider Filho, Amaro José Thomé Filho e

Adriana Ribeiro Soares de Morais:

“Sérgio, aproveitando-se de seu prestígio junto à administração, idealizou com Daniel a

formação da sociedade delinquente e era um dos destinatários dos recursos ilícitos. Foi

tesoureiro da campanha eleitoral de 1996. Arrecadou diretamente parte do dinheiro, que foi

depositado na sua conta corrente.”

No início do segundo mandato de Lula, em 2007, o Ministério Público pediu o bloqueio

de bens do PT e de Gilberto Carvalho, no montante de R$ 5,3 milhões. O valor correspondia

à estimativa de dinheiro desviado pelo esquema de corrupção na área de transporte público

em Santo André. A ação civil pública também denunciou Sérgio Gomes da Silva, Klinger

Luiz de Oliveira, Ronan Maria Pinto e vários empresários. Da denúncia:

“Formaram uma quadrilha determinada a arrecadar recursos através de achaques a empresários,

bem como através de desvio de dinheiro dos cofres públicos municipais, conforme

outras denúncias já ajuizadas, relativas a contratos de obras públicas e de coleta e

destinação final de lixo, ambas recebidas judicialmente”. Outro trecho da denúncia:

“Todos os recursos auferidos pela quadrilha, na concepção do finado prefeito Celso Daniel,

deveriam financiar campanhas eleitorais do PT, tanto em âmbito municipal e regional quanto

em âmbito nacional. O dinheiro amealhado era, em parte, separado e entregue a Gilberto

Carvalho, que o transportava, em seu veículo particular, ao escritório de José Dirceu, que

recebia os recursos ilícitos em espécie, na qualidade de presidente do PT, para o financiamento

de campanhas do interesse daquela agremiação.”

Em 9 de fevereiro de 2006, prestou depoimento ao Ministério Público o ex-secretário de

Habitação de Mauá (SP), Altivo Ovando Júnior. Mauá, na Grande São Paulo, é vizinha de

Santo André. A cidade foi governada pelo prefeito Oswaldo Dias (PT) de 1997 a 2000,

período em que Altivo Ovando Júnior exerceu o cargo de secretário. Ele narrou fatos ocorridos

durante a campanha de Lula a presidente da República, em 1998. Do depoimento:

“O declarante se recorda de que, no pleito de 1998, Lula compareceu no gabinete do

prefeito de Mauá, oportunidade em que, utilizando termos chulos, cobrou de Oswaldo Dias

maior arrecadação de propina em favor do PT.”

A frase de Altino Ovando Júnior sobre o pedido de Lula:

“Ele dizia: ‘Pô, Oswaldão, tem que arrecadar mais. Faz que nem o Celso Daniel em

Santo André. Você quer que a gente ganhe a eleição como?”

IX

Promotores pediram prisão de Antonio Palocci,

acusado por envolvimento com a ‘máfia do lixo’

Morto Celso Daniel (PT), prefeito de Santo André (SP), Lula escolheu um outro prefeito

para substituí-lo na coordenação da campanha, durante o processo eleitoral de 2002: Antonio

Palocci (PT), de Ribeirão Preto (SP). Eleito presidente da República, Lula nomeou

Antonio Palocci seu ministro da Fazenda. No primeiro mandato (2003-2006), ele foi um

dos mais influentes auxiliares do Governo Federal. Fez parte do chamado “núcleo duro” de

Lula, juntamente com os ministros José Dirceu (PT-SP) e Luiz Gushiken (PT-SP). A dupla

caiu em 2005, após envolvimento no escândalo do mensalão.

Antonio Palocci também caiu, mas só no ano seguinte, em decorrência do crime de

quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos Costa. O funcionário o acusara de

frequentar uma mansão em Brasília, alugada pela chamada “república de Ribeirão Preto”.

O casarão servia para festas com garotas de programa. Palocci suspeitou que o caseiro o

denunciara por ter sido subornado pela oposição. Achou que comprovaria a propina ao pôr

as mãos em extratos bancários. Mas a desconfiança não procedia. O pai do caseiro dera o

dinheiro. Além do mais, não haveria o que justificasse quebrar o sigilo.

Antes de ser afastado, porém, Palocci sofreu diversas acusações por atos de ilegalidade

em Ribeirão Preto. As denúncias de corrupção eram ainda mais graves que a quebra do

sigilo. Afinal, ao longo da trajetória do PT a ética na política foi propagada, em alto e bom

som, como sendo a bandeira mais importante do partido. Apesar disso, Lula protegeu

Palocci o quanto pôde.

Poucos dias antes do segundo turno das eleições que reelegeram Lula em 2006, o Ministério

Público de São Paulo denunciou Palocci, recém-eleito deputado federal. Promotores

pediram à Justiça a sua prisão preventiva por crimes de formação de quadrilha, peculato e

adulteração de documentos públicos. Acusaram-no de chefiar o grupo que fraudou contratos

de limpeza pública na Prefeitura de Ribeirão, provocando prejuízos de R$ 30,7 milhões.

A ação criminal pediu a condenação do ex-ministro a 225 anos de prisão.

Em 2007, Palocci foi condenado em primeira instância pela Justiça, por duas irregularidades

cometidas em Ribeirão: a doação de materiais de construção para a Associação dos

Funcionários da USP (Universidade de São Paulo) e o polêmico projeto Vale dos Rios, que

previa a construção de uma ponte suspensa no centro da cidade. As obras não andaram.

Foram gastos R$ 4,7 milhões na iniciativa, mas só teria havido justificativa para R$ 323

mil. O TCE (Tribunal de Contas do Estado) considerou irregulares a dispensa de licitação,

o contrato e as despesas autorizadas e efetuadas por Palocci.

Auxiliares de Palocci que ocuparam postos de comando na Prefeitura de Ribeirão também

foram condenados. Donizete Rosa é um deles. Nomeado diretor-superintendente do

Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados, autarquia do Ministério da Fazenda)

no governo Lula, ele não perdeu o cargo federal com a condenação. E saiu-se assim ao ser

confrontado com a decisão da Justiça, no caso da doação de materiais:

- Não me lembro disso, não fui ouvido e nem participei da autorização para essa doação.

Estranho o meu nome ser citado.

O TCE condenou também contrato sem licitação firmado com a empreiteira Leão Leão,

para operar o aterro sanitário de Ribeirão. Entre as denúncias de irregularidades da época

em que Palocci exerceu o mandato de prefeito da cidade, um dos casos mais rumorosos foi

o suposto direcionamento para comprar um “molho de tomate refogado, peneirado, com

ervilhas”, que era produzido por apenas uma empresa. O produto seria usado na merenda

escolar da rede municipal de ensino. Teve ainda a acusação de gastos com agência de publicidade

sem contrapartida de prestação de serviços, contrato suspeito com publicitários e

despesas supostamente irregulares com propaganda para a Coderp (Companhia de Desenvolvimento

Econômico de Ribeirão Preto).

A Coderp, aliás, estava sob o comando de Juscelino Dourado, secretário da Casa Civil

do prefeito Palocci. Um diretor da Coderp, Augusto Pereira Filho, admitiu receber “complemento

salarial”, um dinheiro não-contabilizado. O valor teria sido negociado com Juscelino

Dourado. Quando Palocci deixou Ribeirão e foi para Brasília, nomeado por Lula, levou

Juscelino Dourado para ser seu chefe de gabinete e braço direito, no Ministério da Fazenda.

Juscelino Dourado foi afastado em 2005, na tentativa de desvincular Palocci de irregularidades

apuradas pelo Ministério Público em Ribeirão. Os promotores haviam tomado conhecimento

de um esquema de caixa 2. Envolveria fornecedores da Prefeitura e a gráfica

Villimpress, também de Ribeirão. Por meio das operações teriam sido emitidos boletos

bancários superfaturados, além de duplicatas simuladas e notas fiscais frias de serviços

gráficos. As “despesas” somavam até R$ 50 mil por dia. A operação teria sido feita propositadamente

para fazer “sobrar” dinheiro. Incluiria a troca de reais por dólares e envolveria

repasses por baixo do pano para o PT.

O projeto Fábricas de Equipamentos Sociais também chamou a atenção dos promotores.

A administração municipal torrou R$ 5,5 milhões para executar uma obra, mas fez apenas a

metade. Um dos coordenadores do programa, Roberto Costa Pinho, assumiu o cargo de

secretário de Desenvolvimento do Ministério da Cultura na administração Lula. Ele admitiu

à CPI do Mensalão ter recebido R$ 300 mil do esquema de Marcos Valério. Alegou que

o dinheiro pagaria por serviços de assessoria política.

Roberto Costa Pinho explicou, contudo, que ficou deprimido por ter sido exonerado do

Ministério da Cultura, no início de 2004. O afastamento ocorreu após ser acusado de cometer

irregularidades em contratos públicos. Em razão disso ele não se sentiu em condições de

prestar os tais serviços de assessoria política. Mesmo assim ficou com os R$ 300 mil. Justificou

à CPI dizendo que Delúbio Soares, tesoureiro do PT, não pediu o dinheiro de volta:

- A secretária dele ligou, disse que Delúbio sabia da minha doença e não faltariam oportunidades

para eu prestar serviços ao PT.

O caso mais grave em Ribeirão, no entanto, teria sido o envolvimento do prefeito

Antonio Palocci com a “máfia do lixo”. O autor da denúncia ocupou cargo estratégico

durante a primeira administração de Palocci na cidade. Mais que isso, era amigo pessoal

de Palocci, com quem manteve relações fraternas ao longo dos anos, como se verá,

inclusive no governo Lula.

Em 17 de agosto de 2005, no auge do escândalo do mensalão, o Brasil fica sabendo da

prisão de um certo advogado Rogério Buratti. No longínquo ano de 1992, ele chegara a

Ribeirão Preto. Sem nada, dirigindo um fusca. Tinha a missão de coordenar a campanha

do candidato a prefeito da cidade pelo PT naquele ano, um desconhecido vereador

chamado Antonio Palocci. Eleito, Palocci retribuiu. Fez de Rogério Buratti o secretário

municipal de Governo.

Treze anos depois, Rogério Buratti seria denunciado pelo Ministério Público, por lavagem

de dinheiro e formação de quadrilha, num esquema de compra e venda de propriedades

rurais e empresas de ônibus. Teria tentado destruir contratos de venda de imóveis e documentos

que o incriminariam em negócios suspeitos. Buratti foi acusado de comprar três

fazendas em dois anos, antes de trocá-las por duas empresas de ônibus, no valor de R$ 2,6

milhões, convenientemente registradas em nome de terceiros.

O mais explosivo, no entanto, acabou sendo o indiciamento de Buratti por suspeita de

envolvimento com a “máfia do lixo”, um esquema que fraudava licitações e contratos de

limpeza pública em cidades do interior de São Paulo e de Minas Gerais. Em troca de redução

da pena, Buratti fez acordo com os promotores. Comprometeu-se a colaborar com a

Justiça nas investigações.

Rogério Buratti fora vice-presidente da empreiteira Leão Leão, a principal doadora de

dinheiro para a segunda campanha de Antonio Palocci para se eleger prefeito de Ribeirão,

em 2000. Ela detinha contratos de limpeza pública na cidade. Buratti desligara-se da Leão

Leão em 2004, contudo, na esteira de outro escândalo, este já do governo Lula: a extorsão

de dinheiro da multinacional norte-americana Gtech. Não vem ao caso aqui, mas Buratti e

Waldomiro Diniz, outro assessor do PT famoso na era Lula, teriam tramado para conseguir

propina de até R$ 16 milhões da multinacional, interessada em fechar contrato milionário

com a Caixa Econômica Federal. O banco estatal é subordinado ao Ministério da Fazenda,

na época controlado por Palocci.

Ao procurar proteger Palocci no caso Gtech, Buratti alegou que o ministro decidira não

interferir no contrato com a Caixa. Não teria demonstrado interesse na oferta que seria, em

tese, destinada ao PT. Acredite se quiser. Note-se que, segundo o relato de Buratti, não

houve “interesse” pela propina. Jamais “indignação”, “repulsa” ou, ainda mais correto, a

imediata abertura de inquérito para apurar uma tentativa de suborno. A oferta de “até R$ 16

milhões”, portanto, não significou nada de tão grave. O depoimento de Buratti sugeriu outra

explicação para a falta de “interesse” de Palocci. O ministro teria decidido respeitar o “interesse”

de outro ministro no negócio. A tratativa com a multinacional já vinha sendo tocada

por Waldomiro Diniz, assessor de José Dirceu (PT-SP) no Ministério da Casa Civil. Assim

explicou Buratti:

- Tenho informações, não posso confirmar, de que havia uma negociação em curso,

principalmente voltada com o que se falava que era o grupo do Rio, o que contribuiu na

campanha através do Waldomiro Diniz. Tenho a impressão de que, como eles não conseguiram

trilhar o caminho através de mim, eles podem ter continuado no caminho que já existia.

Em troca do benefício da delação premiada, Buratti acusou Palocci de receber R$ 50 mil

mensais de propina, no período em que foi prefeito pela segunda vez, em 2001 e 2002.

Como se sabe, Palocci renunciou ao cargo de prefeito em 2003 para assumir o comando do

Ministério da Fazenda. Quem subornava o prefeito, acusou Buratti, era a empreiteira Leão

Leão. O advogado fez a denúncia para seis promotores e um delegado de polícia.

Além de vice-presidente da Leão Leão, Buratti foi presidente da Leão Ambiental, braço

da empresa responsável por serviços de limpeza urbana. Sabia do que estava falando. Acusou

Ralf Barquete de envolvimento no esquema. Barquete era secretário de Finanças do

prefeito Palocci, guindado para a assessoria da Caixa Econômica Federal com o advento do

governo Lula. Palavras de Buratti sobre o mensalão do prefeito Palocci:

- Esse dinheiro foi pago mensalmente durante toda a gestão do prefeito Palocci, ou seja,

durante dois anos. Quem indicou o Ralf para receber esse dinheiro foi o próprio Palocci à

empresa Leão. Como eu integrava a diretoria, tinha conhecimento. Ralf apanhava o dinheiro

na tesouraria da empresa. Quem entregava era o gerente financeiro da época.

Buratti explicou que os R$ 50 mil eram uma compensação pela garantia dos pagamentos

dos contratos de limpeza pública em dia. Mas, possivelmente, era mais que isso. A

Prefeitura teria acordos por baixo do pano com a empreiteira. Faria repasses de dinheiro

antecipados à Leão Leão. Quebraria, com isso, irregularmente, a ordem cronológica de

pagamentos. Buratti relatou como justificavam a entrega de propina ao prefeito nos

balanços da Leão Leão:

- O pagamento ocorria com a simulação de compras, utilizando-se notas frias. O pagamento

da mensalidade era condicionado ao pagamento que a Prefeitura fazia. Antes e depois

das licitações havia reuniões com as empresas, tendo em vista um acordo para a disputa

em um determinado local. É um procedimento natural.

Mais detalhes sobre o funcionamento do esquema, conforme o depoimento de Rogério

Buratti ao Ministério Público:

- Em algumas cidades onde a Leão Leão tinha contratos de coleta de lixo havia um apoio

da administração pública na licitação. Onde havia esse apoio ocorria uma colaboração na

elaboração dos editais e nas informações gerais, privilegiadas, da licitação. Outro benefício

era com relação à fixação do cronograma, fixando-se datas de abertura e divulgação de

acordo com os interesses comuns, ou seja, da prefeitura e da empresa. Quando a empresa

sagrava-se vencedora, combinava-se com o prefeito uma forma de contribuição financeira.

A contribuição ocorria dentro de um porcentual de 5% a 15%, a depender do contrato, em

relação ao faturamento. O dinheiro era levado diretamente ao prefeito.

Para comprovar as acusações de Buratti, o Ministério Público apreenderia farta documentação

na sede da Leão Leão. No computador de Wilney Barquete, que substituiu Buratti

na presidência da Leão Ambiental, acharam um arquivo com o nome de “despesas diversas”.

Lá estava o que os promotores apontaram como o “mapa da propina”. Entre as informações

protegidas por senhas, uma trazia os seguintes dizeres: “50000 – dr”. Para o Ministério

Público, “dr” seria uma referência ao doutor Palocci, que é médico sanitarista. E “50000”

o valor do suborno mensal, de R$ 50 mil.

A quebra do sigilo bancário da Leão Leão mostrou que a operação montada em Ribeirão

poderia ter servido como embrião para o esquema do mensalão do governo Lula. Entre 15

de janeiro de 2002 e 22 de outubro de 2003 foram emitidos 686 cheques pela Leão Leão,

num total de R$ 9,4 milhões. O “mapa da propina” revelou três padrões de saques, sempre

em valores próximos a R$ 12 mil, R$ 30 mil ou R$ 50 mil. Estes seriam os três níveis

de suborno.

A coisa funcionava assim: a Prefeitura fazia medições de serviços de varrição e de coleta

de lixo acima do efetivamente realizado, e pagava a mais à Leão Leão. A varrição do Bosque

Municipal de Ribeirão e a coleta de lixo hospitalar, por exemplo, teriam sido intencionalmente

superdimensionadas. Em seguida, justificava-se a retirada do dinheiro público

pago a mais para a empreiteira por meio da aquisição fictícia de produtos e serviços pela

Leão Leão. Empresas forneceriam notas frias e obteriam 2% do valor das notas.

A CPI dos Bingos analisou 331 cheques, cujos valores foram sacados em dinheiro vivo

na agência bancária existente dentro da Leão Leão. O dinheiro saía em carro-forte da

empreiteira. Os números bateram: os R$ 2,8 milhões supostamente desviados em 2002

corresponderiam a 12 pagamentos de R$ 226 mil. Este seria o custo mensal da corrupção do

prefeito Palocci.

Voltemos a Rogério Buratti: um ex-secretário de Obras de Ribeirão, engenheiro Luiz

Fernando Alessi, acusou Palocci e Buratti de receberem dinheiro não-contabilizado da Leão

Leão, durante a campanha eleitoral de 1992. O ex-secretário também denunciou Palocci, já

no posto de prefeito, por proteger Buratti, seu secretário de Governo, apesar das relações

“atípicas” mantidas por ele com as empreiteiras. De Luiz Fernando Alessi:

- As empreiteiras passaram a ser chamadas na Secretaria de Governo e às vezes acontecia,

por exemplo, de eu encontrar um dono de construtora e ele comentar: “Olha, estive com

Buratti e mudei o cronograma da obra tal”.

Na época, o ex-secretário de Obras relatou o que vinha acontecendo ao prefeito Palocci.

Foi afastado da Prefeitura. Buratti também perdeu o emprego de secretário, mas por outro

motivo. Luiz Fernando Alessi recebeu uma fita que derrubaria Buratti. Palavras de Alessi:

- Era uma gravação em que Rogério Buratti combinava uma compensação para um empresário

da área da construção civil, da Almeida Filho. Comecei a compreender que isso

tinha a ver com uma obra viária na avenida Antonio e Helena Zerrenner, onde havia sido

aberta uma concorrência. Era a maior e mais cara obra viária que a Prefeitura estava fazendo

em 1994. Mas a licitação foi cancelada e anulada. A justificativa é que esqueceram de

colocar uma ponte no projeto. Pouco tempo depois reabriram a licitação, a empresa Almeida

Filho não apresentou preço. Coisa estranha, a empresa desistir. Em seguida, aparece a fita

do Buratti conversando com o empresário que ganhou e desistiu. E ele diz que “o prefeito

mandou dar uma compensada pra você”.

A tal “compensada” funcionaria como espécie de “cala-boca”, porque a obra iria ser

tocada por outra empresa. Nome da outra empresa: Leão Leão. O jornal Folha de S.Paulo

publicou as declarações do ex-secretário Luiz Fernando Alessi e repercutiu o caso com

Buratti, que se manifestou assim:

- O Palocci, quando administra uma cidade, ou quando está num cargo executivo, quer

ter todas as informações, quer ter tudo na mão, ele coordena efetivamente. O Alessi nunca

entendeu qual era o papel dele e qual era o meu papel. O papel dele era realizar obras, o meu

papel era coordenar o governo.

Em seu segundo mandato como prefeito, Palocci assinou 19 contratos com a Leão Leão.

Como se sabe, Buratti ocupava estrategicamente um posto no comando da empreiteira. Do

total de contratos, nove foram firmados sem licitação pública, no valor de R$ 4,2 milhões.

Em depoimento ao Ministério Público e à Polícia Federal, Buratti admitiu que a Leão Leão

e a gráfica Villimpress trabalharam em conjunto na campanha de Lula para o Planalto:

- A Leão pagou material de campanha produzido pela Villimpress para o PT, tratando-se

da campanha de 2002, para presidente.

Em depoimento à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, no final de 2005, Palocci

negou qualquer irregularidade com a limpeza pública de Ribeirão Preto em 2001 e 2002, a

cargo da Leão Leão. Saiu-se assim:

- Não fui eu que fiz a contratação dessa empresa, nem a prorrogação do contrato. O

contrato foi feito no governo anterior ao meu e foi renovado no governo posterior ao meu.

Vamos por partes: Palocci não assinou um contrato específico, mas o gerenciou. E poderia

ter feito exigências para não rompê-lo. Outro ponto: o ex-prefeito deu a entender que

passou ao sucessor os negócios de Ribeirão Preto com a Leão Leão, da forma como os

encontrou. Não foi bem assim.

De fato, o antecessor de Palocci na Prefeitura de Ribeirão, Luiz Roberto Jábali (PSDB),

assinou contrato de coleta de lixo com a Leão Leão. Mas da seguinte forma: quando Jábali

assumiu o comando da administração municipal, em 1997, depois dos quatro anos do primeiro

mandato de Palocci, reduziu o custo da tonelada de lixo recolhida pela empresa Rek,

de R$ 50 para R$ 42. Depois baixou o valor novamente, para R$ 35. Em 1999 contratou a

Leão Leão, por R$ 17 a tonelada. Um terço dos R$ 50 de Palocci pelo serviço.

Palocci ganhou a eleição de 2000 e reassumiu a Prefeitura. O valor da tonelada de lixo

recolhida pela Leão Leão oscilou para R$ 23. Em 2004, Palocci havia virado ministro. O

vice dele, Gilberto Maggioni (PT), que mandava na Prefeitura, elevou o preço da tonelada

para a casa dos R$ 32,76.

Gilberto Maggioni foi acusado por Buratti, aliás, de continuar recebendo a propina de

R$ 50 mil, antes destinada exclusivamente ao prefeito Palocci. Em 2003, ano em que se

tornou prefeito de Ribeirão, Maggioni comprou três terrenos na cidade. Num deles, de

1.162 metros quadrados, em loteamento de alto padrão, estava construindo uma residência

de 562 metros quadrados.

Para não perder o emprego de ministro, Antonio Palocci tratou de se desvencilhar

de Rogério Buratti. Negou ter recebido R$ 50 mil mensais de propina, mas poupou o

detrator. Preferiu atacar os promotores. Convocou entrevista coletiva em Brasília.

Manifestou-se assim:

- Não me sinto traído pelo Rogério Buratti, porque não tinha relação de confiança com

ele no último período. Não esperava que ele fosse utilizar uma acusação dessa natureza.

Compreendo a situação dada, a pessoa depondo, com prisão, com algema, tendo sido

oferecida a ela a liberdade em troca da delação de outras pessoas, que é um ambiente em

que tudo pode acontecer.

Mais uma vez, não é bem como Palocci falou. A quebra de sigilo telefônico de Buratti

iria revelar, dias depois da entrevista do ministro, que o advogado trocou pelo menos 30

ligações com Palocci e assessores diretos dele, no Ministério da Fazenda. Foram seis

telefonemas do celular de Buratti para a casa de Palocci em 2003, num total de 28 minutos

de conversa.

Ainda na entrevista, Palocci admitiu ter frequentado a casa de Buratti algumas vezes

nos últimos anos, mas justificou com a relação de amizade entre as mulheres e os filhos

de ambos. Em 2002, ainda prefeito de Ribeirão, Palocci esteve em três churrascos na casa

de Buratti, na época em que o advogado era vice-presidente da Leão Leão. Da entrevista

do ministro:

- Não esperava por isso, que o Rogério Buratti fizesse uma coisa dessas. Agora, eu

compreendo a situação em que ele foi colocado. Os motivos que o levaram a falar isso eu

não conheço.

Lula comentou as declarações de seu ministro da Fazenda:

- Palocci mostrou a segurança de uma pessoa inocente.

Cabe ressaltar que Juscelino Dourado, chefe de gabinete do ministro Palocci, admitiu

encontros com Buratti no Ministério da Fazenda. Buratti os negara, para proteger o amigo.

Em gravações, Buratti referiu-se a Juscelino Dourado como o “J”. Juscelino Dourado também

foi investigado por fraudes em licitações na Prefeitura de Ribeirão Preto.

Prova das relações Palocci/Buratti no governo Lula é a audiência concedida pelo ministro

da Fazenda ao empresário João Vaz Guedes, presidente da Somague, um grupo português

da área da construção civil, associado à Leão Leão de Ribeirão. O Ministério da Fazenda

negou formalmente duas vezes ter havido reunião de Palocci com o empresário. Depois

recuou. O encontro se deu em 13 de maio de 2003. Buratti solicitou o agendamento da

reunião ao chefe de gabinete, Juscelino Dourado. Depois, explicou:

- Liguei para o Juscelino, pedindo a audiência. Ele mandou eu mandar um email, que

a Somague mandasse o email, que ele iria conversar com o ministro e, com certeza, o

ministro receberia.

Em depoimento à Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, Palocci

voltou a negar irregularidades. Os parlamentares perguntaram por que ele não processava

Buratti. Resposta do ministro:

- Algumas pessoas estão sofrendo processos não apenas por eventuais falhas ou irregularidades.

Sofrem perseguição por terem sido meus assessores.

Na verdade, quem sofreu perseguição foram os funcionários do Daerp (Departamento

de Águas e Esgotos de Ribeirão Preto) que depuseram à Polícia Civil e confirmaram o

esquema de corrupção na cidade administrada por Palocci. Doze testemunhas denunciaram

fraudes nos serviços de limpeza executados pela Leão Leão. Isabel Bordini, superintendente

do Daerp, foi apontada como operadora do esquema. Ela era mulher do todo-poderoso

Donizete Rosa, secretário municipal nas duas gestões de Palocci como prefeito. Depois,

como vimos, ele foi nomeado no governo Lula para o Serpro (Serviço Federal de

Processamento de Dados).

Por determinação de Isabel Bordini teriam sido falsificadas ordens de serviço, boletins

de medição e planilhas relacionadas ao serviço de limpeza pública. A acusação se estende

do período do segundo mandato de Palocci, em 2001 e 2002, até o do sucessor dele, Gilber320

to Maggioni (PT), que governou Ribeirão até o fim de 2004. Ele teria mantido o mesmo

esquema engendrado por Palocci. Os valores pagos pela varrição de ruas e de calçadas eram

até três vezes maiores que os serviços efetivamente prestados. Do depoimento de uma funcionária

municipal, cuja identidade foi mantida em sigilo para protegê-la:

“Após umas duas horas, vinha a determinação da Isabel para que fosse aceita a planilha

apresentada pela Leão Leão, mesmo em prejuízo da Prefeitura. Que, mesmo contrariado, o

funcionário era obrigado a acertar os dados e, para isso, precisava fazer uma ordem de

serviço para complementar e justificar aquela diferença.”

Segundo o delegado de polícia Benedito Antonio Valencise, que investigou a corrupção

em Ribeirão, os funcionários do Daerp eram coagidos, ameaçados e pressionados por superiores

para alterar informações em relatórios públicos. Estimou-se em R$ 400 mil mensais

os desvios com a limpeza pública:

- O superfaturamento está 100% comprovado. Para cada R$ 1 de serviço prestado, R$ 2

eram superfaturados.

Em depoimento ao Ministério Público e à Polícia Federal no início de 2006, Rogério

Buratti confirmou o mensalão de R$ 50 mil a Palocci e inocentou Isabel Bordini de irregularidades

nas medições dos serviços de limpeza pública. Responsabilizou Palocci e Maggioni:

- Não acredito que Isabel tenha ordenado qualquer procedimento irregular. Ela é funcionária

exemplar e controlava o contrato de acordo com as determinações dos prefeitos. A

Leão tratava diretamente com o prefeito, e muitas vezes, antes de liberar as medições, Isabel

dizia que ia confirmar se o valor estava correto com o prefeito.

O delegado Valencise relatou à CPI dos Bingos a existência de notas fiscais e planilhas

frias que justificavam o indiciamento de Palocci por crimes de peculato, falsidade ideológica

e formação de quadrilha. Para ele, Palocci determinou que Isabel Bordini fraudasse os

serviços de limpeza pública:

- Segundo consta no inquérito, a ordem vinha do prefeito. Era um acordo feito entre ele

e o proprietário da empresa. Em seguida essa ordem era repassada pelo prefeito a Isabel, e

ela a cumpria. Tratava-se de um esquema muito grande, envolvendo muitas pessoas, impossível

de ser mantido por funcionários subalternos.

De acordo com Valencise, Palocci e Maggioni receberam, além da propina mensal de R$

50 mil, dinheiro de caixa 2 em nome do que foi definido como “equilíbrio de contrato”, um

mecanismo para fraudar a limpeza pública. O esquema compensava também os supostos

preços baixos apresentados pela Leão Leão para vencer licitações. Do delegado de polícia:

- Na apuração, comprovou-se que as documentações, com os relatórios diários dos trabalhos

realizados pela empresa, já chegavam prontas ao Daerp, e não coincidiam com os

dados da fiscalização do Daerp, que eram bem menores. Entretanto, os funcionários do

Daerp eram obrigados a fazer novas planilhas, devidamente falsificadas, e eram essas ordens

de serviço que cobriam e justificavam as saídas a mais dos valores em reais.

A Polícia Civil concluiu a investigação dos supostos serviços fraudulentos de varrição

em Ribeirão com a identificação de 174 notas fiscais frias que simulariam compras da Leão

Leão. Na verdade, justificariam a saída de dinheiro não-contabilizado da empreiteira, para

irrigar o esquema político.

Em abril de 2006, estimou-se em R$ 30,7 milhões o desvio de dinheiro público com

contratos de limpeza em Ribeirão Preto. Ao ser indiciado, um mês após o afastamento do

Ministério da Fazenda por conta da quebra do sigilo de Francenildo Santos Costa, Palocci

afirmou que, se houvesse irregularidades com a varrição da cidade, a responsabilidade teria

de ser do Daerp. O Ministério Público não aceitou. Do promotor Daniel de Angelis:

- Uma organização que dá um prejuízo de mais de R$ 30 milhões em quatro anos não

passaria despercebida pelo prefeito.

X

Oito ministros do governo Lula.

Oito casos de corrupção

Logo no primeiro ano de governo Lula, em 2003, uma crise expôs a ministra da Assistência

e Promoção Social, Benedita da Silva (PT-RJ). Ela viajou para a Argentina e se reuniu

com um grupo de evangélicos. O compromisso de natureza particular, porém, teve despesas

pagas pelos cofres públicos. Benedita da Silva tentou escapulir do problema ao alegar

que participou de reuniões de trabalho em Buenos Aires. Assim justificaria gastos com

dinheiro do contribuinte. Não colou. Perdeu o emprego de ministra em janeiro de 2004.

Enquanto o escândalo do mensalão vinha à tona, em maio de 2005, o STF (Supremo

Tribunal Federal) determinava a abertura de inquérito criminal para investigar outro ministro

de Lula. Romero Jucá (PMDB-RR), da Previdência Social, era suspeito de fazer uso

irregular de empréstimos concedidos pelo Basa (Banco da Amazônia) a um frigorífico de

sua propriedade. Apesar de receber dinheiro para implementar a Frangonorte, Jucá não pôs

o negócio para funcionar. Pior: os empréstimos teriam sido obtidos mediante fraude, com a

garantia de sete fazendas que, simplesmente, não existiriam.

Lula decidira nomear Romero Jucá, apesar das denúncias que pesavam sobre ele: além

do empréstimo bancário que escancarara propriedades rurais fantasmas, havia acusações de

desvio de verbas públicas, compra de votos, transações suspeitas com emissoras de rádio e

televisão em nome de laranjas e até a contratação ilegal de empresas de limpeza em Boa

Vista. A capital de Roraima era administrada pela prefeita Teresa Jucá, mulher de Romero

Jucá. As empresas investigadas fraudariam o peso do lixo para aumentar o faturamento. O

Ministério Público descobriu até o caso de um cachorro morto, recolhido pelo serviço de

coleta de lixo de Boa Vista. Pesava 400 quilos…

Romero Jucá não se sustentou no cargo. Deixou de ser ministro, mas voltou forte no

segundo mandato de Lula como líder do governo no Senado. Enrolou-se novamente. No

final de 2007, a Polícia Federal deflagrou a Operação Metástase, a fim de debelar um

esquema de fraudes na Funasa (Fundação Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde).

Entre os mais de 30 presos, acusados de desviar R$ 34 milhões, estava o coordenador da

Funasa em Roraima, ex-deputado Ramiro José Teixeira. Ele fora nomeado para chefiar o

órgão por indicação de Jucá, dois anos antes. De acordo com as investigações, era o líder

do esquema de corrupção.

A Funasa deveria cuidar de saneamento básico e da assistência à saúde de populações

indígenas. As fraudes tinham origem em verbas federais provenientes de emendas parlamentares

da bancada de Roraima no Congresso. Romero Jucá destinou R$ 10,5 milhões em

emendas à Funasa de Roraima em 2007. Os desvios ocorreriam na compra de remédios,

contratos de saneamento básico e de transporte aéreo para atendimento médico. Lula não

deu demonstrações de se importar. Manteve o seu líder de governo no Senado.

Em dezembro de 2007, Romero Jucá foi formalmente denunciado ao STF (Supremo

Tribunal Federal) pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. O líder

de Lula teria obtido, de forma fraudulenta, empréstimo de R$ 3,1 milhões junto ao Basa

(Banco da Amazônia), em 1996. O dinheiro deveria ter viabilizado o tal abatedouro. Entre

as acusações a Jucá, desvio de parte dos recursos da operação de crédito destinada à

Frangonorte e problemas com as propriedades inexistentes, relacionadas como garantia.

Duro para Lula, porém, foi perder ainda no primeiro mandato, em 2005 e 2006, o “núcleo

duro” do governo formado pelos ministros mais próximos: José Dirceu (PT-SP), da

Casa Civil, braço-direito e capitão do time; Antonio Palocci (PT-SP), que deu estabilidade à

economia ao garantir a manutenção das regras do jogo e acalmar os mercados; e Luiz

Gushiken (PT-SP), da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, responsável

pelo setor de publicidade, justamente o mais exposto pelo escândalo do mensalão, graças ao

envolvimento de Marcos Valério, dono de agências de propaganda. Gushiken também tinha

ascendência junto aos poderosos fundos de pensão, envolvidos em operações suspeitas que

somavam dezenas de milhões de reais.

Dissecamos aqui o envolvimento de Dirceu com o esquema de corrupção. O nome dele

aparece em praticamente todos os arranjos e tramas com dinheiro de caixa 2. Sua imagem

começou a ser desfazer com o caso Waldomiro Diniz. Dirceu não teve saída. Foi obrigado a

abrir mão de seu braço-direito na Casa Civil, pois uma fita mostrava Diniz pedindo propina

a um empresário do jogo.

O esquema de Dirceu foi sempre muito pesado. Passavam por ele todas as decisões

importantes que envolviam interesses do PT, bem como a estratégia e os métodos

adotados para obter apoio da base aliada no Congresso. Onipresente, Dirceu teria sido

receptor de dinheiro desviado de Santo André (SP) nos tempos de Celso Daniel (PT),

por exemplo, ao mesmo tempo em que salvava a pátria ao levar pessoalmente mala de

dinheiro a Londrina (PR) a fim de irrigar as finanças combalidas de uma campanha

eleitoral do PT.

Os tentáculos de Dirceu estavam por todos os lugares. Se jogadas que poderiam representar

dezenas de milhões de dólares, como o acerto perseguido pelo PT junto ao grupo

Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas, transitavam sob seus domínios, coisas menores

não eram menosprezadas. Em Campina Grande (PB), por exemplo, cidade pobre do sertão

semi-árido, um arranjo teria levado a administração municipal do PT a entregar “mesada”

de R$ 600 mil a Marcelo Sereno, outro importante assessor de Dirceu na Casa Civil. Um

depoimento obtido pelo Ministério Público indicaria que a “mesada” acabaria mesmo com

Dirceu, para o uso que achasse conveniente.

Cabe relatar o ocorrido em Mauá (SP), cidade vizinha a Santo André na Grande São

Paulo, durante a administração do prefeito Oswaldo Dias (PT). Na época, Dirceu era presidente

nacional do PT. O nome dele foi mencionado num relato sobre corrupção feito pelo

ex-secretário municipal de Habitação, Altivo Ovando Júnior, que concedeu entrevista ao

repórter Rodrigo Pereira, do jornal O Estado de S. Paulo, em maio de 2006:

- O ex-ministro José Dirceu esteve no gabinete do ex-prefeito de Mauá Oswaldo

Dias, no período em que o senhor foi secretário?

- Ele foi várias vezes ao gabinete do prefeito. Teve vários encontros, era comum

comparecer lá.

- O senhor presenciou essas conversas? Ele falava sobre arrecadação de dinheiro

para o PT?

- Ele comentava abertamente que era obrigatório ter esquema de arrecadação de dinheiro,

que todo município petista participava. Os esquemas de arrecadação eram obrigatórios

em todas as cidades.

- Envolvia o quê? Contratos de ônibus, de lixo?

- Eu não gerenciava, nunca gerenciei. Mas com lixo e construtoras era em todas as

prefeituras. Era aberto, todo mundo sabia que envolvia construtoras, contratos de lixo, essas

coisas. Hoje isso está público, todo mundo conhece. Mas eles sempre fizeram, sempre existiu

essa indústria de arrecadar dinheiro.

Trecho do inquérito enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal) pelos promotores Amaro

Thomé, Roberto Wider e Adriana Soares de Morais:

“José Dirceu, que se auto-intitulava paradigma da ética e da probidade, hoje figura como

denunciado porque seria o idealizador e principal articulador de um mega-esquema de

corrupção, que teve como um dos laboratórios, justamente, a cidade de Santo André.”

Vale registrar o depoimento de Ruy Vicentini, tesoureiro do PPS paulistano. Ele relatou

ao Ministério Público, em julho de 2005, um esquema de entrega de dinheiro a vereadores

durante o mandato da prefeita Marta Suplicy (PT) em São Paulo (2001-2004). O objetivo

era garantir maioria parlamentar ao governo petista na Câmara Municipal. Ruy Vicentini

mencionou Mario César Aga, chefe da Assessoria Parlamentar da Secretaria de Governo:

- Mario Aga falava que o esquema na Câmara Municipal era de grana e que não tinha

mais jeito de outra negociação. Se a Prefeitura quisesse parar alguma investigação sobre a

administração era na base do dinheiro, e que cada votação tinha um valor.

Em sua acusação, Ruy Vicentini citou os secretários municipais Rui Falcão, Carlos

Zarattini e Valdemir Garreta, todos do PT:

- O secretário de Governo de dona Marta, Rui Falcão, organizou, a partir de seu gabinete,

o caixa único. O Zarattini e o Garreta arrecadavam o dinheiro dos empresários de ônibus

e do lixo, e o que sobrava era enviado para o gabinete do José Dirceu.

Após ser afastado do Ministério da Casa Civil e ter o mandato de deputado federal

cassado em 2005, Dirceu continuou forte, dando as cartas no PT e, em grande medida,

influenciando o governo Lula, inclusive no segundo mandato.

Antonio Palocci, por sua vez, caiu do governo Lula porque se negou a admitir que frequentou

uma casa em Brasília na qual seu grupo de amigos fazia festas com prostitutas.

Preferiu se envolver com o crime de quebra do sigilo bancário do caseiro, a testemunha de

que ele também esteve com garotas de programa. Grave mesmo contra Palocci, no entanto,

foram as fortes evidências do esquema de corrupção montado em Ribeirão Preto (SP), na

época em que ele foi prefeito da cidade. Palocci teria recebido propina de uma prestadora de

serviços. A denúncia veio de um amigo, com quem manteve relações ao longo dos anos,

inclusive no período do Ministério da Fazenda.

Luiz Gushiken, amigo pessoal de Lula, teve a vida complicada, entre outros motivos,

pela confissão de um auxiliar próximo, que ocupava o cargo estratégico de diretor de

Marketing do Banco do Brasil. Os fatos foram aqui relatados, da mesma forma que a relu325

tância de Lula. O presidente da República fez o diabo para tentar não perder seus auxiliares

mais próximos.

No caso de Gushiken, somou-se ainda a confusão com a publicidade do governo nas

revistas de Luis Leonel, seu cunhado, que conseguiu a proeza de praticamente dobrar o

faturamento durante a administração federal do PT. Como se não bastasse, empresa ligada

a Gushiken, a Globalprev, firmou contrato sem licitação com a Petros, o fundo de

pensão dos funcionários da Petrobras. No período de Gushiken à frente da Secretaria de

Comunicação da Presidência da República, a influência do ministro junto aos fundos de

pensão teria ajudado a Globalprev, especializada na preparação de planos de aposentadoria.

A empresa teria obtido um dos maiores crescimentos registrados no País, no ramo da

previdência complementar.

O sexto ministro suspeito de corrupção afastado do governo Lula foi Silas Rondeau

Cavalcanti Filho, de Minas e Energia, da cota do PMDB. Os senadores José Sarney (PMDBAP)

e Renan Calheiros (PMDB-AL), na época presidente do Senado, foram os responsáveis

por sua indicação. Silas Rondeau chegou a presidir a Eletronorte e a Eletrobrás no

governo Lula, mas aguentou pouco tempo como ministro. Ao nomeá-lo, em julho de 2005,

Lula discursou:

- O Silas tem 30 anos de experiência no setor elétrico. Foi chamado não por minha

amizade, ou pela do Sarney ou do Renan, mas por sua competência.

Em 17 de maio de 2007, a Polícia Federal deflagrou a Operação Navalha. Silas Rondeau

caiu cinco dias depois. Além de ministro, Rondeau tinha assento nos Conselhos de Administração

de Itaipu e da Petrobras, pelo qual recebia R$ 17 mil mensais. Durante a ação

dos federais, foram presas 46 pessoas, todas acusadas de pertencer à quadrilha capitaneada

pela empreiteira Gautama, do empresário Zuleido Soares Veras. A organização criminosa

agiria em vários Estados, principalmente no Nordeste, com tentáculos poderosos em

Ministérios e prefeituras.

A Polícia Federal mapeou o desvio de R$ 100 milhões. O bando forjava obras fantasmas,

fraudava contratos de saneamento básico, construção de pontes, estradas e do programa

federal Luz para Todos, com o intuito de pôr as mãos em dinheiro público. Liderado por

Zuleido Veras, preso durante a operação, o esquema envolveria uma rede de agentes políticos,

funcionários públicos, lobistas, sócios e empregados. Entre os métodos da chamada

“máfia das obras”, a entrega de somas de dinheiro, carros de luxo e o pagamento de viagens

a integrantes do bando, todos acusados por fraudar licitações, corrupção ativa e passiva,

tráfico de influência e lavagem de dinheiro.

Um dos presos foi Ivo Almeida Costa, que manteria ligações com os senadores José

Sarney e Renan Calheiros. Era chefe de gabinete e braço direito de Silas Rondeau. Durante

dez anos acompanhou-o como homem de confiança, inclusive no governo Lula. Foi acusado

de participar de fraude no Luz para Todos. Figura carimbada ao lado do ministro, Ivo

Almeida Costa era encarregado das relações com parlamentares e empresários. Ligeiro,

Rondeau demite-o no mesmo dia da prisão. O ministro também providenciaria o imediato

afastamento de Jorge Targa Juni, presidente da Cepisa (Companhia Energética do Piauí),

preso durante a operação.

A Polícia Federal cogitou prender o próprio Silas Rondeau, acusado de receber propina

da Gautama para fraudar o Luz para Todos no Piauí. Os federais interceptaram diálogos

telefônicos, com autorização da Justiça, entre Ivo Almeida Costa e Zuleido Veras. A

conversa entre os dois mencionou uma funcionária da Gautama, Tereza Freire Lima. Do

inquérito policial:

“Ivo liga, Zuleido fala que o ‘negócio vai chegar hoje de tardezinha com Tereza, aí

Tereza vai passar para você’. Ivo fala que está bom”. Um outro diálogo, entre Zuleido Veras

e Tereza Freire Lima, no qual a funcionária se refere a Ivo Almeida Costa: ‘Tereza diz que

ele falou que tinha um compromisso hoje à noite e pediu para ela guardar, pois só poderia

pegar a encomenda na terça. (…) Zuleido fala que, inclusive, tinha tirado 20 dele, mas

segunda tem que repor… é que o valor era 120’.”

Silas Rondeau caiu acusado de receber propina de R$ 100 mil. A ação da Polícia Federal,

rastreando o dinheiro destinado ao ministro, é digna de roteiro de cinema. Os agentes federais

seguiam Zuleido Veras e funcionários da Gautama. No dia 14 de março de 2007, por

exemplo, fotografaram o funcionário Florêncio Brito Vieira sacando R$ 300 mil em agência

da Caixa Econômica Federal em Salvador. O dinheiro seria enviado a Brasília. Entre os dias

20 de março e 3 de abril daquele ano, os suspeitos transportariam R$ 600 mil. Viajariam em

aviões, com dinheiro escondido em sacolas, pastas e malas.

Os policiais documentaram funcionários da Gautama fazendo saques em agências

da Caixa e do Banco do Brasil na capital da Bahia. Em 9 de março, um empregado de

Zuleido Veras fez um trato com um gerente do Banco do Brasil. Era para registrar um

saque de R$ 145 mil em dois dias diferentes. Assim evitariam a comunicação de uma

retirada acima de R$ 100 mil ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras,

do Ministério da Fazenda).

O dinheiro teria sido usado para subornar Adeílson Bezerra, secretário de Infraestrutura

de Alagoas, também preso durante a Operação Navalha. Zuleido Veras levaria o dinheiro

pessoalmente a Maceió. Para evitar que fosse identificado com a grana pelo sistema de

segurança do aeroporto, pagou uma passagem para um funcionário, apenas para que ele

trouxesse a soma até a sala do embarque. Lá, o dinheiro foi entregue ao dono da Gautama.

Em seguida, o empregado deixou a área e cancelou a viagem.

Os R$ 100 mil destinados a Silas Rondeau seriam uma comissão pelo superfaturamento de

R$ 2 milhões em trecho do Luz para Todos. As medições técnicas fraudadas apontariam despesas

de R$ 7 milhões, mas o dispêndio deveria ter sido de apenas R$ 5 milhões. A licitação

tocada pela Gautama, de R$ 70 milhões, levaria energia elétrica a 80 municípios do Piauí.

A propina seria passada ao ministro em 13 de março de 2007. Florêncio Brito Vieira a

teria transportado numa pasta. Ele sacou o dinheiro na Caixa Econômica Federal em Salvador

e pegou avião para Brasília. No aeroporto da capital federal, seguido por agentes, encontrou-

se com Tereza Freire Lima, a secretária particular de Zuleido Veras. Antes, ela já

havia telefonado ao dono da Gautama para informar que Sérgio Luiz Pompeu Sá, apontado

como lobista da empreiteira, aguardava com ansiedade o desfecho da operação.

Florêncio Brito Vieira pegou uma sacola vermelha vazia com Tereza Freire Lima e se

dirigiu ao banheiro do aeroporto. Em seguida, devolveu a sacola para ela. O dinheiro estaria

dentro. Os federais monitoraram a chegada de Maria de Fátima Palmeira, diretora financeira

da Gautama, encarregada de transportar a propina até o Ministério de Minas e Energia.

Fitas do circuito interno de segurança ajudaram a rastreá-la. Às 12h46, Maria de Fátima

Palmeira entrou no elevador privativo do ministro, com a sacola a tiracolo, recheada de

dinheiro. Três minutos depois, caminhou pela ala que dá acesso ao gabinete de Silas Rondeau.

Às 13h22, Maria de Fátima Palmeira despediu-se de Ivo Almeida Costa, cuja sala de trabalho

dava de frente para o gabinete do ministro, e foi embora pelo elevador de uso comum.

Rondeau havia deixado o local um minuto antes, pelo elevador privativo.

A Polícia Federal dispõe de gravação comprometedora de conversa entre Zuleido Veras

e Sérgio Luiz Pompeu Sá. Na conversa, Sérgio Sá relata que Silas Rondeau “está indócil

com aquilo”, o que foi interpretado como um atraso na entrega da propina prometida. Sérgio

Sá autorizou o acesso de Maria de Fátima Palmeira ao Ministério de Minas e Energia,

por portaria privativa. Já nas dependências do Ministério, Sérgio Sá se reuniu com Ivo

Almeida Costa e a representante da Gautama. Questionado posteriormente sobre Sérgio Sá,

Silas Rondeau limitou-se a dizer que ele não era funcionário do Ministério. Rondeau também

se complicaria ao negar ter se reunido com Zuleido Veras. O empresário esteve três

vezes no Ministério, de acordo com investigações policiais, sendo que em uma delas se

reuniu pessoalmente com o ministro.

Em 18 de maio, dia seguinte da deflagração da Operação Navalha, Lula tirou Silas

Rondeau de Brasília e o levou para Araguaína (TO), para ver obra de estrada de ferro.

Providencialmente, carregou consigo Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado,

e fez elogios ao senador José Sarney (PMDB-AP). Tratou de proteger a todos. Lula recusou-

se a falar sobre as investigações da Polícia Federal. Apenas discursou:

- Quero agradecer a presença do Renan, que atendendo a um convite meu veio

conhecer a obra.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, dias depois, Renan Calheiros admitiu conhecer

Zuleido Veras:

- Eu conheci o Zuleido há mais de 20 anos, quando ele trabalhava na OAS. Eu tenho

relação com ele, mas não é uma relação frequente.

- Ele já foi à residência oficial do Senado?

- Não me recordo. Mas ele foi no gabinete, é normal. O que não pode haver é negócio.

Palavras de Renan.

Depois da viagem a Araguaína, Lula seguiu para o Paraguai. Levou Silas Rondeau a tiracolo.

Lá, sabe-se que se reuniu separadamente com o ministro por 30 minutos. No dia seguinte, ainda

em Assunção, Lula recusou-se a tratar do caso, dizendo aos jornalistas que, em seguida, no lado

brasileiro da fronteira, falaria. Em Foz do Iguaçu (PR), o presidente evitou a imprensa.

Ao desembarcar em Brasília, Silas Rondeau foi direto para a casa de José Sarney.

A reunião entrou pela madrugada. Na manhã seguinte, Sarney manteve encontro com

Renan Calheiros e, depois, com Lula e Renan, juntos. Rondeau afastou-se do governo

naquele mesmo dia.

Em 7 de dezembro de 2005, ainda em seu primeiro mandato, Lula concedeu audiência a

políticos alagoanos interessados em implementar o chamado Sistema Pratagy, para abaste328

cer Maceió de água tratada. As obras vinham se arrastando havia quase 25 anos. Renan

Calheiros apresentou a reivindicação de mais verbas para os serviços. Justificou a necessidade

de construir a barragem do rio Pratagy e as correspondentes adutoras e sub-adutoras.

As obras ficariam a cargo da empreiteira Gautama.

Oito dias depois da audiência, Lula assinou a Medida Provisória que traria R$ 70 milhões

para o Sistema Pratagy. Era o contrato mais caro entre o Governo Federal e a Gautama,

a beneficiar um Estado. Até o escândalo estourar, a União já havia liberado R$ 30 milhões

para as obras. Com o detalhe: outros R$ 120 milhões de verbas federais foram previstos

para o Sistema Pratagy no início do segundo mandato de Lula.

Dos R$ 30 milhões liberados, a CGU (Controladoria-Geral da União) estimou os desvios

pelo grupo de Zuleido Veras em R$ 3,1 milhões. Com a Operação Navalha, os negócios

ligados ao Sistema Pratagy provocaram o afastamento do secretário de Recursos Hídricos

do Ministério da Integração Nacional, Rogério Menescal, e do secretário de Infraestrutura

de Alagoas, Adeílson Bezerra, exonerado pelo governador Teotônio Vilela Filho (PSDB).

O esquema, conforme a Polícia Federal, começara na gestão do ex-secretário de

Infraestrutura de Alagoas, Olavo Calheiros, na segunda metade da década de 90. Na época,

a Gautama expandia os negócios em Alagoas. Olavo Calheiros, irmão de Renan Calheiros,

teria ligação com Adeílson Bezerra, flagrado em escuta telefônica. Ele acertou o recebimento

dos tais R$ 145 mil, a propina que teria sido levada pessoalmente por Zuleido Veras, em

troca da liberação de R$ 3,1 milhões do contrato das obras do Sistema Pratagy. As medições

teriam sido fraudadas e as obras, não executadas. Eleito deputado, Olavo Calheiros (PMDBAL)

teria recebido R$ 400 mil da Gautama.

Outro chamuscado pela Operação Navalha foi o governador do Piauí, Wellington Dias

(PT). De acordo com as investigações da Polícia Federal, era suspeita a proximidade da

administração piauiense com o esquema de fraudes da Gautama. A empreiteira teria providenciado

edital de licitação para obra do programa Luz para Todos, um encargo que deveria

ser do governo estadual. Jorge Targa Juni, presidente da Cepisa (Companhia Energética do

Piauí), aliás, como vimos, foi preso durante a ação dos federais.

O inquérito policial apontou que o lobista Sérgio Sá “intermediou contatos com o governador

Wellington Dias, Jorge Targa e o ministro Silas Rondeau”. Em determinada

interceptação telefônica, Sérgio Sá revelou intimidade com Wellington Dias. Comentou

com Zuleido Veras que sugerira ao governador trocar de advogado, contratando o mesmo

profissional que atendia a Gautama.

Sérgio Sá relatou ter se reunido em Brasília com Wellington Dias e Silas Rondeau. Contou

que combinou com o governador uma obra na rodovia BR-020, que seria direcionada

para a Gautama e a Engemix. O lobista também teria ligação com essa segunda empresa.

Trecho da gravação do telefonema:

“O Wellington Dias disse que quando assinar o convênio com a União, de delegação, aí

ele se comprometeu, ele pessoalmente, ir no Lula e pedir para ser incluído no PPI”. PPI é a

sigla para Projeto Piloto de Investimentos.

Em outro trecho de conversa captada pelos agentes federais, Sérgio Sá, referindo-se a

conversa com Silas Rondeau, informaria que “estava tudo encaminhado” com relação ao

resto do dinheiro destinado ao Luz para Todos. Por telefone, o lobista também disse a Zuleido

Veras que “conversaram bastante sobre a questão dos editais” das obras no Piauí.

No início de julho de 2007, um mês e meio depois da Operação Navalha, Lula sinalizou

que nomearia Silas Rondeau novamente para comandar o mesmo Ministério de Minas e

Energia. Na ocasião, Lula tratou de defender o presidente do Senado, Renan Calheiros

(PMDB-AL). Ao referir-se a Silas Rondeau, Lula disse que o ex-ministro fora “injustiçado”:

- Ninguém provou nada contra esse rapaz.

Fazendo coro a Lula, o ministro da Justiça, Tarso Genro (PT-RS), afirmou:

- Eu examinei as peças, depois que o processo se tornou público, e não vi nenhum delito

que pudesse ser imputado ou provado contra Rondeau.

Em meados de outubro, cinco meses depois do escândalo, Lula voltaria a se manifestar

em defesa do ex-ministro:

- Temo que os que acusaram o Silas é que vão ter que prestar uma boa explicação.

Vamos aguardar.

O caso com a empreiteira Gautama envolveu outras celebridades ligadas ao partido do

presidente. O senador Delcídio Amaral (PT-MS) foi citado nas gravações. Um amigo dele

pediu ajuda a Zuleido Veras para pagar dívida de R$ 24 mil junto a uma empresa aérea. O

senador contratou o voo, mas não pagou o aluguel do avião. Em 23 de maio de 2007, com o

nome nos jornais, Delcídio Amaral informou ter quitado a dívida com um cheque pré-datado.

A coisa pegou na Bahia, sede da Gautama. Ao efetuarem a prisão do prefeito de Camaçari

(BA), Luiz Carlos Caetano (PT), os federais acharam em sua casa, em dinheiro vivo, R$

142 mil. O Ministério das Cidades havia liberado R$ 11,5 milhões para a Gautama executar

obra de urbanização contratada pela Prefeitura. O secretário de Obras de Camaçari, Iran

César de Araújo e Silva, acabou preso com o prefeito durante a Operação Navalha. A Caixa

Econômica Federal também estaria envolvida na maracutaia.

O governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), admitiu ter usado a lancha de luxo de

Zuleido em novembro de 2006, em passeio com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff

(PT-RS), mas negou envolvimento com a Gautama:

- Eu o conheço, já o conhecia antes, já o vi em avião, no parlamento. Mas não tenho

nenhuma intimidade com ele.

Outro trecho das declarações de Jaques Wagner:

- Se alguém acha que eu vou beneficiar alguém por causa de um passeio de lancha, eu

acho uma bobagem. Sinceramente, nem lembro da lancha.

Jaques Wagner, amigo do prefeito preso de Camaçari, fez comentários sobre presentes

da Gautama entregues a políticos. Palavras do governador, apontando para um objeto dourado

em cima da mesa de seu gabinete:

- A gente vai ter que escolher se está a fim de fazer a melhora da democracia ou se a

gente vai ficar fazendo hipocrisia. Eu, como governador eleito, fim de ano, devem chegar

30, 40 gravatas, agenda, uma garrafa de vinho, uma faca de churrasco. Isso aí a Nestlé

acabou de me dar de presente.

Uma das maiores jogadas da Gautama teria ocorrido em Mauá (SP), na Grande São

Paulo. Licitação de R$ 1,6 bilhão seria direcionada, durante o mandato do prefeito Oswaldo

Dias (PT), para beneficiar a Ecosama, um braço da Gautama criado justamente para tocar o

contrato em Mauá. A concessão de Oswaldo Dias autorizou a Ecosama a gerenciar os serviços

de captação e tratamento de esgotos de Mauá por 30 anos, o que daria uma receita

mensal em torno de R$ 1,7 milhão para a empresa.

Uma semana antes do término do mandato de prefeito, em 23 de dezembro de 2004,

Oswaldo Dias deu um presente a Zuleido Veras. Assinou, como “interveniente anuente”,

dois empréstimos da Caixa Econômica Federal à Ecosama, no valor de R$ 42,7 milhões. Na

prática, Oswaldo Dias tornou a Prefeitura de Mauá responsável pelos empréstimos à empresa,

caso houvesse rompimento do contrato entre a Ecosama e a administração municipal, e

a empresa alegasse não ter condições de quitá-lo.

A Caixa Econômica Federal não exigiu propriedades ou bens para conceder os empréstimos

e admitiu ter liberado R$ 15 milhões para a empresa de Zuleido Veras, antes da Operação

Navalha. Os negócios com a Ecosama levaram o Ministério Público a pedir à Justiça

a abertura de ação de responsabilidade civil por improbidade administrativa contra Oswaldo

Dias. Em 2008, Oswaldo Dias foi novamente eleito prefeito de Mauá.

O TCE (Tribunal de Contas do Estado) condenou a concessão que deu à empresa de

Zuleido Veras os serviços de água e esgoto em Mauá. Considerou irregular a exigência de

índice 3,0 (R$ 3,00 em conta bancária para cada R$ 1,00 de dívidas da empresa), quando a

prática é um índice de 1 a 1,5. De 41 empresas que retiraram o edital, só duas foram habilitadas

e chegaram a apresentar propostas. Conforme o relator do processo no TCE, conselheiro

Edgard Camargo Rodrigues, “raríssimas seriam as empresas capazes de atender requisito

com semelhante grau de rigorismo”.

Entre janeiro de 2004 e março de 2007, a Gautama teria recebido R$ 45,2 milhões em

repasses diretos do Governo Federal. Depois do escândalo, a CGU (Controladoria-Geral da

União) declarou a empreiteira inidônea. Na Câmara dos Deputados, manobra dos governistas

enterrou a instalação da CPI da Navalha. O presidente da Câmara, deputado Arlindo

Chinaglia (PT-SP), ficou na incômoda situação de ter de responder se as contribuições de

empreiteiras para campanhas eleitorais inibiriam os trabalhos da comissão de inquérito:

- Não posso admitir que nós criminalizemos a democracia com suposições que, eu diria,

vão exatamente contra a representação popular. Acho que isso é um desserviço.

A campanha de Arlindo Chinaglia a deputado federal, em 2006, recebeu R$ 412 mil de

empreiteiras, quase um terço do total de doações declarado por ele. O presidente da Câmara

foi o quinto parlamentar que mais recebeu dinheiro de empreiteiras. De acordo com dados

do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), 285 deputados e 40 senadores, aproximadamente a

metade dos integrantes do Congresso Nacional, foram patrocinados por R$ 27 milhões

doados por empreiteiras nas eleições de 2006. A Gautama, empreiteira média, não apareceu

entre o grupo das que mais deram dinheiro.

Em 12 de maio de 2008, quase um ano depois da Operação Navalha, o Ministério Público

Federal denunciou 61 pessoas ao STJ (Superior Tribunal de Justiça). Integrantes de “sofisticado

grupo criminoso” foram acusados de envolvimento no esquema de corrupção da

Gautama. Todos citados por formação de quadrilha, peculato, falsidade ideológica, fraudes

em licitações, crimes contra o sistema financeiro e corrupção ativa e passiva.

Além do ministro Silas Rondeau e do empresário Zuleido Veras, foram denunciados os

governadores do Maranhão, Jackson Lago (PDT), de Alagoas, Teotônio Vilela Filho (PSDB),

e os ex-governadores do Maranhão, José Reinaldo Tavares (PSB), e de Sergipe, João Alves

Filho (DEM). O grupo liderado pelo dono da Gautama visava a “obtenção ilícita de lucros

através da contratação e execução de obras públicas, praticando, para tanto, diversos crimes

autônomos, como fraudes a licitações, peculato, corrupção ativa e passiva, crimes contra o

sistema financeiro, dentre outros delitos”.

Em outro trecho da denúncia, o Ministério Público Federal pontuou que o esquema “identificava

nos Ministérios a existência de recursos destinados a obras públicas nos Estados e

municípios. Em seguida, cooptava agentes políticos e servidores públicos para viabilizar a

realização dos convênios entre os Ministérios e os entes federativos. (…) Posteriormente,

passava a atuar na fase da licitação, para que a Gautama fosse vencedora no procedimento,

seja isoladamente ou em consórcio com outras construtoras”.

Silas Rondeau teria recebido propina para facilitar contrato de R$ 128 milhões e autorizar

a construção de uma adutora em Sergipe. No caso da fraude no programa Luz para

Todos no Piauí, a denúncia cita ações do lobista Sérgio Sá “junto a diversos órgãos públicos

para dirigir à Gautama as obras de construção das redes que levariam luz elétrica à área

rural do Piauí, além de atuação destacada no Ministério de Minas e Energia, mais especificamente

com o então ministro Silas Rondeau, para viabilizar os termos aditivos aos contratos

firmados entre a Eletrobrás, Cepisa e Gautama”.

O ex-ministro Silas Rondeau acabou acusado por formação de quadrilha, desvio de recursos

públicos, gestão fraudulenta, corrupção ativa e passiva. Zuleido Veras recebeu 103

denúncias por corrupção ativa, três por peculato e ainda por formação de quadrilha e fraude

em licitação. O dono da Gautama “estabelecia as diretrizes de atuação da quadrilha, coordenava

e controlava as ações dos demais agentes, funcionários da empresa e intermediários”.

O senador Edison Lobão (PMDB-MA), ex-governador do Maranhão (1991-1994),

afilhado político do senador José Sarney (PMDB-AP), substituiu Silas Rondeau no Ministério

de Minas e Energia. Até 2010, seria o responsável por investimentos da ordem

de R$ 275 bilhões.

Em outubro de 2008, o trio José Sarney/Silas Rondeau/Edison Lobão voltou ao noticiário

“político”. A Polícia Federal do Maranhão acusou o empresário Fernando Sarney, filho

de José Sarney, de tráfico de influência no Ministério de Minas e Energia, Eletrobrás,

Eletronorte, Caixa Econômica Federal e na Valec, estatal federal responsável pela construção

da ferrovia Norte-Sul.

A operação Boi Barrica, nome emprestado do folclore maranhense, investigou ligações

de Fernando Sarney e empresários na intermediação de negócios privados com empresas

estatais. A Polícia Federal chegou a pedir a prisão preventiva de Fernando Sarney. Acusouo

de pertencer a uma organização criminosa. A rede de lavagem de dinheiro teria movimentado

irregularmente mais de R$ 10 milhões em três anos. Fernando Sarney obteve habeascorpus

no STJ (Superior Tribunal de Justiça) para não ser preso.

O ex-ministro Silas Rondeau foi apontado como integrante ativo do esquema. O ministro

Edison Lobão, por sua vez, teve o nome citado como alvo de influência. Os diretores de

estatais mencionados no relatório da Polícia Federal, todos do Maranhão, tinham ligações

históricas com a família Sarney.

A Polícia Federal pediu o bloqueio das contas bancárias de Silas Rondeau, Fernando

Sarney, da mulher dele, Tereza Murad Sarney, da filha do casal, Ana Clara Sarney, de Ulisses

Assad, diretor da Valec, de Astrogildo Quental, diretor da Eletrobrás, e dos empresários

Flávio Lima e Gianfranco Perasso.

Em gravação captada pela Polícia Federal com autorização da Justiça, Fernando Sarney

conversa com Giancarlos Perasso e menciona Flávio Lima. Para a Polícia Federal, “dois

americanos” seriam US$ 2 milhões. O trecho do diálogo começa com Fernando Sarney:

- Isso, eu falo se é possível, se a gente tem condições de imediato, a minha intenção é

que, eu falei com quase dois americanos, mas não cheguei a tanto, não… Mas você sabe do

que eu preciso, né? São aqueles problemas que você sabe, você tem ideia da coisa, o Flavinho

pode te dar uma ideia melhor, mas é algo próximo disso, tá?

- Tá, dois inteiros, né?

- É algo em torno, vou definir isso com o Flavinho aqui e você veria exatamente como

seria feito, tá?

Em 22 de novembro de 2007, outra baixa. O procurador-geral da República, Antonio

Fernando de Souza, denunciou ao STF (Supremo Tribunal Federal) 15 pessoas acusadas

de envolvimento no chamado “mensalão mineiro”. Entre os denunciados, o ministro das

Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia (PTB-MG). Ele deixou o governo Lula

no mesmo dia.

O esquema de corrupção, investigado em Minas Gerais, ocorreu em 1998, durante a

campanha para a reeleição do governador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Walfrido dos

Mares Guia era vice-governador na época, homem de confiança do governador e atuante na

campanha eleitoral. Eduardo Azeredo, que perdeu aquela eleição para Itamar Franco (PMDBMG),

seria eleito senador quatro anos depois. O candidato a vice-governador de Eduardo

Azeredo na eleição de 1998, Clésio Andrade, foi denunciado. Ele havia sido sócio do empresário

Marcos Valério, acusado de operar o esquema ilegal.

Como se sabe, Marcos Valério chegou ao estrelato em 2005, durante o escândalo do

mensalão do governo Lula. No caso do mensalão mineiro, que também resultou em denúncia

contra Valério, o esquema de desvio de dinheiro público e a distribuição de valores

tiveram a finalidade, pelo que se apurou, de eleger Eduardo Azeredo para um segundo

mandato de governador. No esquema do governo Lula, diferentemente, o dinheiro ilegal

remunerou parlamentares que apoiavam a administração federal.

De acordo com o procurador-geral da República, o esquema em Minas Gerais, sete

anos antes, serviu como “origem e laboratório” do esquema do mensalão que favoreceu

Lula. Antonio Fernando de Souza denunciou Walfrido dos Mares Guia, o senador Eduardo

Azeredo e Marcos Valério. Todos foram citados sete vezes por peculato (desvio de

dinheiro público) e seis vezes por lavagem de dinheiro (dissimulação da natureza e origem

do dinheiro). Outro acusado importante foi Cláudio Mourão da Silveira, secretário

de Administração de Eduardo Azeredo, escolhido para ser o responsável pela coordenação

financeira da campanha de 1998.

Entre as operações que engordaram o mensalão mineiro, o procurador-geral da República

relatou sete empréstimos bancários de Marcos Valério para a campanha de Eduardo

Azeredo, no total de R$ 28,5 milhões, mais R$ 3,5 milhões desviados das estatais mineiras

Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), Comig (Companhia Mineradora de

Minas Gerais) e Bemge (Banco do Estado de Minas Gerais). Há suspeitas, ainda, sobre R$

1,6 milhão, de outra estatal mineira, a Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais). O

dinheiro teria sido destinado à agência de publicidade SMPG, de Valério.

Trecho da denúncia: “Diante da demanda de recursos que a campanha eleitoral exigiria,

Eduardo Azeredo, Walfrido dos Mares Guia, Cláudio Mourão e Clésio Andrade, tendo em

vista a condição de integrantes da cúpula do Estado de Minas Gerais e da organização da

campanha eleitoral, delinearam o modo de atuação que seria empregado para viabilizar a

retirada de recursos públicos da Copasa, Comig e Bemge”.

Para anotar: o presidente do Bemge na época era José Afonso Bicalho Beltrão da Silva.

Quando o escândalo foi denunciado pelo procurador-geral da República, José Afonso Bicalho

ocupava o posto de secretário de Finanças do prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel

(PT). Apesar de denunciado ao STF, José Afonso Bicalho não perdeu o cargo. Dos R$ 500

mil que saíram do Bemge para divulgar evento esportivo naquele ano de 1998, não se encontrou

documentos que pudessem justificar o patrocínio do banco estatal.

Sobre o ex-vice governador e ministro de Lula, conforme a denúncia: “Walfrido dos

Mares Guia sabia da captação ilícita de recursos e concorreu para a engrenagem ilícita de

financiamento, razão pela qual não hesitou em participar da operação destinada a atender

exigência de Cláudio Mourão, que cobrava de Eduardo Azeredo o pagamento da dívida.

Atender a demanda de Mourão significava impedir qualquer tipo de publicidade para os

crimes perpetrados em 1998.”

Aqui, Walfrido dos Mares Guia se enrolou: investigações mostraram que a Samos Participação,

empresa dele, fez operação de crédito de R$ 500 mil no Banco Rural, em 2002. O

dinheiro, conforme Walfrido, foi empréstimo dele ao amigo Eduardo Azeredo, e não precisava

nem ser devolvido. De fato, não o foi. A bolada seguiu para uma conta bancária de

Marcos Valério, que a usaria para quitar dívidas de caixa 2 da campanha de 1998. Era uma

exigência de Cláudio Mourão. Desconfia-se que o dinheiro serviu mesmo para manter Cláudio

Mourão calado. Valério teria repassado outros R$ 700 mil ao mesmo Mourão, para assegurar

os segredos da campanha de 1998. Detalhe: os avalistas do empréstimo de R$ 500 mil

são os próprios Walfrido dos Mares Guia e o ex-governador Eduardo Azeredo. Mais um

detalhe: a Receita Federal apurou que a Samos Participação, de Walfrido, movimentou R$

22,2 milhões naquele ano de 2002, mas declarou apenas R$ 1,1 milhão de receita.

Outro trecho da denúncia do procurador-geral da República envolve Walfrido dos Mares

Guia e o publicitário Duda Mendonça. O mesmo Duda que ocupou lugar de destaque no

escândalo do mensalão, por ter admitido o recebimento de dinheiro de caixa 2 para pagar a

campanha eleitoral que elegeu Lula em 2002. Pois bem: por coincidência, Duda foi o publicitário

responsável pela campanha de Eduardo Azeredo em 1998. Da denúncia do procurador:

“Walfrido dos Mares Guia era vice-governador do Estado de Minas Gerais em 1998,

eleito em 1994, quando foi o coordenador financeiro da campanha. Em 1998, lança-se como

candidato a deputado federal e participa ativamente dos destinos financeiros e políticos da

disputa eleitoral. Ele negociou a contratação de Duda Mendonça, por intermédio de Zilmar

Fernandes, pelo montante de R$ 4,5 milhões, sendo que o valor oficialmente declarado foi

de apenas R$ 700 mil.”

Zilmar Fernandes da Silveira, sócia de Duda, também ganhou projeção no escândalo do

mensalão em 2005. Voltando: Walfrido dos Mares Guia elegeu-se deputado em 1998. Obteve

imunidade. Conforme o relatório de Antonio Fernando de Souza, Cláudio Mourão admitiu,

em depoimento à Polícia Federal, que os R$ 4,5 milhões de Duda foram acertados com

Walfrido e o pagamento, feito com dinheiro emprestado por Marcos Valério no Banco Rural.

Segundo o procurador-geral da República, os empréstimos de Valério no Rural, da mesma

forma como no escândalo do mensalão da era Lula, eram fictícios e dissimulavam a

origem ilegal do dinheiro usado no esquema.

Da denúncia do procurador-geral, que cita dois sócios de Valério e o candidato a vicegovernador

na chapa de 1998: “Esse valor – R$ 4,5 milhões – foi quitado pela cúpula da

campanha por meio do numerário injetado criminosamente pelos mecanismos profissionais

operados por Marcos Valério, Cristiano Paz, Ramon Hollerbach e Clésio Andrade”. Os

publicitários Cristiano de Mello Paz e Ramon Hollerbach Cardoso também tiveram os nomes

relacionados na denúncia encaminhada ao STF.

A origem da investigação em Minas Gerais vem de cópias de operações bancárias e uma

relação de beneficiários de R$ 100 milhões, cujo vazamento foi atribuído ao lobista Nilton

Monteiro. Para efeito de comparação, Eduardo Azeredo declarou à Justiça Eleitoral que o

valor gasto na campanha ficou na casa dos R$ 8,5 milhões. A documentação assinada por

Cláudio Mourão, supostamente autêntica, relaciona os R$ 100 milhões, dos quais R$ 24

milhões teriam cabido a Walfrido dos Mares Guia.

Os federais apuraram que R$ 10,8 milhões da bolada foram doados a 170 candidatos de

19 partidos políticos. O PT teve o maior número de agraciados, com 35 nomes (total de R$

880 mil). Em seguida veio o PFL, com 14 beneficiados (R$ 1,3 milhão). No PSDB, o mais

aquinhoado teria sido Aécio Neves, com R$ 110 mil. Em 1998, Aécio Neves foi eleito

deputado federal.

Quatro anos depois, Aécio Neves elegeu-se governador de Minas Gerais. Nomeou o

coordenador da sua campanha eleitoral, Danilo de Castro (PSDB-MG), como secretário de

Governo. Em 2004, Danilo de Castro apareceu como avalista de um empréstimo de R$ 707

mil, firmado pela agência SMPB, de Marcos Valério, no Banco Rural. Um ano antes, o

Governo de Minas Gerais contratava, por R$ 16,2 milhões, as agências SMPB e DNA,

também de Valério. “Coincidentemente, as empresas de Marcos Valério venceram licitações

para a publicidade do Governo de Minas, justamente com Danilo de Castro como

secretário responsável pelo certame”, afirmou Antonio Fernando de Souza. Em 2006 Aécio

Neves foi reeleito governador.

Voltemos ao episódio de 1998: Luiz Flávio Zampronha, delegado da Polícia Federal, classificou

o mensalão mineiro como “complexa organização criminosa”. Valério faria empréstimos

bancários, devolvidos em seguida com recursos supostamente desviados de empresas estatais,

por meio de campanhas publicitárias fictícias, patrocínios para eventos esportivos,

superfaturamento de serviços e outras fraudes. Além das estatais Bemge, Copasa, Comig e Cemig,

o relatório da Polícia Federal apontou, como origem do dinheiro de caixa 2, a Fundação Duprat

de Segurança e Medicina do Trabalho e empresas contratadas pelo Governo de Minas.

Para a Polícia Federal, seis empreiteiras doaram por baixo do pano R$ 8,2 milhões para

a campanha de Eduardo Azeredo. Foram as seguintes: ARG, Queiroz Galvão, Egesa, Tratex,

Erkal e Servix. Durante a administração de Eduardo Azeredo (1995-1998), as seis empresas

teriam recebido R$ 296 milhões para executar obras no Estado.

Conduzido pelo delegado Luiz Flávio Zampronha, o inquérito investigou supostos créditos

bancários que alimentaram a campanha de 1998. De acordo com o policial, o esquema

mineiro deixou “evidente que tais empréstimos não passaram de adiantamentos que foram

posteriormente cobertos com recursos públicos desviados ou com valores disponibilizados

por empresários que possuem fortes interesses econômicos junto ao Estado”. O policial

comparou os esquemas de Minas e de Brasília. Concluiu que ambos misturaram os caixas

de empresas de Marcos Valério, recursos de contratos publicitários e dinheiro de doações

eleitorais clandestinas. Do inquérito:

“Essa técnica, conhecida como commingling ou mescla, caracterizada por esquemas que

procuram ocultar os recursos de origem criminosa dentro das atividades normais de estruturas

empresariais, é a mais utilizada por organizações criminosas. Valério acredita na infalibilidade

da metodologia (…) para dissimular a origem e ocultar o destino dos recursos da

campanha, desconhecendo que essa tipologia de lavagem de dinheiro já foi devidamente

esquadrinhada ao longo dos anos pelos organismos de repressão ao crime organizado.”

O procurador-geral da República denunciou o ex-governador Eduardo Azeredo ao STF

por ter sido o “principal beneficiário” do mensalão mineiro. O mesmo Antonio Fernando de

Souza, contudo, poupou Lula no caso do escândalo do mensalão, apesar de o presidente da

República, da mesma forma, ter sido o principal beneficiário do suborno de parlamentares

que lhe garantiram maioria no Congresso Nacional.

Walfrido dos Mares Guia, aliás, cumpriu papel importante ao blindar Lula no primeiro

mandato, fazendo uma cortina de fumaça acerca do envolvimento do presidente da República

com o esquema do mensalão. Ministro do Turismo nomeado com o aval do presidente

nacional do PTB, Roberto Jefferson (RJ), que denunciou o esquema, Walfrido não deu eco

às acusações de Jefferson.

Ao denunciar o mensalão, Jefferson o apontara como testemunha das operações de compra

de deputados e do alerta que fizera pessoalmente a Lula. Sem o endosso de Walfrido,

ficou mais difícil acusar o presidente da República de não ter cumprido o dever constitucional

de mandar investigar as denúncias que lhe teriam sido encaminhadas. Walfrido recebeu

a recompensa. No segundo mandato, Lula o nomeou ministro das Relações Institucionais.

Walfrido tornou-se figura central de todos os acertos, promessas, nomeações, negociações

e liberação de verbas que envolviam parlamentares no início do segundo governo

Lula. Ele resolvia problema do presidente, mas ficou difícil dissociá-lo do mensalão mineiro.

Além da história do empréstimo de R$ 500 mil no Banco Rural e do depósito do dinheiro

na conta de Marcos Valério para, supostamente, pagar dívida de Eduardo Azeredo com

Cláudio Mourão, Walfrido havia sido o “homem forte” da campanha eleitoral de 1998.

A Polícia Federal apreendera anotações feitas por Walfrido na época, contendo indicações

de valores que seriam repassados a políticos por caixa 2. Em um dos casos, ele registrara

no manuscrito repasse para Júnia Marise (PDT-MG), candidata a senadora e aliada de

Eduardo Azeredo. Uma semana depois, policiais identificaram a entrada de R$ 200 mil nas

contas bancárias pessoais de dois assessores dela, a partir de uma conta da SMPB de Valério.

Homem rico, Walfrido possuía 595 escolas, uma das maiores redes de ensino particular

do País. No final de 2005, passado o susto do escândalo do mensalão que poderia ter

derrubado Lula, estreitou os laços de amizade com o presidente. Levou-o, em companhia

da primeira-dama, dona Marisa Letícia, para passar dois dias na fazenda Vila do Carvalho,

perto de Ouro Preto (MG), onde criava cavalos e mantinha coleção de cachaças de

Minas Gerais.

Ameaçado pelas denúncias de corrupção da campanha de 1998, Lula tratou de proteger

o ministro e amigo: “Vá em frente, Walfrido, defenda-se”, teria lhe dito o presidente no final

de setembro de 2007. Lula ensaiou acabar com a fama de ser chefe de um governo com

“queixo de vidro”, expressão usada no boxe para definir lutadores que vão ao solo ao levar

o primeiro golpe.

No dia 24 daquele mês, ao tomar conhecimento da solicitação da Polícia Federal ao STF

para quebrar o sigilo bancário da empresa Samos Participações, de Walfrido dos Mares

Guia, Lula estava em Nova York. Telefonou para tranquilizar o ministro amigo:

- Toca para frente e faça seu trabalho.

Três dias depois, no Palácio do Planalto, o presidente falou aos jornalistas:

- O Walfrido tem me dito reiteradas vezes que se ele tivesse um milímetro de dúvida das

coisas que ele fez, já teria me entregue o cargo. Por isso, ele merece a minha confiança total,

e nós vamos fazer o que tiver de ser feito.

Menos de dois meses depois, Walfrido teve de sair do governo. Se não caiu no primeiro

round da luta, foi ao chão logo no segundo.

Já fazia tempo, porém, que Walfrido estava no noticiário da corrupção. No período em

que foi vice-governador de Minas (1995-1998), solicitou 20 viagens em aviões oficiais para

levar a mulher, filhos e amigos para Angra dos Reis (RJ), onde possuía casa de praia. As

aeronaves do governo eram requisitadas sempre nos finais de semana e feriados. O Ministério

Público o denunciou e pediu ressarcimento do dinheiro público.

Em 2005, a quebra do sigilo bancário das empresas de Marcos Valério pela CPI dos Correios

revelou pagamentos de R$ 100 mil a parentes do ministro do Turismo. Walfrido tratou de

justificar o dinheiro, atribuindo-o à venda de roupas finas em loja da família, a M. Guia.

No relatório da Polícia Federal sobre a investigação do mensalão mineiro, Cláudio Mourão

cita Walfrido por ter prestado informações ao Banco Rural segundo as quais as empresas de

Valério tinham crédito junto ao Governo de Minas Gerais. Isso teria permitido que Valério

levantasse R$ 9 milhões para a suspeita campanha de Eduardo Azeredo.

No último dia útil de 2006, no apagar das luzes do primeiro mandato de Lula, Walfrido,

ainda no Ministério do Turismo, assinou a liberação de R$ 2,4 milhões para a construção,

entre outras coisas, de poço artesiano que beneficiaria empreendimento particular em

Barretos (SP).

Na véspera da queda de Walfrido, Lula reuniu-se com o ministro por duas horas. No dia

seguinte, com a divulgação da notícia, o presidente emitiu nota aos jornalistas para dizer

que “mantenho integral confiança na pessoa do ministro que, estou seguro, será inocentado

das acusações”. E mais:

“Durante quase cinco anos, Walfrido desempenhou com competência e dedicação as

funções que lhe atribuí, primeiro à frente do Ministério do Turismo, depois no comando da

articulação política do governo. Trata-se de uma grande perda.”

Relatório do TCU (Tribunal de Contas da União) denunciou, em julho de 2008, ilegalidades

“sistêmicas” em 31 contratos do Ministério do Turismo, todos assinados pelo então

ministro Walfrido dos Mares Guia. Os contratos previam repasses de R$ 9,2 milhões a

entidades privadas. O TCU pediu o ressarcimento aos cofres públicos de R$ 1,3 milhão

referente a 11 dos contratos firmados, e determinou a suspensão dos outros 20 contratos que

foram autorizados mas não haviam sido efetivados.

A denúncia do procurador-geral da República sobre o mensalão mineiro foi aceita pelo

STF (Supremo Tribunal Federal) em novembro de 2009. O ministro Joaquim Barbosa pediu

a investigação do ex-governador Eduardo Azeredo por crime de peculato, aquele em que o

servidor público se apropria de dinheiro ou bens públicos, e por lavagem de dinheiro. Para

Joaquim Barbosa, os casos do mensalão e do mensalão mineiro tinham semelhanças. O STF

acolheu a denúncia contra o senador tucano por cinco votos a três.

Eduardo Azeredo não gostou da decisão do Ministério Público de apresentar como prova

de sua relação com Marcos Valério a troca de 58 ligações telefônicas entre os dois. Segundo

ele, os telefonemas ocorreram ao longo de cinco anos e ele, Azeredo, só teria retornado duas

das ligações de Valério. Depois, Azeredo reconheceria que conversou por telefone com

Valério mais vezes. O senador comparou a sua situação à de Lula:

- O presidente Lula alegou que não sabia e foi inocentado. Acho estranho. Não vou

entrar no mérito da questão, mas a situação é basicamente muito semelhante. Eu era governador,

com uma campanha descentralizada, com delegações de poderes, e o presidente

Lula também concorreu em situação semelhante e ele não recebeu nenhum inquérito a

esse respeito.

Com Walfrido dos Mares Guia no Ministério das Relações Institucionais em 2006, no

segundo mandato de Lula, a pasta tornou-se o departamento federal responsável pela distribuição

da fisiologia. No começo da era Lula, em 2003, a atribuição fazia parte do Ministério

da Casa Civil, sob comando de José Dirceu (PT-SP). Quem tocava o dia a dia das relações

com os parlamentares era o assessor Waldomiro Diniz, posteriormente forçado, como vimos,

a se afastar do governo. Também passaram pelas Relações Institucionais Aldo Rebelo

(PC do B-SP), Jaques Wagner (PT-BA) e Tarso Genro (PT-RS).

Para suceder Walfrido, Lula escolheu o deputado José Múcio Monteiro (PTB-PE). Ele

ocupara o posto de líder do PTB na Câmara dos Deputados por influência do presidente do

partido, Roberto Jefferson (RJ). Como Walfrido, que virou ministro do Turismo com a

anuência de Jefferson, Múcio tinha fortes ligações com o presidente do PTB. Mas, da mesma

forma que Walfrido, agiu para blindar Lula ao não dar eco às denúncias de Jefferson

sobre o pagamento de mensalões. Como Walfrido, foi recompensado por Lula. No segundo

mandato, Múcio tornou-se líder do governo na Câmara dos Deputados. Com a saída de

Walfrido, Múcio foi promovido mais uma vez. Virou o ministro das Relações Institucionais

no lugar de Walfrido.

Na véspera de se tornar ministro, porém, Múcio teve longa conversa com Roberto

Jefferson, o presidente nacional do PTB. Não se sabe o que conversaram. Foi Jefferson

quem o trouxera para o PTB. Plantador de cana-de-açúcar, Múcio sempre se posicionou

como defensor de interesses dos usineiros de Pernambuco. Durante o escândalo do mensalão,

Jefferson o mencionou várias vezes como testemunha das tentativas de cooptação e suborno

de deputados do PTB por parte da direção do PT.

Na denúncia do mensalão, o nome de Múcio apareceu como um dos articuladores do

acordo pelo qual o PT ficou de repassar R$ 20 milhões ao PTB, na campanha eleitoral de

2004. Emerson Palmieri, tesoureiro informal do PTB, relatou reunião da qual Múcio e

Jefferson participaram, para discutir com José Genoino, Delúbio Soares e Silvio Pereira, a

cúpula do PT, a entrega de dinheiro de caixa 2 para o PTB. Mas Múcio silenciou. Não

prejudicou Lula. No final de 2009, para recompensá-lo pelos diversos serviços prestados,

Lula o indicou para uma vaga no TCU (Tribunal de Contas da União).

Em 19 de dezembro de 2007, Walfrido dos Mares Guia voltou a Brasília pela primeira

vez desde que saíra do governo Lula. Abriu sua casa para comemorar o final do ano. Participaram

da festa os ministros Dilma Rousseff (PT-RS), da Casa Civil, Nelson Jobim (PMDBRS),

da Defesa, e o ex-ministro José Dirceu (PT-SP). A comemoração entrou pela madrugada.

José Múcio foi a grande atração. Tocou músicas de sua autoria no violão, interpretou

compositores românticos, dançou e recitou poemas nordestinos.

O ano de 2008 começou quente. Lula logo perdeu sua ministra da Igualdade Racial,

Matilde Ribeiro (PT-SP). Ela fez despesas irregulares com cartão de crédito bancado

pelo governo. O chamado “dinheiro de plástico” deveria ser usado para efetuar gastos

decorrentes do exercício da função, como compra de materiais de escritório e serviços

de manutenção. Pois bem: Matilde Ribeiro gastou R$ 171.556 em 2007, e mandou a

conta para o governo. Foram R$ 14.300 em média por mês, mais que os R$ 10.700 do

salário de ministra.

A Comissão de Ética Pública pediu à CGU (Controladoria-Geral da União) investigação

sobre indícios de atos criminosos. Somente em 2007, Matilde Ribeiro usou dinheiro público

para pagar 67 contas em hotéis. Apesar de tentar justificar os gastos com viagens para 14

Estados com a finalidade de intensificar contatos com governadores, a ministra usou o cartão,

na maioria das vezes, em São Paulo e no Rio de Janeiro, e nos finais de semana. Na

capital paulista, hospedava-se no luxuoso hotel Pestana, nos Jardins, e gostava de frequentar

o sofisticado restaurante Miski, especializado em comida árabe, próximo do hotel. E era

freguesa de outros bons restaurantes da cidade.

No Rio, Matilde Ribeiro ficava no tradicional hotel Glória e optava pelo restaurante

Empório Santa Fé, no Flamengo. A ministra não dispensou incursões ao bar Amarelinho,

famoso pelo chope gelado. Em 16 de julho de 2007, chamou a atenção o uso do cartão

corporativo para saldar contas em três restaurantes no Rio. Matilde Ribeiro esteve no Empório

Santa Fé, na churrascaria Cajuti e no Quiosque Pertaqui. Uma pedra no sapato dela: o

gasto misterioso de R$ 461,16 num free-shop, após viagem de lua-de-mel. A ministra alegou

que fez a compra com o cartão do governo por engano, mas só devolveu o dinheiro

quase três meses depois, com a notícia nos jornais.

Matilde Ribeiro gastou a maior parte do dinheiro alugando automóveis. Jamais fez licitação

para contratar os serviços. Solicitava, sempre que conseguia, veículos Astra, com

motorista. E sempre na mesma locadora, a Localiza. Em 2007, foram R$ 120.281. No ano

anterior, nos cinco meses que teve o cartão do governo nas mãos, fez gastos no valor de R$

55.532, sendo R$ 43.883 com aluguel de carros. E em janeiro de 2008, antes de ser obrigada

a deixar o cargo, já havia feito um dispêndio de R$ 11.623 com a locação de veículos. Total

em 18 meses: R$ 175.788, apenas em aluguel de automóveis. Média mensal de R$ 9.766.

O escândalo do “dinheiro de plástico” atingiu outros dois ministros de Lula: Orlando

Silva (PC do B-BA), dos Esportes, e Altemir Gregolin (PT-SC), da Pesca. O primeiro pagou

conta de restaurante no bairro dos Jardins, em São Paulo, no valor R$ 468. Em outra ocasião,

num único dia, usou o cartão corporativo para quitar duas contas em restaurantes da

capital paulista: R$ 198 em churrascaria e R$ 217 em restaurante francês. Orlando Silva se

encrencou ao usar o cartão corporativo para pagar R$ 8,30 por uma tapioca, quitute da

cozinha nordestina. Cinco meses depois, devolveu o dinheiro.

Já Altemir Gregolin tratou de explicar gastos de R$ 512 num restaurante em Brasília

com a alegação de que recebera uma comitiva pesqueira da China. Os preferidos de Altemir

Gregolin eram os restaurantes italianos de Chapecó (SC). Os três ministros, juntos, pagaram

despesas com cartão corporativo em 158 restaurantes, lanchonetes e bares em 2007. No

caso de Altemir Gregolin, chamou a atenção três despesas em restaurantes cariocas na Quarta-

Feira de Cinzas. Defendeu-se com a alegação de que trabalhara no Carnaval daquele ano.

Assistira aos desfiles com o ministro da Pesca da Noruega, que estava no Brasil para ver

uma escola de samba cujo tema do enredo era o bacalhau.

Quem afinal teve de deixar o cargo e perder a mordomia dos cartões corporativos foi

Matilde Ribeiro. Saiu do governo em 1º de fevereiro de 2008, sem explicar a compra no

freee-shop. Em agosto de 2008, o Ministério Público Federal a denunciou à Justiça. A exministra

foi acusada de improbidade administrativa por ter causado “grave dano ao erário”

ao utilizar dinheiro público de forma “imoral”. O Ministério Público cobrou a devolução de

R$ 160 mil gastos por Matilde Ribeiro com o cartão corporativo.

Pelo menos outros dez ministros de Lula participaram da farra dos cartões, mas foram

prevenidos: puseram assessores para fazer as compras. São os seguintes: Hélio Costa (Comunicações),

Sérgio Rezende (Ciência e Tecnologia), Tarso Genro (Justiça), Jorge Hage

(Controladoria-Geral da União), Paulo Bernardo (Planejamento), Fernando Haddad (Educação),

Nelson Jobim (Defesa), Gilberto Gil (Cultura), Nilcéa Freire (Políticas para Mulheres)

e Alfredo Nascimento (Transportes).

Orlando Silva, dos Esportes, foi rápido no gatilho. Convocou à imprensa às pressas

para anunciar a devolução de R$ 30.870, tudo o que havia gastado com o cartão

corporativo. Justificou a medida “radical” por estar indignado com o noticiário, que

teria “ultrapassado os limites”. Ele só admitiu um erro: a maldita tapioca, de R$ 8,30.

Lula elogiou o gesto do ministro.

Em 6 de fevereiro de 2008, quatro dias depois, veio à tona a informação de que Orlando

Silva usara o cartão corporativo para pagar R$ 2.791 referentes a diárias no luxuoso Plaza

Copacabana Hotel, no Rio, onde se hospedou com a mulher, a filha e a babá, num fim de

semana prolongado. Ele não comentou.

Na posse do novo ministro da Igualdade Racial, Edson Santos, Lula fez desagravo a

Matilde Ribeiro. Disse que ela, ausente da festa, não cometera crime ou delito, mas apenas

falhas administrativas. O presidente a definiu como a mesma “companheira intocável” dos

tempos de militância no PT de Santo André (SP), terra do ex-prefeito Celso Daniel.

O governo Lula disponibilizou 11.510 cartões de crédito para funcionários federais.

Em 2003, no primeiro ano de sua gestão, chegaram a R$ 8,7 milhões os gastos com

cartões. Em 2007, quatro anos depois, as despesas alcançaram R$ 78 milhões, quase nove

vezes mais. Dos R$ 78 milhões, R$ 58 milhões sacados em dinheiro vivo, em caixas

eletrônicos. Gastos secretos, usando os cartões, também foram altos. Em 2008, atingiram

o teto de R$ 18,7 milhões.

XI

O presidente do Senado, aliado de

Lula. Outro caso de corrupção

José Renan Vasconcelos Calheiros teve vida modesta até virar político. Filho de pequeno

produtor rural, cresceu em Murici (AL), cidade pobre do Nordeste. Vendeu sandálias

feitas com pneus velhos para dispor de algum dinheiro. Quando entrou para a política, em

1978, tinha um fusca. Mais nada. Renan Calheiros ficou milionário.

Em 25 de maio de 2007, um dia antes de a revista Veja chegar às bancas de jornal, havia

rumores sobre uma denúncia contra o poderoso presidente do Senado, Renan Calheiros

(PMDB-AL). Em Brasília, o presidente da República tratou de defender o aliado:

- Não vi nenhuma matéria ainda, conversei com o Renan ontem e anteontem. O Renan

está tranquilo.

Lula acrescentou, para não deixar dúvidas sobre a sua posição:

- Essas coisas têm de ter um processo, uma investigação, a chance daqueles que são

acusados prestarem suas explicações.

A reportagem descreveu que Renan Calheiros usou os “serviços” de um funcionário da

empreiteira Mendes Júnior, uma das maiores do País, para dar dinheiro vivo à mãe da filha

que ele teve fora do casamento. O problema é que os R$ 12 mil mensais, entregues sempre

em cash, dentro de envelopes, nas dependências do escritório da Mendes Júnior em Brasília,

correspondiam praticamente à totalidade do salário do senador. A suspeita, lógica: o dinheiro

não era dele, mas um mimo da empreiteira. Reforçava a suspeita o fato de Renan Calheiros

não ter declarado os valores no Imposto de Renda.

Publicado o escândalo, Lula telefonou a Renan Calheiros para manifestar o seu apoio. A

assessoria do presidente, solícita, divulgou o teor da fala de Lula:

- Renan, sou solidário a você. Estou muito solidário e tenho certeza de que você vai

explicar as acusações.

Os pagamentos à jornalista Mônica Veloso, mãe da pequena Maria Catharina, eram feitos

por Cláudio Gontijo, assessor da Diretoria de Desenvolvimento de Tecnologia da Mendes

Júnior. Nos encontros regulares entre Renan e a jornalista, revelaria ela depois, não se

falava em dinheiro. Muito menos de sua origem. Conveniente. Mas as somas chegaram em

espécie às mãos de Mônica Veloso, de março de 2004 a novembro de 2005, dentro dos tais

envelopes. Isso durou até Renan reconhecer a paternidade.

Cláudio Gontijo foi fiador do apartamento duplex alugado à jornalista em área nobre de

Brasília, e providenciou seguranças para a mãe e a filha do senador. O representante da

empreiteira teria colocado à disposição de Renan um flat no hotel Blue Tree de Brasília,

para encontros reservados.

O mesmo Cláudio Gontijo também teria arrumado dinheiro para a campanha eleitoral de

Renan Calheiros Filho (PMDB), o “Renanzinho”, eleito prefeito de Murici (AL) em 2004,

e para um amigo, o médico José Wanderley Neto, eleito vice-governador de Alagoas, na

chapa encabeçada por Teotônio Vilela Filho (PSDB-AL), outro amigo de Renan. O prestativo

funcionário da Mendes Júnior confirmou a entrega de dinheiro à jornalista, mas negou que

fosse da empreiteira para a qual trabalhava. Nas palavras dele:

- Só posso dizer que não era meu.

Lula voltou a se manifestar. Usou o programa de rádio “Café com o Presidente” para

reiterar o apoio a Renan Calheiros. Citou a revista Veja:

- A reportagem o colocou sob suspeita. Isso não quer dizer que o senador Renan seja

culpado. Até prova em contrário, ele é inocente.

Em discurso no Senado, Renan pediu desculpas à mulher, Maria Verônica Calheiros, e

informou que repassou dinheiro deduzido de seus subsídios de senador a Mônica Veloso.

Deu cheques após o reconhecimento da paternidade. Afirmou ter constituído um fundo de

R$ 100 mil, de suas próprias reservas, para as despesas com a educação da criança. E explicou

que a escolha de Cláudio Gontijo como interlocutor entre as partes se deu porque era

seu amigo e também amigo da jornalista.

O líder do governo Lula na Câmara dos Deputados, José Múcio (PTB-PE), assistiu ao

depoimento de Renan. Foi ao Senado prestigiar o aliado do chefe. A líder do PT no Senado,

Ideli Salvatti (SC), elogiou a agilidade e a eficiência das explicações de Renan. Da senadora:

- Acho que temos uma situação de estabilidade no Senado.

Do líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), após ouvir o discurso

de Renan:

- Na minha visão, assunto encerrado. Os fatos foram explicados à exaustão.

Por meio do advogado Pedro Calmon, porém, Mônica Veloso contestou: os R$ 12 mil

referentes à pensão e ao aluguel do apartamento foram entregues, sempre em dinheiro vivo,

por Cláudio Gontijo. Mas ele não era amigo da jornalista. Tratava-se de alguém do círculo

de relações de Renan Calheiros, apresentado a ela para efetuar os pagamentos. Mônica

Veloso desmentiu o fundo de R$ 100 mil para a educação da menina. As duas remessas de

R$ 50 mil cada uma, também em dinheiro vivo, foram entregues em sacolas pretas de náilon

no escritório do advogado do senador, Eduardo Ferrão, em Brasília. Quem as recebeu

foi Pedro Calmon, advogado de Mônica Veloso. O dinheiro serviu para pagar os R$ 9 mil

mensais que Renan Calheiros concordou em dar “por fora” à jornalista em 2006, após o

reconhecimento da paternidade, além dos R$ 3 mil oficiais da pensão alimentícia, esta estipulada

a partir de dezembro de 2005 em valor compatível à renda líquida do senador. Renan

não havia cumprido o combinado e acabou quitando os atrasados com o dinheiro vivo acomodado

nas sacolas pretas de náilon.

Baixada a poeira, a líder do PT no Senado voltou a se manifestar. Disse que se os documentos

apresentados por Renan não se mostrassem suficientes, ele poderia apresentar novas

provas e dar novas explicações. De Ideli Salvatti:

- A bancada se reuniu e tivemos o entendimento de que o senador Renan Calheiros

merece de todos nós uma presunção de inocência.

O problema é que Renan não dispunha de comprovantes atestando que os pagamentos

feitos a Mônica Veloso tinham origem em recursos próprios. Isso no período anterior ao

reconhecimento da paternidade. Não havia provas de que a fonte do dinheiro era lícita e não

os “presentes” da Mendes Júnior, repassados por Cláudio Gontijo. O senador tampouco

explicou a denúncia de que o funcionário da empreiteira deixara à sua disposição o flat

no Blue Tree.

Agora, o grave: obras da Mendes Júnior no valor de R$ 46 milhões, no porto de Maceió,

receberam emendas de Renan Calheiros na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), no

mesmo período em que Cláudio Gontijo efetuava os repasses mensais a Mônica. Renan

solicitou três vezes aumentos para as metas anuais de construção do cais da capital de

Alagoas. Numa emenda apresentada em 2005, solicitou acréscimos de 50%, equivalentes a

R$ 8 milhões. No total, as emendas do presidente do Senado alcançaram R$ 13,2 milhões.

Por meio da assessoria, Renan informou não se lembrar de todas as emendas encaminhadas

à LDO. Não fez qualquer outro comentário.

O senador Sibá Machado (PT-AC), presidente do Conselho de Ética do Senado, concedeu

entrevista em 30 de maio de 2007. Um processo seria aberto para investigar

Renan Calheiros. Indagado sobre a perda de autoridade do presidente do Senado, Sibá

Machado respondeu:

- Acho que não, a Casa inteira o respeita muito. Não tem nada confirmado, então não

pode haver prejulgamento.

A fim de justificar condições para pagar Mônica Veloso, Renan informou ganho de R$

1,9 milhão em quatro anos, principalmente com a venda de gado. Isso explicaria depósitos

regulares em suas contas bancárias, em valores de R$ 10 mil a R$ 50 mil, e daria consistência

às despesas com o aluguel adiantado de um ano do apartamento da jornalista em Brasília,

um acerto de R$ 43.200 feito por Cláudio Gontijo. O problema: indicar, efetivamente, que

boa parte do dinheiro em suas mãos era oriunda de transações agropecuárias.

Cabe assinalar que na declaração de bens apresentada por Renan Calheiros à Justiça

Eleitoral em 2002, ano da primeira eleição de Lula, não constavam fazendas de gado em

nome do senador. Naquele ano, conforme levantamento da revista Veja, o senador Renan

Calheiros, reeleito em Alagoas, dispunha de R$ 1,6 milhão referente a uma casa e a um flat

em Brasília, um apartamento em Maceió e duas caminhonetes de luxo.

Em 2006, último ano do primeiro mandato de Lula, Renan elevara seu patrimônio para

R$ 9,8 milhões, mais de seis vezes o de 2002, a saber: três fazendas em Alagoas, apesar de

apenas uma estar registrada em seu nome, 1.742 cabeças de gado, mansão na badalada praia

de Barra de São Miguel (AL), apartamento em Maceió e cinco caminhonetes de luxo. Da

relação não constavam outras duas fazendas, que teriam sido arrendadas do irmão e deputado

Olavo Calheiros (PMDB-AL), nem a Correio Gráfica, Editora e Produtora, empresa que

pertenceria ao grupo ligado a Renan Calheiros.

Depois de dois dias de “investigações”, sem ouvir testemunhas, o relator do processo

contra Renan Calheiros no Conselho de Ética do Senado, Epitácio Cafeteira (PTB-MA),

solicitou o arquivamento do caso. Era 13 de junho de 2007. Alegou “absoluta ausência de

provas ou indícios” de quebra de decoro parlamentar. A líder do PT no Senado, Ideli Salvatti

(SC), concordou com o rito sumário e acusou jornalistas de condutas caluniosas:

- A imprensa não está imune. Acima de tudo, quem acusa tem o ônus de apresentar

provas. E isso inclui a imprensa.

Renan Calheiros deu o caso como encerrado.

Dia seguinte ao das declarações de Ideli Salvatti, o Jornal Nacional, da Rede Globo,

exibiu reportagem com os “compradores” de gado do presidente do Senado, na periferia

de Maceió. Entrou osso na defesa de Renan. A Carnal Carnes de Alagoas estava inativa,

apesar de o senador ter afirmado que vendeu R$ 127 mil para o pequeno açougue. O dono

do humilde estabelecimento, João Teixeira dos Santos, negou a versão. Outra “empresa”,

a GF da Silva Costa, fora apontada por Renan como compradora de R$ 164 mil de suas

carnes. O que deveria ser a sede do estabelecimento era uma pobre casa particular. Não

havia um bife por lá.

O contador da GF, Roberto Gomes de Souza, admitiu também cuidar da contabilidade da

Carnal Carnes. Disse não se lembrar de negócios com o senador. A tal GF, da mesma forma,

estava desativada. Era uma “fábrica de notas fiscais”, se descobriria depois, tendo emitido

R$ 1,8 milhão em notas falsas, apenas em fevereiro de 2005. Maior cliente de Renan

Calheiros, conforme a defesa do senador, a MW Ricardo da Rocha teria adquirido R$ 429

mil em carnes. A “empresa” era na verdade o pequeno açougue São Jorge, cujo faturamento

anual não passava de R$ 23 mil.

A defesa de Renan também apresentou dois cheques, no total de R$ 126 mil, atribuídos

a Marcelo Nunes Amorim. Ele era motorista e morador de um bairro popular de Maceió, em

rua com esgoto a céu aberto. Os cheques justificariam a compra de mais de 30 mil quilos de

carne. Marcelo Nunes Amorim teria assinado os cheques para atender um pedido do cunhado,

dono de outro pequeno açougue, pois ele não disporia nem de cheques para forjar a

aquisição da carne do senador.

Com a revelação de que empresas de fachada, em nome de “laranjas”, todas elencadas

por Renan, serviam para lavar dinheiro, fazer operações fraudulentas e sonegar impostos,

ficou frustrada a manobra para encerrar as investigações. O senador Epitácio Cafeteira abandonaria

a relatoria do caso. Mesmo assim, o líder do governo Lula no Senado, Romero Jucá,

defendeu uma limitação às apurações. Queria apenas a identificação da procedência dos

documentos apresentados por Renan, sem diligências a Alagoas nem convocações para

depoimentos de supostos compradores de carne. Bancou a versão de Renan. De Romero Jucá:

- Estou de posse de documentos que efetivamente comprovam a comercialização, a posse

e o recebimento pelo presidente Renan dos valores declarados no Imposto de Renda.

Mais problemas para Renan: perícia do INC (Instituto Nacional de Criminalística, da

Polícia Federal) registrou ausência de coincidência nas informações sobre parte do gado

supostamente vendida pelo senador, cuja movimentação deveria estar atestada em GTAs

(Guias de Trânsito Animal), em conformidade com notas fiscais de venda. A investigação

não concluiu que as notas fiscais eram autênticas e, portanto, as transações comerciais descritas

por Renan poderiam muito bem não ter ocorrido. Em resumo: uma confusão enorme

entre o número de cabeças de gado, as respectivas GTAs e as notas fiscais. Detalhe: as tais

GTAs foram emitidas pela Prefeitura de Murici (AL), cujo prefeito era Renan Calheiros

Filho, o “Renanzinho”.

Sobre outros documentos encaminhados pelo senador ao Conselho de Ética: faltaram

comprovantes de depósitos, houve duplicidade de cheques usados na mesma transação, o

total da soma de recibos não batia com o que foi supostamente recebido, comprovantes

eletrônicos de depósitos apareceram com datas anteriores às das vendas e outros recibos

mencionaram os mesmos cheques para justificar vendas em dias diferentes. Pareceu que

tudo foi arranjado e montado às pressas, e por isso tantas imperfeições.

Outra dor de cabeça: para demonstrar que tinha dinheiro para pagar Mônica Veloso, Renan

inflou vencimentos e incluiu no extrato de rendimentos verbas indenizatórias recebidas do

Senado durante quatro anos, no valor de mais de R$ 812 mil. A verba indenizatória serve para

ressarcir os parlamentares de despesas com aluguel de escritórios, condomínios, gastos com

combustível, consultorias, serviços de segurança e contas de telefone. Não é renda.

Apesar da inconsistência dos argumentos de defesa de Renan e, portanto, das evidências

de conduta inadequada e quebra do decoro parlamentar, Lula manteve o apoio ao presidente

do Senado. O que fez Lula assumir o desgaste de defender um político execrado pela opinião

pública? Por que o temor e o rabo-preso de Lula? O que Renan saberia ou poderia

revelar? A postura do presidente da República serviu para recompensar o apoio de Renan

durante a crise do mensalão? Renan ameaçou contar o que sabia?

Em 27 de junho de 2007, Lula recebeu Renan no Palácio do Planalto. Oficialmente, a

Presidência da República informou que a reunião fora uma solicitação do senador. A assessoria

de Renan informou que partira de Lula a iniciativa do encontro. Tanto faz. De todo

modo, a partir dali mudou a estratégia de defesa de Renan. Em vez de resolver logo o caso,

forçando o encerramento do processo, a ideia passou a ser a de prolongá-lo ao máximo, à

exaustão, com a finalidade de cansar a opinião pública. Quando a imprensa deixasse de

noticiar e a sociedade não estivesse mais prestando tanta atenção ao assunto, se daria a

tacada para absolver o presidente do Senado.

Da reunião entre Lula e Renan vazou o de praxe: Lula se declarou solidário e se queixou

da imprensa. Exemplificou com o “linchamento” contra o irmão Genival Inácio da Silva, o

“Vavá”, investigado pela Operação Xeque-Mate da Polícia Federal. Lula também reclamou

do senador Eduardo Suplicy (PT-SP). Insinuou que o senador não cumpria acordos políticos

e agia como julgava conveniente. Já Renan saiu do gabinete do presidente da República

dizendo que não iria renunciar. Palavras do senador:

- O presidente Lula é um amigo e pretendo cultivá-lo dessa forma. Essa coisa de pedir

apoio e solidariedade é muito corriqueira na vida das pessoas.

Em seguida, Lula reuniu-se com a líder do PT no Senado, Ideli Salvatti (SC), e com um

importante articulador do partido na Casa, senador Tião Viana (PT-AC). Conversaram sobre

o papel que o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) poderia desempenhar para ajudar a

debelar a crise. Mercadante era homem da absoluta confiança do presidente da República.

Para registrar: o deputado Ricardo Berzoini (PT-SP), presidente nacional do PT, e o exministro

José Dirceu, atuante como sempre, já haviam defendido publicamente a permanência

de Renan na Presidência do Senado.

No mesmo dia da reunião entre Lula e Renan veio à tona gravação de conversa

telefônica entre Mônica Veloso e Cláudio Gontijo, o da Mendes Júnior. A certa altura,

quando a jornalista perguntou sobre um pedido de Renan para Gontijo pagar despesas

de campanha eleitoral, o representante da empreiteira afirmou, reproduzindo o que seria

uma solicitação do senador:

- É sempre assim: “Cláudio, arruma aí, pede emprestado”.

Renan Calheiros vinha repetindo, desde o início da crise, que Cláudio Gontijo era apenas

um amigo, e jamais lhe pagou quaisquer despesas.

Dia seguinte é o da nomeação do procurador-geral da República, Antonio Fernando

de Souza, para mais um mandato. Em solenidade no Palácio do Planalto, Lula, Renan e

a imprensa, que registrou as palavras do presidente da República. Lula defendeu o presidente

do Senado:

- Uma coisa me inquieta como cidadão, me inquieta no comportamento da Polícia Federal

e no comportamento do Ministério Público. Muitas vezes não temos o cuidado de evitar

que pessoas sejam execradas publicamente, antes de serem julgadas.

Lula falou como se Renan tivesse apresentado provas satisfatórias contra as denúncias

que pesavam sobre ele. Após o discurso do presidente, Renan sorriu e deu dois tapinhas de

agradecimento nas costas de Lula. Aos jornalistas, demonstrando alívio, o presidente do

Senado comentou:

- Acharam que era fácil me derrubar…

Renan agradeceu o apoio de Lula e lembrou do escândalo do mensalão:

- Quando houve a crise com Lula, eu o apoiei com a mesma compreensão.

A essa altura, a pressão da opinião pública pelo afastamento de Renan já havia derrubado

outro relator do caso, senador Wellington Salgado (PMDB-MG), e o próprio presidente

do Conselho de Ética do Senado, Sibá Machado (PT-AC). Wellington Salgado, aliado de

Renan, exigiu que o relatório inocentando o amigo fosse votado no mesmo dia em que

assumiu os trabalhos. Frustrado, renunciou em menos de 24 horas. Sibá Machado, por sua

vez, foi acusado de fazer corpo-mole e não defender Renan como poderia. Saiu para não

prejudicar ainda mais a sua imagem.

Para substituí-lo, PMDB e PT bancaram o senador Leomar Quintanilha (PMDB-TO),

acusado de integrar organização criminosa desmantelada pela Polícia Federal e pelo Ministério

Público em 2002. A investigação levou à descoberta de 14 cheques no valor de R$ 283

mil, todos em favor de um assessor e de um irmão do senador. A propina teria sido depositada

por empreiteira beneficiada por obras custeadas a partir de emendas apresentadas por

Leomar Quintanilha ao Orçamento da União. A denúncia implicou o senador em fraudes em

quatro licitações, superfaturamento de obras e pagamento por obras não executadas. Da

mesma forma que Renan, Leomar Quintanilha elevou o patrimônio comercializando gado

durante o governo Lula. No período da administração do PT, o patrimônio declarado por

Leomar Quintanilha à Receita Federal passou de R$ 1 milhão para R$ 1,9 milhão.

Líder do governo no Senado, Romero Jucá apressou-se em defender a legitimidade da

indicação de Quintanilha, seu colega de partido:

- Não existe nenhum impedimento legal contra o senador Quintanilha, nada que o impeça

de presidir o Conselho de Ética.

Afinado com Romero Jucá, Quintanilha devolveu o processo contra Renan à Mesa Diretora

do Senado e na prática pôs o caso na estaca zero. Se tudo desse certo para os estrategistas do

presidente do Senado, o processo seria arquivado, em votação secreta, pelo conjunto dos

senadores. A manobra não prosperou, contudo, e o caso voltou para o Conselho de Ética.

Nova denúncia contra a família Calheiros: em 2003, o irmão do senador, deputado Olavo

Calheiros (PMDB-AL), abriu a Conny Indústria e Comércio de Sucos e Refrigerantes em

Murici (AL). A fábrica, conforme levantamento da revista Veja, valia menos de R$ 10 milhões,

mas foi vendida à Schincariol, segunda maior cervejaria do País, por R$ 27 milhões.

Para construir a fábrica, Olavo Calheiros ganhou de graça terreno de 45 mil metros

quadrados da Prefeitura, que estava nas mãos de outro irmão dele, o prefeito Remi Calheiros.

A fábrica ficou isenta do pagamento de água por três anos. Para erguer as instalações, o

BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) concedeu empréstimo

de R$ 6 milhões, que seria quitado em 20 anos. Negócio perfeito. Principalmente porque o

empréstimo não foi honrado. O gerente do banco que autorizou a operação de crédito recebeu

a devida recompensa. Por indicação de Renan virou superintendente do BNB (Banco

do Nordeste do Brasil) em Alagoas.

Com o fechamento do negócio com a Schincariol, Olavo Calheiros teria posto no bolso

R$ 17 milhões. Por que a Schincariol teria desembolsado três vezes mais pela fábrica dos

Calheiros? A reportagem de Veja explicou que Renan fez gestões junto ao Ministério da

Justiça e ao INSS (Instituto Nacional de Seguro Social), que planejava executar dívida de

R$ 100 milhões da cervejaria. No ano anterior, alguns dirigentes da Schincariol chegaram a

ser presos acusados de sonegar R$ 1 bilhão. Possível resultado da interferência do senador,

a dívida executada acabou somando apenas R$ 49.700.

Solícito, Renan Calheiros também visitou a Receita Federal, que deveria aplicar multa

milionária à Schincariol e cobrar dinheiro sonegado. Possível resultado da interferência do

senador, a dívida foi pulverizada pelas fábricas da cervejaria espalhadas pelo País, o que

complicaria e retardaria quaisquer cobranças. Para constar: 11 certidões da Conny Indústria

e Comércio de Sucos e Refrigerantes desapareceram da Junta Comercial de Alagoas. Os

documentos faziam referências a alterações de contrato e decisões da diretoria.

Renan voltou a se encontrar com Lula. Disse que não deixaria o cargo de presidente do

Senado. Lula baixou a cabeça. Em 11 de julho de 2007, ambos almoçaram juntos, em companhia

das mulheres, Marisa e Verônica, durante recepção à governadora-geral do Canadá,

Michaëlle Jean. Na ocasião, Lula sugeriu que Renan tirasse férias com a família.

Fortalecido por mais um gesto de apoio do presidente da República, Renan usou o cargo

de presidente do Senado para retardar a investigação no Conselho de Ética. Adiou quatro

dias, até a véspera do recesso parlamentar, o envio de documentos apresentados por sua

defesa para a perícia da Polícia Federal. Os documentos seriam a comprovação de que

Renan obteve ganhos de R$ 1,9 milhão com a venda de gado, e assim disporia de dinheiro

para dar a Mônica Veloso. Engraçado o senador protelar a entrega das provas que o absolveriam.

O governo assentiu. De Romero Jucá, líder de Lula no Senado:

- O governo está acompanhando tudo com preocupação, solidário a Renan e torcendo

para que tudo seja resolvido dentro da trilha da normalidade.

Do presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), ao dizer que Renan merecia o

apreço do partido por ter sido sempre aliado de Lula:

- Não aceitamos linchamento público nem constrangimento para forçar o presidente do

Senado a se licenciar da função ou a renunciar.

Depois de várias manobras protelatórias, a Polícia Federal recebeu ofício do ministro

da Justiça, Tarso Genro (PT-RS), com autorização para analisar os documentos. Só

que a papelada não chegou a ser enviada. Só a autorização. Pareceu piada. A Polícia

Federal teve de requisitá-la formalmente. Durante todo o período de perícia, aliás, a

defesa de Renan tratou de encaminhar mais relatórios, retardando e confundindo o

trabalho dos agentes federais.

A Secretaria da Fazenda de Alagoas atrasou remessa de notas fiscais e comprovantes de

supostas transações com gado. A Secretaria de Agricultura de Alagoas demorou a encaminhar

atestados de vacina e outros documentos. A defesa do presidente do Senado procurou

construir a versão de que o irmão de Renan, deputado Olavo Calheiros, foi um dos compradores

do gado. Outro comprador teria sido o matadouro e frigorífico Mafrial, que não anexou

notas fiscais próprias, mas as de um conjunto de empresas fantasmas ou irregulares. Os

supostos compradores não chegaram a ser localizados ou não mandaram informações para

documentar e dar sustentação às operações.

Em 1º de agosto de 2007, a sede do Mafrial, em Satuba (AL), foi assaltada. A quadrilha

de seis homens armados levou dinheiro, cheques e documentos. Funcionários testemunharam

que os assaltantes perguntaram sobre “os documentos do Renan”. O assalto ocorreu 48

horas após suposta ação de fiscalização da Secretaria da Fazenda de Alagoas no estabelecimento,

e apenas poucas horas antes do prazo final de entrega do demonstrativo de abate de

gado. Estranho. O Mafrial não encaminhou parte dos documentos solicitados.

Importante frisar que quando fez a sua defesa no Conselho de Ética, Renan apresentou

recibos que comprovariam a venda de gado para açougues e compradores de carne em

Maceió, mas não citou o tal Mafrial como um deles. Só depois o nome do frigorífico surgiu.

Mesmo aceitando a nova versão do senador, não dá para fugir do fato: ao negociar com o

Mafrial, Renan aceitou receber cheques e emitir notas fiscais para terceiros.

A Polícia Federal apurou que pessoas cujos nomes apareciam assinando os cheques não

tinham vínculos com as empresas supostamente envolvidas nas transações. Além disso, o

Mafrial não possuía autorização para comprar carne, mas apenas para abater, armazenar e

transportar, o que também atrapalhava a nova versão de Renan sobre o destino do gado.

Em outra frente, os irmãos Renan e Olavo Calheiros foram acusados por grilagem das

terras de Antonio Gomes Vasconcelos, primo em segundo grau dos Calheiros, em Murici

(AL). Os irmãos também o teriam ameaçado. A fazenda teria sido subtraída com a ajuda do

Cartório de Registro de Imóveis de Murici. Apareceu em nome de Dimário Calheiros, primo

de Renan e de Olavo. Dimário Calheiros informou que estava sendo usado como “laranja”

pelos dois irmãos, e negou ser o proprietário das terras. O cartório chegou a sofrer

intervenção. A tabeliã Maria de Lourdes Ferreira Moura foi afastada.

Em outro caso de grilagem, Genival Mendes de Melo acusou o deputado Olavo Calheiros

de ter se apropriado da fazenda São Bernardo e a registrado em seu nome como fazenda

Capoeirão. A área serviria como garantia para a obtenção do empréstimo bancário que

viabilizou a implantação da fábrica de refrigerantes Conny, a mesma vendida depois para o

grupo Schincariol. As denúncias de grilagem chegaram ao Ministério Público Federal, mas

não foram investigadas pelo Senado.

Mais uma denúncia contra o presidente do Senado nas páginas da revista Veja: a edição

de 4 de agosto de 2007 apresentou indícios de que o patrimônio de Renan era ainda maior

que os quase R$ 10 milhões previamente estimados. Ele seria dono de duas emissoras de

rádio em Alagoas, no valor de R$ 2,5 milhões, e teria sido proprietário de um jornal diário,

avaliado em R$ 3 milhões. Todos registrados em nomes de “laranjas”, para que Renan

ficasse no anonimato. Os negócios teriam sido fechados à margem da legislação, com dinheiro

vivo, em reais e dólares, e contratos de gaveta.

Renan associara-se ao usineiro João Lyra para comprar as empresas de comunicação.

Os dois pagaram o equivalente a R$ 2,6 milhões, metade a cada um. Criaram a JR

Rádiodifusão, sendo “J” de João Lyra, e “R” de Renan. O empresário teria emprestado R$

700 mil para o presidente do Senado honrar a sua parte. O dinheiro em espécie, sempre

em dólares e reais, acabou devolvido a João Lyra em envelopes transportados por Everaldo

Ferro, assessor de Renan. Os outros R$ 650 mil que cabiam ao senador foram saldados

em quatro parcelas, sempre em dinheiro vivo, entregues por Ildefonso Antônio Tito Uchoa

Lopes, primo e sócio de Renan.

Tito Uchoa, aliás, vale menção à parte. Filho de um ex-prefeito de Murici (AL), foi

acusado pelo Ministério Público por improbidade administrativa. Era funcionário da Delegacia

Regional do Trabalho em Alagoas, cargo que ocupou indicado por Renan. Ganhava

R$ 1.390, mas o salário importaria pouco. É o que sempre acontece nesses casos. No cargo,

teria participado de esquema de direcionamento de licitações, fraudes em contratos e

superfaturamento de preços. A reforma do prédio da Delegacia Regional do Trabalho teria

proporcionado desvio de R$ 1 milhão. A empreiteira escolhida para executar as obras seria

de propriedade de Jubson Uchoa, irmão de Tito.

Pau para toda obra, espécie de testa-de-ferro, Tito Uchoa prestava serviços a Renan.

Seus negócios se misturavam com os do senador. Admitiu ter em seu nome uma fazenda de

Renan no interior de Alagoas. Além de sócio de Renanzinho no Sistema Costa Dourada de

Radiodifusão, Tito Uchoa tinha outra sociedade com o filho de Renan na empresa Correio

Gráfica, Editora e Produtora. Ao todo, o grupo de Renan teria ligações com sete emissoras

de rádio em Alagoas. O senador recusou-se a comentar a reportagem de Veja.

Renanzinho, por sinal, teve renda líquida anual, como prefeito de Murici, de R$ 55.400

em 2005. Naquele mesmo ano, porém, comprou uma camionete de luxo, por R$ 45.280.

Já Tito Uchoa, que teria vendido em 2004 uma fazenda por R$ 400 mil a Renan Calheiros,

não informou à Receita Federal a posse ou a venda da propriedade, o que reforçava a

suspeita de que o imóvel era mesmo, desde o princípio, do próprio senador. E ele, apenas

um testa-de-ferro.

Em 6 de agosto de 2007, o STF (Supremo Tribunal Federal) abriu inquérito para apurar

suspeitas de enriquecimento ilícito, uso de documentos falsos, prevaricação e crimes financeiros

atribuídos a Renan Calheiros. O pedido foi apresentado pelo procurador-geral da

República, Antonio Fernando de Souza. Os sigilos bancário e fiscal do senador foram quebrados.

A Mesa do Senado, por sua vez, solicitou ao Conselho de Ética que fizesse investigações

sobre as ligações de Renan com empresas de rádio em Alagoas, grilagem de terras e

eventuais favorecimentos à cervejaria Schincariol.

Pouco antes de uma sessão em memória do senador Antonio Carlos Magalhães, em 8 de

agosto, Renan concedeu entrevista para dizer que recebera telefonema do presidente Lula,

que estava em viagem na Nicarágua. Em Manágua, Lula conversou com jornalistas sobre as

denúncias contra Renan. Palavras do presidente da República:

- O que nós precisamos é permitir que as pessoas tenham tempo de provar se são culpadas

ou não e, ao mesmo tempo, serem julgadas corretamente.

Agora, as palavras do presidente do Senado sobre o telefonema recebido:

- Vocês sabem que, com o presidente Lula, mais do que uma relação político-partidária,

eu tenho relação de amizade pessoal. Ele é meu amigo.

Os peritos do INC (Instituto Nacional de Criminalística, da Polícia Federal) não identificaram

documentos capazes de comprovar que o dinheiro movimentado por Renan vinha

mesmo do comércio de gado. A coisa funcionou assim: o senador alegou que vendeu carne

ao frigorífico Mafrial, não sendo responsável pelo repasse do produto a empresas de idoneidade

duvidosa. A defesa de Renan não apresentou notas fiscais do Mafrial, nem o frigorífico

remeteu documentos para comprovar transações com o senador.

Para ficar claro: os peritos identificaram empresas fictícias e correntistas de aluguel

apontados como os compradores da carne das fazendas de Renan. O esquema seria operado

por Zoraide Beltrão, proprietária do Mafrial. Ela mostrou notas fiscais dos tais compradores,

em nome de pequenos açougues, empresas de fachada para lavar dinheiro e facilitar a

sonegação de impostos.

Entre 2004 e 2006, por exemplo, o esquema da Mafrial movimentara entre R$ 1 milhão

e R$ 1,5 milhão mensais, em contas bancárias em nome das “laranjas” Carnal Carnes de

Alagoas, Stop Carnes e GF da Silva Costa, cujo dono, Genildo Ferreira da Silva Costa, um

modesto ex-empregado de Zoraide Beltrão, apareceu como responsável por fazer movimentação

bancária de R$ 500 mil por mês. O Mafrial declarou vendas de R$ 5,1 milhões,

mas nenhum contribuinte declarou ter efetuado quaisquer compras do frigorífico.

Em 15 de agosto, Lula e Renan Calheiros reuniram-se no Itamaraty, durante almoço

oferecido ao presidente do Benin, Boni Yaji. Lula elogiou o trabalho de Renan no Senado e

culpou a oposição pelas agruras do senador:

- Estou vendo pela imprensa que o Renan apresenta documentos em sua defesa e

não aceitam.

Renan não se surpreendeu com o apoio:

- Lula já fez isso umas quatro ou cinco vezes. Demonstra que, mais do que uma relação

política, nós temos uma relação pessoal.

Naquela noite, Lula voltaria ao assunto:

- Eu acho desagradável quando alguém é execrado na primeira página do jornal, sem que

se tenha feito uma apuração correta, só porque alguém foi lá e disse que era.

O Senado recebeu, em 21 de agosto de 2007, laudo de 70 páginas com os trabalhos do

INC (Instituto Nacional de Criminalística). O relatório apontou inconsistências na evolução

patrimonial de Renan Calheiros. Saques bancários apresentados pelo senador como prova

de pagamentos a Mônica Veloso, com recursos próprios dele, não bateram com valores nem

datas de entrada de dinheiro na conta bancária da jornalista. Não havia sequer uma prova de

transferência direta de Renan para Mônica no período que antecedeu o reconhecimento da

paternidade. Os documentos apresentados pela defesa não atestaram capacidade econômico-

financeira de Renan para custear a pensão.

Do laudo: “Foi apresentada relação de pagamentos realizados à jornalista. Entretanto,

essa relação somente discrimina o mês do pagamento. Assim, faltam parâmetros que permitam

afirmar se o representado possuía ou não saldo para realizar os pagamentos”.

Os papéis de Renan tampouco comprovavam a venda de 2.200 bois ou o faturamento de

R$ 1,9 milhão com atividades rurais em quatro anos, conforme alegara a defesa do senador.

Simplesmente não havia provas de que o gado era mesmo dele, conforme o laudo, “devido

a diversas inconsistências verificadas nos documentos examinados e, também, por não ter

sido disponibilizado conjunto de documentos que ateste a propriedade do gado”.

O laudo fez 30 ressalvas relacionadas à evolução patrimonial de Renan e às operações

com animais. Ficou a impressão de que o senador providenciou uma maquiagem de

patrimônio para justificar a posse de recursos, sem cuidados para fechar contas ou apresentar

números consistentes.

Um exemplo das incongruências foi obtido na análise dos livros-caixa das fazendas de

Renan, que deveriam apresentar as despesas efetuadas nas propriedades. Do laudo da

Polícia Federal:

“A ausência de registros de despesas de custeio, sob o aspecto da disponibilidade de

recursos como justificativa patrimonial, implica resultado fictício da atividade rural, que se

reflete na evolução patrimonial.”

Tem mais: Renan afirmou que encerrou o ano de 2003 com 1.040 cabeças de gado.

Informou 100 nascimentos de animais no ano, mais a venda de 264 exemplares, até 25 de

abril de 2004. Isso daria um rebanho de 876 cabeças. Só que, ao mesmo tempo, o senador

afirmou ter vacinado 1.500 animais, 624 a mais do que havia sido declarado. O senador

também relatou que em 2004 houve 472 nascimentos em seu rebanho, mas os documentos

de vacinação dão conta de que só 200 matrizes estavam em idade de reprodução nas fazendas

dele. Para a conta fechar, todas teriam de ter gerado mais de dois bezerros naquele ano,

mas o período de gestação dos bovinos é de nove meses. Para quem não sabe, casos de

bezerros gêmeos são muito raros.

Outro problema: para compensar despesas sem cobertura, Renan declarou na última hora

ter emprestado R$ 178 mil da empresa Costa Dourada Veículos, uma prestadora de serviços

do Governo de Alagoas. O valor seria quitado mediante o pagamento de duas promissórias,

mas não houve registro de devolução do dinheiro na empresa. A suposta operação tampouco

foi declarada no Imposto de Renda de Renan, nem ao menos registrada em cartório. E mais:

dos R$ 178 mil, R$ 99 mil teriam sido emprestados em 2005, ano em que a Costa Dourada

Veículos registrou lucro de apenas R$ 71 mil. Para anotar: o primo de Renan Calheiros, Tito

Uchoa, era o dono da Costa Dourada Veículos. O senador se enrolou ainda mais.

Em sessão tumultuada, o Conselho de Ética do Senado recomendou a cassação do mandato

de Renan Calheiros por quebra de decoro parlamentar, em 30 de agosto de 2007. Trecho

do parecer assinado pelos senadores Renato Casagrande (PSB-ES) e Marisa Serrano

(PSDB-MS) no qual é citado o suposto empréstimo tomado na Costa Dourada Veículos:

“O que se extrai dos autos é a dissimulação, a negação da verdade. À medida que as

investigações avançavam e novos fatos surgiam, diferentes versões eram apresentadas, por

meio de documentos que não comprovam a versão apresentada pelo representado. O exemplo

do empréstimo é bastante elucidativo.”

Como se não bastasse, mais uma denúncia contra Renan. O advogado Bruno de Miranda

Lins, ex-marido de uma assessora do presidente do Senado, acusou o pai dela, empresário

Luiz Carlos Garcia Coelho, de operar esquema de arrecadação de dinheiro ilegal em benefício

de Renan, em ministérios sob comando do PMDB. Renan teria recebido “sacolas

de dinheiro”.

O advogado Bruno de Miranda Lins relatou à revista Época que ele próprio transportou

dinheiro de propina pelo menos em seis ocasiões. Fez dois saques no BMG, um de R$ 1,5

milhão e outro de R$ 500 mil. Carregava o dinheiro em sacolas. Em depoimento prestado à

Polícia Civil de Brasília, Bruno de Miranda Lins afirmou que o INSS (Instituto Nacional de

Seguro Social) privilegiou o BMG na concessão de créditos consignados.

De acordo com o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, o BMG

foi “flagrantemente beneficiado” ao obter autorização do INSS para oferecer empréstimos

consignados a 23 milhões de aposentados e pensionistas. Havia pareceres contrários à autorização,

pois as normas em vigor só permitiam à Caixa Econômica Federal, pagadora de

benefícios, a operação das concessões. Os pareceres foram ignorados e o BMG se tornou o

primeiro banco privado de pequeno porte a ter acesso a esse mercado. Atuou sem concorrentes

e conseguiu lucros milionários. Uma carta assinada pelo presidente Lula chegou a ser

distribuída aos segurados da Previdência Social, comunicando a novidade das linhas de

crédito exploradas pelo BMG.

Além de Renan, o líder do governo Lula no Senado, Romero Jucá, também teve o nome

implicado na maracutaia entre o INSS e o BMG. Bruno de Miranda Lins o acusou. Em

2005, Jucá ocupava o cargo de ministro da Previdência Social, nomeado por Lula. O INSS

estava subordinado a ele. Bruno de Miranda Lins acusou o deputado Carlos Bezerra (PMDBMT),

que havia sido presidente do INSS. Contou que, a mando de Luiz Carlos Garcia Coelho,

levou pessoalmente R$ 150 mil a Bezerra. Foi de Bezerra, aliás, o ato que formalizou a

autorização para o BMG explorar empréstimos consignados.

No dia seguinte à nova denúncia, o ministro da Defesa, Nelson Jobim (PMDB-RS),

importante auxiliar do presidente Lula, foi fotografado à luz do dia conversando com Renan

na frente da casa do senador. Em seguida, Jobim deixou o local no automóvel do advogado

de Renan, Eduardo Ferrão.

Em votação aberta, em 5 de setembro de 2007, o Conselho de Ética do Senado aprovou,

por 11 votos a 4, pedido de cassação de Renan. A Comissão de Constituição e Justiça confirmou

a decisão. Renan seria julgado pelo plenário do Senado, em votação secreta. No

mesmo dia, Lula se manifestou:

- Renan tem mostrado as provas e essas provas são analisadas na Comissão de Ética, na

Comissão de Justiça e no plenário. Vamos ver a decisão.

O Palácio do Planalto jogou pesado. O ministro das Relações Institucionais, Walfrido

dos Mares Guia (PTB-MG), o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), e a

líder do PT no Senado, Ideli Salvatti (SC), passaram a procurar aliados para transmitir a

posição do presidente Lula: a cassação do mandato de Renan não interessava ao governo.

De Renan:

- O PT sempre teve e terá em relação a mim um comportamento de aliado, proporcional

ao que sempre tive com ele. A minha relação com o PT nunca esteve tão boa como

está agora.

Na véspera da votação no Senado, Lula voltou a se manifestar:

- Eu não posso acreditar numa moeda de uma única face. Quer dizer que se absolver o

Renan vai ter problema e se condenar não tem problema?

Na mesma linha, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP):

- A gente não pode prejulgar, tem que ouvir a defesa até o final.

Em 12 de setembro, votação secreta no Senado absolveu Renan de receber dinheiro

de Cláudio Gontijo, funcionário da empreiteira Mendes Júnior, para pagar pensão à

jornalista Mônica Veloso. Foram 40 votos favoráveis ao presidente do Senado, 35 contra

e seis abstenções. Eram necessários 41 votos para cassar Renan. Mercadante, homem

do presidente Lula, confessou de pronto: absteve-se. Ajudou a absolver Renan.

Alegou ausência de provas.

Ficou documentada a comemoração da senadora Fátima Cleide (PT-RO), ao lado dos

senadores Sibá Machado (PT-AC), João Pedro (PT-AM), Serys Slhessarenko (PT-MT) e

Ideli Salvatti (PT-SC). Fátima Cleide declarou:

- Nós somos a bancada da abstenção!

Do presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Cezar Britto:

- A absolvição do senador evidencia a urgência de uma reforma política profunda no

País. O resultado da votação, na contramão do clamor público, distancia ainda mais o Senado,

instituição vital ao equilíbrio federativo, da sociedade que deveria representar.

No dia seguinte, os aliados de Renan já tramavam unificar as outras denúncias contra o

senador, para votá-las em bloco, de uma vez só. De Lula:

- Precisamos nos habituar a acatar o resultado das instituições. Não posso admitir que eu

só possa acatar o resultando quando ele favorece aquilo que eu pensava. Houve uma votação

pelas regras do Senado, e o Renan foi absolvido.

Em troca do apoio a Lula durante a crise do mensalão, em 2005, a bancada do PMDB no

Senado, liderada por Renan Calheiros, indicou três ministros e passou a dar as cartas na

Funasa (Fundação Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde). Renan escalaria o seu time

para tomar conta do órgão.

Investigações do Ministério Público, TCU (Tribunal de Contas da União) e CGU

(Controladoria-Geral da União) identificaram contratos assinados pela Funasa por valores

até dez vezes acima dos praticados no mercado. Uma das empresas acusadas de se beneficiarem

do esquema, a Brasfort Administração e Serviço, fornecedora de mão-de-obra

terceirizada, teria posto as mãos em R$ 21,5 milhões. Outra empresa, a LWS, da área de

informática, estaria envolvida em operação superfaturada que teria rendido R$ 2,6 milhões.

Um processo para desenvolvimento de uma TV para treinamento de médicos à distância,

orçado inicialmente em R$ 6,9 milhões, acabou chegando a R$ 71,4 milhões.

Em junho de 2008, o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública contra Paulo

Lustosa, cuja indicação para presidir a Funasa teria partido de Renan Calheiros, e contra

Paulo Roberto de Albuquerque Garcia Coelho, também nomeado por influência de Renan,

na Coordenação de Logística da Funasa. Os dois foram acusados de improbidade administrativa.

Ambos teriam atuado para beneficiar a empresa Brasfort.

Os procuradores federais pediram a devolução de R$ 56,6 milhões aos cofres

públicos. Outro ex-presidente da Funasa, Valdi Camarcio Bezerra (PT-GO), também

foi responsabilizado. Em fevereiro de 2003, o faturamento da Brasfort era de

R$ 170 mil. Em setembro de 2006, chegou a R$ 2 milhões. A Funasa voltaria ao

noticiário em novembro de 2008. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, acusou

a direção do órgão:

- As denúncias de escândalos, corrupção, desvio de dinheiro estão todo dia na imprensa.

A situação é muito grave. Não podemos deixar a situação do jeito que está. Temos de mudar.

Logo após, em solenidade ao lado do presidente da Funasa, Danilo Forte, José Gomes

Temporão tentou amainar a declaração. Disse que se referira a gestões passadas. O curioso

é que Danilo Forte, apadrinhado do líder do PMDB na Câmara, deputado Henrique Eduardo

Alves (RN), e do ex-ministro das Comunicações de Lula, deputado Eunício Oliveira

(PMDB-CE), tinha sido diretor-executivo da Funasa na gestão anterior, período em que

Paulo Lustosa era presidente do órgão. Em todo o caso, Temporão havia dito mais, ao abordar

a proposta de transferir o controle do programa de saúde indígena da Funasa para uma

nova secretaria a ser criada pelo Ministério da Saúde:

- O Ministério não vai se dobrar a outros interesses que querem manter a situação de

baixa qualidade, corrupta e totalmente contra os princípios do SUS. Isso a gente não aceita.

De fato, auditoria da CGU (Controladoria-Geral da União) apurou um rombo de R$ 67,8

milhões em obras públicas de saneamento e serviços de atenção à saúde indígena a cargo da

Funasa, em apenas três anos de governo Lula. O dinheiro teria sido desviado por meio de

contratos superfaturados e no pagamento de obras não executadas. O TCU (Tribunal de

Contas da União) também detectou irregularidades na aplicação de recursos públicos da

Funasa. A empresa Brasfort, por exemplo, seria definida como uma espécie de feudo da

família Calheiros dentro da Funasa.

As estocadas de José Gomes Temporão, ligado ao PMDB, provocaram uma rebelião no

partido. Parlamentares pediram a sua cabeça. O ex-presidente da Funasa, Paulo Lustosa

(PMDB-CE), eleito deputado em 2006, discursou da tribuna da Câmara para defender a

demissão de Temporão. O PT também arregalou os olhos. Sonhou em voltar a controlar o

Ministério da Saúde. Com a crise, Temporão chegou a exigir a troca do presidente da Funasa,

mas Lula, como sempre, decidiu pôr panos quentes. No fim ficaram ambos, o ministro

Temporão e Danilo Forte. Tudo do jeito que estava.

Cabe ressaltar que, em meio à crise, Paulo Lustosa foi denunciado pelo Ministério Público

Federal do Distrito Federal, por improbidade administrativa. A ação pedia a devolução

de R$ 3,7 milhões pagos pela Funasa à empresa OMS Consultoria e Sistemas, acusada de

ser contratada de forma irregular durante a gestão de Lustosa. O contrato foi considerado

suspeito por diversas irregularidades, tais como licitação dirigida, superfaturamento de pre355

ços e pagamento por serviços não executados. O negócio acabou cancelado após a saída de

Lustosa da presidência da Funasa.

A Operação Metástase, da Polícia Federal, chegou a prender 32 pessoas em outubro de

2007, todas acusadas de fraudar licitações na Funasa. Na época, os federais estimaram em

mais de R$ 34 milhões os prejuízos com a compra de medicamentos e a contratação de

obras e táxi aéreo para uso da Funasa. Paulo Lustosa estava respondendo a cinco ações por

improbidade administrativa em junho de 2009. A última acusação era de superfaturamento

de até 1.100% na contratação da empresa Digilab, para implementar uma tal de TV Funasa.

O Ministério Público queria a devolução de R$ 6,5 milhões aos cofres públicos. O caso da

Digilab fez a CGU (Controladoria-Geral da União) determinar o impedimento de Paulo

Lustosa. Ele não poderia exercer cargos públicos por cinco anos. Ao longo de 2009, a Polícia

Federal anunciou investigações para apurar corrupção em escritórios da Funasa na Paraíba,

Tocantins e Ceará.

Mas voltemos aos problemas de Renan Calheiros com o decoro parlamentar. “Resolvido”

o caso dos pagamentos à jornalista Mônica Veloso, a tropa de choque do presidente do

Senado decidiu agir rápido. Em 14 de setembro de 2007, o senador João Pedro (PT-AM),

relator do processo que deveria investigar supostos benefícios de Renan à cervejaria

Schincariol em troca de vantagens pessoais, anunciou não haver provas contra o senador. O

petista informou a decisão de não ouvir ninguém sobre o caso e de solicitar o arquivamento

imediato da denúncia ao Conselho de Ética.

Preocupado com o desgaste que o arquivamento traria, o PT mudou a tática em seguida.

Passou a defender a unificação de todos os processos contra Renan. Assim, não haveria o

mal-estar de se enterrar o caso Schincariol logo após o de Mônica Veloso, ao mesmo tempo

em que, agrupadas as denúncias, todos os problemas do senador seriam solucionados de

uma só vez. Mesmo assim, João Pedro acabaria recomendando oportunamente a absolvição

de Renan e obtendo o arquivamento do caso Schincariol no Conselho de Ética.

Fortalecido com a primeira absolvição no plenário do Senado e a guarida de Lula e do

PT, Renan achou que não seria mais cassado e ainda asseguraria o cargo de presidente do

Senado. Para manter o posto e mostrar força, trabalhou para derrubar a Medida Provisória

que criava a Secretaria de Planejamento de Longo Prazo. Quis mostrar que, sem ele, Lula

estaria em apuros.

Mas as coisas não andaram como Renan desejou. A Mesa Diretora do Senado encaminhou

mais uma denúncia ao Conselho de Ética. Desta vez, a acusação tinha como base o

depoimento do advogado Bruno de Miranda Lins. Segundo ele, Renan estava envolvido em

esquema de cobrança de propina em ministérios e órgãos públicos controlados pelo PMDB.

Por ironia, não foi a série de denúncias de corrupção o fator que mais complicou a vida

do presidente do Senado. Renan entrou em apuros quando cometeu o erro de investigar os

colegas. Só nesse momento os senadores se uniram para acabar com o seu poder político.

Renan achou que, descobrindo podres dos outros, poderia, por meio de chantagem, obter

apoio. O resultado da ação errática seria a formalização de mais uma denúncia contra ele.

Para pressionar os senadores do PT, Renan tratou de espalhar informações supostamente

comprometedoras à imprensa. Tião Viana (PT-AC) tinha uma funcionária fantasma no gabi356

nete. Recebia do Senado, mas trabalhava na sede do partido. Ela foi demitida. Contra Aloizio

Mercadante (PT-SP), Renan vazou a informação de que teria o que dizer sobre o envolvimento

de assessores dele no chamado escândalo do dossiê.

Já para prejudicar Ideli Salvatti (PT-SC), o presidente do Senado poderia trabalhar pela

instalação da CPI das ONGs, o que escancararia suposto envolvimento da senadora com

organizações suspeitas de desvios e financiamentos irregulares de campanha em Santa

Catarina. Por fim, Renan moveria seu canhão contra Serys Slhessarenko (PT-MT), que teria

participado do que ficou conhecido como a máfia dos sanguessugas.

Provocou alvoroço a acusação de que Renan mandou um assessor implantar câmeras de

vídeo em um hangar do aeroporto de Goiás, para complicar a vida de dois senadores do

Conselho de Ética que votaram pela cassação de seu mandato. De acordo com a denúncia,

Renan queria flagrar Marconi Perillo (PSDB-GO) e Demóstenes Torres (DEM-GO) entrando

em aeronaves de empresários, para depois fazer chantagem.

O assessor escolhido para fazer o serviço em Goiás, Francisco Escórcio, era figura carimbada

no Senado. Tinha ligações históricas com José Sarney (PMDB-AP) e chegou a

trabalhar com Waldomiro Diniz no Ministério da Casa Civil, na época do ministro José

Dirceu (PT-SP). Se Renan decidira bisbilhotar a vida de dois senadores, poderia muito bem

procurar devassar a dos demais. Houve uma revolta generalizada no Senado.

A gota d’água para os senadores foi a descoberta de que Renan usara a máquina do

Senado para descobrir eventuais notas frias apresentadas pelos colegas na prestação de

contas das verbas indenizatórias. Aqui, sim, Renan teria atuado contra todos os senadores.

Não seria mais perdoado.

Como se não bastasse, Renan ainda errou a mão ao articular o afastamento dos senadores

Pedro Simon (PMDB-RS) e Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) da CCJ (Comissão de

Constituição e Justiça), como forma de retaliação pela defesa que fizeram da sua saída da

presidência do Senado. Neste caso, a trapalhada o queimou dentro do próprio PMDB. O

afastamento dos dois da CCJ acabou sendo revogado.

Em 11 de outubro de 2007, Renan pediu licença por 45 dias da presidência do Senado.

Ele renovaria a licença, mas não voltaria ao cargo. Renan não teve limites. O secretárioadjunto

da Mesa do Senado, Marcos Santi, solicitou demissão do posto durante as investigações

sobre a origem do dinheiro de Renan no caso Mônica Veloso. Ele não aceitou o uso

da máquina do Senado para interferir nos processos que tramitavam no Conselho de Ética.

Como exemplo da manipulação, Marcos Santi citou um pedido para redigir texto para o

então presidente do Conselho de Ética, senador Sibá Machado (PT-AC). O parecer deveria

negar solicitação para a realização de diligência em Alagoas que buscaria documentos comprometendo

a versão de Renan Calheiros sobre a renda auferida com a comercialização de

gado. Com a trama, Renan queria acelerar a votação do relatório e arquivar o caso Mônica

Veloso, ainda no início das investigações.

Três dias depois do afastamento de Renan da presidência do Senado, mais uma denúncia

de corrupção. O caso da KSI Consultoria e Construções foi revelado pelo repórter Ricardo

Brandt, no jornal O Estado de S. Paulo. A empresa-fantasma recebeu dos cofres da União

R$ 280 mil, por meio da Funasa, para construir 28 casas em Murici (AL). O dinheiro, claro,

veio de emenda apresentada por Renan ao Orçamento da União. A KSI era controlada por

um aliado de Renan, de nome José Albino Gonçalves de Freitas. A obra foi contratada pelo

prefeito de Murici, Renanzinho.

Sem sede própria, a “empresa” teria faturado R$ 1 milhão dos cofres federais, graças a

convênios com várias prefeituras do interior de Alagoas. O tal José Albino, que trabalhou

como assessor de Renan, chegou a operar uma segunda empresa de fachada em Alagoas, de

nome Caiçara Construções. Renan também beneficiou a Caiçara. Conseguiu dinheiro para

obras na Prefeitura de Flexeiras (AL), cidade vizinha de Murici, por meio de emendas ao

Orçamento. Na época, Flexeiras era governada por uma prima do senador.

Havia suspeitas, ainda, sobre outras três empresas. Desde 2004, segundo ano do governo

Lula, elas faturaram juntas R$ 46 milhões em verbas federais. As empresas Lacerda Engenharia,

Maris Construções e Materiais e Cicla Construções e Representações de Materiais atuavam no

interior de Alagoas, em prefeituras que celebravam contratos graças a emendas de Renan.

A Operação Carranca, da Polícia Federal, prenderia os empresários ligados a essas e

outras empresas que agiam em Alagoas, inclusive na cidade de Murici, todos acusados de

fraudar licitações públicas com recursos federais entre 2004 e 2007. O prejuízo apurado

pelos federais alcançava R$ 20 milhões. As empresas simulavam que disputavam as licitações,

mas eram coirmãs ou fantasmas, montadas para fraudar contratos com o governo.

Do procurador Rodrigo Tenório, do Ministério Público de Arapiraca (AL), que participou

das investigações: “Eles tinham um contrato para pavimentar 300 metros de asfalto e

faziam 200. Tinham de fazer casas com muros separados e faziam geminadas”.

Supostamente alheio à nova denúncia envolvendo Renan, o presidente interino do Senado,

Tião Viana (PT-AC), articulou a rejeição das representações contra o senador alagoano.

Para agradar a oposição, tratou também da rejeição de uma representação contra o senador

Eduardo Azeredo (PSDB-MG), envolvido no caso do mensalão mineiro.

O objetivo de Lula era salvar a pele de Renan, evitando a cassação do aliado que ficaria

sem mandato por 10 anos, mas desde que Renan renunciasse de vez à presidência do Senado

e pusesse um ponto final à crise. Não importava a quebra do decoro parlamentar. Nunca

importou. De sobra, o “acordão” facilitaria a aprovação da emenda constitucional que prorrogaria

a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira). A prorrogação

até o ano de 2011 da CPMF, conhecida como imposto do cheque, possibilitaria uma arrecadação

de R$ 40 bilhões por ano e era estratégica para o governo.

Havia um problema pela frente: o processo da compra em nome de laranjas de duas

emissoras de rádio e um jornal em Alagoas, por Renan Calheiros e o seu aliado na época, o

usineiro e ex-deputado João Lyra, que confessou tudo. O caso vinha sendo relatado pelo

combativo senador Jefferson Péres (PDT-AM), que seguramente não aliviaria para Renan.

A parceria oculta de R$ 2,5 milhões entre Renan e Lyra foi confirmada pelo contador

José Amilton Barbosa. Para constar: a Constituição e o Regimento do Senado proíbem

parlamentares de dirigirem ou serem proprietários de empresas de comunicação. Desfeita a

sociedade da dupla Renan/Lyra, uma das rádios acabou em nome de Renanzinho.

João Lyra, que virou inimigo de Renan Calheiros, pôs mais lenha na fogueira. Denunciou

um pagamento de R$ 500 mil que disse ter feito ao então presidente do Senado. O

“pedágio” teria sido cobrança de Renan para facilitar a regularização, no Senado, de concessão

de operação da rádio que ficara com Lyra depois de desfeita a sociedade. A propina

teria sido paga a Tito Uchoa.

O relatório de Jefferson Péres pedindo a cassação de Renan Calheiros foi aprovado em

14 de novembro de 2007 pelo Conselho de Ética do Senado, por 11 votos a 3. Mas,

lembre-se: aqui, o voto foi aberto. A perda do mandato só é decidida em plenário, pelo

conjunto dos senadores, em votação secreta. E para evitar isso Lula se mexeu, naquele

mesmo dia 14 de novembro, sacramentando no Palácio do Planalto uma articulação que

absolveria o aliado. Da série de reuniões para discutir a estratégia governista participaram,

além do próprio Renan, o presidente interino do Senado, Tião Viana (PT-AC), o

ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia (PTB-MG), e o senador

Edison Lobão (PMDB-MA), aliado de José Sarney (PMDB-AP), que seria nomeado por

Lula ministro de Minas e Energia.

Na véspera da votação secreta, Tião Viana pediu que os senadores não abrissem o voto.

“Pelo regimento, se configura quebra de decoro”, ameaçou o petista. Seguindo o script

acertado com Lula, Renan renunciou à presidência do Senado em 4 de dezembro de 2007.

Na mesma sessão secreta, ele acabaria absolvido no processo das compras das rádios e do

jornal, por 48 votos a 29. Houve três abstenções. Só 29 senadores, portanto, votaram a favor

da cassação. Eram necessários 41 votos para Renan perder o mandato.

Na saída do Senado, Renan declarou: “Saio de alma lavada”. Seguiu para a casa do

senador José Sarney, tida como o centro do poder do PMDB. Durante a comemoração

com próceres do partido, sonoras gargalhadas foram ouvidas do lado de fora da residência.

Dando prosseguimento ao acordão, no dia seguinte o presidente do Conselho de

Ética do Senado, Leomar Quintanilha (PMDB-MS), mandou arquivar todas as outras

denúncias contra Renan.

Renan preservou o mandato de senador. Em pouco tempo voltaria a ser poderoso, após a

eleição de José Sarney para a presidência do Senado.Foi recompensado por Sarney com aliderança do PMDB. A história vem depois.

CONTINUA

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